segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Leilões

Leilões


Hoje em dia, o mercado da Arte está a viver uma situação paradoxal. As grandes casas de leilões registam lucros exorbitantes e quebram mensalmente recordes, traduzidos em sucessivas vendas a preços cada vez mais elevados. No entanto, a maioria das obras cai em mão privada, adquirida como uma sólida e valiosa moeda, um investimento seguro e ponderado, com uma crescente procura e com a sua expansão a novos mercados, inflamados com a ardente paixão do arrivismo desenfreado.

É através desse impulso que se desvirtualiza a Arte. Aparece uma obra de um pintor célebre, e, ainda que esta não demonstre uma ínfima parte do seu potencial, é arrematada por centenas de milhões de dólares, entre o burburinho próprio da sala, o incessante toque dos telefonemas, os potenciais clientes ansiosos, a arfar por entre as imagens do catálogo, assinalando uma ou outra obra de uma forma leviana e natural. A obra surge exposta – um pequeno Rubens, retratando uma alegoria de teor mitológico, cujas imagens têm nos olhos o mesmo brilho de um escravo em leilão, aguardando o seu novo dono que condenará a obra à solidão de um cofre pressurizado, com a luminosidade adequada, a humidade bem controlada e com direito à visita mensal de um perito que a avaliará de cima a baixo, garantindo a sua integridade e o seu valor.

Entre acesa competição, comentários e surpresas, aguerridas sessões, o quadro tem valor estabelecido. Ouve, ao som do martelo, a sua pena. Esperava um futuro radiante numa galeria ou num museu, com uma etiqueta onde se leria “Gentilmente cedido por” ou “Colecção privada de”, ou até mesmo de ficar exposto numa parede de um palacete, a ornar uma divisão; ao invés da dura verdade. A sentença é definida. Os óleos do grande pintor não serão contemplados durante um certo período de tempo, o necessário para que esta obra robusteça o seu valor financeiro. Não mais serão percorridos nem admiradas as suas carnais figuras de realismo barroco por olhos deliciados com semelhante semblante, não respirarão os inspirados ares das galerias nem serão aquecidas pelas emoção de quem as venera.

Abre-se a porta metálica do cofre blindado. Deposita-se a obra com inúmeros cuidados, regulando a temperatura, a humidade, o brilho e a pressão. O proprietário da obra aparece, só para ver ao que a etiqueta dos milhões corresponde, murmura entre dentes um frívolo “interessante”, parte para a sua vida e encerra-se o cofre. Dentro dele reina o silêncio, levando as figuras à loucura, a moldura dourada à eterna solidão, a paisagem imutável e desencantada. Ao seu lado, noutros cofres devidamente apetrechados e construídos para o efeito, fenecem paulatinamente fins-de-tarde de Turner, choram pequenos óleos de Rembrandt, ainda mais enegrecidos com a angústia da solidão, olham o infinito moldado nas paredes as pensativas figuras renascentistas de Rafael, perecem Vénus de mestres italianos, santos e cavaleiros espanhóis no abandono da mágoa e paisagens de traço icónico que permitem identificar, indubitavelmente, quem lhes deu forma.

Repousam, longe de quem lhes daria vida, lhes interpretaria o fado e leria o tom, apartados dos olhos pensativos e racionais. São eremitas vendidos e explorados. Escravizados. Etiquetados e vistos como investimento seguro e muito rentável.

Valoriza-se o passado e o nome do génio, desprezando por completo a composição artística e as suas variadas interpretações, impingindo preços inflacionados e gerando uma Arte universal, estabelecida por quem a adquire e quem a cede a museus e galerias, cada vez mais transformados em sublimes colecções, não de teor artístico, mas uma opulente exposição de troféus que se consagra como suprema, nem tanto pelo seu significado, mas antes pela raridade e exclusividade de tais produtos.

São cestas de fruta de Cézanne, mulheres pelos olhos de Picasso, ascenções de Dürer, odaliscas pelas mãos do iluminismo francês, heróis da antiguidade, tentações e jardins das delícias, cardeais e reis com aspecto imponente, o quotidiano romântico... toda esta grandeza muda e cega, calada pela voz do voraz património guardado e estimado para render e gerar lucro. O acervo está deslocalizado, longe da audiência, apagado da sua essência e esquecido dos tempos. 

Transmuta-se e sobrepõe-se o valor monetário ao inerente concedido por tamanha graça de traços meticulosa ou descuidadamente timbrados. As ilustres figurinhas de desmedido detalhe e riqueza cedem ao vácuo emocional, já sem quem lhes dê a benesse de um olhar, a benesse de um sonho que reviveria a obra completa, iluminando-a e concedendo-lhe um infindável prazer.

Longe do mundo e das almas. O panorama é idêntico em casa de renome como a Christie's ou a Sotherby's, um enorme serralho de obras prontas a despachar, com investidores ansiosos para mostrarem o seu poderio, ao invés de contemplarem o que adquirem. São rotuladas, medidas, esventradas do seu sabor, presas com grilhetas e catalogadas, escravizadas e profanadas. Surge um Le Brun acabado de descobrir ou um Dali que esteve nas manápulas de um barão da droga, e rapidamente se escala, excedem as expectativas e se gastam milhões de dólares com o processo, ignorando o valor intrínseco que cada obra suscita.

Está a Arte um negócio, os objectos emprestados ou em bastiões bem guarnecidos, e o mundo perdido da essência artística, sentimental e inspiradora. Fugazes vão as visões que um Caravaggio exala, a serenidade de um Vermeer, a paixão de um Fragonard ou o êxtase de um Tiepolo. Estão envoltas em mantos de negra e aparatosa escuridão. Despedaçam-se famílias de Klimts, separam-se à força toda irmãos para não mais se encontrarem, afogam-se Matisses e Mondrians na mágoa da procura e do desejo, cobiçam-se Canalettos e Da Vincis... É um enorme leilão, um símbolo de prestígio e de afirmação, uma moda prejudicial para a própria Arte que vê o seu propósito desvanecido em prol da raridade e da autenticidade que torna cada obra única, marcando-a com um quente ferro que lhe atribui um valor terreno e que se sobrepõe ao seu significado intelectual.


Impetuosamente, as vagas quebram-se contra as muralhas do ser, e vão lentamente amolecendo os corações e as almas, levando-os a contemplar o que verdadeiramente tem valor: as leves e quentes brisas que surgem de frescos, os odores melífluos que emanam de paisagens paradisíacas, as visões que escapam de melancólicos retratos... enfim, tudo o que faz, de uma forma inexplicavelmente incoerente, colapsar por momentos o fundamento racional, levando a uma desmedida contemplação com a alma enganada , uma alma que não teme a morte nem o fim das eras, embevecida e deleitada com tamanho êxtase.


                       Santa Cecília, c. 1750-1760, G. Tiepolo


                                                                                          Tiago Malhó Lorga Gomes