sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Crucificação por Francis Bacon




Crucificação, 1965, Francis Bacon



Deparei-me pela primeira vez com a obra na Pinakothek der Moderne, em Munique. O tríptico, seguindo a secular tradição cristã de adoração em tríades e rotação em torno do referido algarismo para o que de mais equilibrado e sagrado se representa, é obra de genial ardil. Poder-se-ia afigurar uma eventual coroação da dor, a sublimação pelo sofrimento (que tanto Wilde defendia no seu De Profundis) que intrinsecamente irrompe do peito de Cristo e se manifesta pelas expressões faciais da audiência que entre lamúrias e lacrimejos se despede do condenado, pena essa que, de um ponto de vista estético será capaz de gerar as mais belas imagens.

Porém, Bacon revela-nos aqui, sem qualquer censura ou sentido de pudor, o âmago do sofrimento. Infligido ao homem pelo próprio homem. São corpos disformes, anatomias completamente desfiguradas que após tamanhas torturas não encontraram repouso. Exibem-se em tons de sanguíneo carmim e ocre terreno figuras indefinidas, manchadas pelos pigmentos viscerais que dos seus corpos escorrem. São pedaços de carne retalhada. Caveiras esfoladas como um Mársias derrotado. Membros pendentes, músculos desfeitos, vasos cortados. Uma autêntica carnificina perpetrada por um agressor musculado, forte e impune que por alguma razão se entrega a este vício, quiçá mórbido prazer, a esta eterna luta entre os dominantes e os dominados, a total subjugação à vontade humana, onde nenhum deus se afirma, nem mesmo a possibilidade de existência de semelhante ente.

É a entrega total à atrocidade. A flagelação que macera corpo e alma, uma infinda parada de tortura movida pela eterna sede de sangue, sangue esse que mancha o mundo, que compõe o mundo! E o tríptico, sem qualquer evocação de soberana salvação ou réstia de esperança, mostrando os restos de vã humanidade que ali se reduzem brilhantemente, pelo mais negro dos caminhos, a uma das suas facetas horrivelmente palpáveis. São pedaços moídos e pisados pela força de outro homem, símbolo máximo da afirmação e de poder, governando de forma impune e arbitrária, tomando a si a justiça que considera como absoluta. Do ponto de vista do talhante, nada mais cumpre que a sua função, justificada por si mesma, caída no vulto do quotidiano. As presas sucedem-se, iguais os corpos, variando minimamente a rouquidão dos gritos exasperados e os olhares esgazeados pelo terror. Para o assassino são apenas cabeças de gado indiferenciadas, desvalorizando por completo as suas vivências.

Observa-se aqui, ilustrado aos olhos do mundo, a mais primordial das batalhas. O furto de vida do homem pelo homem. E estas sevícias são barbaramente executadas sem contemplações de moral ou de valor. É a enferma ânsia pela crua carne, o chafurdar nas entranhas e o som do último bafo que movem estes agressores. O vício do sangue é alimentado pela obscena sensação de superioridade. O roubo de uma existência é sinal de potência ilimitada, a imposição de uma vontade individual que teima em ceifar uma alma somente porque pode, o abuso da integridade e da fraqueza através das mais abomináveis torturas que culminam com a deformação completa e com o total desrespeito pela vida. São monstros de uma realidade que há muito esqueceu sentimentos e que encontra prazer na dor alheia, que retira orgasmos de contracções às pancadas corporais, que extasia com os olhares de desespero, os gritos de angústia e as respirações suspensas pelo pânico; realidade que celebra o pleno domínio e arbítrio, que se coloca num divino pedestal, máxima inquisidora que decide e julga, que tortura e provoca dor, que desfigura e recorta, queima e esfacela, quebra, estira, sangra, arranca, viola, mata. E é esta permanente história que se repete, transversal durante os tempos, mais longínqua que a própria memória consegue comportar, mais abominável que as mais profundas e pesadas palavras. É o triunfo da morte pelas mãos humanas. A mais execrável das atrocidades que passa impune e se ergue sobre os cadáveres que avidamente leva à boca, que flutua sobre os oceanos de fluídos coagulados pelas ardentes paixões terminadas lugubremente pelas frias lâminas dos assassinos. E quando as mãos se erguem em direcção ao céu a atentar misericórdia, selvaticamente se estilhaçam os ossos e rasgam os músculos, decepam-se e esfarelam-se numa massa disforme até nada mais existir que partículas difusas e sem nexo, outrora animadas por sopro vital. E as pernas que buscam apoio no chão, trémulas de tão lastimosas provações, recebem golpes que as desfazem; são tenazes em brasa que lentamente dedilham os nervos cumprindo um sonoro requiem de gemidos e suspiros; são cânulas introduzidas com a máxima violência; são gumes afiados que fatiam a carne, instrumentos de inspiração medieval revestidos a ferro e couro que servem as mais úteis aplicações: secção de dedos, extracção de unhas, enucleações desmedidas, quebra de articulações... enfim, uma panóplia que excede as mais fantasiosas tentações assassinas.

De destaque ainda as duas figuras sentadas a uma mesa no meio de todo este caos. A irónica e constante passividade humana, de olhos abertos mas indiferentes, testemunhas imemoriais desta procissão contemplando o esplendor da depravação, das mais inéditas parafilias e sádicas violações. O que esses olhos contemplam, quer por resignação ou mórbida curiosidade, é a lástima do homem. O nadir civilizacional que desde sempre se arrasta nos silêncios e nos gritos. E sobre todo este panorama reinando o vermelho e o ocre, saboreia-se o típico negrume da morte. E esta escura tonalidade fede a horror, dos corpos, dos homens e das almas. Miserável condição esta que deseja a destruição incondicional, que leva o cutelo para a própria nuca do irmão, que envenena os poços das cidades vizinhas e que, cega pela aparente força, se dirige à própria perdição. Aqui sim, se revela parte intrínseca da essência humana com os diabólicos servidores a executarem maquinalmente a função da morte. O grande matadouro estampado no tríptico, sem sinal de deus nem de misericórdia, um mundo exasperante e macabro que nos leva à questão se realmente vale a pena a existência e se há senso algum na dita humanidade.


quinta-feira, 16 de abril de 2015

Chalet da Condessa d'Edla


Mandou el-rei edificar um modesto chalet à laia da voga alpina para habitação de veraneio da senhora condessa d'Edla. A referida construção, de inquietante originalidade, planta-se ao fundo do parque da Pena, de artifício tal que seus arquitectos somente poderiam ter inspiração estrangeira. O chalet, de externo, articula-se com motivos bucólicos do meio que o circunda, revestido por uma carapaça de madeira recortada por veios de cortiça que emolduram portas e janelas, delimitando a elegante varanda que percorre em toda a dimensão o piso superior.

O interior é, por contraste à sobriedade da fachada, igual motivo de pasmo e um regalo de sumptuosidade desenhada em estuques e painéis de madeira. Apesar da extasiante complexidade, este revela-se a certa forma descomprometido e sem qualquer tipo de pretensão que não a de agradar, de modo cúmplice e íntimo, os seus residentes. A escadaria é um deslumbre de mestria e magnificência, ocupando a secção central do piso térreo e que permite acesso aos aposentos do piso superior, a partir dos quais (e consoante com os pontos cardeais) se alonga a vista com a Pena, as frondosas copas do parque, os cuidados jardins à l'anglaise e, bem ao fundo, o imenso oceano.

É deveras um panorama sublime e recatado, aclimatado pelos característicos ares de Sintra cuja inquestionável salubridade e eterno misticismo em mais nenhum local se afigura. No piso térreo, é de relevo a sala de jantar de discreta sofisticação e conforto, e a sala das heras, cujas folhas em estuque de impressionante realismo absorvem o convidado de tal forma a este se sentir num agradável caramanchão ou numa loggia campestre. Dir-se-á a decoração do chalet escandalosamente exuberante ou pretensiosamente ortodoxa, mas trata-se a mesma da mais inovadora e moderna, obra que dificilmente se poderia conjugar e encontrar em Portugal.


Com tal empresa, a título ousada e surpreendente, verifica-se um caricato apêndice à Pena que certamente será motivo de escárnio e boato justificados pela discrição que as paredes do chalet permitem, no ermo de luxo e sacro refúgio da mais ilustre e prezada nobreza.
Resta portanto imaginar o diário deleite da senhora condessa d'Edla elevando-se na alcova e contemplando, de respiração suspensa, bem lá no topo da nua escarpa, a triunfante Pena envolta pela mística bruma da Serra embalada pelo revigorante sopro marítimo.







Tiago Malhó Lorga Gomes

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Leilões

Leilões


Hoje em dia, o mercado da Arte está a viver uma situação paradoxal. As grandes casas de leilões registam lucros exorbitantes e quebram mensalmente recordes, traduzidos em sucessivas vendas a preços cada vez mais elevados. No entanto, a maioria das obras cai em mão privada, adquirida como uma sólida e valiosa moeda, um investimento seguro e ponderado, com uma crescente procura e com a sua expansão a novos mercados, inflamados com a ardente paixão do arrivismo desenfreado.

É através desse impulso que se desvirtualiza a Arte. Aparece uma obra de um pintor célebre, e, ainda que esta não demonstre uma ínfima parte do seu potencial, é arrematada por centenas de milhões de dólares, entre o burburinho próprio da sala, o incessante toque dos telefonemas, os potenciais clientes ansiosos, a arfar por entre as imagens do catálogo, assinalando uma ou outra obra de uma forma leviana e natural. A obra surge exposta – um pequeno Rubens, retratando uma alegoria de teor mitológico, cujas imagens têm nos olhos o mesmo brilho de um escravo em leilão, aguardando o seu novo dono que condenará a obra à solidão de um cofre pressurizado, com a luminosidade adequada, a humidade bem controlada e com direito à visita mensal de um perito que a avaliará de cima a baixo, garantindo a sua integridade e o seu valor.

Entre acesa competição, comentários e surpresas, aguerridas sessões, o quadro tem valor estabelecido. Ouve, ao som do martelo, a sua pena. Esperava um futuro radiante numa galeria ou num museu, com uma etiqueta onde se leria “Gentilmente cedido por” ou “Colecção privada de”, ou até mesmo de ficar exposto numa parede de um palacete, a ornar uma divisão; ao invés da dura verdade. A sentença é definida. Os óleos do grande pintor não serão contemplados durante um certo período de tempo, o necessário para que esta obra robusteça o seu valor financeiro. Não mais serão percorridos nem admiradas as suas carnais figuras de realismo barroco por olhos deliciados com semelhante semblante, não respirarão os inspirados ares das galerias nem serão aquecidas pelas emoção de quem as venera.

Abre-se a porta metálica do cofre blindado. Deposita-se a obra com inúmeros cuidados, regulando a temperatura, a humidade, o brilho e a pressão. O proprietário da obra aparece, só para ver ao que a etiqueta dos milhões corresponde, murmura entre dentes um frívolo “interessante”, parte para a sua vida e encerra-se o cofre. Dentro dele reina o silêncio, levando as figuras à loucura, a moldura dourada à eterna solidão, a paisagem imutável e desencantada. Ao seu lado, noutros cofres devidamente apetrechados e construídos para o efeito, fenecem paulatinamente fins-de-tarde de Turner, choram pequenos óleos de Rembrandt, ainda mais enegrecidos com a angústia da solidão, olham o infinito moldado nas paredes as pensativas figuras renascentistas de Rafael, perecem Vénus de mestres italianos, santos e cavaleiros espanhóis no abandono da mágoa e paisagens de traço icónico que permitem identificar, indubitavelmente, quem lhes deu forma.

Repousam, longe de quem lhes daria vida, lhes interpretaria o fado e leria o tom, apartados dos olhos pensativos e racionais. São eremitas vendidos e explorados. Escravizados. Etiquetados e vistos como investimento seguro e muito rentável.

Valoriza-se o passado e o nome do génio, desprezando por completo a composição artística e as suas variadas interpretações, impingindo preços inflacionados e gerando uma Arte universal, estabelecida por quem a adquire e quem a cede a museus e galerias, cada vez mais transformados em sublimes colecções, não de teor artístico, mas uma opulente exposição de troféus que se consagra como suprema, nem tanto pelo seu significado, mas antes pela raridade e exclusividade de tais produtos.

São cestas de fruta de Cézanne, mulheres pelos olhos de Picasso, ascenções de Dürer, odaliscas pelas mãos do iluminismo francês, heróis da antiguidade, tentações e jardins das delícias, cardeais e reis com aspecto imponente, o quotidiano romântico... toda esta grandeza muda e cega, calada pela voz do voraz património guardado e estimado para render e gerar lucro. O acervo está deslocalizado, longe da audiência, apagado da sua essência e esquecido dos tempos. 

Transmuta-se e sobrepõe-se o valor monetário ao inerente concedido por tamanha graça de traços meticulosa ou descuidadamente timbrados. As ilustres figurinhas de desmedido detalhe e riqueza cedem ao vácuo emocional, já sem quem lhes dê a benesse de um olhar, a benesse de um sonho que reviveria a obra completa, iluminando-a e concedendo-lhe um infindável prazer.

Longe do mundo e das almas. O panorama é idêntico em casa de renome como a Christie's ou a Sotherby's, um enorme serralho de obras prontas a despachar, com investidores ansiosos para mostrarem o seu poderio, ao invés de contemplarem o que adquirem. São rotuladas, medidas, esventradas do seu sabor, presas com grilhetas e catalogadas, escravizadas e profanadas. Surge um Le Brun acabado de descobrir ou um Dali que esteve nas manápulas de um barão da droga, e rapidamente se escala, excedem as expectativas e se gastam milhões de dólares com o processo, ignorando o valor intrínseco que cada obra suscita.

Está a Arte um negócio, os objectos emprestados ou em bastiões bem guarnecidos, e o mundo perdido da essência artística, sentimental e inspiradora. Fugazes vão as visões que um Caravaggio exala, a serenidade de um Vermeer, a paixão de um Fragonard ou o êxtase de um Tiepolo. Estão envoltas em mantos de negra e aparatosa escuridão. Despedaçam-se famílias de Klimts, separam-se à força toda irmãos para não mais se encontrarem, afogam-se Matisses e Mondrians na mágoa da procura e do desejo, cobiçam-se Canalettos e Da Vincis... É um enorme leilão, um símbolo de prestígio e de afirmação, uma moda prejudicial para a própria Arte que vê o seu propósito desvanecido em prol da raridade e da autenticidade que torna cada obra única, marcando-a com um quente ferro que lhe atribui um valor terreno e que se sobrepõe ao seu significado intelectual.


Impetuosamente, as vagas quebram-se contra as muralhas do ser, e vão lentamente amolecendo os corações e as almas, levando-os a contemplar o que verdadeiramente tem valor: as leves e quentes brisas que surgem de frescos, os odores melífluos que emanam de paisagens paradisíacas, as visões que escapam de melancólicos retratos... enfim, tudo o que faz, de uma forma inexplicavelmente incoerente, colapsar por momentos o fundamento racional, levando a uma desmedida contemplação com a alma enganada , uma alma que não teme a morte nem o fim das eras, embevecida e deleitada com tamanho êxtase.


                       Santa Cecília, c. 1750-1760, G. Tiepolo


                                                                                          Tiago Malhó Lorga Gomes

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Joana Vasconcelos no Palácio Nacional da Ajuda



Uma inebriante valsa enche os salões da Ajuda. Sobrepõe-se-lhe um fugaz murmúrio que se desprende das paredes aveludadas, como um triste fado ou uma toada de tempos idos, que lamenta o encanto perdido das gentes e das tradições que não mais voltarão.

Uma sucessiva explosão de cores invade o palácio. Amplifica-se o azul e o rosa das sedas, o bege dos cadeirões, o dourado dos frisos, o carmim dos cortinados, o verde das mesinhas, o branco das porcelanas, o castanho das madeiras e o amarelo dos lençóis. As janelas, abertas de par em par, fazem transbordar fortes focos de luz, que encantam o interior com miríades de cristais incandescentes que se abrigam nos lustres e nos candelabros.

Cada divisão, uma surpresa. Sente-se o frémito característico de uma metrópole imperial, evidenciado através de grandes jarrões chineses e de magníficos biombos, complementados com objectos de alto artifício e génio. Uma forte corrente de ar fustiga as débeis sedas e as mimosas porcelanas. É evidente a magnificência do palácio, com grandes salões e salinhas íntimas, jardins de Inverno e quartos elegantes, que causam espanto e admiração, levantando um burburinho de furor e incredulidade inerente.

Os grandes frescos e as sublimes tapeçarias repousam, melancolicamente pendurados nas paredes, chorando a glória e o uso perdidos. Os quadros e os painéis pendem igualmente numa soturna e fria saudade, ostentando sempre a faceta maravilhosa e pura que tão bem encerra esta tristeza. Os candelabros, de cuidado fabrico e imponente porte, já não baloiçam como antigamente. O encanto, que tantas vezes parecia saído de um conto de fadas, dissipou-se lentamente. O aparato foi-se reduzindo gradualmente, esfumando-se nas alturas dos salões como o fumo dos convidados outrora se desfazia. As carruagens de gala desapareceram. Que êxtase era ouvir a sua chegada ao palácio, trazendo consigo ilustres e afamados, príncipes e princesas, fidalgos, figurinhas de encanto, generais, embaixadores e gentis-homens! A recepção era feita segundo um apertado protocolo em que os convidados, de tal forma pasmados com tremenda opulência, subiam calmamente a escadaria que conduz ao andar nobre, enquanto soldados de estribeira inclinavam as alabardas à sua passagem. Qualquer que fosse a ocasião (baile, boda, baptismo, casamento, festa), o palácio estava sempre aprumado, revelando uma faceta assombrosamente triunfante, como se o mundo não carecesse de fama nem de fortuna.

Acima de tudo, celebrava-se com um profundo sentimento. Longas noites se reflectem nos espelhos, que tanto anseiam a sua repetição. Que fausto, que apogeu era observar as damas ornadas de grandes saias de balão, mergulhadas em pó-de-arroz, enquanto se estendiam nos sofás escarlates, avidamente abanando os leques crivados de pinturas e jóias, esperando que os seus amados as convidassem para uma dança. Que sonho era…

Que sonho foi, choram os grandiosos salões da Ajuda, deixados ao abandono da magoada indiferença. Porém, o alto da Ajuda orgulha-se. Sinal dos tempos e o palácio é invadido de uma parafernália artística curiosíssima.

Lobos, sapos, gatos, caranguejos e lagostas ocupam os salões, todos eles revestidos de uma estranha teia que os reconforta e embeleza. Alia-se a faiança à renda, duas vertentes tão nacionais e queridas, tão intrínsecas e simbólicas, enovelando os seus âmagos em obras originais e únicas. Pelo palácio, quer em recantos ou nas paredes, desfilam touros, burros, cavalos e até lagartos de faiança, vestidos pela hábil renda branca.

Mais ousadas peças, quer de plástico ou de metal, brilham e encantam, fundindo-se com a magnificência deste virtuoso palácio que recebe um toque de modernidade, quase como se fosse inaugurado, gabando, a plenos pulmões, o encanto por descobrir e a solidez das suas fundações, como se, de facto, fosse a primeira vez admirado. A surpresa atira-se sobre qualquer visitante, numa esplêndida junção artística. Sejam obras diferentes, sem sentido, ou com todo o que o mundo oferece, simbólicas, estranhas, caseiras, audazes, ousadas, simples, complexas – resta a certeza de uma combinação fora de série, plena e perfeita.

O ambiente de tranquilidade e intimidade da família real, converte-se num templo à Arte. As memórias renascem, são recordadas e estabelecidas. O metálico dos famosos sapatos contrasta com a exuberância da sala do trono. O pequeno sapo, no topo da mesa da sala cor-de-rosa, citada como “de mui grande novidade” com uma imensidão de figurinhas de porcelana de Saxe que “surprehendem todos”, repousa no seu meio predilecto. As lagostas, devidamente sentadas à mesa, frente a frente, esperam impacientes o jantar, questionando-se por que motivo este tarda em aparecer.

Um automóvel bem artilhado e que carrega uma carga preciosa descansa juntamente com uma caleche de antigamente, que apresenta orgulhosamente o brasão da amada pátria, que aqui se prova uma mãe de valiosos artistas. Um enorme coração vermelho dança sozinho num salão. Um garrido helicóptero aguarda ordem para descolar. Um enorme candelabro compõe-se de elementos inesperados.

A invasão de elementos integra-se e perde-se no labirinto de salas, quartos, corredores, átrios e salões. As novas obras encontram abrigo e casa no palácio, revitalizando-o e rejuvenescendo-o, trazendo à superfície as belíssimas e saudosas memórias encerradas naquelas paredes, e fundando novas que mais tarde irão ser choradas e recordadas com enorme carinho e fascínio. Um manto de formosura espraia-se nos ares do Alto da Ajuda. As janelas abertas, o Tejo ao fundo, o palácio no seu esplendor. O génio de Joana Vasconcelos brilha e materializa-se.

Triunfa a Arte na Ajuda.
 
 

                                                            Marilyn, 2009, Joana Vasconcelos

 

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Açúcar das Américas


 

«As they drew near the town, they saw a negro stretched upon the ground, with only one moiety of his clothes, that is, of his blue linen drawers; the poor man had lost his left leg and his right hand. (…) “- When we work at the sugar-canes, and the mill snatches hold of a finger, they cut off the hand; and when we attempt to run away, they cut off the leg; both cases have happened to me. This is the price at which you eat sugar in Europe.”»

in Candide, Voltaire

 

“Este é, senhores, o preço do açúcar que comem na Europa!”. Uma frase de um impacto profundo que consegue, sucintamente, revelar o sacrifício e a miséria que suportam a real e sublime mesa europeia. Vê-se o Velho Continente inflamado por paixões materialistas que surgem das colónias. Está desorientado, sem rumo, vivendo numa autêntica epopeia de gastos, que de luxo e fausto se constitui. Tudo abunda, nada falta! Erguem-se palácios cada vez mais grandiosos e ousados que competem e abafam as catedrais e os mosteiros; encomendam-se obras artísticas imensamente realistas, de tirar o fôlego tal a perfeição e o génio; cobre-se tudo (as paredes, os tectos, as molduras, as carruagens, as loiças e as porcelanas, os serviços, as relíquias, as pessoas!) de talha dourada, de ouro e pratas, de pedras preciosas, de marfim e de pérolas; fundem-se raios de poder que se expandem pelos reinos e pelos impérios, recortando-os em jardins barrocos de imensa beleza e em galerias elegantes; adquirem-se novos modos e requintadas maneiras; aglomera-se o que se consegue, o que a ganância obriga, o que cobiça e o que sonha – enfim, vive-se numa profusa impregnação de cores, numa miríade de luzes que alumiam o quotidiano, uma irrealista tela viva que se consome de opulência e abastança; vive o satélite em torno do Universo humano, que suplanta Deus, ousada e descaradamente; vive-se por todos! Vive-se por aqueles que mais não podem, num grandioso e descabido êxtase, num fútil exagero de vénias e saudações, imersas numa incessante parada de bailes e leques; consome-se a vida como um produto das Américas, uma benesse mais que merecida, que enriquece e faz delirar quem a saboreia.

Afluem as carruagens de gala e de aparato às bodas e às festas, vestidas da maior opulência e formosura que alguma vez caminhara pela face da Terra. Respiram-se ares encantadores, com uma agradabilíssima amálgama de perfumes das Arábias, que se prendem nas vestes dos mais leves linhos e das mais preciosas sedas. Os prazeres nada mais são que frutos à mão de colher. A vida é, indubitavelmente, bela.

 

Porém, do outro lado do impetuoso Atlântico, espreita, com os olhos enegrecidos do labor, a infame e selvagem América, essa mistura de raças movidas pela ambição de um paraíso terreno europeu. Importam-se escravos africanos, bons trabalhadores, exímios em muitas tarefas, obedientes e empenhados. Cada um vale um punhado de moedas, meros objectos de esforço e dedicação. Maior escândalo que morrer um casal de cafres, será decerto perder uma cabeça de gado.

Enfiem-se os selvagens, vindos dos confins do Continente Negro, num grande navio. Faça-se a viagem, evitando perder a carga completa (visto que muitos deles irão sucumbir). Desembarque-se e faça-se o leilão. Anuncie-se a carga a boa voz! Decerto será vendida e devidamente marcada, recambiada para o seu posto. Trabalhará na cana-de-açúcar, no algodão, no café, no tabaco, no chocolate, na madeira, nas minas, no mar, no campo, na herdade… E fará a tarefa com precisão, dando a sua contribuição para este poderoso engenho que esmaga terras e famílias, que arruína vidas e fados, que cunha chagas e temores, que incute tanta dor e sofrimento.

Chora o cafre, recordando, por entre as vergastadas do castigo, as verdes planícies africanas que deixara para trás, para sempre, para todo o sempre, para todo o imenso, eterno e sofrido sempre, sem forma de as abraçar ou contemplar de novo; com o jugo assente na cerviz, jugo esse que o impele a olhar para o algodão que recolhe durante os passados doze anos e que recolherá até não ter força e sucumbir, estatelado no chão, sem a dignidade de um cavalo atingido no clímax da batalha ou de um inimigo morto por piedade ao sofrimento; no chão, consumido por vermes, beijando a maldita terra que o capturou, que lhe desfez os sonhos e tantos golpes de violência lhe desferiu, herege terra que lhe comerá o corpo!

Continua a labuta. A vida não pára. O suor escorre, a fome aperta, os músculos falham, o corpo vive extenuando mesmo antes de iniciar a rotina diária. Os castigos são recorrentes, algo banal. A vida não pára nem um minuto. O algodão é para ser recolhido, o açúcar tratado, o café preparado, a mina limpa, o campo lavrado, o lago drenado, a herdade aprumada, o tabaco cultivado, a madeira cortada! Não há tempo para respirar, não há sombras, não há comida! Não há nada para pensar: apenas um sem fim de trabalho que se acumula e ao qual se obriga violentamente.

Tem uma escrava um filho, acabado de emergir das suas vísceras. Valerá a pena a sua existência? O que o espera senão uma procissão de mondas e colheitas, um martírio de obras e safras? Será criado como uma cabeça de gado, com certeza com menos valor e honra. Foi para isto que a mãe, amazona das selvagens entranhas africanas, o trouxe ao mundo? Irada com tudo isto, e num profundo acto, diria a civilização insano, a mãe abafa o próprio filho, e depois corta os seus pulsos, unindo-se a ele na indefinida matéria espacial que tanto admirava nas escuras noites, diamantes presos na fresca teia nocturna.

Apesar deste incidente vulgar na colónia, o abuso continua. Reina o caos, a injustiça, a depravação. Decepam-se membros e cabeças de uma forma natural e sem oferecer justificações. O cafre fala demais? Corta-se-lhe a língua. A criada negra viu o que não devia? Arranquem-se-lhe ambos os olhos para prevenir futuros casos. O par foi apanhado num momento íntimo? Ele é capado e ela sovada e mutilada. Dois escravos fugiram e foram apanhados, aplique-se-lhes uma leve pena de prisão, mas com privações letais. Assim se governam as províncias do império, entregues a um bando asqueroso, animalesco, sem escrúpulos.

Mas haja produção! Saiam as fragatas e os galeões pejados de riquezas, almejando a Europa! Carreguem-se, encham-se, atafulhem-se de ouro, prata, diamantes, pérolas e pedras! Juntem-se aos homólogos orientais que, cheios de odores característicos, naufragam com a ganância das sedas e das especiarias! E os africanos, igualmente pejados de escravos, marfim, peles e semelhantes riquezas! É só pedir: porcelanas, estatuetas em marfim, grandes rubis, animais exóticos, chocolate, chás, madeiras nobres… Haja ouro, muito ouro! Podem tombar e ceder as barreiras e as paredes das minas, soterrando meia centena de escravos, que mais virão! Nem se considera um contratempo, visto que a nova horda será mais energética e resistente! Venham eles! Troquem as vidas e as almas por promessas! Sofrimento e dor sem limites, capturas e trabalho árduo cá os esperam! Suportem, suem, cantem, rezem, sangrem, sofram, morram, mas produzam! Passem por aqui, deixem cá as ossadas mas façam alguma coisa! As demandas e as encomendas já ultrapassam a produção, mandem vir mais escravos de África! Eles que nos forneçam os diamantes, o café, o tabaco, o algodão, as madeiras, os linhos, as sedas, as peles, as pedras e o açúcar. Nós permaneceremos no sítio onde Deus nos colocou, a cargo desta empresa, a olear esta engrenagem, a ordenar este caótico mundo! Afinal, não nos condenem, só queremos viver do melhor, pelo melhor e com o melhor. Somos fortes, grandes, invencíveis, inigualáveis, audazes, triunfantes, gloriosos, notáveis, ilustres, possantes, descomunais, divinos!

As encomendas chegam à Europa. O chá é servido em porcelana chinesa e remexido com uma belíssima colher de madrepérola, com incrustações em marfim. O açúcar é finalmente adicionado, conferindo uma conjugação sublime de sabores. Uma figurada lágrima de sangue irrompe do fundo da chávena, simbolizando as centenas de almas que pereceram para produzir todo aquele aparato, para proporcionar toda aquela glória, todo o esplendor, toda a apoteose. A lágrima está à vista de todos, mas ninguém se preocupa. Este é, senhoras e senhores, o preço do açúcar que comemos na Europa!



Engenho de Açúcar do Século XVIII

 

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Thermidor

Thermidor


 

« la chaleur tout à la fois solaire et terrestre qui embrase l'air de juillet en août »


 

Acepção comum – décimo primeiro mês do calendário republicano francês, correspondendo ao período delimitado pelo décimo nono dia do mês de Julho e pelo décimo sétimo dia do mês de Agosto do calendário gregoriano.

 

O calor funde-se com a atmosfera. O dia raia, elevando-se, sem pressas nem pressões, o majestoso Sol, fonte de vida e de devoção. Tudo desperta: quer as maiores cidades, ainda fumegantes das candeias que alumiam a noite, quer as aldeias, esquecidas nos confins dos prados. Os animais aproveitam o plácido e ameno amanhecer para beber água dos charcos mais próximos e de se alimentarem, guardando o refastelado e preguiçoso fulgor para o tempo mais quente, por sinal mais tardio no dia.

Os camponeses acordam, incomodados pela luz natural que irradia com imensa força e com maior vigor: apela ao trabalho e à lavoura; os campos não se lavram sozinhos, o trigo não se colhe por si só, os frutos não podem ser deixados ao alcance das aves, o rebanho fica abandonado e faminto após uma noite de jejum, os trapos estão por lavar, a comida por preparar, as mondas por executar, as safras por fazer, as árvores e as culturas sedentas, todas elas clamam pelo vital líquido que, com este calor, cada vez mais escasseia e apetece. Mergulha-se no clima matinal. Um vago murmúrio solarengo e difuso paira nos ares infestados de aves que aproveitam para caçar os incómodos insectos que se multiplicam desregradamente, de uma forma absurda e exagerada.

A manhã passa a correr, por entre procissões para o campo, peregrinações até aos regatos e aos poços, numa infinda parada de pastores com os seus rebanhos, camponeses com enxadas e gadanhas, bois a puxar os arados, burros com as albardas a abarrotar de cereais, uma ocasional carroça carregada de feno e mulheres com a bilha na cabeça, levando o almoço aos homens que nesta rotina se desgastam e conformam.

A partir de certa hora, tudo se recolhe na sombra. Aí, o calor atinge o seu auge, radiante cúmulo que impera sobre a forma de um eterno e meigo abraço que impregna a atmosfera e se prende nas roupas, inundando o ar de uma moleza sublime. Gera uma sensação como poucas, a de se entranhar no ser e de lhe conferir um limite entre uma calma suprema e um desespero angustiante. Saboreia-se a sombra, refrescada pela ocasional e fugidia brisa que corta o sufocante entrelaçar de ares aquecidos pelo Sol e pelas terras, refulgindo por entre árvores e animais.

As oliveiras e os sobreiros, de possantes copas e considerável folhagem, conferem a sombra ideal, temperando o clima com o odor campestre característico ao qual está presente a indissociável sinfonia de grilos e cigarras sobre um céu descoberto, alto e de um límpido azul.

Nesse preciso momento, no pico de maior calor, governa uma impressão incólume. Os campos, cobertos de um dourado característico, são submersos por uma cálida onda de prazer que acalma e deleita. Contemplam-se os prados, todos eles trabalhados e pagos com o ácido esforço que em sangue e suor se evapora, a partir de uma resguardada sombra que permite aproveitar ao máximo esta sazonal ocasião, o passageiro Thermidor que encanta e ilumina o mundo, que aquece e refastela, que leva ao descanso e ao abraçar do meio, através dos próprios braços caloríferos que espraia, motivados pelo Sol e pelas terras, na esperança que captar aqueles que de alma e corpo se entregam à natureza.

Claro que, para esta realidade perdida nos confins dos tempos e cada vez mais rara, surge uma idílica paisagem de campesinos ao abrigo das frescas sombras que mascaram o abuso do labor extenuante. Mas os tempos passam e as vontades mudam-se. Aproveita-se o quente fulgor, folgando-se nos refúgios paradisíacos, a apreciar a paisagem. Consome-se a vida, mas somente durante escassos dias, numa existência descansada e fútil, frívola e boémia, não obstante de ser merecida.

Desta forma, o quente ar acompanha as aventuras e o lazer, causando uma deliciosa sensação, mirando, por ínfimos segundos, o paraíso na Terra. Saboreiam-se as doces iguarias que os campos produzem, de um encantador leque de cores e texturas, ricos e suculentos odores; as refrescantes bebidas com gelo, que se esvai a desafiar o potentíssimo astro solar, os folgares e as sestas, os banhos e os passeios.

Mesmo quando a noite cai, remanesce, embora em menor escala e impacto, uma réstia da grandiosa impregnação aérea, que sufoca a alma e a transporta para um corpo aquecido pela vivacidade da própria vida, se afirma como única e dominante. A noite traz consigo uma maravilhosa sintonia de cores que apelam a uma dormida ao suave e breve relento, deitado sobre a terra que liberta o calor acumulado durante o dia, através das quentes brisas de origem celestial que prometem e encantam paz e descanso, sobre uma Lua cheia de luz e de vagar.

Thermidor, dos quentes ares de origem solar e terrena, encanta um mês com deliciosas tentações, sempre envoltas no característico abraço que encurrala e sacode violentamente o mal e o medo, fazendo despertar uma vertente contemplativa e relaxada. A natureza manifesta-se durante esta altura e revela-se como engrenagem e motor essencial à existência que, muitas vezes esquecida, é inalienável ao meio. Como uma autêntica consagração, em ares perfumados e em paisagens ricas e viçosas, Thermidor ergue-se imponentemente como fundamento e ponte entre o Ser e a Criação.

Ao longe, o mar, recortado pelas dunas que se adivinham, banha calmamente a costa enobrecida por semelhantes ares, fundindo a sua quente essência com a primordial essência, de âmago salino e aquoso. Em breve cessará. Como ave migratória e como porção de estação que é, a Thermidor sucederão novos tempos, mais rigorosos e de menor abundância, com menos triunfos e vaidades, mas de semelhantes encantos e seduções.

Com a queda das primeiras folhas, Thermidor termina, deixando para trás um reinado de um inebriante calor que reconforta e ergue os ânimos, justifica e sacia desejos, aplica e aprecia novas artes e saberes, apela à mole e calma serenidade contemplativa; partindo abruptamente como um sonho inacabado, mas que deixa memórias inesquecíveis de um tempo de esplendor sem igual. Thermidor partirá, deixando saudades, como uma fonte cuja água é incapaz de saciar esta infame sede que move e destila o veneno do desejo, de tentar controlar e parar o eterno fugidio tempo que, ciclicamente, permite que esta tão afamada e adorada época retorne.
 
 
 
                                       Campo de Aveia e de Papoilas, 1890, Claude Monet
 

 

Tiago Malhó Lorga Gomes

quarta-feira, 10 de julho de 2013

A Fonte da Juventude

 

Cavalga Alexandre pelo Médio Oriente em busca da fonte prometida. Atravessa desertos áridos onde não cresce nem se desenvolve vivalma, confundindo o seu exército com um pequeno carreiro de formigas na areada imensidão que desgasta e atormenta, desfaz e aquece, dobrando os corpos que procuram a súbita frescura de uma rara sombra. A campanha corrompe e destrói tudo o que se oponha, de redutos a fortalezas, tratando dignamente os inimigos, fortuita virtude até mesmo entre as mais iluminadas mentes.

Percorre um infinito caminho, por entre vales e dunas, sempre na ambição de um prémio sem igual, passando, por esse motivo, longas temporadas sobre um calor extremo que dificulta e atrofia a excursão. Os homens estão desidratados, cansados, extenuados. As bestas de carga, resistentes e de fiar, apresentam alguns sinais de esgotamento, teimando em descansar nas horas de maior calor e padecendo subitamente. No entanto, Alexandre, o grande conquistador macedónio que uniu mundos, continua o seu trajecto sem que nada o pare. Nem rios caudalosos que causam bulício e esmagam aqueles que os contemplam pela primeira vez ou abruptas vertentes fazem desistir o bravo e único Alexandre, impelido pela tentação de uma promessa de salvação, a cura do mal da vida, o desafiar de quem para debaixo de terra o remete.

Guiado por mercenários e habitantes locais, o conquistador baseia-se em textos antigos e traduções dos grandes povos que há séculos perderam os registos concretos do afamado local: uma nascente cristalina cujas águas afluíam à superfície, gerando uma pequena lagoa, sem réstia de vida nem estagnação. Aparentemente rodeada por escarpas de difícil acesso, a fonte localiza-se num autêntico oásis de vegetação densa e abundante, contrastando com a aridez e impetuosidade dos ventos desérticos que dominam as planícies mortas em seu redor. De acordo com inscrições sumérias, nenhuma criatura ousa beber ou embrenhar-se no manto aquoso, curioso facto dado as águas não serem letais nem nefastas.

Mas o que realmente impele à sua descoberta por parte de Alexandre, são as propriedades milagrosas que as águas conferem. Juventude eterna. Brotam daqueles solos, em lugar incerto e resguardado, as essências da imortalidade. Não se questionam os seus minerais nem a sua pureza, mas antes se procura a todo o custo a referida fonte. Perecem milhares de soldados nas planícies desérticas e hostis, passam fome e calor, sonham com a próxima vez em que matarão a sede, rezam por uma brisa fresca e refrescante que combata o constante e envolvente bafo cálido que amolece o corpo e desmotiva a alma; tudo isto por uma suposta fonte que prolongará a vida eternamente, sem maleitas nem velhice, uma vida condigna e infindável, protagonizada por uma aparência jovial e radiante, sem as debilidades nem os efeitos do tempo, uma gloriosa inércia no período mais áureo das capacidades físicas e mentais; a perpetuação da fama e da fortuna.

Por isto se sofre e perece, mas por pouco tempo mais se prolonga a miséria e a dor. Alexandre crê que o destino está próximo, apenas a algumas milhas de distância. Expandira a campanha para as terras orientais, seguindo as pistas de cronistas e filósofos persas, por sua vez baseados em registos e lendas sumérias e mesopotâmicas, provavelmente produto de imaginação, dado não sobreviver nem um único exemplar milenar dessas civilizações esmagadas pela ironia da ambição de superar o tempo, enterradas elas próprias sobre o seu peso. Como tal nascente não poderia constar no velho continente europeu, procedeu-se a uma odisseia em terras desconhecidas, movidas pela ambição e pela ganância de obter o prémio tentador; a elevação à condição divina e imutável, mergulhando numa infusão de glória e imortalidade, como se, por toda a eternidade, o tempo cessasse a sua função individual e continuasse no colectivo, desenrolando-se uma série de eventos sucessivos sem forma de findar, tudo isto num período infinitamente longo e, no entanto, recheado de inúmeras emoções aglomeradas num feito maior e mais ousado que a própria vida.

A comitiva está esgotada, o dia vai a meio, o Sol irradia um calor excessivo e desmedido como uma tórrida fogueira que pretende incinerar as tendas e as vestes. Subitamente, é avistado um falcão e, seguindo o seu trajecto predatório perante um bando de pombas, eis que surge um oásis envolto nas ondas de calor que irradiam do solo, como uma grandiosa miragem que, à medida que a campanha se aproxima, se revela material e palpável. Surge vegetação exuberante e viçosa, conferindo um panorama diversificado e contrastante com a monotonia e letalidade do imenso deserto. Alexandre contempla o possível local cuja localização geográfica havia sido oculta das memórias dos antigos, caíndo na névoa da lenda e do misticismo associados.

Respiram-se frescos ares de ânimo e esperança. Melódicas composições pairam na atmosfera que mais assemelha a uma redoma de vida e cor circunscrita por um tremendo e malicioso deserto, confuso labirinto ultrapassado após muito sofrimento e mágoa. Os soldados aproveitam as robustas sombras para aliviar o cansaço, sombras naturais e refrescantes que conferem uma sensação semelhante a um banho num regato que escorre pelos vales abaixo, proveniente de frescos aquíferos cristalinos cujas águas brotam dos solos lentamente. Alexandre, ao contrário da sua comitiva que facilmente cede à tentação do descanso e à dor da fadiga, reúne um grupo de generais e guias e inicia uma busca exaustiva à irrealista miragem que afinal se materializa.

Rapidamente se cortam as espessas giestas e os densos arbustos, revelando o esperado panorama. Os olhos prendem-se na referida fonte, um grande charco de águas límpidas, sem qualquer tipo de ornamento humano ou natural, sem limos nem peixes, revelando uma profundidade máxima de duas braças. As margens apresentam-se limpas, sem sinal de gente nem de animais, nem mesmo vestígios das ancestrais construções que ladeavam e delimitavam a fonte quadrangular, referida nos registos sumérios como cercada por um templo, com o leito ornado a mármores e, bem no centro da nascente, um pequeno obelisco de alabastro esculpido. A natureza reclamara novamente o espaço para si, apagando os sinais de ocupação com as raízes, a copa e a folhagem das árvores que cederam à tentação de preencher as áreas circundantes, transformando a fonte num mero charco, igual a tantos outros.

Após a vaga e rápida contemplação, e com os guias árabes de joelhos perante a magnificência do charco, Alexandre decide que é tempo de experimentar a veracidade dos boatos e de testar se realmente se trata da fonte da juventude, cujas águas trarão a eterna juventude cuja teoria dança entre argumentos trocados por filósofos gregos, nunca alcançando a consensual e definitiva concórdia. Vida perpétua, sem sinal de demência nem de doença. Observar e participar na mudança dos tempos, acompanhar esse fiel e metódico amigo até à sua própria morte, que poderá não mostrar sombra de aparecer; com ele conversar, ver o panorama mutável, caras partidas e despedaçadas, esquecidas e perdidas no infindo temor das eras; juventude eterna feita de triunfo e apoteoses como um hábil e sentido poema que se conjuga de visões artísticas variadas e complexas, exageradas e dementes, verdadeiramente demente em subverter a ordem que a todos é imposta, quebrada pelo consumo e banhar nas águas que brotam do solo, mítica e cobiçada nascente.

Imediatamente se arranja um grandioso cálice a Alexandre, composto de ouro e crivado de jóias arranjadas em padrões simétricos. Um servo, com todo o cuidado e dedicação, rasga a superfície aquosa com o cálice que contém as águas dançantes daquela nascente tão pura e límpida. É elevado enquanto um sacerdote persa pronuncia uns ditos que o conquistador não compreende mas que julga parte do ritual perdido nos confins dos séculos, ideia de séculos prometidos a Alexandre, senhor da Europa e da Ásia, fundador de Alexandrias dispersas pelo vasto mundo que por ele é estabelecido e expandido, combatendo a treva do desconhecido como uma súbita rajada que estremece os alicerces do além e o transmuta para o dominado quotidiano.

Sem ninguém que prove a amostra da fonte, Alexandre ergue o cálice, resplandecendo com os raios solares que se reflectem no ouro e espalham um brilho áureo e dourado que ofusca a visão do oásis. De três tragos ingere Alexandre a água da fonte. Apenas lhe sacia a sede, sem nenhum outro efeito, nem um breve estremecer do corpo que indicie que realmente se trata da milenar lenda ou um sinal que revele a autenticidade do conteúdo do líquido cujas propriedades se dizem de perpetuar a vida até ao eterno, sem limites, numa perfeita fábula idílica de nobreza e juventude, comparável ao mecanismo do tempo que agora se aglomera com a vida humana.

O silêncio reina. A maioria divide-se entre variadas opiniões: ou as águas estão chocas, ou o charco é apenas mais um charco, ou as águas conferem realmente eternidade, ou tudo isto se trata de um tremendo embuste, pondo em causa a grandiosa campanha que se desenrola há dois anos, dois anos perdidos para encontrar um charco cuja amostra foi provada pelo grande conquistador, que nem se pronuncia sobre o seu efeito.

Com isto, Alexandre retira-se para o seu complexo de luxuosas tendas para meditar. Ao anoitecer receberá os sábios e os guias para o elucidarem e para ouvir atentamente as suas informações. O bom líder, com a exímia capacidade de escutar quem o aconselha, passa as horas de olhos cerrados, como se tentasse compreender onde houvera errado. Analisa mentalmente todos os passos, as etapas, as batalhas e os saques. Onde poderá ter errado? O oásis foi todo revistado, na frustre tentativa de encontrar ruínas de edifícios sumérios, nem um único sinal de civilização, nem uma pedra limada por mãos humanas. Ouve atentamente os sábios, que julgam, baseados na interpretação de sinais e escritos ancestrais, que a verdadeira fonte da juventude se localiza algumas milhas a oeste, num oásis semelhante, apesar de em tais registos não constar nenhum facto fidedigno.

Com o cair da noite, o grande imperador vê-se livre das suas roupas. Nu, como veio ao mundo, mundo esse cuja efemeridade pretende iludir, Alexandre mergulha nas águas da nascente. Sustém a respiração e é envolto pela harmoniosa e amena sensação de um apogeu sem igual. Sucumbe à frescura das águas, esquecendo por segundos o quente ar que impregna o oásis e o abraça numa quente e árida infusão. Submerso pelas afamadas águas que tantas ondas de discórdia geram, Alexandre presencia um inebriante sonho: uma consistente voz da razão, protagonizada por um velho sacerdote ornado de vestes carmins que lhe mostra os segredos do mundo e o trespassar do tempo, soprando eras e épocas como quem respira, numa vulgar ingratidão e inconformismo perante a vida e as benesses que ela oferece, mesmo a sua primordial e atrofiada passagem, limitada efemeridade redutível, desusada moda que a troco de soldo se protagoniza, mesmo este espectáculo circense composto de episódios que um dia terminarão, de vivências que serão apagadas pelo sopro do tempo, de ditos cujo vento com ele levou; mesmo estas inconsistências insignificantes, míseras e repugnantes; mesmo esta inexactidão que se esfuma se constitui vida.

Mas para Alexandre uma só vida não basta. Pai de mundos, implacável conquistador que agora se vê embrenhado neste insólito sonho produzido pelas águas da verdadeira fonte, ganha consciência. Se ceder à tentação de cumprir o ritual para a juventude eterna, então testemunhará as consequências que mais nenhum sobrevivente conseguiu. “Todos os que a estas águas se entregaram foram mortos pelos seus”, adverte o velho, “uns por inveja, outros por cobiça, mas todos sobre a asa da morte que na cerviz lhes assenta, trespassados pelos gládios de quem não suporta a ideia de uma vida infinita, repleta de mágoa e dor; muitas vezes entregues à morte pela própria espada, num sem fim de desespero”.

Após um minuto submerso nas águas da mítica fonte, os soldados ficam alarmados porque o imperador não regressa à superfície. A escolha fora tomada. Alexandre, recusa a tentadora oferta das águas, prémio que menos iluminados homens tomariam por certo, nelas se afogando e despertando para a eterna mas cruel perenidade. O conquistador ergue-se das águas, sendo prontamente envolto num fino lenço de seda aquecido, que lhe retira as lágrimas da fonte que ao seu corpo se agarram. Vai imediatamente para a tenda, sem pronunciar emoção nem palavra. Prometera guardar segredo, evitando assim a afluência à fonte, que culminaria numa instantânea mortandade, tingindo o charco de corpos que se haviam afogado propositadamente e acordando, segundos depois, sobre o infame e nobre manto da imortalidade, rejuvenescidos e implacáveis, ilusórios senhores do tempo.

No dia seguinte, Alexandre move o acampamento para o limite do oásis, ordenando a sua destruição. Sete dias demoraram as chamas a consumir o resguardado paraíso. De seguida secou-se a fonte, enchendo-a com entulho, apagando-a pouco a pouco até não restar vestígio. A nascente parar de emitir água, secara por completo, desvanecera-se juntamente com as areias e os ventos que ocupam o outrora verdejante e vivo panorama. Após a ruína da fonte da juventude, a comitiva parte de mãos vazias e decepcionada, julgando, até mesmo os mais sábios, que tudo se tratara de uma caçada infrutífera que se prolongará até à queda de Alexandre, uma caprichosa tara que move o mundo e impele à descoberta de novos, a ambição do inalcançável baseado em antigos rumores e lendas.

Com estes factos sorri Alexandre, segurando discretamente um pequeno pedaço de mármore que encontrara no fundo da nascente, vestígio da antiga civilização, prova de que se havia, de facto, deparado com a fonte da juventude. De costas para o oásis queimado, Alexandre parte para encontrar o seu destino na Alexandria que guarda no coração.

 

                                                                                  A Fonte da Juventude, 1546, L. Cranach
 

 
Tiago Malhó Lorga Gomes