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| Crucificação, 1965, Francis Bacon |
Deparei-me pela primeira vez com a obra na Pinakothek
der Moderne, em Munique. O tríptico, seguindo a secular tradição cristã de
adoração em tríades e rotação em torno do referido algarismo para o que de mais
equilibrado e sagrado se representa, é obra de genial ardil. Poder-se-ia
afigurar uma eventual coroação da dor, a sublimação pelo sofrimento (que tanto
Wilde defendia no seu De Profundis)
que intrinsecamente irrompe do peito de Cristo e se manifesta pelas expressões
faciais da audiência que entre lamúrias e lacrimejos se despede do condenado,
pena essa que, de um ponto de vista estético será capaz de gerar as mais belas
imagens.
Porém, Bacon revela-nos aqui, sem qualquer censura ou
sentido de pudor, o âmago do sofrimento. Infligido ao homem pelo próprio homem.
São corpos disformes, anatomias completamente desfiguradas que após tamanhas
torturas não encontraram repouso. Exibem-se em tons de sanguíneo carmim e ocre
terreno figuras indefinidas, manchadas pelos pigmentos viscerais que dos seus
corpos escorrem. São pedaços de carne retalhada. Caveiras esfoladas como um Mársias
derrotado. Membros pendentes, músculos desfeitos, vasos cortados. Uma autêntica
carnificina perpetrada por um agressor musculado, forte e impune que por alguma
razão se entrega a este vício, quiçá mórbido prazer, a esta eterna luta entre
os dominantes e os dominados, a total subjugação à vontade humana, onde nenhum
deus se afirma, nem mesmo a possibilidade de existência de semelhante ente.
É a entrega total à atrocidade. A flagelação que
macera corpo e alma, uma infinda parada de tortura movida pela eterna sede de
sangue, sangue esse que mancha o mundo, que compõe o mundo! E o tríptico, sem
qualquer evocação de soberana salvação ou réstia de esperança, mostrando os
restos de vã humanidade que ali se reduzem brilhantemente, pelo mais negro dos
caminhos, a uma das suas facetas horrivelmente palpáveis. São pedaços moídos e
pisados pela força de outro homem, símbolo máximo da afirmação e de poder,
governando de forma impune e arbitrária, tomando a si a justiça que considera como
absoluta. Do ponto de vista do talhante, nada mais cumpre que a sua função,
justificada por si mesma, caída no vulto do quotidiano. As presas sucedem-se, iguais
os corpos, variando minimamente a rouquidão dos gritos exasperados e os olhares
esgazeados pelo terror. Para o assassino são apenas cabeças de gado
indiferenciadas, desvalorizando por completo as suas vivências.
Observa-se aqui, ilustrado aos olhos do mundo, a mais
primordial das batalhas. O furto de vida do homem pelo homem. E estas sevícias
são barbaramente executadas sem contemplações de moral ou de valor. É a enferma
ânsia pela crua carne, o chafurdar nas entranhas e o som do último bafo que
movem estes agressores. O vício do sangue é alimentado pela obscena sensação de
superioridade. O roubo de uma existência é sinal de potência ilimitada, a
imposição de uma vontade individual que teima em ceifar uma alma somente porque
pode, o abuso da integridade e da fraqueza através das mais abomináveis
torturas que culminam com a deformação completa e com o total desrespeito pela
vida. São monstros de uma realidade que há muito esqueceu sentimentos e que
encontra prazer na dor alheia, que retira orgasmos de contracções às pancadas
corporais, que extasia com os olhares de desespero, os gritos de angústia e as
respirações suspensas pelo pânico; realidade que celebra o pleno domínio e
arbítrio, que se coloca num divino pedestal, máxima inquisidora que decide e
julga, que tortura e provoca dor, que desfigura e recorta, queima e esfacela,
quebra, estira, sangra, arranca, viola, mata. E é esta permanente história que
se repete, transversal durante os tempos, mais longínqua que a própria memória
consegue comportar, mais abominável que as mais profundas e pesadas palavras. É
o triunfo da morte pelas mãos humanas. A mais execrável das atrocidades que
passa impune e se ergue sobre os cadáveres que avidamente leva à boca, que
flutua sobre os oceanos de fluídos coagulados pelas ardentes paixões terminadas
lugubremente pelas frias lâminas dos assassinos. E quando as mãos se erguem em
direcção ao céu a atentar misericórdia, selvaticamente se estilhaçam os ossos e
rasgam os músculos, decepam-se e esfarelam-se numa massa disforme até nada mais
existir que partículas difusas e sem nexo, outrora animadas por sopro vital. E
as pernas que buscam apoio no chão, trémulas de tão lastimosas provações,
recebem golpes que as desfazem; são tenazes em brasa que lentamente dedilham os
nervos cumprindo um sonoro requiem de gemidos e suspiros; são cânulas
introduzidas com a máxima violência; são gumes afiados que fatiam a carne,
instrumentos de inspiração medieval revestidos a ferro e couro que servem as
mais úteis aplicações: secção de dedos, extracção de unhas, enucleações
desmedidas, quebra de articulações... enfim, uma panóplia que excede as mais
fantasiosas tentações assassinas.
De destaque ainda as duas figuras sentadas a uma mesa
no meio de todo este caos. A irónica e constante passividade humana, de olhos
abertos mas indiferentes, testemunhas imemoriais desta procissão contemplando o
esplendor da depravação, das mais inéditas parafilias e sádicas violações. O
que esses olhos contemplam, quer por resignação ou mórbida curiosidade, é a
lástima do homem. O nadir civilizacional que desde sempre se arrasta nos
silêncios e nos gritos. E sobre todo este panorama reinando o vermelho e o
ocre, saboreia-se o típico negrume da morte. E esta escura tonalidade fede a
horror, dos corpos, dos homens e das almas. Miserável condição esta que deseja
a destruição incondicional, que leva o cutelo para a própria nuca do irmão, que
envenena os poços das cidades vizinhas e que, cega pela aparente força, se
dirige à própria perdição. Aqui sim, se revela parte intrínseca da essência
humana com os diabólicos servidores a executarem maquinalmente a função da
morte. O grande matadouro estampado no tríptico, sem sinal de deus nem de
misericórdia, um mundo exasperante e macabro que nos leva à questão se
realmente vale a pena a existência e se há senso algum na dita humanidade.
