quinta-feira, 16 de abril de 2015

Chalet da Condessa d'Edla


Mandou el-rei edificar um modesto chalet à laia da voga alpina para habitação de veraneio da senhora condessa d'Edla. A referida construção, de inquietante originalidade, planta-se ao fundo do parque da Pena, de artifício tal que seus arquitectos somente poderiam ter inspiração estrangeira. O chalet, de externo, articula-se com motivos bucólicos do meio que o circunda, revestido por uma carapaça de madeira recortada por veios de cortiça que emolduram portas e janelas, delimitando a elegante varanda que percorre em toda a dimensão o piso superior.

O interior é, por contraste à sobriedade da fachada, igual motivo de pasmo e um regalo de sumptuosidade desenhada em estuques e painéis de madeira. Apesar da extasiante complexidade, este revela-se a certa forma descomprometido e sem qualquer tipo de pretensão que não a de agradar, de modo cúmplice e íntimo, os seus residentes. A escadaria é um deslumbre de mestria e magnificência, ocupando a secção central do piso térreo e que permite acesso aos aposentos do piso superior, a partir dos quais (e consoante com os pontos cardeais) se alonga a vista com a Pena, as frondosas copas do parque, os cuidados jardins à l'anglaise e, bem ao fundo, o imenso oceano.

É deveras um panorama sublime e recatado, aclimatado pelos característicos ares de Sintra cuja inquestionável salubridade e eterno misticismo em mais nenhum local se afigura. No piso térreo, é de relevo a sala de jantar de discreta sofisticação e conforto, e a sala das heras, cujas folhas em estuque de impressionante realismo absorvem o convidado de tal forma a este se sentir num agradável caramanchão ou numa loggia campestre. Dir-se-á a decoração do chalet escandalosamente exuberante ou pretensiosamente ortodoxa, mas trata-se a mesma da mais inovadora e moderna, obra que dificilmente se poderia conjugar e encontrar em Portugal.


Com tal empresa, a título ousada e surpreendente, verifica-se um caricato apêndice à Pena que certamente será motivo de escárnio e boato justificados pela discrição que as paredes do chalet permitem, no ermo de luxo e sacro refúgio da mais ilustre e prezada nobreza.
Resta portanto imaginar o diário deleite da senhora condessa d'Edla elevando-se na alcova e contemplando, de respiração suspensa, bem lá no topo da nua escarpa, a triunfante Pena envolta pela mística bruma da Serra embalada pelo revigorante sopro marítimo.







Tiago Malhó Lorga Gomes