Entrada Triunfal em Roma
A grandiosa cidade, confusa e
caótica, celebra o retorno do exército. Surgem as primeiras quadrigas,
arrojadas e soberbas, emparelhando quatro possantes cavalos que as impulsionam
de uma forma firme e veloz. Esvoaçam vestes e lenços de finos linhos, palmas e
ramos de oliveira, pétalas de flores da província perdidas no ar repleto de
glória e êxtase. As armaduras, apesar de gastas pelos aguerridos combates,
mostram-se polidas e resplandecentes, conferindo uma imagem digna da celebração
do Império, vastíssimo e poderoso, tão extenso e fortalecido, que por certo
durará até ao fim das eras.
Os soldados, inebriados com a
vitoriosa sensação, recordam os feitos heróicos dos seus comandantes, homens
que de sangue e dor fazem vida, que perpetraram as maiores atrocidades que
os registos tentam ignorar. Porém, e
apesar das imensas perdas de vidas, do sofrimento que rasga e despedaça corpos,
corações e almas, neste dia comemora-se o triunfo, a apoteose, a consagração da
vitória, em grande estilo e a escala grandiosa. Partem desfiles nas maiores
avenidas da Cidade Eterna, urbe em torno da qual tudo orbita, dado irradiar
potentes focos de poder e de autoridade, gládio e carrasco ao mesmo tempo.
As guarnições acenam aos populares
que observam a distinta abastança da procissão. São homens gastos pelas chagas
do ofício, cujos olhos se prendem no alarido que os envolve, saboreando a luz
que se reflecte nos pórticos e nas colunas dos templos, nos palácios e nos
edifícios públicos, representantes da grande escala do Império que se compõe de
campanhas e batalhas, excessos e labor.
Roma assiste ao desfilar dos
soldados. Impera um calor característico, agravado pela quantidade de povo que
observa e comemora com os soldados, que ocupa as praças e as maiores avenidas.
Miragem de uma capital utópica, os templos ostentam um porte magno e sublime,
alinhados com grandes edifícios de exemplar arquitectura e detalhe. As fontes
saciam a sede ao povo romano, absorto e embriagado pela visão de um cortejo
imenso e guarnecido. As melhores quadrigas, revestidas de encantadores mantos
de floridos retalhes, são conduzidas por escravos e transportam generais
coroados com louros, máxima expressão de glória a que qualquer cidadão
ambiciona alcançar. Uma imensa ordem de soldados caminha, agraciando a multidão
e carregando consigo os despojos de guerra: desde baús de ouro e prata a
líderes inimigos, agora capturados e feitos escravos, arrastando-se pelo chão,
presos com correntes e apedrejados pela multidão que fita a face do adversário
derrotado.
Contra o inimigo reina o ódio e uma
atitude de superioridade inigualável. Nunca nos vencerão, crêem os romanos, de
tal modo resguardados das ameaças e dos combates, bem no coração do maior e
mais poderoso império, guardado a soldo de espadas e de escudos. Aproveitam os
produtos provenientes dos cantos do Império Romano, mergulhando numa esplêndida
espiral de orgias e fausto, cada vez mais apartados da leve voz da razão, fácil
de silenciar e de esquecer. Sucumbem às tentações que se impõem por mera
abundância, como um maligno estratagema que se agrava com o aumento da
intensidade do poder, verdadeiro inimigo que levará Roma à ruína, mergulhando o
Mundo numa eterna treva de sofrimento e derrota, ânsias de vitória e apogeu
suplantadas por um ácido pesar de miséria e perda.
Por enquanto celebra-se a fugidia
glória, que a romanos olhos é base da firmeza e fundamento do Império. Em
grandes jaulas contêm-se leões e leopardos capturados na última campanha
africana, soltando tremendos rugidos, que até espantam os legionários aprumados
no desfile que parece não ter fim. Perde-se a conta aos soldados, semelhantes
uns aos outros, de armadura polida e amolgada pelo pesar dos conflitos, com um
grande escudo rectangular, uma lança e um pequeno gládio. Os centuriões marcham
lentamente, revezando-se entre o chão das avenidas movimentadas e o conforto e
glória das quadrigas que fazem as suas capas escarlates esvoaçar. Uma confusa
procissão de escravos massacrados inunda as sombras das ruas, gastos e
humilhados, vaiados e insultados, mas subjugados à grandiosidade que é Roma,
nunca tendo visto o cúmulo da riqueza e da monumentalidade, agora arrastados
pelas suas ruas, cativos de quem os adquirir, com as alas da liberdade furtadas
para todo o sempre, sonhando das terras que os pariram e que não receberão os
seus corpos, terras que os moldaram e por onde se-lhes perdera a alma e
prendera o coração.
Lá longe, fora da confusa e capital
Roma, no limiar das fronteiras do Império, choram as terras. Os campos tingidos
e lacrados com o sangue derramado, as árvores com a copa enegrecida pelo pesar da
dor, os ramos e a folhagem desbastada, os rios secos, os campos ao abandono, as
casas queimadas e fumegantes. Praticamente colectores e muito rudimentares, os
povos inimigos unem-se contra a crescente e organizada conspiração que, qual
impetuoso tumor, se pretende espalhar pelo Mundo, trazendo consigo ideias
inovadoras e conceitos civilizados.
Mas deixem-se os limites e os
confins do Império, pontos estratégicos que não apelam à vida nem ao luxo, e
foquem-se as atenções na soberba, suja e corrupta cidade fundada por Rómulo e
Remo, com o trágico findar de sangue derramado por sangue irmão, tal a avidez e
a avareza, a ilusão de uma miragem de poder inigualável que resulta numa
tormenta que despedaça o laço da irmandade. Funda-se a cidade sobre a base da
disputa que corrompe e dilacera, e nela se instala a sede de um Império
insaciável, civilizado e excessivo, que encerra saber e atrocidade, avanço e
depravação, devassos e boémios, corruptos e explorados.
Contempla-se o apogeu. O desfile
perfeito, envolto em notas de uma confusa e ruidosa audiência que apaga os
vestígios de morte deixados nos campos de batalha, que limpa as manchas de
sangue que mais facilmente saem das vestes que a lama, dos massacres
perpetrados sem remorso algum. Arrastam-se as correntes dos escravos no
pavimento. O povo aplaude, dança e reza. Os deuses, lá no alto, sorriem com a
homenagem e a devoção. Os ricos e os poderosos apreciam nas varandas das
mansões, embebidos nas orgias que lhes ocupam os tempos com prazerosas
sensações, refastelando-se com iguarias raras e nutritivas, seguindo modas e
padrões extravagantes, erigindo palácios e villas
adornados com despojos de guerras: de estatuária egípcia a painéis da
antiga Babilónia, civilização que também se via imortal e plena, entregue às áridas
areias do deserto do tempo que tudo apagam e erodem.
O desfile está a terminar. Os
cavalos relincham e movem velozmente as quadrigas e as carruagens que prendem
animais exóticos e líderes tribais caricatos. Os escravos esvaem-se em sangue,
raspando os seus corpos contra as sedosas pétalas que ornam o chão das maiores
avenidas romanas, sangue que escorre para o eterno e antigo Tibre que assiste a
estas demonstrações de um poderio que se crê infindável, mas que realmente
revela uma faceta débil e inconsciente, afundando-se numa epopeia de gastos,
excessos, festas e festins, banquetes, orgias e paradas. Os generais acenam à
multidão, esperançosa e festiva, ostentando magnas coroas de louros, símbolo de
vitória e glória, alcançados por mortandade e bravura nos campos de batalha que
choram e encerram em si os mortos e as almas.
A noite cai sobre a cidade. A
parada chega ao fim. Os soldados vão celebrar nas ruas iluminadas, onde se
oferece um enorme banquete à população que vai usufruir de vários dias de festas
e celebrações, quer nas arenas e nos circos, como nos templos e nas praças. As
orgias, célebres momentos de luxúria e de perdição pelo material e carnal,
iniciam-se na noite. Roma fervilha e saboreia os momentos de triunfo, ignorando
a anunciada queda, o final apocalíptico de uma civilização que se julga magna e
suprema, que se debate com as apoteóticas celebrações e que se consagra como
imperatriz do Mundo, que, aos poucos, a corrói e desgasta. Roma cairá.
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Triunfo de César, Andrea Mantegna,
1484-1492
|
Tiago Malhó Lorga Gomes

