domingo, 12 de maio de 2013

Entrada Triunfal em Roma


Entrada Triunfal em Roma

 

A grandiosa cidade, confusa e caótica, celebra o retorno do exército. Surgem as primeiras quadrigas, arrojadas e soberbas, emparelhando quatro possantes cavalos que as impulsionam de uma forma firme e veloz. Esvoaçam vestes e lenços de finos linhos, palmas e ramos de oliveira, pétalas de flores da província perdidas no ar repleto de glória e êxtase. As armaduras, apesar de gastas pelos aguerridos combates, mostram-se polidas e resplandecentes, conferindo uma imagem digna da celebração do Império, vastíssimo e poderoso, tão extenso e fortalecido, que por certo durará até ao fim das eras.

Os soldados, inebriados com a vitoriosa sensação, recordam os feitos heróicos dos seus comandantes, homens que de sangue e dor fazem vida, que perpetraram as maiores atrocidades que os  registos tentam ignorar. Porém, e apesar das imensas perdas de vidas, do sofrimento que rasga e despedaça corpos, corações e almas, neste dia comemora-se o triunfo, a apoteose, a consagração da vitória, em grande estilo e a escala grandiosa. Partem desfiles nas maiores avenidas da Cidade Eterna, urbe em torno da qual tudo orbita, dado irradiar potentes focos de poder e de autoridade, gládio e carrasco ao mesmo tempo.

As guarnições acenam aos populares que observam a distinta abastança da procissão. São homens gastos pelas chagas do ofício, cujos olhos se prendem no alarido que os envolve, saboreando a luz que se reflecte nos pórticos e nas colunas dos templos, nos palácios e nos edifícios públicos, representantes da grande escala do Império que se compõe de campanhas e batalhas, excessos e labor.

Roma assiste ao desfilar dos soldados. Impera um calor característico, agravado pela quantidade de povo que observa e comemora com os soldados, que ocupa as praças e as maiores avenidas. Miragem de uma capital utópica, os templos ostentam um porte magno e sublime, alinhados com grandes edifícios de exemplar arquitectura e detalhe. As fontes saciam a sede ao povo romano, absorto e embriagado pela visão de um cortejo imenso e guarnecido. As melhores quadrigas, revestidas de encantadores mantos de floridos retalhes, são conduzidas por escravos e transportam generais coroados com louros, máxima expressão de glória a que qualquer cidadão ambiciona alcançar. Uma imensa ordem de soldados caminha, agraciando a multidão e carregando consigo os despojos de guerra: desde baús de ouro e prata a líderes inimigos, agora capturados e feitos escravos, arrastando-se pelo chão, presos com correntes e apedrejados pela multidão que fita a face do adversário derrotado.

Contra o inimigo reina o ódio e uma atitude de superioridade inigualável. Nunca nos vencerão, crêem os romanos, de tal modo resguardados das ameaças e dos combates, bem no coração do maior e mais poderoso império, guardado a soldo de espadas e de escudos. Aproveitam os produtos provenientes dos cantos do Império Romano, mergulhando numa esplêndida espiral de orgias e fausto, cada vez mais apartados da leve voz da razão, fácil de silenciar e de esquecer. Sucumbem às tentações que se impõem por mera abundância, como um maligno estratagema que se agrava com o aumento da intensidade do poder, verdadeiro inimigo que levará Roma à ruína, mergulhando o Mundo numa eterna treva de sofrimento e derrota, ânsias de vitória e apogeu suplantadas por um ácido pesar de miséria e perda.

Por enquanto celebra-se a fugidia glória, que a romanos olhos é base da firmeza e fundamento do Império. Em grandes jaulas contêm-se leões e leopardos capturados na última campanha africana, soltando tremendos rugidos, que até espantam os legionários aprumados no desfile que parece não ter fim. Perde-se a conta aos soldados, semelhantes uns aos outros, de armadura polida e amolgada pelo pesar dos conflitos, com um grande escudo rectangular, uma lança e um pequeno gládio. Os centuriões marcham lentamente, revezando-se entre o chão das avenidas movimentadas e o conforto e glória das quadrigas que fazem as suas capas escarlates esvoaçar. Uma confusa procissão de escravos massacrados inunda as sombras das ruas, gastos e humilhados, vaiados e insultados, mas subjugados à grandiosidade que é Roma, nunca tendo visto o cúmulo da riqueza e da monumentalidade, agora arrastados pelas suas ruas, cativos de quem os adquirir, com as alas da liberdade furtadas para todo o sempre, sonhando das terras que os pariram e que não receberão os seus corpos, terras que os moldaram e por onde se-lhes perdera a alma e prendera o coração.

Lá longe, fora da confusa e capital Roma, no limiar das fronteiras do Império, choram as terras. Os campos tingidos e lacrados com o sangue derramado, as árvores com a copa enegrecida pelo pesar da dor, os ramos e a folhagem desbastada, os rios secos, os campos ao abandono, as casas queimadas e fumegantes. Praticamente colectores e muito rudimentares, os povos inimigos unem-se contra a crescente e organizada conspiração que, qual impetuoso tumor, se pretende espalhar pelo Mundo, trazendo consigo ideias inovadoras e conceitos civilizados.

Mas deixem-se os limites e os confins do Império, pontos estratégicos que não apelam à vida nem ao luxo, e foquem-se as atenções na soberba, suja e corrupta cidade fundada por Rómulo e Remo, com o trágico findar de sangue derramado por sangue irmão, tal a avidez e a avareza, a ilusão de uma miragem de poder inigualável que resulta numa tormenta que despedaça o laço da irmandade. Funda-se a cidade sobre a base da disputa que corrompe e dilacera, e nela se instala a sede de um Império insaciável, civilizado e excessivo, que encerra saber e atrocidade, avanço e depravação, devassos e boémios, corruptos e explorados.

Contempla-se o apogeu. O desfile perfeito, envolto em notas de uma confusa e ruidosa audiência que apaga os vestígios de morte deixados nos campos de batalha, que limpa as manchas de sangue que mais facilmente saem das vestes que a lama, dos massacres perpetrados sem remorso algum. Arrastam-se as correntes dos escravos no pavimento. O povo aplaude, dança e reza. Os deuses, lá no alto, sorriem com a homenagem e a devoção. Os ricos e os poderosos apreciam nas varandas das mansões, embebidos nas orgias que lhes ocupam os tempos com prazerosas sensações, refastelando-se com iguarias raras e nutritivas, seguindo modas e padrões extravagantes, erigindo palácios e villas adornados com despojos de guerras: de estatuária egípcia a painéis da antiga Babilónia, civilização que também se via imortal e plena, entregue às áridas areias do deserto do tempo que tudo apagam e erodem.

O desfile está a terminar. Os cavalos relincham e movem velozmente as quadrigas e as carruagens que prendem animais exóticos e líderes tribais caricatos. Os escravos esvaem-se em sangue, raspando os seus corpos contra as sedosas pétalas que ornam o chão das maiores avenidas romanas, sangue que escorre para o eterno e antigo Tibre que assiste a estas demonstrações de um poderio que se crê infindável, mas que realmente revela uma faceta débil e inconsciente, afundando-se numa epopeia de gastos, excessos, festas e festins, banquetes, orgias e paradas. Os generais acenam à multidão, esperançosa e festiva, ostentando magnas coroas de louros, símbolo de vitória e glória, alcançados por mortandade e bravura nos campos de batalha que choram e encerram em si os mortos e as almas.

A noite cai sobre a cidade. A parada chega ao fim. Os soldados vão celebrar nas ruas iluminadas, onde se oferece um enorme banquete à população que vai usufruir de vários dias de festas e celebrações, quer nas arenas e nos circos, como nos templos e nas praças. As orgias, célebres momentos de luxúria e de perdição pelo material e carnal, iniciam-se na noite. Roma fervilha e saboreia os momentos de triunfo, ignorando a anunciada queda, o final apocalíptico de uma civilização que se julga magna e suprema, que se debate com as apoteóticas celebrações e que se consagra como imperatriz do Mundo, que, aos poucos, a corrói e desgasta. Roma cairá.
 
 
                                          Triunfo de César, Andrea Mantegna, 1484-1492
 

Tiago Malhó Lorga Gomes

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Solidão


Solidão

 

 

Oh mares estes a que me entrego d’alma e coração

Mergulhado nestes infames e terríveis vapores

Que se contorcem e me cercam,

Apartados de todo o semblante da razão,

Combustados por fracassados desamores.

 

 

Solidão enferma que se arrasta,

Nuvem vaga e doentia.

Vê-se perto aquela entusiasta

Do desespero e do mal,

Felicidade eternamente fugidia

Da qual escapa a aura celestial.

 

 

Cantam os anjos na luz,

Todos eles ordenados e aprumados,

Louvando a glória do Mártir da Cruz,

Celebrando a existência dos afortunados

Que se deleitam com a verdadeira plenitude

E com a mísera solidão ausente,

Longe do Homem e da alma da virtude

Enganada com tal mentira demente.

 

 

Sofrida solidão,

Condenada a água e pão,

Num emocional jejum de sensações,

Reprimidas e passageiras como as estações.

Solidão desmedida,

Exagerada e intransigente.

Rígida pedra fria que se impõe vida,

Infértil de sonhos e de esplendor

Que afoga a alma em mágoa

Num pesaroso pesadelo de dor.

 

 

Solidão divina e contida,

Detestável por si,

Necessária à inspiração.

Origina a poética criação

Boémia e nua,

Que remete o ser para a sua ermida

De sonho e emoção iludida.
 
 
 
 
 
Tiago Malhó Lorga Gomes