Solidão
Oh mares estes a que me entrego d’alma
e coração
Mergulhado nestes infames e terríveis
vapores
Que se contorcem e me cercam,
Apartados de todo o semblante da
razão,
Combustados por fracassados
desamores.
Solidão enferma que se arrasta,
Nuvem vaga e doentia.
Vê-se perto aquela entusiasta
Do desespero e do mal,
Felicidade eternamente fugidia
Da qual escapa a aura celestial.
Cantam os anjos na luz,
Todos eles ordenados e aprumados,
Louvando a glória do Mártir da
Cruz,
Celebrando a existência dos
afortunados
Que se deleitam com a verdadeira
plenitude
E com a mísera solidão ausente,
Longe do Homem e da alma da virtude
Enganada com tal mentira demente.
Sofrida solidão,
Condenada a água e pão,
Num emocional jejum de sensações,
Reprimidas e passageiras como as
estações.
Solidão desmedida,
Exagerada e intransigente.
Rígida pedra fria que se impõe
vida,
Infértil de sonhos e de esplendor
Que afoga a alma em mágoa
Num pesaroso pesadelo de dor.
Solidão divina e contida,
Detestável por si,
Necessária à inspiração.
Origina a poética criação
Boémia e nua,
Que remete o ser para a sua ermida
De sonho e emoção iludida.
Tiago Malhó Lorga Gomes

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