sábado, 20 de abril de 2013

Dramas Helénicos



I.                   Europa

Europa, princesa fenícia, conhecida em todo o reino como uma jovem revestida de uma aura de extrema formosura, capaz de fazer inveja a Afrodite, que tanto se contorce e arrepia no Olimpo cada vez que o nome da princesa é mencionado. A gema africana concentra em si a essência do continente selvagem e natural, indomável alma que se orna de grande beleza, toda ela pura e natural, incólume e plena. Do milenar Nilo que se espraia e combate o árido e imenso deserto, passando pelas vastas planícies repletas de seres magníficos e soberbos, até as densas selvas onde abunda mistério e variedade, e sem esquecer as terras costeiras que tanto encanto conferem; se tempera a belíssima princesa Europa, focando no seu âmago uma imensa paixão arrebatadora, que coincide na perfeição com o aspecto que ostenta, demasiado perfeito para um mísero ser humano, que quase é idolatrado e alvo de grande contemplação e reverência, qualidades que os deuses haviam reservado somente para eles.

Europa passa os dias a divagar nos jardins e nos prados, perdendo-se nos encantos da vida natural, que tanto a agraciam e sublimam, livre de qualquer obrigação ou desgosto, usufruindo de uma existência alva e abençoada. A beleza assoma a cada passo da personagem, mais se assemelhando aos habitantes do Olimpo pela forma única com que as suas sedas saboreiam e dançam ao sabor da quente brisa que o longínquo mas imenso deserto liberta, ou do seu gesto sem paralelo, de uma graciosidade suprema, enorme elegância que cativa e prende o olhar que espera não mais perder de vista aquele imensurável deleite.

Assim correm os dias, sucessivos e embevecidos num quotidiano imensamente feliz, sempre ornado de grande beleza, uma eficaz efígie que atenta aos fundamentos da perfeição inatingível, que neste caso é superada por uma simples mulher, nobre por sinal, quer de título quer de carácter. Perde-se no tempo, saboreando os prazeres de descansar ao Sol após um almoço completo e variado, fitando a imensidão do mar que exala um vapor salino e refrescante, mas que tanta vida comporta e fascínio traz. O mar é recortado por pequenas embarcações, em harmonia tal, que, por momentos e na presença da referida mulher, qualquer um se crê no Paraíso, com jardins impecáveis, simbolizando a união do Homem com a Natureza, duas forças imensamente poderosas e indomáveis, livres como as aves que cruzam os céus e os preenchem de canoras preces.

Certo dia, Europa colhia flores num grande prado, todo ele verdejante e salpicado pela variedade de tonalidades que as pétalas dançantes orgulhosamente mostravam, elaborando ramos simples e equilibrados. A colheita, pacata e serena, é feita de manhã, quando as flores despertam da amena noite que lhes furtou momentaneamente os pigmentos que as fazem resplandecer, para acordarem com uma faceta inocente e pura. Subitamente, na manada de touros negros que pastavam num terreno adjacente, eis que surge um enorme vulto branco, um soberbo touro níveo, refulgindo pela sua unicidade, tão diferente e grandioso.

Europa é imediatamente cativada pelo novo animal de porte robusto, que tanto destoa no meio da manada que se veste de preto. Com um ramo na mão esquerda, a princesa aproxima-se do referido animal, com um passo natural e cortês, com a mesma devoção que apresentaria se fosse colocar as flores num altar dedicado aos deuses do Olimpo. O grande touro, manso e dócil, prende as suas órbitas na doce imagem da princesa que inocentemente o observa com tanta curiosidade, encerrando em si o indomável e plácido género africano.

A uma dada altura, Europa pára. O touro mantém-se ali, parado, a contemplar a fenícia que tanto deve à formosura. Inexplicável efeito provocado por uma inconsistente implacável motricidade, a princesa ergue a sua alva mão direita, estendendo o seu braço até à testa do animal albino. O contacto é estabelecido, ela saboreia o macio e cuidado pêlo que tanto o destaca, e ele conforta-se com o calor que se liberta da sua delicada e pequena mão. Nisto, o tempo pára. A brisa que derrubava as folhas das grandes árvores que preenchem os prados esquece-se do seu propósito, mantendo as folhas suspensas na atmosfera, os restantes animais imóveis, o mar ao fundo calado e parado, uma melodia ecoa, imagem de um paraíso prometido, maior ainda que o terreno que já tanto oferece e ostenta. Uma inexplicável aura envolve os dois seres, desenhando auréolas douradas sobre o céu, bronzeando as nuvens de um ouro imutável e deslumbrante, poético e arrebatador.

Europa fica encantada com o possante touro, que lhe suscita uma sensação como nunca sentira, nada de natural assim se manifesta, nem humano se conclui, talvez um poder divino, uma força infinitamente imensurável que evita o contacto com o comum dos mortais e que, por pura coincidência, se encerra no touro branco.

Num ímpeto apaixonado, Europa senta-se no macio dorso do animal. O laço jamais será quebrado. Para horror geral dos que assistem à cena sem nada dela extraírem, o touro eleva-se no ar, levando consigo a princesa. Europa vê-se raptada por um eficaz disfarce, albino touro que nada mais serviu para estabelecer contacto, célebre pela sua raridade e excelência, nobreza e força, vertentes que jamais faltarão ao ilustre e possante bovino.

Europa saboreia a brisa celestial. Ao seu lado voam bandos de aves, como se participassem numa jubilante boda ou numa apoteótica procissão, olhando para as superfícies terrenas a partir das grandiosas alturas que todos cobrem e limitam, que geram ambição e desejo. O continente africano termina e ruma-se ao desconhecido. Enquanto Europa e o touro sobrevoam o mar, cardumes juntam-se à procissão dos alados, embora no mar, mas movidos pela mesma força que reina nos seus corações: a plena harmonia natural que celebra o amor. Subitamente, no horizonte envolto na mágoa do nevoeiro, desenha-se a costa de um novo e desconhecido continente.

O destino é celeremente alcançado em grande pompa, com os animais e os elementos reunidos neste apogeu que a princesa não consegue explicar, de tal forma extasiada com o acontecimento, mergulhada numa paixão profunda, esquecendo-se do que para trás deixa. Aterra-se num novo continente. Europa sai do dorso do touro alvo. Surpreendentemente, esta alegórica figura transforma-se em Zeus, que havia orquestrado esta farsa para raptar a belíssima princesa fenícia que tanto interesse e desejo lhe suscitara. Apresenta-se à mulher deslumbrada e oferece-lhe um trono e um continente, futuramente baptizado em sua honra, pedindo em troca o seu incondicional e eterno amor, devota força que o movera a actuar, de tal forma surpreendido pela sua beleza não ser obra divina, mas antes o culminar da humana raça, ali materializado na figura de Europa. A oferta é aceite sem qualquer ponderação. As preces são ditas, os votos trocados, as carícias cambiadas, a sedução perpetrada. Três filhos nascidos: Minos, Radamanto e Sarpedão.

Europa assim ficou, no continente baptizado em sua honra, exilada da África que guarda no coração dominado por um amor divino, sereno e absoluto.


                                                  O Rapto de Europa, Ticiano, 1562

 

 

 

II.                 Ganimedes

O jovem pastor guarda o rebanho. É mais um dia solarengo, quente e acolhedor. A água brota das nascentes que ameaçam secar, as plantas deleitam-se com a luminosidade e com a brisa amena, os animais descansam na sombra das oliveiras e dos sobreiros. Os grilos e as cigarras presenteiam um concerto de sons característicos, aliando-se à orquestra natural que se compõe na pauta da aragem. Paira o odor a malmequeres e a terra lavrada, já seca e com saudades de chuva, da qual brotam culturas e débeis árvores.

Ao longe sorri Tróia, que se refastela antes de regressar ao labor depois das maiores horas de calor, cidadela bem guarnecida, rica e poderosa, da qual é originário o pastor, um jovem que vigia o rebanho do pai com grande afinco e dedicação. Despojado de qualquer posse ou título, o jovem, de seu nome Ganimedes, é moldado pelas estações e pelo desenrolar dos processos naturais, escutando as lições que a brisa lhe ensina e partilhando dos saberes dos antigos que estão às portas da morte, gente humilde e trabalhadora que aprendeu com a vida.

A sua educação é tradicional, pouco controlada e fraca. Desconhece por completo os reinos que rodeiam a sua tão amada Tróia, à qual é devoto, tal como o é aos deuses do Olimpo, magnificências poderosas que são responsáveis pelo tecer do débil retalho do Fado em torno do qual tudo orbita. Soa um trovão ou observa-se um falcão com uma serpente rubra nas garras e imediatamente se procura explicação e esclarecimento de causa, atribuindo-se a discussões divinas ou à falta de devoção do povo e de sacrifícios.

Ganimedes, um jovem a quem a vida promete ensinar, é visto como um indivíduo exemplar, humilde e bondoso, que ajuda os que se encontram em dificuldades, apesar de discreto e modesto. A esta alma simples e pura, alia-se um corpo belo e equilibrado, esculpido pelo passar dos tempos, que encanta muitas jovens camponesas.

Recostado na copa de uma oliveira, Ganimedes observa atentamente o rebanho, contando com meia dezena de carneiros, duas dúzias de ovelhas e uma dezena de cordeiros, que pasta placidamente, alguns deitados à sombra, outros a bebericar de um pequeno regato que corre monte abaixo. Entregue aos seus pensamentos, humildes e singelos, o jovem troiano reflecte na sua vida, paradoxalmente tão curta mas tão longa, cheia de vivências quotidianas semelhantes, encantadas com relatos de histórias de soldados e heróis, deuses e batalhas. Por mais que dê voltas à cabeça, não consegue entender que justiça existe em envelhecer ou nos motivos que levam os reinos à hostilidade. A terra que tem, propriedade de Tróia, representa tão bem a abundância e o necessário à sobrevivência, benesses mais que suficientes para louvar e agradecer eternamente aos deuses por terem concedido tal oportunidade: a de viver. Correm-lhe pensamentos semelhantes enquanto almoça o pão que a sua mãe lhe dera, acompanhado de uma maçã e seguido de um trago de vinho.

O Sol atinge o seu pico, o rebanho estende-se nas sombras dos sobreiros e das oliveiras, o regato corre incessante monte abaixo e o céu continua límpido, sem sinal de nuvens. No meio de toda esta calmaria, com os camponeses a almoçar e a descansar, com o belíssimo panorama troiano no horizonte, eis que surge uma enorme águia castanha.

A ave gigantesca inicia a manobra de rapina e sobrevoa Ganimedes, movendo as suas garras para o apanhar. O jovem, assustado com o monstro alado que desceu do reino dos céus, precipita-se para o cajado mas não consegue chegar a tempo. Mal se levanta e a águia sobre ele recai, derrubando-o e prendendo-o nas suas patas. A sólida e jovem carne sente o frio das garras da ave. Subitamente, e com Ganimedes seguro contra vontade, a águia voa, transportando o jovem que se debate contra o seu raptor.

 Dá-se a ascensão da soberba águia, talvez a maior presenciada em qualquer parte do vasto mundo, que reclama Ganimedes como sua presa, elevando-o cada vez mais. O jovem contorce-se à medida que vê a frondosa folhagem da oliveira a tornar-se gradualmente mais pequena, o rebanho semelhante a pequenos seixos brancos, o regato revela-se um fino colar de prata e o monte nada mais que uma miragem difusa. À sua frente a imensidão do céu, sem limites nem fronteiras, de um azul mais claro que o marinho. Ganimedes admira a paisagem, enquanto se acalma e tenta compreender para onde a águia o carrega com tanto cuidado e afeição.

O voo dura tempo, sem noção de qual a sua duração exacta ou aproximada, tal o êxtase que esmagou o jovem pastor troiano que vive para o seu rebanho e para a sua família, não corrompido pelos males do mundo, ainda uma mente pura e livre. A ave parece nutrir um especial carinho pelo jovem, à medida que o envolve com as suas patas, equilíbrio perturbado pela dinâmica alada do voo.

O destino é alcançado e a grandiosa águia pousa Ganimedes. O jovem, meio desorientado, depara-se com uma montanha enorme, de longe a maior que alguma vez vira, toda ela ornada de templos brancos com mármore resplandecente, com enfeites a ouro, estátuas belíssimas e grandes colunas elaboradas. Crê estar no Olimpo. O ar refinado e rarefeito, uma temperatura agradável e amena, uma luminosidade exagerada, sempre envolta em grande riqueza e num silêncio sepulcral.

Ganimedes retorna a observar a águia e capta uma visão extrema: a da grande ave de rapina se metamorfosear, despir a sua máscara e revelar Zeus, o pai dos deuses e dos homens, o grande mestre do Olimpo, marido de Hera, astro poderosíssimo. Qual o espanto de Ganimedes a observar a face do seu raptor, efígie que tantas vezes tinha examinado nos templos, agora num realismo muito mais perfeito, ente supremo e magno.

Num momento de fraqueza, Zeus declara-se apaixonado pelo jovem. Confidencia-lhe que se trata do homem mais belo de toda a Grécia, e que se enganara ao acreditar que aquela perfeição não poderia ser obra de mera ocasião humana. Ganimedes, tão puro e inocente, mal acredita no que o pai dos deuses lhe diz e no que lhe oferece: juventude eterna e um lugar perpétuo no Monte Olimpo, ficando responsável pelo servir do néctar dos deuses, que ficam escandalizados com o comportamento obsceno de Zeus, caprichoso ente que dispõe de paixões e de almas de uma forma insensível e frívola. Eleva-se o comum dos mortais à etérea e prezada juventude, permitindo conservar o corpo mas não o espírito, já corrompido pelas disputas divinas, originadas pelo rapto do disfarce alado de Zeus, adepto da pederastia, prática tão frequente na Grécia Antiga.

O pastor troiano vê-se imortal, com uma posição de prestígio no Monte Olimpo ao servir a imortalidade e a distinção aos outros deuses, apesar de não passar de um catamita de Zeus, o único dos amantes ao qual garantiu a imortalidade, tal a afeição e a atracção. Com as planícies e os rebanhos troianos no coração, Ganimedes desce do Olimpo e divaga por aqueles prados verdejantes e cultivados, no mesmo monte onde fora raptado pela soberba águia. Ao longe, Tróia exala fumos de labor, o mar contacta com a costa; as essências misturam-se com a terra seca, o odor do gado e a casca dos sobreiros. À sombra de uma oliveira, repousa o eterno jovem Ganimedes, herói que arrebatou o coração de Zeus.
 
 
O Rapto de Ganimedes, Rubens, 1611-1612
 

III.              Leda

Leda, rainha espartana, esposa de Tíndaro. Famosa pela sua lendária beleza, a rainha encanta qualquer súbdito que a olhe de relance. À belíssima e formosa fachada, consegue aliar um temperamento instável, fechado e tímido, com momentos de demente contemplação e auto-glorificação. Apesar de este feitio por vezes egoísta e avaro, Leda tem vários momentos de serena contemplação nos seus palácios, todos eles grandiosos e monumentais, ricos e imensamente complexos.

Fiel a Tíndaro e devota, a rainha dispõe de um reino poderoso e augusto, governado com grande autoridade, ornado de grandes colunas jónicas, dóricas e coríntias, sempre numa atmosfera mediterrânea: as seculares oliveiras nas planícies douradas, os pinheiros e as vinhas que recortam, ao longe, o mar, os pastores e os humildes camponeses; enfim, uma beleza imensa, simples e sem rival, campestre e deliciosamente filosófica.

Esparta, mãe de bravios guerreiros e de excelsas gentes, encanta Leda. A cidade, baluarte bem fortificado e soberano, insere-se numa imensa planície fértil, por onde calmo e plácido corre um rio de caudal variável conforme as estações. Um dos passatempos favoritos de Leda é o de navegar numa esplêndida barcaça, de se deixar levar pela corrente do leito aquático, saboreando a paisagem que aglomera ruínas de templos e de cidadelas com uma imensa mancha natural que conjuga harmonia e equilíbrio, conferindo plenitude à rainha. Sente-se ainda mais bela à medida que é levada pelo rio, fonte de vida e de inovação, admirando os patos e os gansos egípcios que por lá se deslocam e alimentam.

Observa os jacintos e os nenúfares, todos eles floridos, desejando saber nadar para se entranhar naquele meio tão belo mas tão fatal, indomável mas sublime, perigoso mas fantástico. A água límpida, transparente, revela os cardumes que circulam pelo curso de água, mostrando as pequenas algas e os limos que se agarram às pedras e aos seixos do fundo, já polidos pelo constante passar das cristalinas e refrescantes águas.

Certo dia, Leda navega na sua soberba barcaça, com cortinas de seda rosa que esvoaçam ao relento. Uma andorinha voa rente às águas, alimentando-se dos incómodos insectos que se acumulam nas margens e nos baixios. Uma garça e meia dúzia de patos nadam no plácido rio, que neste dia em especial parece uma delicada filigrana de prata, com uma corrente serena e iluminada por um Sol vagaroso e mole, que aquece a atmosfera de uma essência doce e quente. Vindo do nada e envolto numa elegância característica e suprema, um cisne imponente surge no rio, de porte majestoso, doce e níveo, como o prolongamento de um místico melancólico nevoeiro que paira sobre os campos durante a madrugada.

A grande ave, ao contrário de muitas outras fugidias, mostra-se afável e encantadora. Dirige-se, com um nadar sereníssimo e delicioso, para a esplêndida embarcação que carrega a rainha deleitada por semelhante visão: a de uma raridade suprema por terras mediterrâneas, um cisne proveniente das frias terras nórdicas, com o seu semblante gracioso e real. Este animal aproxima-se da barcaça, encabeçando-a numa procissão gloriosa, uma belíssima embarcação elaborada, com uma monarca deitada a saborear as águas com os alvos braços, à medida que, sobre ela, pairam sedas e cetins de uma leveza extrema, que dançam ao sabor dos ventos e se deleitam ao sol; toda esta paradisíaca imagem rematada por um cisne fora do seu ambiente natural, que confere um exotismo preponderante às terras que se definem e constituem de vinhas, olivais, urbes e vilas.

O cisne abranda e acompanha a barcaça, estando mesmo ao lado de Leda que se extasia com a visão de um animal tão inocente e belo. Suavemente afaga-lhe as asas, penugem alva de uma carícia doce e vibrante. A grandiosa ave sobre à bordo e senta-se ao lado da rainha espartana, pousando a cabeça e o longo pescoço sobre o seu peito, onde palpita um coração fragilizado por tanta emoção. A mulher acaricia o cisne, abraçando-o e apertando-o contra si, perpetuando aquele momento durante longos minutos até ao desembarque. O cisne voa para longe e a rainha chora.

Passa sofridos momentos a pensar no amor que perdera, irracional e insano, por um animal nobre e imensamente belo. Carpe e sofre, o seu coração foi estilhaçado e assume a verdade de que não mais poderá restituir emoções semelhantes às sentidas no rio, na presença da ave. Leda corre para uma nascente próxima para se matar. Porém, quando a alcança, para sua surpresa, encontra o sublime cisne. Este abraça-a com as suas doces asas, elevando o seu pescoço para junto da face que chora de desespero, agora transmutado num deleite total, escondido na penumbra do anoitecer e na húmida solidão da fonte.

Nessa mesma noite, Leda leva o cisne para os seus aposentos. Dormem abraçados um no outro, vivendo um idílico sonho realista, intrínseca inebriante fantasia. A relação é consumada, Leda adormece extasiada, esmagada pelo culminar das sensações acumuladas naquele incrível dia.

No dia seguinte, Leda acorda nua. Ao seu lado, no mesmo local onde estava o encantador cisne, repousam dois grandes ovos. A rainha apressa-se a escondê-los do rei, que irrompe pelos aposentos para lhe desejar um bom dia, mais um como tantos outros, crê o magno espartano. Nesse mesmo dia, Leda assiste à eclosão dos ovos. Do primeiro surgem dois pequenos bebés, do segundo duas pequenas bebés. O cisne aparece imediatamente a seguir, beijando a incrédula espartana que ama esta mítica e soberba ave com todo o seu cândido e humilde coração. É a última vez que o cisne aparece, a derradeira despedida. Após fulgores e cúmulos de paixão, a rainha é deixada com os seus quatro filhos que nasceram como a grandiosa ave, de dois ovos.

O rei Tíndaro aceita as crianças como sendo do seu sangue. Castor, Pólux, Clitemnestra e Helena (futura Helena de Tróia, herdando a aura da mãe e a glória do pai), nascem assim de ovos, heróis e príncipes celebrados como pertencentes ao sublime reino dos céus.

Ainda nesse dia, um grandioso cisne regressa ao Olimpo. O pai dos deuses, após uma ausência de dois dias, retorna a casa. Leda guarda no coração a memória de uma paixão tórrida e inexplicável, ignorando por completo que o pai de seus filhos é Zeus, produtos de uma arrebatadora paixão combustada pela intrínseca beleza da espartana.


 
 
 
                   Leda e o Cisne, Leonardo Da Vinci, 1505-1510

 


Tiago Malhó Lorga Gomes

 

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