I.
Europa
Europa, princesa fenícia, conhecida
em todo o reino como uma jovem revestida de uma aura de extrema formosura,
capaz de fazer inveja a Afrodite, que tanto se contorce e arrepia no Olimpo
cada vez que o nome da princesa é mencionado. A gema africana concentra em si a
essência do continente selvagem e natural, indomável alma que se orna de grande
beleza, toda ela pura e natural, incólume e plena. Do milenar Nilo que se
espraia e combate o árido e imenso deserto, passando pelas vastas planícies
repletas de seres magníficos e soberbos, até as densas selvas onde abunda
mistério e variedade, e sem esquecer as terras costeiras que tanto encanto
conferem; se tempera a belíssima princesa Europa, focando no seu âmago uma
imensa paixão arrebatadora, que coincide na perfeição com o aspecto que
ostenta, demasiado perfeito para um mísero ser humano, que quase é idolatrado e
alvo de grande contemplação e reverência, qualidades que os deuses haviam
reservado somente para eles.
Europa passa os dias a divagar nos
jardins e nos prados, perdendo-se nos encantos da vida natural, que tanto a
agraciam e sublimam, livre de qualquer obrigação ou desgosto, usufruindo de uma
existência alva e abençoada. A beleza assoma a cada passo da personagem, mais
se assemelhando aos habitantes do Olimpo pela forma única com que as suas sedas
saboreiam e dançam ao sabor da quente brisa que o longínquo mas imenso deserto liberta,
ou do seu gesto sem paralelo, de uma graciosidade suprema, enorme elegância que
cativa e prende o olhar que espera não mais perder de vista aquele imensurável
deleite.
Assim correm os dias, sucessivos e
embevecidos num quotidiano imensamente feliz, sempre ornado de grande beleza,
uma eficaz efígie que atenta aos fundamentos da perfeição inatingível, que
neste caso é superada por uma simples mulher, nobre por sinal, quer de título
quer de carácter. Perde-se no tempo, saboreando os prazeres de descansar ao Sol
após um almoço completo e variado, fitando a imensidão do mar que exala um
vapor salino e refrescante, mas que tanta vida comporta e fascínio traz. O mar
é recortado por pequenas embarcações, em harmonia tal, que, por momentos e na
presença da referida mulher, qualquer um se crê no Paraíso, com jardins
impecáveis, simbolizando a união do Homem com a Natureza, duas forças
imensamente poderosas e indomáveis, livres como as aves que cruzam os céus e os
preenchem de canoras preces.
Certo dia, Europa colhia flores num
grande prado, todo ele verdejante e salpicado pela variedade de tonalidades que
as pétalas dançantes orgulhosamente mostravam, elaborando ramos simples e
equilibrados. A colheita, pacata e serena, é feita de manhã, quando as flores
despertam da amena noite que lhes furtou momentaneamente os pigmentos que as
fazem resplandecer, para acordarem com uma faceta inocente e pura. Subitamente,
na manada de touros negros que pastavam num terreno adjacente, eis que surge um
enorme vulto branco, um soberbo touro níveo, refulgindo pela sua unicidade, tão
diferente e grandioso.
Europa é imediatamente cativada
pelo novo animal de porte robusto, que tanto destoa no meio da manada que se
veste de preto. Com um ramo na mão esquerda, a princesa aproxima-se do referido
animal, com um passo natural e cortês, com a mesma devoção que apresentaria se
fosse colocar as flores num altar dedicado aos deuses do Olimpo. O grande
touro, manso e dócil, prende as suas órbitas na doce imagem da princesa que
inocentemente o observa com tanta curiosidade, encerrando em si o indomável e
plácido género africano.
A uma dada altura, Europa pára. O
touro mantém-se ali, parado, a contemplar a fenícia que tanto deve à formosura.
Inexplicável efeito provocado por uma inconsistente implacável motricidade, a
princesa ergue a sua alva mão direita, estendendo o seu braço até à testa do
animal albino. O contacto é estabelecido, ela saboreia o macio e cuidado pêlo
que tanto o destaca, e ele conforta-se com o calor que se liberta da sua
delicada e pequena mão. Nisto, o tempo pára. A brisa que derrubava as folhas
das grandes árvores que preenchem os prados esquece-se do seu propósito,
mantendo as folhas suspensas na atmosfera, os restantes animais imóveis, o mar
ao fundo calado e parado, uma melodia ecoa, imagem de um paraíso prometido,
maior ainda que o terreno que já tanto oferece e ostenta. Uma inexplicável aura
envolve os dois seres, desenhando auréolas douradas sobre o céu, bronzeando as
nuvens de um ouro imutável e deslumbrante, poético e arrebatador.
Europa fica encantada com o
possante touro, que lhe suscita uma sensação como nunca sentira, nada de
natural assim se manifesta, nem humano se conclui, talvez um poder divino, uma
força infinitamente imensurável que evita o contacto com o comum dos mortais e
que, por pura coincidência, se encerra no touro branco.
Num ímpeto apaixonado, Europa
senta-se no macio dorso do animal. O laço jamais será quebrado. Para horror
geral dos que assistem à cena sem nada dela extraírem, o touro eleva-se no ar,
levando consigo a princesa. Europa vê-se raptada por um eficaz disfarce, albino
touro que nada mais serviu para estabelecer contacto, célebre pela sua raridade
e excelência, nobreza e força, vertentes que jamais faltarão ao ilustre e
possante bovino.
Europa saboreia a brisa celestial.
Ao seu lado voam bandos de aves, como se participassem numa jubilante boda ou
numa apoteótica procissão, olhando para as superfícies terrenas a partir das
grandiosas alturas que todos cobrem e limitam, que geram ambição e desejo. O
continente africano termina e ruma-se ao desconhecido. Enquanto Europa e o
touro sobrevoam o mar, cardumes juntam-se à procissão dos alados, embora no
mar, mas movidos pela mesma força que reina nos seus corações: a plena harmonia
natural que celebra o amor. Subitamente, no horizonte envolto na mágoa do
nevoeiro, desenha-se a costa de um novo e desconhecido continente.
O destino é celeremente alcançado
em grande pompa, com os animais e os elementos reunidos neste apogeu que a
princesa não consegue explicar, de tal forma extasiada com o acontecimento,
mergulhada numa paixão profunda, esquecendo-se do que para trás deixa.
Aterra-se num novo continente. Europa sai do dorso do touro alvo. Surpreendentemente,
esta alegórica figura transforma-se em Zeus, que havia orquestrado esta farsa para
raptar a belíssima princesa fenícia que tanto interesse e desejo lhe suscitara.
Apresenta-se à mulher deslumbrada e oferece-lhe um trono e um continente,
futuramente baptizado em sua honra, pedindo em troca o seu incondicional e eterno
amor, devota força que o movera a actuar, de tal forma surpreendido pela sua
beleza não ser obra divina, mas antes o culminar da humana raça, ali materializado
na figura de Europa. A oferta é aceite sem qualquer ponderação. As preces são
ditas, os votos trocados, as carícias cambiadas, a sedução perpetrada. Três
filhos nascidos: Minos, Radamanto e Sarpedão.
Europa assim ficou, no continente
baptizado em sua honra, exilada da África que guarda no coração dominado por um
amor divino, sereno e absoluto.
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O Rapto de Europa, Ticiano, 1562
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II.
Ganimedes
O jovem pastor guarda o rebanho. É
mais um dia solarengo, quente e acolhedor. A água brota das nascentes que
ameaçam secar, as plantas deleitam-se com a luminosidade e com a brisa amena,
os animais descansam na sombra das oliveiras e dos sobreiros. Os grilos e as
cigarras presenteiam um concerto de sons característicos, aliando-se à
orquestra natural que se compõe na pauta da aragem. Paira o odor a malmequeres
e a terra lavrada, já seca e com saudades de chuva, da qual brotam culturas e débeis
árvores.
Ao longe sorri Tróia, que se
refastela antes de regressar ao labor depois das maiores horas de calor,
cidadela bem guarnecida, rica e poderosa, da qual é originário o pastor, um
jovem que vigia o rebanho do pai com grande afinco e dedicação. Despojado de
qualquer posse ou título, o jovem, de seu nome Ganimedes, é moldado pelas
estações e pelo desenrolar dos processos naturais, escutando as lições que a
brisa lhe ensina e partilhando dos saberes dos antigos que estão às portas da
morte, gente humilde e trabalhadora que aprendeu com a vida.
A sua educação é tradicional, pouco
controlada e fraca. Desconhece por completo os reinos que rodeiam a sua tão
amada Tróia, à qual é devoto, tal como o é aos deuses do Olimpo, magnificências
poderosas que são responsáveis pelo tecer do débil retalho do Fado em torno do
qual tudo orbita. Soa um trovão ou observa-se um falcão com uma serpente rubra
nas garras e imediatamente se procura explicação e esclarecimento de causa,
atribuindo-se a discussões divinas ou à falta de devoção do povo e de
sacrifícios.
Ganimedes, um jovem a quem a vida
promete ensinar, é visto como um indivíduo exemplar, humilde e bondoso, que ajuda
os que se encontram em dificuldades, apesar de discreto e modesto. A esta alma
simples e pura, alia-se um corpo belo e equilibrado, esculpido pelo passar dos
tempos, que encanta muitas jovens camponesas.
Recostado na copa de uma oliveira,
Ganimedes observa atentamente o rebanho, contando com meia dezena de carneiros,
duas dúzias de ovelhas e uma dezena de cordeiros, que pasta placidamente,
alguns deitados à sombra, outros a bebericar de um pequeno regato que corre
monte abaixo. Entregue aos seus pensamentos, humildes e singelos, o jovem
troiano reflecte na sua vida, paradoxalmente tão curta mas tão longa, cheia de
vivências quotidianas semelhantes, encantadas com relatos de histórias de
soldados e heróis, deuses e batalhas. Por mais que dê voltas à cabeça, não
consegue entender que justiça existe em envelhecer ou nos motivos que levam os
reinos à hostilidade. A terra que tem, propriedade de Tróia, representa tão bem
a abundância e o necessário à sobrevivência, benesses mais que suficientes para
louvar e agradecer eternamente aos deuses por terem concedido tal oportunidade:
a de viver. Correm-lhe pensamentos semelhantes enquanto almoça o pão que a sua
mãe lhe dera, acompanhado de uma maçã e seguido de um trago de vinho.
O Sol atinge o seu pico, o rebanho
estende-se nas sombras dos sobreiros e das oliveiras, o regato corre incessante
monte abaixo e o céu continua límpido, sem sinal de nuvens. No meio de toda
esta calmaria, com os camponeses a almoçar e a descansar, com o belíssimo
panorama troiano no horizonte, eis que surge uma enorme águia castanha.
A ave gigantesca inicia a manobra
de rapina e sobrevoa Ganimedes, movendo as suas garras para o apanhar. O jovem,
assustado com o monstro alado que desceu do reino dos céus, precipita-se para o
cajado mas não consegue chegar a tempo. Mal se levanta e a águia sobre ele
recai, derrubando-o e prendendo-o nas suas patas. A sólida e jovem carne sente
o frio das garras da ave. Subitamente, e com Ganimedes seguro contra vontade, a
águia voa, transportando o jovem que se debate contra o seu raptor.
Dá-se a ascensão da soberba águia, talvez a
maior presenciada em qualquer parte do vasto mundo, que reclama Ganimedes como
sua presa, elevando-o cada vez mais. O jovem contorce-se à medida que vê a
frondosa folhagem da oliveira a tornar-se gradualmente mais pequena, o rebanho
semelhante a pequenos seixos brancos, o regato revela-se um fino colar de prata
e o monte nada mais que uma miragem difusa. À sua frente a imensidão do céu,
sem limites nem fronteiras, de um azul mais claro que o marinho. Ganimedes
admira a paisagem, enquanto se acalma e tenta compreender para onde a águia o
carrega com tanto cuidado e afeição.
O voo dura tempo, sem noção de qual
a sua duração exacta ou aproximada, tal o êxtase que esmagou o jovem pastor
troiano que vive para o seu rebanho e para a sua família, não corrompido pelos
males do mundo, ainda uma mente pura e livre. A ave parece nutrir um especial
carinho pelo jovem, à medida que o envolve com as suas patas, equilíbrio
perturbado pela dinâmica alada do voo.
O destino é alcançado e a grandiosa
águia pousa Ganimedes. O jovem, meio desorientado, depara-se com uma montanha
enorme, de longe a maior que alguma vez vira, toda ela ornada de templos
brancos com mármore resplandecente, com enfeites a ouro, estátuas belíssimas e
grandes colunas elaboradas. Crê estar no Olimpo. O ar refinado e rarefeito, uma
temperatura agradável e amena, uma luminosidade exagerada, sempre envolta em
grande riqueza e num silêncio sepulcral.
Ganimedes retorna a observar a
águia e capta uma visão extrema: a da grande ave de rapina se metamorfosear,
despir a sua máscara e revelar Zeus, o pai dos deuses e dos homens, o grande
mestre do Olimpo, marido de Hera, astro poderosíssimo. Qual o espanto de
Ganimedes a observar a face do seu raptor, efígie que tantas vezes tinha
examinado nos templos, agora num realismo muito mais perfeito, ente supremo e magno.
Num momento de fraqueza, Zeus
declara-se apaixonado pelo jovem. Confidencia-lhe que se trata do homem mais
belo de toda a Grécia, e que se enganara ao acreditar que aquela perfeição não
poderia ser obra de mera ocasião humana. Ganimedes, tão puro e inocente, mal
acredita no que o pai dos deuses lhe diz e no que lhe oferece: juventude eterna
e um lugar perpétuo no Monte Olimpo, ficando responsável pelo servir do néctar
dos deuses, que ficam escandalizados com o comportamento obsceno de Zeus,
caprichoso ente que dispõe de paixões e de almas de uma forma insensível e
frívola. Eleva-se o comum dos mortais à etérea e prezada juventude, permitindo
conservar o corpo mas não o espírito, já corrompido pelas disputas divinas,
originadas pelo rapto do disfarce alado de Zeus, adepto da pederastia, prática
tão frequente na Grécia Antiga.
O pastor troiano vê-se imortal, com
uma posição de prestígio no Monte Olimpo ao servir a imortalidade e a distinção
aos outros deuses, apesar de não passar de um catamita de Zeus, o único dos
amantes ao qual garantiu a imortalidade, tal a afeição e a atracção. Com as
planícies e os rebanhos troianos no coração, Ganimedes desce do Olimpo e divaga
por aqueles prados verdejantes e cultivados, no mesmo monte onde fora raptado
pela soberba águia. Ao longe, Tróia exala fumos de labor, o mar contacta com a
costa; as essências misturam-se com a terra seca, o odor do gado e a casca dos
sobreiros. À sombra de uma oliveira, repousa o eterno jovem Ganimedes, herói
que arrebatou o coração de Zeus.
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O Rapto de Ganimedes, Rubens, 1611-1612
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III.
Leda
Leda, rainha espartana, esposa de Tíndaro. Famosa pela sua
lendária beleza, a rainha encanta qualquer súbdito que a olhe de relance. À
belíssima e formosa fachada, consegue aliar um temperamento instável, fechado e
tímido, com momentos de demente contemplação e auto-glorificação. Apesar de
este feitio por vezes egoísta e avaro, Leda tem vários momentos de serena
contemplação nos seus palácios, todos eles grandiosos e monumentais, ricos e
imensamente complexos.
Fiel a Tíndaro e devota, a rainha dispõe de um reino poderoso
e augusto, governado com grande autoridade, ornado de grandes colunas jónicas,
dóricas e coríntias, sempre numa atmosfera mediterrânea: as seculares oliveiras
nas planícies douradas, os pinheiros e as vinhas que recortam, ao longe, o mar,
os pastores e os humildes camponeses; enfim, uma beleza imensa, simples e sem
rival, campestre e deliciosamente filosófica.
Esparta, mãe de bravios guerreiros e de excelsas gentes,
encanta Leda. A cidade, baluarte bem fortificado e soberano, insere-se numa
imensa planície fértil, por onde calmo e plácido corre um rio de caudal
variável conforme as estações. Um dos passatempos favoritos de Leda é o de
navegar numa esplêndida barcaça, de se deixar levar pela corrente do leito
aquático, saboreando a paisagem que aglomera ruínas de templos e de cidadelas
com uma imensa mancha natural que conjuga harmonia e equilíbrio, conferindo
plenitude à rainha. Sente-se ainda mais bela à medida que é levada pelo rio,
fonte de vida e de inovação, admirando os patos e os gansos egípcios que por lá
se deslocam e alimentam.
Observa os jacintos e os nenúfares, todos eles floridos,
desejando saber nadar para se entranhar naquele meio tão belo mas tão fatal,
indomável mas sublime, perigoso mas fantástico. A água límpida, transparente,
revela os cardumes que circulam pelo curso de água, mostrando as pequenas algas
e os limos que se agarram às pedras e aos seixos do fundo, já polidos pelo
constante passar das cristalinas e refrescantes águas.
Certo dia, Leda navega na sua soberba barcaça, com cortinas
de seda rosa que esvoaçam ao relento. Uma andorinha voa rente às águas,
alimentando-se dos incómodos insectos que se acumulam nas margens e nos
baixios. Uma garça e meia dúzia de patos nadam no plácido rio, que neste dia em
especial parece uma delicada filigrana de prata, com uma corrente serena e
iluminada por um Sol vagaroso e mole, que aquece a atmosfera de uma essência
doce e quente. Vindo do nada e envolto numa elegância característica e suprema,
um cisne imponente surge no rio, de porte majestoso, doce e níveo, como o
prolongamento de um místico melancólico nevoeiro que paira sobre os campos
durante a madrugada.
A grande ave, ao contrário de muitas outras fugidias,
mostra-se afável e encantadora. Dirige-se, com um nadar sereníssimo e delicioso,
para a esplêndida embarcação que carrega a rainha deleitada por semelhante
visão: a de uma raridade suprema por terras mediterrâneas, um cisne proveniente
das frias terras nórdicas, com o seu semblante gracioso e real. Este animal
aproxima-se da barcaça, encabeçando-a numa procissão gloriosa, uma belíssima
embarcação elaborada, com uma monarca deitada a saborear as águas com os alvos
braços, à medida que, sobre ela, pairam sedas e cetins de uma leveza extrema,
que dançam ao sabor dos ventos e se deleitam ao sol; toda esta paradisíaca
imagem rematada por um cisne fora do seu ambiente natural, que confere um
exotismo preponderante às terras que se definem e constituem de vinhas,
olivais, urbes e vilas.
O cisne abranda e acompanha a barcaça, estando mesmo ao lado
de Leda que se extasia com a visão de um animal tão inocente e belo. Suavemente
afaga-lhe as asas, penugem alva de uma carícia doce e vibrante. A grandiosa ave
sobre à bordo e senta-se ao lado da rainha espartana, pousando a cabeça e o
longo pescoço sobre o seu peito, onde palpita um coração fragilizado por tanta
emoção. A mulher acaricia o cisne, abraçando-o e apertando-o contra si, perpetuando
aquele momento durante longos minutos até ao desembarque. O cisne voa para
longe e a rainha chora.
Passa sofridos momentos a pensar no amor que perdera,
irracional e insano, por um animal nobre e imensamente belo. Carpe e sofre, o
seu coração foi estilhaçado e assume a verdade de que não mais poderá restituir
emoções semelhantes às sentidas no rio, na presença da ave. Leda corre para uma
nascente próxima para se matar. Porém, quando a alcança, para sua surpresa,
encontra o sublime cisne. Este abraça-a com as suas doces asas, elevando o seu
pescoço para junto da face que chora de desespero, agora transmutado num
deleite total, escondido na penumbra do anoitecer e na húmida solidão da fonte.
Nessa mesma noite, Leda leva o cisne para os seus aposentos.
Dormem abraçados um no outro, vivendo um idílico sonho realista, intrínseca
inebriante fantasia. A relação é consumada, Leda adormece extasiada, esmagada
pelo culminar das sensações acumuladas naquele incrível dia.
No dia seguinte, Leda acorda nua. Ao seu lado, no mesmo local
onde estava o encantador cisne, repousam dois grandes ovos. A rainha apressa-se
a escondê-los do rei, que irrompe pelos aposentos para lhe desejar um bom dia,
mais um como tantos outros, crê o magno espartano. Nesse mesmo dia, Leda
assiste à eclosão dos ovos. Do primeiro surgem dois pequenos bebés, do segundo
duas pequenas bebés. O cisne aparece imediatamente a seguir, beijando a
incrédula espartana que ama esta mítica e soberba ave com todo o seu cândido e
humilde coração. É a última vez que o cisne aparece, a derradeira despedida.
Após fulgores e cúmulos de paixão, a rainha é deixada com os seus quatro filhos
que nasceram como a grandiosa ave, de dois ovos.
O rei Tíndaro aceita as crianças como sendo do seu sangue.
Castor, Pólux, Clitemnestra e Helena (futura Helena de Tróia, herdando a aura
da mãe e a glória do pai), nascem assim de ovos, heróis e príncipes celebrados
como pertencentes ao sublime reino dos céus.
Ainda nesse dia, um grandioso cisne regressa ao Olimpo. O pai
dos deuses, após uma ausência de dois dias, retorna a casa. Leda guarda no
coração a memória de uma paixão tórrida e inexplicável, ignorando por completo
que o pai de seus filhos é Zeus, produtos de uma arrebatadora paixão combustada
pela intrínseca beleza da espartana.
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Leda e o Cisne, Leonardo Da Vinci, 1505-1510
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Tiago Malhó Lorga Gomes



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