sábado, 20 de abril de 2013

Dramas Helénicos



I.                   Europa

Europa, princesa fenícia, conhecida em todo o reino como uma jovem revestida de uma aura de extrema formosura, capaz de fazer inveja a Afrodite, que tanto se contorce e arrepia no Olimpo cada vez que o nome da princesa é mencionado. A gema africana concentra em si a essência do continente selvagem e natural, indomável alma que se orna de grande beleza, toda ela pura e natural, incólume e plena. Do milenar Nilo que se espraia e combate o árido e imenso deserto, passando pelas vastas planícies repletas de seres magníficos e soberbos, até as densas selvas onde abunda mistério e variedade, e sem esquecer as terras costeiras que tanto encanto conferem; se tempera a belíssima princesa Europa, focando no seu âmago uma imensa paixão arrebatadora, que coincide na perfeição com o aspecto que ostenta, demasiado perfeito para um mísero ser humano, que quase é idolatrado e alvo de grande contemplação e reverência, qualidades que os deuses haviam reservado somente para eles.

Europa passa os dias a divagar nos jardins e nos prados, perdendo-se nos encantos da vida natural, que tanto a agraciam e sublimam, livre de qualquer obrigação ou desgosto, usufruindo de uma existência alva e abençoada. A beleza assoma a cada passo da personagem, mais se assemelhando aos habitantes do Olimpo pela forma única com que as suas sedas saboreiam e dançam ao sabor da quente brisa que o longínquo mas imenso deserto liberta, ou do seu gesto sem paralelo, de uma graciosidade suprema, enorme elegância que cativa e prende o olhar que espera não mais perder de vista aquele imensurável deleite.

Assim correm os dias, sucessivos e embevecidos num quotidiano imensamente feliz, sempre ornado de grande beleza, uma eficaz efígie que atenta aos fundamentos da perfeição inatingível, que neste caso é superada por uma simples mulher, nobre por sinal, quer de título quer de carácter. Perde-se no tempo, saboreando os prazeres de descansar ao Sol após um almoço completo e variado, fitando a imensidão do mar que exala um vapor salino e refrescante, mas que tanta vida comporta e fascínio traz. O mar é recortado por pequenas embarcações, em harmonia tal, que, por momentos e na presença da referida mulher, qualquer um se crê no Paraíso, com jardins impecáveis, simbolizando a união do Homem com a Natureza, duas forças imensamente poderosas e indomáveis, livres como as aves que cruzam os céus e os preenchem de canoras preces.

Certo dia, Europa colhia flores num grande prado, todo ele verdejante e salpicado pela variedade de tonalidades que as pétalas dançantes orgulhosamente mostravam, elaborando ramos simples e equilibrados. A colheita, pacata e serena, é feita de manhã, quando as flores despertam da amena noite que lhes furtou momentaneamente os pigmentos que as fazem resplandecer, para acordarem com uma faceta inocente e pura. Subitamente, na manada de touros negros que pastavam num terreno adjacente, eis que surge um enorme vulto branco, um soberbo touro níveo, refulgindo pela sua unicidade, tão diferente e grandioso.

Europa é imediatamente cativada pelo novo animal de porte robusto, que tanto destoa no meio da manada que se veste de preto. Com um ramo na mão esquerda, a princesa aproxima-se do referido animal, com um passo natural e cortês, com a mesma devoção que apresentaria se fosse colocar as flores num altar dedicado aos deuses do Olimpo. O grande touro, manso e dócil, prende as suas órbitas na doce imagem da princesa que inocentemente o observa com tanta curiosidade, encerrando em si o indomável e plácido género africano.

A uma dada altura, Europa pára. O touro mantém-se ali, parado, a contemplar a fenícia que tanto deve à formosura. Inexplicável efeito provocado por uma inconsistente implacável motricidade, a princesa ergue a sua alva mão direita, estendendo o seu braço até à testa do animal albino. O contacto é estabelecido, ela saboreia o macio e cuidado pêlo que tanto o destaca, e ele conforta-se com o calor que se liberta da sua delicada e pequena mão. Nisto, o tempo pára. A brisa que derrubava as folhas das grandes árvores que preenchem os prados esquece-se do seu propósito, mantendo as folhas suspensas na atmosfera, os restantes animais imóveis, o mar ao fundo calado e parado, uma melodia ecoa, imagem de um paraíso prometido, maior ainda que o terreno que já tanto oferece e ostenta. Uma inexplicável aura envolve os dois seres, desenhando auréolas douradas sobre o céu, bronzeando as nuvens de um ouro imutável e deslumbrante, poético e arrebatador.

Europa fica encantada com o possante touro, que lhe suscita uma sensação como nunca sentira, nada de natural assim se manifesta, nem humano se conclui, talvez um poder divino, uma força infinitamente imensurável que evita o contacto com o comum dos mortais e que, por pura coincidência, se encerra no touro branco.

Num ímpeto apaixonado, Europa senta-se no macio dorso do animal. O laço jamais será quebrado. Para horror geral dos que assistem à cena sem nada dela extraírem, o touro eleva-se no ar, levando consigo a princesa. Europa vê-se raptada por um eficaz disfarce, albino touro que nada mais serviu para estabelecer contacto, célebre pela sua raridade e excelência, nobreza e força, vertentes que jamais faltarão ao ilustre e possante bovino.

Europa saboreia a brisa celestial. Ao seu lado voam bandos de aves, como se participassem numa jubilante boda ou numa apoteótica procissão, olhando para as superfícies terrenas a partir das grandiosas alturas que todos cobrem e limitam, que geram ambição e desejo. O continente africano termina e ruma-se ao desconhecido. Enquanto Europa e o touro sobrevoam o mar, cardumes juntam-se à procissão dos alados, embora no mar, mas movidos pela mesma força que reina nos seus corações: a plena harmonia natural que celebra o amor. Subitamente, no horizonte envolto na mágoa do nevoeiro, desenha-se a costa de um novo e desconhecido continente.

O destino é celeremente alcançado em grande pompa, com os animais e os elementos reunidos neste apogeu que a princesa não consegue explicar, de tal forma extasiada com o acontecimento, mergulhada numa paixão profunda, esquecendo-se do que para trás deixa. Aterra-se num novo continente. Europa sai do dorso do touro alvo. Surpreendentemente, esta alegórica figura transforma-se em Zeus, que havia orquestrado esta farsa para raptar a belíssima princesa fenícia que tanto interesse e desejo lhe suscitara. Apresenta-se à mulher deslumbrada e oferece-lhe um trono e um continente, futuramente baptizado em sua honra, pedindo em troca o seu incondicional e eterno amor, devota força que o movera a actuar, de tal forma surpreendido pela sua beleza não ser obra divina, mas antes o culminar da humana raça, ali materializado na figura de Europa. A oferta é aceite sem qualquer ponderação. As preces são ditas, os votos trocados, as carícias cambiadas, a sedução perpetrada. Três filhos nascidos: Minos, Radamanto e Sarpedão.

Europa assim ficou, no continente baptizado em sua honra, exilada da África que guarda no coração dominado por um amor divino, sereno e absoluto.


                                                  O Rapto de Europa, Ticiano, 1562

 

 

 

II.                 Ganimedes

O jovem pastor guarda o rebanho. É mais um dia solarengo, quente e acolhedor. A água brota das nascentes que ameaçam secar, as plantas deleitam-se com a luminosidade e com a brisa amena, os animais descansam na sombra das oliveiras e dos sobreiros. Os grilos e as cigarras presenteiam um concerto de sons característicos, aliando-se à orquestra natural que se compõe na pauta da aragem. Paira o odor a malmequeres e a terra lavrada, já seca e com saudades de chuva, da qual brotam culturas e débeis árvores.

Ao longe sorri Tróia, que se refastela antes de regressar ao labor depois das maiores horas de calor, cidadela bem guarnecida, rica e poderosa, da qual é originário o pastor, um jovem que vigia o rebanho do pai com grande afinco e dedicação. Despojado de qualquer posse ou título, o jovem, de seu nome Ganimedes, é moldado pelas estações e pelo desenrolar dos processos naturais, escutando as lições que a brisa lhe ensina e partilhando dos saberes dos antigos que estão às portas da morte, gente humilde e trabalhadora que aprendeu com a vida.

A sua educação é tradicional, pouco controlada e fraca. Desconhece por completo os reinos que rodeiam a sua tão amada Tróia, à qual é devoto, tal como o é aos deuses do Olimpo, magnificências poderosas que são responsáveis pelo tecer do débil retalho do Fado em torno do qual tudo orbita. Soa um trovão ou observa-se um falcão com uma serpente rubra nas garras e imediatamente se procura explicação e esclarecimento de causa, atribuindo-se a discussões divinas ou à falta de devoção do povo e de sacrifícios.

Ganimedes, um jovem a quem a vida promete ensinar, é visto como um indivíduo exemplar, humilde e bondoso, que ajuda os que se encontram em dificuldades, apesar de discreto e modesto. A esta alma simples e pura, alia-se um corpo belo e equilibrado, esculpido pelo passar dos tempos, que encanta muitas jovens camponesas.

Recostado na copa de uma oliveira, Ganimedes observa atentamente o rebanho, contando com meia dezena de carneiros, duas dúzias de ovelhas e uma dezena de cordeiros, que pasta placidamente, alguns deitados à sombra, outros a bebericar de um pequeno regato que corre monte abaixo. Entregue aos seus pensamentos, humildes e singelos, o jovem troiano reflecte na sua vida, paradoxalmente tão curta mas tão longa, cheia de vivências quotidianas semelhantes, encantadas com relatos de histórias de soldados e heróis, deuses e batalhas. Por mais que dê voltas à cabeça, não consegue entender que justiça existe em envelhecer ou nos motivos que levam os reinos à hostilidade. A terra que tem, propriedade de Tróia, representa tão bem a abundância e o necessário à sobrevivência, benesses mais que suficientes para louvar e agradecer eternamente aos deuses por terem concedido tal oportunidade: a de viver. Correm-lhe pensamentos semelhantes enquanto almoça o pão que a sua mãe lhe dera, acompanhado de uma maçã e seguido de um trago de vinho.

O Sol atinge o seu pico, o rebanho estende-se nas sombras dos sobreiros e das oliveiras, o regato corre incessante monte abaixo e o céu continua límpido, sem sinal de nuvens. No meio de toda esta calmaria, com os camponeses a almoçar e a descansar, com o belíssimo panorama troiano no horizonte, eis que surge uma enorme águia castanha.

A ave gigantesca inicia a manobra de rapina e sobrevoa Ganimedes, movendo as suas garras para o apanhar. O jovem, assustado com o monstro alado que desceu do reino dos céus, precipita-se para o cajado mas não consegue chegar a tempo. Mal se levanta e a águia sobre ele recai, derrubando-o e prendendo-o nas suas patas. A sólida e jovem carne sente o frio das garras da ave. Subitamente, e com Ganimedes seguro contra vontade, a águia voa, transportando o jovem que se debate contra o seu raptor.

 Dá-se a ascensão da soberba águia, talvez a maior presenciada em qualquer parte do vasto mundo, que reclama Ganimedes como sua presa, elevando-o cada vez mais. O jovem contorce-se à medida que vê a frondosa folhagem da oliveira a tornar-se gradualmente mais pequena, o rebanho semelhante a pequenos seixos brancos, o regato revela-se um fino colar de prata e o monte nada mais que uma miragem difusa. À sua frente a imensidão do céu, sem limites nem fronteiras, de um azul mais claro que o marinho. Ganimedes admira a paisagem, enquanto se acalma e tenta compreender para onde a águia o carrega com tanto cuidado e afeição.

O voo dura tempo, sem noção de qual a sua duração exacta ou aproximada, tal o êxtase que esmagou o jovem pastor troiano que vive para o seu rebanho e para a sua família, não corrompido pelos males do mundo, ainda uma mente pura e livre. A ave parece nutrir um especial carinho pelo jovem, à medida que o envolve com as suas patas, equilíbrio perturbado pela dinâmica alada do voo.

O destino é alcançado e a grandiosa águia pousa Ganimedes. O jovem, meio desorientado, depara-se com uma montanha enorme, de longe a maior que alguma vez vira, toda ela ornada de templos brancos com mármore resplandecente, com enfeites a ouro, estátuas belíssimas e grandes colunas elaboradas. Crê estar no Olimpo. O ar refinado e rarefeito, uma temperatura agradável e amena, uma luminosidade exagerada, sempre envolta em grande riqueza e num silêncio sepulcral.

Ganimedes retorna a observar a águia e capta uma visão extrema: a da grande ave de rapina se metamorfosear, despir a sua máscara e revelar Zeus, o pai dos deuses e dos homens, o grande mestre do Olimpo, marido de Hera, astro poderosíssimo. Qual o espanto de Ganimedes a observar a face do seu raptor, efígie que tantas vezes tinha examinado nos templos, agora num realismo muito mais perfeito, ente supremo e magno.

Num momento de fraqueza, Zeus declara-se apaixonado pelo jovem. Confidencia-lhe que se trata do homem mais belo de toda a Grécia, e que se enganara ao acreditar que aquela perfeição não poderia ser obra de mera ocasião humana. Ganimedes, tão puro e inocente, mal acredita no que o pai dos deuses lhe diz e no que lhe oferece: juventude eterna e um lugar perpétuo no Monte Olimpo, ficando responsável pelo servir do néctar dos deuses, que ficam escandalizados com o comportamento obsceno de Zeus, caprichoso ente que dispõe de paixões e de almas de uma forma insensível e frívola. Eleva-se o comum dos mortais à etérea e prezada juventude, permitindo conservar o corpo mas não o espírito, já corrompido pelas disputas divinas, originadas pelo rapto do disfarce alado de Zeus, adepto da pederastia, prática tão frequente na Grécia Antiga.

O pastor troiano vê-se imortal, com uma posição de prestígio no Monte Olimpo ao servir a imortalidade e a distinção aos outros deuses, apesar de não passar de um catamita de Zeus, o único dos amantes ao qual garantiu a imortalidade, tal a afeição e a atracção. Com as planícies e os rebanhos troianos no coração, Ganimedes desce do Olimpo e divaga por aqueles prados verdejantes e cultivados, no mesmo monte onde fora raptado pela soberba águia. Ao longe, Tróia exala fumos de labor, o mar contacta com a costa; as essências misturam-se com a terra seca, o odor do gado e a casca dos sobreiros. À sombra de uma oliveira, repousa o eterno jovem Ganimedes, herói que arrebatou o coração de Zeus.
 
 
O Rapto de Ganimedes, Rubens, 1611-1612
 

III.              Leda

Leda, rainha espartana, esposa de Tíndaro. Famosa pela sua lendária beleza, a rainha encanta qualquer súbdito que a olhe de relance. À belíssima e formosa fachada, consegue aliar um temperamento instável, fechado e tímido, com momentos de demente contemplação e auto-glorificação. Apesar de este feitio por vezes egoísta e avaro, Leda tem vários momentos de serena contemplação nos seus palácios, todos eles grandiosos e monumentais, ricos e imensamente complexos.

Fiel a Tíndaro e devota, a rainha dispõe de um reino poderoso e augusto, governado com grande autoridade, ornado de grandes colunas jónicas, dóricas e coríntias, sempre numa atmosfera mediterrânea: as seculares oliveiras nas planícies douradas, os pinheiros e as vinhas que recortam, ao longe, o mar, os pastores e os humildes camponeses; enfim, uma beleza imensa, simples e sem rival, campestre e deliciosamente filosófica.

Esparta, mãe de bravios guerreiros e de excelsas gentes, encanta Leda. A cidade, baluarte bem fortificado e soberano, insere-se numa imensa planície fértil, por onde calmo e plácido corre um rio de caudal variável conforme as estações. Um dos passatempos favoritos de Leda é o de navegar numa esplêndida barcaça, de se deixar levar pela corrente do leito aquático, saboreando a paisagem que aglomera ruínas de templos e de cidadelas com uma imensa mancha natural que conjuga harmonia e equilíbrio, conferindo plenitude à rainha. Sente-se ainda mais bela à medida que é levada pelo rio, fonte de vida e de inovação, admirando os patos e os gansos egípcios que por lá se deslocam e alimentam.

Observa os jacintos e os nenúfares, todos eles floridos, desejando saber nadar para se entranhar naquele meio tão belo mas tão fatal, indomável mas sublime, perigoso mas fantástico. A água límpida, transparente, revela os cardumes que circulam pelo curso de água, mostrando as pequenas algas e os limos que se agarram às pedras e aos seixos do fundo, já polidos pelo constante passar das cristalinas e refrescantes águas.

Certo dia, Leda navega na sua soberba barcaça, com cortinas de seda rosa que esvoaçam ao relento. Uma andorinha voa rente às águas, alimentando-se dos incómodos insectos que se acumulam nas margens e nos baixios. Uma garça e meia dúzia de patos nadam no plácido rio, que neste dia em especial parece uma delicada filigrana de prata, com uma corrente serena e iluminada por um Sol vagaroso e mole, que aquece a atmosfera de uma essência doce e quente. Vindo do nada e envolto numa elegância característica e suprema, um cisne imponente surge no rio, de porte majestoso, doce e níveo, como o prolongamento de um místico melancólico nevoeiro que paira sobre os campos durante a madrugada.

A grande ave, ao contrário de muitas outras fugidias, mostra-se afável e encantadora. Dirige-se, com um nadar sereníssimo e delicioso, para a esplêndida embarcação que carrega a rainha deleitada por semelhante visão: a de uma raridade suprema por terras mediterrâneas, um cisne proveniente das frias terras nórdicas, com o seu semblante gracioso e real. Este animal aproxima-se da barcaça, encabeçando-a numa procissão gloriosa, uma belíssima embarcação elaborada, com uma monarca deitada a saborear as águas com os alvos braços, à medida que, sobre ela, pairam sedas e cetins de uma leveza extrema, que dançam ao sabor dos ventos e se deleitam ao sol; toda esta paradisíaca imagem rematada por um cisne fora do seu ambiente natural, que confere um exotismo preponderante às terras que se definem e constituem de vinhas, olivais, urbes e vilas.

O cisne abranda e acompanha a barcaça, estando mesmo ao lado de Leda que se extasia com a visão de um animal tão inocente e belo. Suavemente afaga-lhe as asas, penugem alva de uma carícia doce e vibrante. A grandiosa ave sobre à bordo e senta-se ao lado da rainha espartana, pousando a cabeça e o longo pescoço sobre o seu peito, onde palpita um coração fragilizado por tanta emoção. A mulher acaricia o cisne, abraçando-o e apertando-o contra si, perpetuando aquele momento durante longos minutos até ao desembarque. O cisne voa para longe e a rainha chora.

Passa sofridos momentos a pensar no amor que perdera, irracional e insano, por um animal nobre e imensamente belo. Carpe e sofre, o seu coração foi estilhaçado e assume a verdade de que não mais poderá restituir emoções semelhantes às sentidas no rio, na presença da ave. Leda corre para uma nascente próxima para se matar. Porém, quando a alcança, para sua surpresa, encontra o sublime cisne. Este abraça-a com as suas doces asas, elevando o seu pescoço para junto da face que chora de desespero, agora transmutado num deleite total, escondido na penumbra do anoitecer e na húmida solidão da fonte.

Nessa mesma noite, Leda leva o cisne para os seus aposentos. Dormem abraçados um no outro, vivendo um idílico sonho realista, intrínseca inebriante fantasia. A relação é consumada, Leda adormece extasiada, esmagada pelo culminar das sensações acumuladas naquele incrível dia.

No dia seguinte, Leda acorda nua. Ao seu lado, no mesmo local onde estava o encantador cisne, repousam dois grandes ovos. A rainha apressa-se a escondê-los do rei, que irrompe pelos aposentos para lhe desejar um bom dia, mais um como tantos outros, crê o magno espartano. Nesse mesmo dia, Leda assiste à eclosão dos ovos. Do primeiro surgem dois pequenos bebés, do segundo duas pequenas bebés. O cisne aparece imediatamente a seguir, beijando a incrédula espartana que ama esta mítica e soberba ave com todo o seu cândido e humilde coração. É a última vez que o cisne aparece, a derradeira despedida. Após fulgores e cúmulos de paixão, a rainha é deixada com os seus quatro filhos que nasceram como a grandiosa ave, de dois ovos.

O rei Tíndaro aceita as crianças como sendo do seu sangue. Castor, Pólux, Clitemnestra e Helena (futura Helena de Tróia, herdando a aura da mãe e a glória do pai), nascem assim de ovos, heróis e príncipes celebrados como pertencentes ao sublime reino dos céus.

Ainda nesse dia, um grandioso cisne regressa ao Olimpo. O pai dos deuses, após uma ausência de dois dias, retorna a casa. Leda guarda no coração a memória de uma paixão tórrida e inexplicável, ignorando por completo que o pai de seus filhos é Zeus, produtos de uma arrebatadora paixão combustada pela intrínseca beleza da espartana.


 
 
 
                   Leda e o Cisne, Leonardo Da Vinci, 1505-1510

 


Tiago Malhó Lorga Gomes

 

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Pedra da Loucura


Pedra da Loucura


 
 

O louco passa infindas horas a contemplar o vazio, vício que lhe consome os dias, observando o espaço difuso e extremo que o separa das paredes. Sempre na mesma pose alucinada e compenetrada, os seus olhos vítreos e imóveis, desprendidos da essência da vivaz claridade, parecem mortos, tal a absurda contemplação que se perde no vago vazio, na inexistência do concreto, na difusão do nada. A observação não passa disso, uma mera persistência em fitar o ar gasto e imutável, um acto que não apela à racionalidade nem à meditação; uma acção despojada de qualquer consequência e efeito, realizada por um motivo desconhecido, por uma motricidade que impele sem se querer justificar, solene por si só, irreverente força inexplicável que conduz à repetitiva condição: a de fitar o nada que existe no mundo, sem suscitar um mínimo poder filosófico ou reflexivo, uma das poucas acções que se define por si mesma, só ela, sem razão nem argumento. Acontece, ocorre e repete-se.

O louco, confinado na sua pequena cela a que vulgo denomina de alma, vive, ou melhor, faz por viver. Sobrevive em mundos que não o real, sendo atormentado pelas inesperadas visitas de um vulto negro que se senta ao seu lado. Não pronuncia palavra nem mostra emoção, apenas se mostra ao louco quando este menos quer e espera, amedrontado pela figura misteriosa que nem bem nem mal traz, somente uma incómoda presença. Enquanto, no seu jeito alienado e senil, se apaixona pelo vazio que nada lhe suscita, a figura enegrecida senta-se a seu lado, participando na epopeia figurada em loucura e insensatez, derrotando alucinações que ocasionalmente fazem questão em aparecer e em estragar a serena e pacata miragem do infinito entre as paredes, sob a forma de variadas criaturas mitológicas, estranhas quimeras que apelam a uma originalidade demente e macabra: são grandes lagartos alados, que cospem labaredas de terra, com restos de cadáveres humanos a fazer de escamas, enegrecidos e pardacentos, olhos gigantescos que se desdobram e que espelham um horror sem paralelo, figurando imagens apocalípticas de árvores carbonizadas das quais pendem pássaros com as asas cortadas, de naus conduzidas no reino dos céus, movidas a um vapor que consome cal e que tinge o ar de púrpura, ou de grandes marchas para a morte em planícies desertas e ardentes.

As figuras atormentam o louco, que as jura verídicas, tal o pormenor e o realismo com que o perseguem, aparecendo do nada, descrevendo círculos em volta do desesperado, gozando com ele, espicaçando-lhe a réstia de esperança e de valor, esfumando-se obliterados em globos de luz escarlate, tonalidade enferma e doentia, febril e insana. Com estas malogradas aparições, o louco exalta-se, grita, solta bramidos exasperados, revelando o abismo de demente pânico onde se aloja, soltando frases sem sentido nem ordem, em tons elevados e excessivamente expressivos, de uma credulidade mínima e desconfiada.

Dirige-se às sagradas paredes para se declarar, os seus pecados e vícios, como o de imaginar, antes de adormecer, um enorme obelisco que se ergue no centro de uma praça (sempre a mesma imutável praça), de uma cidade que não visitara, apresentando nos extremos estátuas equestres. Soa um trovão imponente, que desarma o louco que ao sono se quer entregar. Com este aviso sonoro, uma imensa corja de pequenos demónios escuros e barbudos ocupam a praça, desordeiramente, iniciando uma orgia de movimentos e de destruição. Consomem-se uns aos outros, em actos obscenos, eróticos e depravados, terminando num enorme banquete canibal, prostrados no chão da praça após os momentos de um desejo saciado, entregando-se ao menu, numa mescla de atrocidades e corpos despedaçados, sangrando a terra e o ar, elevando-se míticas nuvens do solo contaminado. O sonho prolonga-se, envolvendo duas grandes feras, estranhas e ameaçadoras, que libertam tremendos rugidos. Termina sempre da mesma forma, um grande grifo atingido por uma certeira seta envenenada, tombando das alturas, atingindo o chão, momento que faz despertar, com um grito, o pobre homem atormentado pela loucura insana, no meio de quentes suores na enferma e mística escuridão da noite.

Os dias correm, voam, não existem. Se a vida fosse toda ela um dia, seria passada no mesmo local, imóvel e constante. O louco come o almoço que lhe dão, engasgando-se com a comida que engole por reflexo e necessidade, desconfiado do que ingere, murmurando frases sem nexo nem sentido, olhando com cautela a taça de água que lhe deixaram. Caminha a custo, imundo e desgrenhado, pelos campos, onde é motivo de chacota e de risos, perdendo-se pelo vasto horizonte que lhe desenha ameaças e de onde surgem, a grande velocidade, naus que cortam os prados, lavrando-os de estranhas colunas repletas de sapos lamacentos e grandes, que regurgitam pequeníssimas ninfas que ascendem para o céu que já se está a tornar carmim novamente, onde se organiza um enxame de carruagens conduzidas por estranhos homens, pendendo montes de palha molhada. Com estas recorrentes visões, o louco que não sabe quem é, nem o que faz, cai redondo no chão, desmaia, apaga-se, demite-se da visão e da inconsciente consciência que lhe deturpa a mente e a realidade, que lhe escapa por entre as trémulas mãos, desperdiçando a oportunidade de ter vivido são e abençoado pela santa lucidez que sobriamente tenta explicar e justificar tudo o que tão coordenadamente vê.

Acorda numa sepultura. Com sete palmos de terra em cima da sua cabeça, o louco crê-se perdido numa festa excessivamente jubilante, com foliões mascarados que cantam uma toada sonante, que parece ser bastante popular por entre estas gentes. A luz apaga-se, murmura uns quantos ditos que uma freira uma vez lhe ensinara, e acorda no seu quarto, sem sepultura nem festa à vista. Ergue-se no meio da escuridão, iniciando uma leve mutilação. Com as unhas sujas e afiadas, diverte-se a arranhar os braços, avidamente pressionando-as contra a pele gasta e débil. Continua a acelerar o ritmo e alcança o pretendido – uma sensação incólume que culmina num orgasmo de sangue e dor, exalados do braço sacrificado e explorado.

Volta a adormecer. Daí a pouco já o estão a despertar, e ele, perdido da mágoa da realidade, senta-se no banco e contempla o vazio. Não quer saber do tempo que lá fora se manifesta, da morte de duas crianças no bosque ou da boda de dois habitantes. Apenas se limita a observar o mesmo vazio, numa rotina invariável, expressa da mesma forma ano após ano, envergando sempre o mesmo traje, quase diria o mesmo aspecto, mas nem o efeito esmagador do tempo poupa o miserável que sofre e pena, absolvido pelos seus pecados não serem realizados de consciência plena, livre de malícia e de manha. A face característica, alienada da condição humana e da sociedade, revela um eremita cativo da loucura. É impelido a cometer actos desnecessários e irrisórios, grotescos e caricatos, tais como andar em círculos durante alguns minutos, tombando após o degradante e desorientado acto; ou ainda de arrancar a escassa cabeleira que lhe cobre a nuca, como se tentasse proceder à prometida extracção da pedra da loucura que se aloja dentro da sua cabeça, tão intrínseca e profunda, bem enraizada no cérebro corrompido pela essência pura e descabida, insolente que ali se implanta e arruína a vida de um homem, que seria mais um entre tantos outros, com poder de pensar e de ser consciente, se vê motivo de escárnio e sofrimento. Tenta em vão retirar a pedra que tão bem se aloja e parasita a sua mente gasta e enfeitiçada pela sua errónea presença. Quando o faz, parece que despoleta um mecanismo de defesa da própria pedra da loucura, agravando ainda mais a sua condição, mirando assustadores espectros deformados, humanóides que exalam odores fortes e repugnantes, caminhantes na sombra dos mortos que lhe invadem a cabeça num tormento sem fim nem sentido, aguardando freneticamente a morte que lhe ceifará a existência embevecida e mergulhada nos vapores da sólida e concentrada loucura que tanto deturpa e muda.

O pobre miserável, por vezes encontrado em posturas habituais e repetitivas, vive num cativeiro de dor e medo. Descem sobre ele as estrelas da noite que tanto respeito e temor lhe incutem, cortam lhe as pernas os pequenos demónios dentados que se escondem nas esquinas das ruas, cegam-no a ofuscante luz das palavras ditas por dois cães escanzelados, ferem-no os bolbos das flores dos campos que tanto se assemelham com a pedra que carrega consigo, infame martírio inerte e incurável.

Louco, insano, alienado, demente. Maluco, tonto, tolo. Vários rótulos carrega o mísero que tenta saborear uma alma sem polpa nem recheio, aturdida e discriminada, despojada de sentimento e de segurança. Mergulha num desespero constante, o desconfiar das súbitas aparições demoníacas e bizarras que o consomem numa maré de alegorias monstruosas que não apresentam misericórdia nem piedade, devorando partes e estilhaços do homem que por vezes se julga inquisidor, condenado ou camponês, construindo realidades invalidadas pelos factos que friamente se fazem impor. É invadido por nostálgicas memórias de grandes explorações em densas selvas e por navegações perigosas em mares desconhecidos, timbrando essas recordações como a de uma vida que tivera, nada mais que fantasiosas alucinações irrealistas e disparatadas.

Outrora dono de uma vastíssima fortuna, coroando-se proprietário de grandes herdades e palácios, o louco debate com o vulto que se senta ao seu lado, e que nunca emite som, defendendo e recordado o seu passado áureo, pesado a ouro pela monumentalidade de títulos nobiliárquicos de fazer inveja a reis e a imperadores, excessivamente compridos e raramente duas vezes repetidos, que tiram o fôlego roubado pelo aflorar de ideias irrealistas de uma utópica mente perturbada pela pedra, tantas vezes invadida a sua sacra e religiosa privacidade por tremendas bestas que impõem um medo de morte, antes viesse essa outra figura, igualmente de negro mas mais cadavérica, findar o atroz sofrimento a que é submetido pela acção da infame matéria.

Loucura, imperatriz, fidalga e formosa, consegue apresentar uma intrínseca dualidade: a de corromper e a de iludir. Corrompe a vida, caso seja absorvida e manifestada em grande escala, proporcionando visões apocalípticas e exasperantes que provocam dores excruciantes que dilaceram a alma indefesa. Caso seja consumida em pequenas doses, pode levar a um desentendimento ou a um episódio desmedido.

Por outro lado ilude. Efeito mágico e lendário, a loucura não é concreta. Pode ser que o próprio mundo esteja mergulhado nas suas águas, e que apenas os loucos sejam conscientes e plenos, subvertendo o sistema, sem que ninguém dê por isso. Loucura inexplicável, que se camufla com inúmeros artifícios, que não se deixa desvendar, que é intrínseca e ínfima parte de cada um de nós, demente ou justificada, grandiosa ou absurda, apaixonada ou letal.

A pedra resiste, subverte e discrimina. Cria imaginários únicos e caricatos, assustadores ou graciosos; inventa passados e histórias. Entranha-se na mente, rapta-a e cega-a. Loucura disformemente insana, austero castigo desesperante, prolongando-se até ao infinito que se observa no vazio do qual brotam sementes alucinadas e desvairadas da razão de ser e de existir (se é que não esteja já corrompida pela loucura), incerta amazona que se revela e que, ao mesmo tempo, não se quer deixar apanhar nem definir, podendo mergulhar todo o mundo nos seus mares sem que ele dê conta.

Sentam o louco numa cadeira. Apresenta uma postura contida pela corda que o prende, tentando imobilizá-lo. O médico, com um funil na cabeça, prepara-se para a delicada operação, na qual apresenta alguma prática e destreza. Uma mulher não menos louca, com amuletos e um livro, assiste à cena, disferindo um olhar fixo e compenetrado. Uma flor repousa na mesa à sua frente, na qual se apoia. Um terceiro homem, com ar de sacerdote, contempla o louco, vestido do mesmo negro com que a estranha e calada figura se orna. A operação inicia-se com uma grosseira incisão na abóbada craniana. Após breves segundos, extrai-se nada mais que um bolbo que, em contacto com a atmosfera, começa a desabrochar, mostrando uma flor igual à que no cimo da mesa descansa. A incisão é suturada e o louco respira. Está livre.

Ao contemplar esta caricata cena, com um charlatão a retirar a pedra da loucura, que afinal se revelou bolbo, a um louco que foi formatado e nascido para o mundo onde a demência abunda sobre variadas formas, uma mulher com um livro na cabeça e um velho crédulo; se delicia a santa e aristocrata loucura, protagonista da maior conspiração a que o mundo alguma vez assistira, por ela corrompido e iludido. O seu manto prevalece.
 
 
          A Extracção da Pedra da Loucura, Hieronymus Bosch
 
 
 
Tiago Malhó Lorga Gomes
 
 
 

sábado, 6 de abril de 2013

Nostalgia, Saudade e Memória

Nostalgia, Saudade e Memória


 

Mágoa do velho império. Inexplicável invasão de fulgor amargo. Tremendo sopro arrebatador. Saudosas memórias de tempos que nunca mais voltarão.


 
Ouve-se a música, uma chorada prece, saboreia-se o panorama do salão fechado e indiferente à passagem das modas, conservador e antigo, repara-se no odor a mofo e a pó, alvo de respeito e reverência. Os livros repousam nas estantes, como tombados guerreiros que encontraram uma infinita paz, apesar de estarem sempre presentes nas preces dos crentes e nas bocas dos crédulos. Os candelabros foscos, encortiçados, desgastados pela cera que nunca mais voltou a aquecer, pelas velas que não foram acesas, pelos fumos não exalados, pela luz ausente e omitida. As grandes cortinas, senhoras magnas e régias do salão, guardam o casto e isolado ambiente, impedindo o triunfo da claridade sob a treva, absorvendo avaramente os raios que recordariam grandes esplendores, festas e convívios, palavras e actos de gente findada e entregue à terra.

As fotografias contemplam a imensidão do vazio imutável, na sua graça escurecida e primordial, captando os corpos que não mais existem, as almas que dentro deles se encerravam, e um momento solene e venerável. Os olhos percorrem as galerias de lembranças que se espalham pela grande secretária, acendendo chamas e focos há muito esquecidos. As mãos agarram uma carta amarrotada e um pequeno óculo, sentido a sua delicadeza e o gélido abandono a que foram submetidos, suscitando memórias de outros tempos, curiosos episódios que se julgavam perdidos no infame e incessante vórtex que tudo suga e reclama. A carta conserva uma essência doce e milagrosa. Por segundos, um odor paradisíaco paira no ar condensado e gasto, invadindo a personagem de uma amálgama de radiantes sentimentos, despertos por sensacionais sopros que arrancam a razão e o presente, mutando o sórdido e plácido salão num estupendo espaço de excelência e brilho, agitação e vida.

O salão transforma-se. O tecto resplandece com o enorme fresco que coroa a divisão, ornado de um azul cristalino e puro, de pigmento raro e precioso, com arabescos dourados que embelezam a composição que encima o chão de mármore, presentemente esbatido e morto, que se espelha límpido e pristino. Os candelabros de ouro iluminam os locais aos quais os possantes raios solares não alcançam, encantando e submetendo o visitante a uma tremenda claridade. Nas paredes forradas a veludo e seda, pendem quadros impressionantes, todos eles de grande detalhe e qualidade, obras de hábeis artistas.

Uma enorme maré invade o salão. O mármore é coberto pela fria e impetuosa água que submerge os tapetes persas e os pés da grande mesa. A maresia reina, encantando com o odor salino característico, húmido e penetrante, entranhando-se na madeira das estantes e das cadeiras. Um turbilhão de águas devora e derruba alguns quadros, aniquila as cartas e os documentos, desfaz livros e cetins, corrói porcelanas e serviços de prata. Extasiada com o local, a maré não sabe por onde começar, tal o fascínio pela variedade e pelas memórias que os objectos lhe suscitam inocentemente, parte integrante de um passado que se debate para escapar às malhas do esquecimento.

A maré transborda. A personagem chora, solta incessantes lágrimas de saudade pelos tempos que não mais ousaram voltar, impérios e reinos perdidos, paixões esquecidas e apagadas, pessoas e feitos relembrados, a diferença e a impressão causadas pela panóplia de instrumentos mnemónicos que se espalham aleatoriamente pelo salão, alguns que despertam fortes emoções, outros uma ligeira indiferença.

Músicas de antigamente, carregadas de um negativismo, de uma saudosa melancolia, um pesaroso desgosto que se embrenha na ânsia de reviver, de retornar, de ultrapassar o impetuoso efeito temporal que tudo separa e delimita; músicas de alma e coração feitas, composições expressas com extrema carícia e apego pelo passado que longe vai, cada vez mais inatingível e inalcançável, cada vez menos material e concreto; músicas nostálgicas e tristonhas, ausentes de razão de ser; músicas sentidas e sentimentais, puras e castas, martírio do presente que corre sem parar, afastando-se do outrora que escorre, que se esvai em morte, em desespero, em esquecimento.

As cartas e os livros, as miniaturas, o tinteiro e a pena, as lunetas e o óculo, os candelabros, as soturnas fotografias e os cadeirões, o porte nobiliárquico da mesa redonda, a secretária forte e sólida, as almofadas de veludo e os frescos. O toque implica um sequencial desenrolar de pensamentos, ideias e memórias encadeadas numa poderosa mas frágil linha temporal que a qualquer momento pode ser quebrada, mergulhando a personagem nos infindáveis e desesperantes mares do esquecimento.

Nostalgia desmensurada, capaz de prostrar o ser contra o chão, derramando sentidas e largas lágrimas de compaixão, pela memória do que foi e dos que antes dele surgiram, timbrada em objectos, depósitos de tanta matéria emocional, capaz de ancorar uma saudade para todo o sempre, relembrando consistentemente outros tempos, que nunca mais voltarão, mesmo que por isso se faça, impossível desejo que tanto atormenta e tortura o Homem, desejoso de reaver efémeros mas preciosos momentos que do seu seio escaparam sorrateira e discretamente, sem alarido nem confusão, mas que, quando ele vira a face para contemplar o que para trás deixara, se depara com um bem imensamente maior do que aquele que ele calculara. Pena e sofre. Ambiciona e é invadido por uma súbita vaga, um incólume desejo de redenção, de poder retornar ao momento pretendido, podendo ser de apogeu ou de desgraça, mas de profundo impacto e ligação para com o protagonista.

A maré desce. O salão adquire a tonalidade normal após o apagar das luzes e o cerrar das cortinas. Um raio de luz penetra na atmosfera que de tanta nostalgia e saudade está impregnada, revelando o corpo da personagem inerte, deitada no chão, em repouso contemplativo, chorando enquanto segura, na mão direita, a carta amassada que prendera o perfume da nostalgia.

A essência conquista sem vergonha nem piedade. Irremediavelmente absorvida, a nostálgica gota promete sofrimento e reflexão. Ao contrário da impetuosa saudade que dilacera e desfaz, corrói e consome, assombra e escraviza; a nostalgia aflora e liberta as suas sementes de recordação e memória. Tempo incessante, que muta e molda. Tempo sem compaixão nem misericórdia. Tempo que não mais voltará. Assim se tenta captar o eterno fugidio, que desperta tanto ardor e que tanto faz crepitar as chamas que ardem no coração, combustadas pela esperança e alimentadas pela vivacidade.

Desejo sentimental que suplanta a fé e a condição, tentando a todo o custo regressar ao fenomenal passado, impulsionado por lembranças de tempos afortunados e ditosos. A alma entrega-se ao desejo e embrenha-se na memória. Nostálgica, irrealista e insana. Ignóbil que faz de conta que ignora a verdade. Já foi vivido, passado e fugaz. É com uma lágrima de tristeza a querer derrapar dos órgãos que espelham a alma, que se manifesta o âmago derrotado e nostálgico. Saboreia-se vagamente a memória que remanesce, com um saudoso e magoado ar. Derrotado por este infalível contratempo, o Homem sorri: nostalgia imensamente poderosa, origina um grandioso sopro – um apaixonante apego ao presente, preenchido por memórias e recordações passadas.

Não é possível conservar, agarrar ou parar. Sofre-se com a nostalgia de um passado grandioso e pleno, épocas que nunca mais se repetirão da mesma forma, cada vez mais longínquas e distantes. Nostalgia, saudade e memória. Preze-se esta trindade que celebra e consagra o passado, moldando um presente que passado será. O futuro espera-nos. Viva-se antes que, por sua vez, ele passe a passado.


Tempus Fugit.

 


 

Tiago Malhó Lorga Gomes