sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Crucificação por Francis Bacon




Crucificação, 1965, Francis Bacon



Deparei-me pela primeira vez com a obra na Pinakothek der Moderne, em Munique. O tríptico, seguindo a secular tradição cristã de adoração em tríades e rotação em torno do referido algarismo para o que de mais equilibrado e sagrado se representa, é obra de genial ardil. Poder-se-ia afigurar uma eventual coroação da dor, a sublimação pelo sofrimento (que tanto Wilde defendia no seu De Profundis) que intrinsecamente irrompe do peito de Cristo e se manifesta pelas expressões faciais da audiência que entre lamúrias e lacrimejos se despede do condenado, pena essa que, de um ponto de vista estético será capaz de gerar as mais belas imagens.

Porém, Bacon revela-nos aqui, sem qualquer censura ou sentido de pudor, o âmago do sofrimento. Infligido ao homem pelo próprio homem. São corpos disformes, anatomias completamente desfiguradas que após tamanhas torturas não encontraram repouso. Exibem-se em tons de sanguíneo carmim e ocre terreno figuras indefinidas, manchadas pelos pigmentos viscerais que dos seus corpos escorrem. São pedaços de carne retalhada. Caveiras esfoladas como um Mársias derrotado. Membros pendentes, músculos desfeitos, vasos cortados. Uma autêntica carnificina perpetrada por um agressor musculado, forte e impune que por alguma razão se entrega a este vício, quiçá mórbido prazer, a esta eterna luta entre os dominantes e os dominados, a total subjugação à vontade humana, onde nenhum deus se afirma, nem mesmo a possibilidade de existência de semelhante ente.

É a entrega total à atrocidade. A flagelação que macera corpo e alma, uma infinda parada de tortura movida pela eterna sede de sangue, sangue esse que mancha o mundo, que compõe o mundo! E o tríptico, sem qualquer evocação de soberana salvação ou réstia de esperança, mostrando os restos de vã humanidade que ali se reduzem brilhantemente, pelo mais negro dos caminhos, a uma das suas facetas horrivelmente palpáveis. São pedaços moídos e pisados pela força de outro homem, símbolo máximo da afirmação e de poder, governando de forma impune e arbitrária, tomando a si a justiça que considera como absoluta. Do ponto de vista do talhante, nada mais cumpre que a sua função, justificada por si mesma, caída no vulto do quotidiano. As presas sucedem-se, iguais os corpos, variando minimamente a rouquidão dos gritos exasperados e os olhares esgazeados pelo terror. Para o assassino são apenas cabeças de gado indiferenciadas, desvalorizando por completo as suas vivências.

Observa-se aqui, ilustrado aos olhos do mundo, a mais primordial das batalhas. O furto de vida do homem pelo homem. E estas sevícias são barbaramente executadas sem contemplações de moral ou de valor. É a enferma ânsia pela crua carne, o chafurdar nas entranhas e o som do último bafo que movem estes agressores. O vício do sangue é alimentado pela obscena sensação de superioridade. O roubo de uma existência é sinal de potência ilimitada, a imposição de uma vontade individual que teima em ceifar uma alma somente porque pode, o abuso da integridade e da fraqueza através das mais abomináveis torturas que culminam com a deformação completa e com o total desrespeito pela vida. São monstros de uma realidade que há muito esqueceu sentimentos e que encontra prazer na dor alheia, que retira orgasmos de contracções às pancadas corporais, que extasia com os olhares de desespero, os gritos de angústia e as respirações suspensas pelo pânico; realidade que celebra o pleno domínio e arbítrio, que se coloca num divino pedestal, máxima inquisidora que decide e julga, que tortura e provoca dor, que desfigura e recorta, queima e esfacela, quebra, estira, sangra, arranca, viola, mata. E é esta permanente história que se repete, transversal durante os tempos, mais longínqua que a própria memória consegue comportar, mais abominável que as mais profundas e pesadas palavras. É o triunfo da morte pelas mãos humanas. A mais execrável das atrocidades que passa impune e se ergue sobre os cadáveres que avidamente leva à boca, que flutua sobre os oceanos de fluídos coagulados pelas ardentes paixões terminadas lugubremente pelas frias lâminas dos assassinos. E quando as mãos se erguem em direcção ao céu a atentar misericórdia, selvaticamente se estilhaçam os ossos e rasgam os músculos, decepam-se e esfarelam-se numa massa disforme até nada mais existir que partículas difusas e sem nexo, outrora animadas por sopro vital. E as pernas que buscam apoio no chão, trémulas de tão lastimosas provações, recebem golpes que as desfazem; são tenazes em brasa que lentamente dedilham os nervos cumprindo um sonoro requiem de gemidos e suspiros; são cânulas introduzidas com a máxima violência; são gumes afiados que fatiam a carne, instrumentos de inspiração medieval revestidos a ferro e couro que servem as mais úteis aplicações: secção de dedos, extracção de unhas, enucleações desmedidas, quebra de articulações... enfim, uma panóplia que excede as mais fantasiosas tentações assassinas.

De destaque ainda as duas figuras sentadas a uma mesa no meio de todo este caos. A irónica e constante passividade humana, de olhos abertos mas indiferentes, testemunhas imemoriais desta procissão contemplando o esplendor da depravação, das mais inéditas parafilias e sádicas violações. O que esses olhos contemplam, quer por resignação ou mórbida curiosidade, é a lástima do homem. O nadir civilizacional que desde sempre se arrasta nos silêncios e nos gritos. E sobre todo este panorama reinando o vermelho e o ocre, saboreia-se o típico negrume da morte. E esta escura tonalidade fede a horror, dos corpos, dos homens e das almas. Miserável condição esta que deseja a destruição incondicional, que leva o cutelo para a própria nuca do irmão, que envenena os poços das cidades vizinhas e que, cega pela aparente força, se dirige à própria perdição. Aqui sim, se revela parte intrínseca da essência humana com os diabólicos servidores a executarem maquinalmente a função da morte. O grande matadouro estampado no tríptico, sem sinal de deus nem de misericórdia, um mundo exasperante e macabro que nos leva à questão se realmente vale a pena a existência e se há senso algum na dita humanidade.


quinta-feira, 16 de abril de 2015

Chalet da Condessa d'Edla


Mandou el-rei edificar um modesto chalet à laia da voga alpina para habitação de veraneio da senhora condessa d'Edla. A referida construção, de inquietante originalidade, planta-se ao fundo do parque da Pena, de artifício tal que seus arquitectos somente poderiam ter inspiração estrangeira. O chalet, de externo, articula-se com motivos bucólicos do meio que o circunda, revestido por uma carapaça de madeira recortada por veios de cortiça que emolduram portas e janelas, delimitando a elegante varanda que percorre em toda a dimensão o piso superior.

O interior é, por contraste à sobriedade da fachada, igual motivo de pasmo e um regalo de sumptuosidade desenhada em estuques e painéis de madeira. Apesar da extasiante complexidade, este revela-se a certa forma descomprometido e sem qualquer tipo de pretensão que não a de agradar, de modo cúmplice e íntimo, os seus residentes. A escadaria é um deslumbre de mestria e magnificência, ocupando a secção central do piso térreo e que permite acesso aos aposentos do piso superior, a partir dos quais (e consoante com os pontos cardeais) se alonga a vista com a Pena, as frondosas copas do parque, os cuidados jardins à l'anglaise e, bem ao fundo, o imenso oceano.

É deveras um panorama sublime e recatado, aclimatado pelos característicos ares de Sintra cuja inquestionável salubridade e eterno misticismo em mais nenhum local se afigura. No piso térreo, é de relevo a sala de jantar de discreta sofisticação e conforto, e a sala das heras, cujas folhas em estuque de impressionante realismo absorvem o convidado de tal forma a este se sentir num agradável caramanchão ou numa loggia campestre. Dir-se-á a decoração do chalet escandalosamente exuberante ou pretensiosamente ortodoxa, mas trata-se a mesma da mais inovadora e moderna, obra que dificilmente se poderia conjugar e encontrar em Portugal.


Com tal empresa, a título ousada e surpreendente, verifica-se um caricato apêndice à Pena que certamente será motivo de escárnio e boato justificados pela discrição que as paredes do chalet permitem, no ermo de luxo e sacro refúgio da mais ilustre e prezada nobreza.
Resta portanto imaginar o diário deleite da senhora condessa d'Edla elevando-se na alcova e contemplando, de respiração suspensa, bem lá no topo da nua escarpa, a triunfante Pena envolta pela mística bruma da Serra embalada pelo revigorante sopro marítimo.







Tiago Malhó Lorga Gomes