quarta-feira, 27 de março de 2013

Agnus Dei


Agnus Dei

 
Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, miserere nobis.
Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, miserere nobis.
Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, dona nobis pacem.
 
 
 

Cordeiro de Deus. A pureza assoma a cada passo do pequeno ser, mimoso e frágil, inocente do pecado que o rodeia mas submisso à fatal sentença para a qual caminha. Pleno e curioso, o pequeno cordeiro alvo contempla o panorama caótico que o envolve, assustando-se com os ruídos característicos da multidão caída em profunda tradição religiosa e culto sagrado. Os homens movem os lábios sem emitir som, mas como se o fizessem, tal a precisão e o desenrolar dos movimentos, tão naturais e intrínsecos, nada mais que sentidas preces murmuradas num cântico habitual e indefeso. As mulheres, impregnadas com odores humildes e campestres, ajoelham-se frente à enorme Cruz que remata o altar de pedra branca para onde o cândido cordeiro se dirige, no seu passo incerto e tímido.

O ambiente casto e solene, propicia à reflexão oratória que ecoa e paira pela altura da nave sob a forma de um belíssimo cântico, como se de um coro angelical se tratasse, pequena essência da promessa da salvação que tanto move e atormenta o ser, moldando-lhe as acções e a vida, fomentando a bondade e a caridade. A grande Cruz com o Condenado encabeça a sóbria igreja, objecto de tanto cuido e afeição, subjugando as cabeças quando a ele se dirigem; alvo de tanta prece e pedido, obra de enorme respeito e peregrinação, Senhor magno de toda a Terra, que a liberta e ordena, protege do mal e livra do pecado, salvador e padroeiro dos pobres e dos fracos. Os homens tentam-se agarrar a toda a magnificência da figura que apresenta sinais de sucumbir à fraqueza que lhe devasta o corpo e às excruciantes dores que lhe consomem a face em ribeiros de sangue, sangue esse de Cristo que durante cada comunhão missal será ingerido e celebrado, visando a ideia do supremo sacrifício e a pena que sofrera tão árdua e desumanamente, desalmadamente empurrado para o descalabro do sofrimento e da dor, calado pela opressora e ignóbil faceta característica da mórbida raça.

Sangue de Cristo corre nos vasos do cordeiro. Inofensiva e cristalina, a pequena cria caminha numa passada calma e inocente, ignorando por completo o que o destino lhe reservara. O seu coração palpita. A quente e curta lã, ainda tão suave e branca, de uma alvura imaculada e especial, encanta o olhar de quem por ele passa, ciente do sofrido e abominável fim que o espera com tanto intento e saciedade. Ainda há umas horas tinha estado a pastar na imensidão dos prados que sustentam a povoação, tão grandiosos e naturais, lentamente influenciados pela mão humana de os cultivar e desflorestar.

O gracioso cordeiro, puro de âmago, apesar da frágil e assustada imagem que apresenta, revela-se um animal nobre e corajoso, no sentido de cultivar a verdade e o bem, a graça e a formosura, o culto da pureza e da integridade, da suprema inocência e da total ausência de corrupção pelos males do mundo que tanto enegrecem a alma ao Homem, raça de pecadores condenados à imensidão do abismo e à cedência às vulgares e reles tentações impostas pelo maligno desenvolver da espécie. Porém, o casto e ilustre cordeiro, livre de todo o pecado e corrupção, apresenta uma pose sublime e encantadora, graciosa e inquieta. Caminha lentamente, saboreando as essências a sagrado e a gente que se aglomera no ar secular da igreja, impregnado de Cristo e dos seus seguidores; reparando atentamente no detalhe dos melhores fatos que os aldeões podem adquirir, homens simples e trabalhadores, afeiçoados ao campo e educados pela sapientíssima palavra do Senhor.

No final da alameda ladeada por povo em submissa oração, o cordeiro alcança o derradeiro destino – o altar de pedra branca. Em cima deste repousa um todo arsenal de objectos sacros e devotos, três grandes candelabros de cobre dourado, três cálices de prata, um paninho branco cobrindo a Bíblia, duas conchas de prata, uma sacra de altar esplendorosa e uma discreta custódia renascentista, contendo uma amostra de um osso de um mártir de tempos idos. Durante um sopro de uma inconsistente e inexplicável razão, e após ter alcançado o derradeiro local, o cordeiro pára. Mergulhado nas composições de fatalidade anunciadas pelo cessar dos cânticos apoteóticos e do burburinho da audiência, o cordeiro começa a retroceder o passo, apercebendo-se da situação em que se encontra, e que, apesar de toda a sua inocência e pureza, apela à racionalidade que tem e se observa objecto de sacrifício frente à maciça e antiga Cruz da qual pende Cristo, de cabeça subjugada ao sofrimento, expirando um último suspiro, esperando que a alma ascenda para as mãos de Deus, enquanto se inicia a infame partida que iludirá a morte que todos recolhe e reclama à terra.

Perante a atitude do cordeiro, é rapidamente apanhado e seguro, colocado com algum custo em contacto com a fria pedra do altar, a amena superfície lanosa irradiando calor para a impiedosa mas católica pedra, tão celebrada, e símbolo de unidade e comunhão. O padre apressa-se a proclamar preces dirigidas ao cordeiro, que livrará o pecado do mundo, universo que o condena à eterna morte somente na avara impressão de se tentar redimir de todo o mal de que é constituído e de todas as ciladas em que cai, orquestradas pela malvadez comum. O coro anuncia o sacrifício através de belíssimas composições vocais, arrojadas e agudas, contrastando com os graves sons que a queda da chuva produz enquanto bate no telhado na igreja e alaga os campos repletos de vida determinada.

A respiração do cordeiro torna-se arfante, o macio dorso arrefecido pela alva pedra, as pernas trémulas, o olhar vazio e indescritível: como se lhe tivessem revelado as maiores atrocidades registadas e imaginárias, ou como se lhe descrevessem o terrível e atroz sofrimento de que padeceria. A vida passa-lhe pela frente enquanto se debate contra quem o comprime contra o altar, mantendo-o praticamente imóvel e em pleno desespero. Mal tem tempo para se elucidar sobre a razão pela qual é trazido ao cadafalso, cordeiro tão inocente e puro, alvo e novo, com o pecado ausente e a razão perdida.

A adaga é elevada. Os olhos centram-se no objecto que findará a existência à frágil cria. As respirações sustêm-se por segundos e o tempo parece cessar o seu funcionamento, prendendo aquele angustiante momento nas mentes e nas almas. O coração do cordeiro bombeia o sangue de Cristo desalmadamente, absorto de toda a plateia que o contempla, mas ciente do que se desenrola. A adaga desce. Penetra a quente superfície macia do cordeiro, atravessando-lhe o coração. O doce animal morre em alguns segundos, em tamanha agonia, a respiração inconstante, num incessante movimentar das patas, num debater tremendo contra quem o prende e com um mitigado suspiro. Após um fulminante e agudo sofrimento, o cordeiro está morto. Pelo altar correm rios de sangue, ainda quente, contrastando com a alvura e polidez da pedra, inundando por descuido, as conchas de prata, os cálices, a sacra e a custódia, tingindo as páginas da Bíblia com o carmim que esta não incita e não ordena.

O sangue vai arrefecendo, alastrando-se no chão da igreja, enquanto panos e trapos da pia e crente audiência com ele se deliciam, levando a recordação do sacrifício do puro e inocente animal, oferecido à morte para redenção de pecados de outrem, sempre tão alegre e belo, com um final tremendo e sofrido. Paga pelos mercadores que enganam o povo, pelos maridos que cometem adultério, pelos desordeiros que incitam ao combate e à confusão, por todos aqueles que cedem à tentação da preguiça, pelos guerreiros que matam sem piedade, pelos falsos que de mentiras fazem realidades, pelos hereges que falsamente se apresentam como cristianíssimos, pelas mães que cobiçam a juventude dos filhos de outros, pelos pais que invejam as propriedades do nobre do feudo, pela ambição e hipocrisia da nobre família, pelos ladrões e pelos condenados.

 A missa termina, o cadáver é recolhido, e as pessoas saem da igreja. Quando o fazem, não querem acreditar no que os seus olhos observam: por segundos, a própria imagem de um Satanás inquisidor, rindo-se do acontecimento, espalhando pelos campos pequenos servos diabólicos que infestam as ovelhas e o restante gado de um vermelho possante, tingindo a clara lã de um carmim pecador e repreensível, por entre balidos de dor e pânico, numa atmosfera cálida e sufocante. Mal a visão é interiorizada, a multidão precipita-se para dentro da igreja, esbaforida em améns, preces e ditos; todos eles ofegantes, impressionados e assustados com a ascensão dos infernos à localidade, atormentados pelo erro de terem morto o inocente cordeiro, tão puro e pleno, com sangue de Cristo a correr-lhe nas veias. Nem tempo têm de se dirigir à Cruz, quando a terra treme violentamente, envolta num ensurdecedor requiem, uma autêntica missa dos mortos proclamada pelas entranhas da Terra onde já se planeia colocar o cadáver do cordeiro, derrubando as frágeis casas de habitação e armazenamento. A terra engole as árvores, as fontes e as torres. Num ápice, a igreja é submersa em destroços e cadáveres, misturando o sangue de Cristo com o sangue dos pecadores e dos inocentes que também pagam pela insolência e pela resignação com que assistiram ao sacrifício.

A tormenta finda. Da igreja e do cemitério, resta apenas um enorme aglomerado de pedras, vigas de madeira e destroços de estátuas de santos. As casas destruídas e livres de graça e solidez. Os campos com enormes fendas e declives, árvores tombadas e animais mortos. Da população nem vivalma, tendo sucumbindo por completo ao castigo imposto. Soa um incólume silêncio de purificação, calmo e vagamente natural. A chuva e o temporal cessam.

Passadas algumas horas, dois almocreves em viagem chegam à aldeia, constatando, em puro horror, uma localidade vazia e arrasada. A sua demanda por gente leva-os ao local onde antigamente se erguia a modesta e santa igreja, deparando-se com uma imagem deveras reveladora. No meio dos destroços, e envolto em pó, se observa o cadáver de um cordeiro, deitado sobre a Cruz, ocupando o local correspondente ao de Cristo, rematado por uma coroa de espinhos manchada por sangue. O mártir fora escolhido.

 

A Adoração do Cordeiro Místico (1430-1432), Jan van Eyck


Tiago Malhó Lorga Gomes

terça-feira, 26 de março de 2013

Fabergé


Tradição Pascal Romanov

Fabergé. O nome por si só suscita um lendário misticismo, um sonante substantivo apologista de originalidade artística, denunciando uma infindável perícia e detalhe de obras ricamente elaboradas. A Casa de Fabergé (Дом Фаберже), ilustre joalharia sediada em São Petersburgo, foi responsável pela produção dos Ovos Imperiais de 1885 a 1917, destinados à família real russa. A tradição nasceu com o czar Alexandre III, que, numa acção simbólica para recordar a infância da esposa, encomendara a Peter Carl Fabergé, joalheiro exímio e capaz de criar obras imensuravelmente belas e simbólicas, um singelo Ovo pascal.

Todos os anos, pela altura da Páscoa e, enquanto Alexandre III foi vivo, a tradição se cumpria, oferecendo um Ovo à czarina, cada qual único e fabuloso, contendo uma surpresa no seu interior. O legado continuou com Nicolau II, o último czar, imperador e autocrata de Todas as Rússias, até ser deposto em 1917. O exterior exuberante e diversificado, quer apresentando rebuscadíssimos arabescos em folha dourada na solidez do cristal, quer em pequeníssimos mosaicos ordenados, contendo inscrições e padrões complexos. Uma das características dos Ovos é o brilho que orgulhosamente ostentam, conferido pela vasta quantidade de pequenos diamantes lapidados, esmeraldas e safiras, rubis e pérolas, esmalte e platina, cristal e quartzo, marfim e jade. Resplandecem pela atitude com que se elevam nos cuidados e magníficos pedestais, entre finíssimos ramos ou seguras pilastras de mármore suportando o precioso Ovo, símbolo de nascimento, de libertação para a vida, fragilidade e comunhão.

A riqueza ofusca a visão. Estonteantemente perfeitos, os Ovos apresentam mecanismos sublimes (alguns objectos precisos de relojoaria, outros meramente decorativos), envoltos em grandiosas composições de ouro, prata ou platina, de detalhes enriquecedores e meticulosos, fazendo jus ao nome de Fabergé, a célebre Casa que era referência da época, o nome de culto idolatrado pela nobreza e realeza russas, que apreciavam as suas obras artísticas, nada mais que aglomerações de pedras e metais cuidadosamente moldados pelo ofício que tão afincada e cautelosamente era executado, preenchendo os requisitos de excelência e de inovação.

Cada Ovo contém no seu interior uma surpresa, desenhada para admirar ainda mais o seu dono. Desde retratos de família, passando por miniaturas de carruagens, comboios transiberianos, navios e palácios, a cisnes repousando em água-marinha ou ramos de flores campestres; se contempla a arte do joalheiro, capaz de fascinar e de iluminar o espírito pascal da família Romanov, embriagada com as extravagantes obras que a Casa de Fabergé anualmente lhe apresenta, muitas das vezes, ignorando qual o formato ou a temática do Ovo em questão até este ser revelado.

Partidos e dispersos nos seus componentes, os Ovos são caros: umas quantas gramas de ouro de vinte e dois quilates, alguns pequenos diamantes cuidadosamente talhados, prata e platina em quantidades definidas, pedras semipreciosas e incrustações em madeiras raras. Mas o que realmente valoriza os objectos não é a amálgama de materiais dispendiosos e raros, mas antes a forma única como estes estão dispostos, o símbolo e a imagem que transmitem, envergando facetas históricas e lendárias, timbrando nas suas superfícies memórias de tempos áureos de abastança e triunfo, perpetuando uma gloriosa apoteose de luxo prevalecente sobre a época pascal, tão sagrada e límpida, pura e inocentemente celebrada nos Ovos de Fabergé.

As formas ovóides revestidas por um manto de eficaz e detalhada formosura, encantam quem as contempla, guardando nos seus âmagos a sensacional surpresa que a identifica, celebra e destaca. Cuidadosamente são apreciados e contemplados, obras de arte tão distintas e características, produto de génio e habilidade, superando a humana condição da pontual e vaga imperfeição. Cada Ovo celebra um ano, um tempo, gentes, vivências e histórias, incutindo um certo mistério e respeito simbólico, rematando para a raridade e para a fragilidade. Efémeros e desaparecidos, perderam-se os registos de oito Ovos Imperiais, tresmalhados do ninho durante a Revolução Russa, desconhecendo-se por completo os seus destinos e divulgando-se vagos detalhes que os tornam tão célebres como os restantes quarenta e dois sobreviventes, que prevalecem alvos de tanta atenção e dignidade.

Páscoa da passagem, da ressurreição, do retorno da morte que todos reclama para a vida que todos ilude, das obscuras trevas para a imensidão da luz; assim se manifesta o ovo como comunhão entre o nascimento e a vida, uma igual passagem para a luminosa existência que findará solenemente após sacrifício. O ovo liberta a ave, que vorazmente espraia as suas alas, alcançando o infinito representado nos cristalinos e amenos céus que cruza com velocidade considerável, expirando canoras preces de encanto que preenchem os ares de leveza e fortuna.

Os Ovos de Fabergé encerram em si igual ave, de matéria diferente, coração de gemas, penas de finos retoques a óleo, âmago de sonhos e sensações, frémito incessante que envolve e impressiona, toca e extasia, tal a beleza e a formosura, a novidade e a unicidade, o desprezo pelo vulgar e o culto à nobreza, o luxo exageradamente composto e elaborado numa forma tão natural, composta por elementos igualmente oriundos das grosseiras entranhas da Terra, mas moldados pela sábia e hábil mão humana, lapidados e limados.

O Ovo abre-se, liberta-se a ave. O seu canto ecoa pelos salões do palácio. As paredes cedem, as pessoas colapsam e o vento é suplantado por uma brisa sossegada, a neve suspende-se no ar. Tudo pára e fica imóvel, de olhos postos no Ovo. O êxtase domina. O Ovo encerra-se, a ave foge, o canto cessa, a brisa é morta pelo sopro que derruba os delicados flocos pendentes, o palácio reconstrói-se, as pessoas ficam saboreando a réstia de sensação que ficara após tremenda contemplação, com um amargo pesar da crua verdade: nunca conseguirão manter a ave cativa, estando destinado este rapidíssimo e célere encontro cada vez que o Ovo se abrir; malogrado Fado que impede o captar da ave para o viver do eterno deleite da obra supremamente perfeita. Retorna o Ovo ao ninho, o nascer estará para breve. Enquanto isso, aguardam os Romanov, efusivamente celebrando a Páscoa.

 

Tiago Malhó Lorga Gomes
 

1885 – Galinha (Primeiro dos Ovos Imperiais)
 
 
1887 – Relógio da Serpente Azul

1891 – Memória de Azov

1897 – Coroação Imperial
 
1901 – Cesto de flores silvestres
1903 – Pedro, o Grande
 
1906 – Cisne
1908 – Pavão
1912 – Napoleónico
1913 – Inverno (o mais caro dos Ovos Imperiais – 24.700 rublos)
 
1913 – Tricentenário da dinastia Romanov (1613-1913)
 
1914 – Mosaico


sábado, 23 de março de 2013

Bagdade


Bagdade


Dia 21 de Março de 2003

 


Monumento ao Soldado Desconhecido e Visão geral de Bagdade



A noite cai sobre a cidade milenar. Sopra uma brisa leve, um doce momento que relembra a quente aridez que envolve e delimita os férteis campos que ladeiam a urbe atravessada pelo rio Tigre, fonte de vida e abundância. As ruas desertas, poeirentas, sem sinal de vida nem de almas, pardacentas e escurecidas pelo pesar dos hábitos. Nas casas, após o modesto jantar, procede-se à última das cinco orações diárias, que suscita o pensamento da presença, perdão e misericórdia de Deus. O povo deita-se, aconchega-se nos leitos pobres e desgastados pela falta de recurso e de inovação, planeando a invariável rotina que protagonizam dia após dia, numa constante elipse de labor e obrigação.

A cidade adormece, caída em ecos de um passado de glória, temente às reais ameaças que se avizinham: possíveis invasões ou guerras, fruto de instáveis tensões que visam derrubar o regime ditatorial que aperta o jugo ao cerviz do povo, tão serviçal e empenhado, apavorado com as atrocidades regulares impostas pelo longo reinado de implacável crueldade, corrupção e opressão. Antes de cerrar os olhos, é invadida por uma súbita amargura inexplicável. O dia seguinte calcula-se ser mais um entre tantos sofridos e impávidos, sem forma de findar, de despir o véu da sentença eterna da liberdade furtada, o excessivo culto da personalidade, a pátria a devorar os próprios filhos, indiferente aos seus destinos, ingerindo-os avidamente, de vários tragos diários.

A primeira bomba cai. Os bombardeiros iniciam a operação a meio da noite, apanhando de surpresa aqueles que ao sono se tinham entregue, quer por exaustão, quer por preguiça, despertando-os num ápice. O barulho ensurdecedor, uma orquestra de instrumentos de percussão completamente descoordenada, primando pelos sons graves e cavernosos que libertam quando menos se espera, iniciando-se numa agudíssima espiral de queda provocada pela gravidade, e terminando numa fusão profunda e cava quando se encontra com o solo. A agradável brisa que animava a fresca tela da noite estrelada rapidamente cede a uma pauta de constantes sons horripilantes e aterradores, provocados por súbitas formações níveas que ofuscam o céu com crescentes nuvens que partem do chão, elevando o fumo que cria colunas irregulares, tingindo a noite com a alvura explosiva e letal.

As bombas caem. Os alvos são estrategicamente escolhidos, tendo em atenção às baixas civis (se bem que na guerra tudo vale, tal a ganância e o perigo, a necessidade e a delicadeza, ou antes a falta dela), aos hospitais, às madrassas e às pérolas arquitectónicas da antiga cidade que encerra tanta cultura e esplendor. Os paióis atingidos e expirados em sucessivas explosões, as fortalezas com sinal de cedência, os alicerces danificados e com brechas, a aviação iraquiana controlada, os baluartes arrasados, mal se distinguindo da árida paisagem que os rodeava. Na cidade instala-se o caos. O ruído grandioso, exagerado fogo-de-artifício dirigido à terra e não aos céus, faz palpitar os corações dos frágeis e assustados cidadãos que ao sono se entregaram com a maior das simplicidades, sem ideia nem pista que tal bombardeamento poderia ocorrer tão subita e desalmadamente. Os edifícios, as casas e as mesquitas nada mais que um confuso monte de entulho onde se destacam vigas de ferro, betão armado, tijolos, madeira e argamassa, tudo isto soterrando e comprimindo os corpos dos homens inocentes, culpados do azar que a vida lhes ceifou, irremediavelmente perdidos, sem graça nem mesmo forma concreta; são pedaços de vísceras, espalhados pelas ruas, carne imersa em sangue ainda quente e envolta em tecidos enegrecidos, desfiguradas figuras que figuraram entre o mundo dos vivos, partindo neste na maior miséria e injustiça de que podiam ser vítimas.

O Tigre tinge-se de sangue. Os bairros consumidos por tremendos incêndios, suscitando um alvoroço descontrolado, sem local para fugir nem se refugiar, o povo corre sem uma meta específica, encolhido, como se tal prevenisse a queda de um explosivo numa mesquita próxima ou no quarteirão adjacente. A artilharia anti-aérea tenta em vão suprimir as vagas do inimigo, como se uma Bagdade de há mil anos se tratasse, imponente e magna, defendendo-se dos exércitos que irrompiam pelos territórios, provenientes da Pérsia, numa desenfreada ânsia de conquista e batalha; aclarando ainda mais os céus, outrora cristalinos, de tal maneira puros e plenos, que naquele mesmo local se havia instalado um dos primeiros observatórios do mundo árabe, chamando a si eruditos e sábios que contribuíram para o florescimento de uma cidade diversificada, no topo de uma idade dourada em termos científicos e civilizacionais.

Bagdade sofre. O apogeu há muito abandonado e perdido mergulha nas turvas águas do descalabro. A noite é um espectáculo de mortalhas, sonoras e luminosas, levando consigo centenas de vidas. Os homens despedaçados em segundos pelas intensas temperaturas, queimaduras e perda de membros, feridas e inflamações. As ondas de choque arrasam as casas que de basto nada têm, débeis anfitriãs que encaram o Tigre e a sua impavidez que se orna de vermelho e de destroço. As estradas intransitáveis com enormes fossas causadas pelas bombas, repletas de gente em agonia, sem saber para onde se dirigir, desejando que o sofrimento termine de uma forma breve e pouco atroz. As famílias unem o seu sangue, espezinhadas pelas ruínas das habitações, em montes inexpugnáveis e robustos, expirando em gritos de agonia, abafados pelo concerto que se desenrola no céu.

O fumo ascende, a cidade arde. As mesquitas, ornadas de grande valor e inscrições em mosaico, servem de refúgio aos crentes que, nos minutos do bombardeamento, para lá se dirigiram, na vã esperança de salvação adiantada. Sobre eles cedem a cúpula, que brilhantemente arrematava o dado templo, os arcos quebrados, possivelmente o minarete em espiral e as obras sagradas. Uma verdadeira carnificina; as crianças assistem e temem pelas suas famílias, demasiado novas e inocentes para compreenderem o seu papel na engrenagem deste mundo que de pio nada oferece, a infância atemorizada por este infeliz e execrável evento, uma apoteose triunfal da morte, prevalecente sobre os tempos e as eras, caíndo dos céus sobre Bagdade.

O ataque termina. Reina um silêncio desconfortável, uma adaptação da audição ao vulgar som exacerbado pelas caóticas e mortíferas explosões que se espraiaram pela urbe. Aos poucos, os grunhidos e as preces surgem. Os miseráveis esmagados no meio do alcatrão, os cadáveres irreconhecíveis e carbonizados, as mulheres desorientadas, em pânico e lavadas de lágrimas, as crianças traumatizadas, feridas e gastas, as ruelas tortuosas desaparecidas dos mapas, as casas arrasadas numa impregnação composta por sangue e pó, os tapetes persas rasgados e chamuscados, as mercadorias desaparecidas, as memórias de um evento aterrador. Pulmões perfurados, corpos extenuados que viram a vida fugir-lhes num ápice, ainda na flor da idade, gente para a qual o fado parecia ter reservado grandes feitos e confortáveis quotidianos, ali enganada com um retalho fatalista e injusto, levando-os inocentes para a terra. Os corações palpitantes e errantes, fugindo de toda o extravasar de possíveis emoções, tal o descalabro e a magnitude, a desorientação para onde carregam e levam os feridos; as mães que carregam ao colo os filhos mortos, nada mais que pequenas peças ensanguentadas envoltas em lenços igualmente tingidos de carmim; os filhos sem reacção possível, sentados ao lado dos cadáveres da família atingida por vigas de madeira; os pais derramando lágrimas pelo desespero e pelo temor; Bagdade arruinada, enganada pela promessa de uma existência sólida e plena, envolta em sangue, ruína e infinda dor.

Fundada a dia 30 de Junho de 762, a cidade apresentara várias épocas, passando por áureos momentos, idades de ouro repletas de mercadores, artesãos, teólogos e sábios, reunindo a cultura da altura sob a forma de manuscritos e obras artísticas; mas também por tremendos saques e invasões. Desta vez, o mal veio dos céus. A rua Haifa contempla a cidade destroçada, viúva da vivacidade e madrasta do desespero. Imensuravelmente perdida, sem rumo nem destino, avança por impulso: cuidem-se os vivos, tratem-se dos feridos e dos enfermos, enterrem-se e recordem-se os mortos.

De manhã, a cidade está fumegante e enevoada, a sua gente apresenta uma aparente resignação pela vida, totalmente enegrecida, devota existência que tudo guiara e explicara até aquele ponto, cessando a razão, a fé  a força. Ouve-se todo o tipo de coisas, milagres inéditos, massacres horrendos, fugas dos ministros e do ditador, guarnições e exércitos formados; circulando pela cidade parda que tenta limpar as manchas de sangue da noite anterior, estando atenta aos céus, pois a qualquer momento deles poderá brotar mais semente da discórdia, ceifando os que à noite se conseguiram livrar.

 

A cidade não resiste. O sofrimento é atroz, profundo e dilacerante. Os cadáveres são inúmeros, mutilados, carbonizados, amassados, arrancados, despedaçados; horrendas formas de findar subitamente. Com o passar dos dias, os bombardeamentos intensificam-se e a frente avança perigosamente para a milenar Bagdade que tanto encanto e diversidade encerrara. Com efeito, a cidade é tomada no dia 7 de Abril de 2003, ocupada pelas tropas invasoras cujo propósito é o estabelecer da democracia e da liberdade, rompendo as grilhetas que durante tantos anos prenderam o povo e o massacraram.

Nas ruas reina o caos. Tiroteios, atentados e operações. A vida quotidiana é suspensa, as actividades reduzidas ao mínimo, passando-se fome e necessidade, tentando reconstruir o que se perdera. Uma lástima, a cidade. A dor apossa-se das almas dos habitantes, que a viram tão formosa e agora horrenda, ausenta de muitos dos seus constituintes populacionais e arquitectónicos. O ilustre Museu Nacional do Iraque, que outrora albergara tanta relíquia e preciosidade, saqueado, com as obras rapinadas e vandalizadas, objectos de estimo datando de há milénios, crivando uma essência da História da Humanidade, ali findados vasos em pedaços, jóias desaparecidas, estátuas irremediavelmente danificadas, painéis queimados, reduzidos a cinzas e a um negro fumo. O Museu vazio, destroçado, chora para o Tigre mágoas de extremo desamparo e aflição. O seu conteúdo desaparecido, a arte desvalorizada, a História timbrada nos mosaicos e nos azulejos quebrada, os vasos e os pergaminhos pilhados, as efígies desfeitas, os bustos no chão, as paredes bruscamente despidas de valor e historial. Uma infinita perda do património aliada à morte. A Biblioteca e os Arquivos Nacionais igualmente pilhados, queimados e despedaçados, arruinando documentos importantes e únicos.

Reina a insatisfação, o medo, o pavor e a insubmissão. Enquanto se consome Bagdade de dor dos mártires cuja vida foi terminada por ataques ou execuções, de desespero da fome e da miséria, da insensatez da ocupação e dos atentados, das perniciosas notícias que correm pela boca do povo; se observa o invasor criando perímetros de segurança, elaborando delicadas operações e breves ataques, ordenado o país para uma nova era, plantando alicerces numa pátria que não a dele, cometendo erros condenáveis e depravações arrepiantes. O Museu consome-se de fogo e saque, à mercê de salteadores e de gente que lá encontra abrigo da instável rua, palco de confrontos e atentados. Em contraste, o Ministério do Petróleo, prontamente ocupado pelo invasor, apresenta-se incólume, preservado e totalmente uno e completo.

Rapidamente os ocupantes se encarregam de cometer atrocidades condenáveis, dispondo de recursos e discriminando raças e credos, colocando ainda mais fundo a semente da eterna discórdia que levará ao apocalipse. As inscrições árabes das madrassas e das mesquitas resplandecem no meio de tanto caos e desordem. A força da pátria que se quer autónoma e livre prevalecerá, elevando o ânimo a tão sofrida e desesperada gente, condenada da inocência que a reveste e livre da inevitável situação em que se encontra, perdidamente mergulhada em horror. A guerra, recordando o Irão e o Kuwait, de nada valeu ao Iraque, sempre envolto em grande carnificina, palco de grandiosas civilizações que deixaram ruínas espalhadas pelos secos desertos que tão sofregamente devoram esses vestígios, governado o país por uma capital riquíssima em História, presentemente mergulhada nos vapores da fatalidade do impiedoso destino que pretende arrastar a condição para o abismo da discórdia e do mortífero negrume, sorvendo a sua gente, inocentes mártires que sofrem as maiores misérias e medos de que o Homem pode.

Passados dez anos, muito se passou. A liberdade será daqueles que realmente a procuram, pura e simples, honesta e regrada, mesmo que tal implique tremendas devoções e esforços. As almas ambicionam a razão e a plenitude. As areias do deserto e o cálido vento do deserto geram um sopro constante, levantando os ânimos à população, sibilo esse que se muta quando se aproxima do Tigre e das construções da capital iraquiana. Bagdade chora.

 

Bombardeamento de Bagdade
 

Tiago Malhó Lorga Gomes

 

sexta-feira, 8 de março de 2013

Vénus

 

Vénus

 

Dia da Mulher, oito de Março


Vénus, substantivando por si só sensualidade e paixão, uma deusa que da espuma marinha se ergueu. Rosas carmins, perfumes paradisíacos e juventude eterna. Desta santa graça se governa a mais perfeita musa, simbolizando fertilidade, amor, sexo e beleza.

Surge Vénus. Um ligeiro vestido cobre-lhe o suave e alvo corpo, esteticamente equilibrado e natural, representando a pura beleza, sem artes nem ilusões, que desorienta por completo quem com ela se cruza, esquecendo o seu destino, o labor que o chama ou a obrigação que o massacra, passando infindáveis horas de deleite a contemplar a plenitude, o equilíbrio e a liberdade. A luz irradia da mulher, tão divinal e incólume, plena e una. Transmite-se uma sensação fortíssima, sem paralelo, intensamente esmagadora que capta o âmago daqueles que a observam, tão graciosamente débil mas tão ilusoriamente humana. A aura da deusa desperta amor.

Amor por si só, embriagado pela aparência que cativa e imobiliza, não causa acção possível mesmo após a reacção de se contemplar a referida figura durante longas e imóveis horas; amor puro e pleno, livre de intentos e interesses, que domina quem por ele sofre e padece, que tanto folga e apraz a alma como a tortura e dilacera; amor desmedidamente irrealista, paixão de loucos, insana e irracional, um generoso sonho cuja noite trouxera por inexplicável acaso, que decerto a tornará memorável pela raridade; um amor pelo qual se morrerá, fatal e sofrido.

Deleite e perfeição. Vénus sorri calmamente, como se o mundo ostentasse na palma da mão, inocente presente ofertado por divina graça, virtude que a criara com o propósito de ofuscar a grandiosa obra que se estende e propaga pela imensidão, ambicionando um vislumbre, uma rápida contemplação de semelhante figura alegórica; a deusa que expira sensualidade, despertando íntimos e fugazes desejos, e que dá sentido à vida, uma força que impele à luta contra a tenacidade que a vida tem de querer findar sem nada que a sublime, sem nada que faça a pena pensar que valeu a pena ser vivida, áspera existência sem uma réstia da maravilhosa combustão que é o amor.

Vénus nua. Contemplem-se os dóceis pés, as esguias pernas, o cobiçado púbis, as belas nádegas, a macia barriga, os perfeitos seios, os elegantes ombros, os amáveis braços, as carinhosas mãos, o formoso pescoço, os lisos cabelos e a face divinal. Apesar de toda a inspiração provocada pela forma da carne, em nada se compara à alma que o corpo de Vénus encerra.

Errada e incorrectamente se foca no exterior, no perecível (que no caso da jovialidade e etérea beleza de Vénus se arrastarão até ao final dos tempos) e frágil dado equilibrado da anatomia que mais cedo ou mais tarde será devolvida à terra que avaramente a reclamará, decompondo as feições até ao indefinido, nada mais que memórias passadas, talvez um apogeu caído no esquecimento do desuso.

Os olhos suplantados pela imagem belíssima e pelo esplendor exalado, a pobre alma cega e apartada da razão e da racionalidade. A máscara de Vénus cai. A personagem revelada consegue, milagrosa e admiravelmente, superar a beleza e o sabor da figura que encerra a mais pura e dedicada das almas, frágil e honesto âmago, névoa da mesma matéria que os longínquos firmamentos, tão deliciosamente única e que, aquando da sua observação, faz perder o inerte e constante medo de perder o apogeu e a fama, de enfrentar e de não recear a infame morte que avaramente persegue e atormenta o Homem.

A alma de Vénus. Inocente, doce e carinhosa. A deusa demonstra bondade espontânea, caridade e cuidado materno. O âmago desperta amor, paixão; uma utopia de sentimentos gerados pela inexistência de material, algo fugaz e difuso, que não é concreto nem aglomerável, a alma, o que tão habilmente se esconde por trás da sublime fachada. A aparente imagem da Vénus sensual e imensamente bela, esconde em cativeiro um sopro de pessoa, uma alma imensuravelmente ainda mais preciosa e plena, uma verdadeira pérola, se a tão pouco possamos comparar algo tão grandioso, que reflecte a luz que nela incide, provocando feixes ainda mais fortes e encantadores. Apaixona e gera sensações, pensamentos e ideias.Impera a essência feminina.

 A deusa tem de ser resguardada e protegida, encontrar um amado que lhe dedique galanteria e tempo, de saborear a essência da liberdade e do amor, fruto da paixão que origina naqueles que têm a sorte de conseguir ultrapassar o artifício e a cilada da formosa e fidalga aparência para alcançar o derradeiro triunfo: uma alma perfeita.


Vénus de Milo
 
 
Tiago Malhó Lorga Gomes

terça-feira, 5 de março de 2013

Deus illuminat anima


Deus illuminat anima

 

Sede Vacante


O trono de São Pedro vazio. A Cristandade expectante. As atenções postas no mais pequeno estado do mundo, contando com apenas quarenta e quatro hectares de área. Espera-se impacientemente pelo consenso e pela eleição de um novo Papa, portador do ilustre anel do pescador, homem capaz de governar a soberba e instável barca do Cristianismo, inspirando-se numa rígida e apertada doutrina com ideais prezados e extensamente divulgados, fortalecidos por séculos de um império espiritual que é salvação de inúmeras almas perdidas, sem uma meta fixa e um caminho errante, desprotegido e ao alcance do mal comum inerte ao ser.

 Aguarda-se pacientemente pela derradeira decisão; a elevação do comum dos mortais tocado por divina graça, nada mais que o representante terreno da suprema vontade, chefiando a religião maioritária. Clama-se por fumo branco, pela equilibrada concórdia obtida pela sublime democracia, apesar de que, caso não seja alcançada na primeira vez, mais horas se passarão no conclave que se prolongará até à eleição de um novo líder, arrastando penosas temporadas e massacrando as mentes dos débeis cardeais que de alma e corpo se submetem ao altar de Cristo.

Mas, apesar de todo o elaborado e requintado protocolo, a verdade é que nenhum Papa será eterno. Quer por falecimento, resignação ou deposição, todo o Papa encontrará um fim. Os acontecimentos passam, de acordo com a fluída corrente do tempo, inexorável rio que percorre o seu indefinido leito, composto por histórias de glórias e apogeus, tragédias e desgraças. Analisando a cronologia, contam-se os ilustres e honrados homens que com a máxima devoção serviram a Santíssima Igreja, dedicando-lhe as suas vidas e dons, alguns santos e idolatrados pelo povo que com tanta reverência os observam e veneram, vendo neles a esperança que lhe falta, a fé que guiará o seu âmago pelas estradas da fragosa e escarpada vida, o pilar fundamental que lhe ampara a alma atormentada com o fim e com a escuridão eterna: uma verdadeira lux in arcana que ilumina o desconhecido que tanto martiriza a fraca e mortal condição.

Joões, Pios, Inocêncios, Gregórios, Bentos, Leões, Urbanos e Clementes, entre outros, fazem parte da extensa lista de pontífices que serviram com grande dedicação a Santa Igreja, contribuindo para um riquíssimo acervo histórico sem paralelo, concentrado no Vaticano. Enquanto o mundo procura o próximo sucessor, passa despercebido o esplendor de excelência do palco onde se desenrola o acontecimento.

Crucificação de São Pedro no ano de sessenta e sete em Roma. O homem liberta um último suspiro. A alma abandona o corpo que vê o seu referencial terreno alterado, nobre e humilde atitude em evitar a crucificação de acordo com a que Jesus fora sacrificado, não se julgando à altura do Homem que tanta luz ao Mundo trouxera, mundo esse que o massacrara, apagando a candeia que exalava paz e razão. Nem esse homem imagina que, daí a mil e seiscentos anos, naquele mesmo local nas margens do Tibre onde encontra o seu fatal destino, se erguerá o maior templo da Cristandade, propriedade da Santíssima Igreja, instituição regida pela nobilíssima vontade divina, arbítrio que apazigua as mágoas do fraco, salva o justo e perdoa o pecador. Lá dentro, no fresco ar da Basílica, repousará uma toda orgia de ostentação, riqueza e luxo; enfim, uma amostra de tudo o que de mais belo há na Terra, iluminada pelos mais claros raios, envolta num intenso odor a sagrado, banhada nos mais nobres e belos metais, crivada por milhares de valiosas pedras cuidadosamente lapidadas, resguardada pela delicada folha de ouro e aglomerada nesta triunfante apoteose que celebra a efémera vitória da vida sobre a morte.

Basílica, da antiga à recente, testemunha de séculos, intrigas, ironias, santidades, coroações, milagres e súplicas, ergue-se esplendorosamente sobre a Pedra ( Mt 16: 18-19 “Também Eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Abismo nada poderão contra ela.”). A Pedra. Sólida, fiel, fortalecida, um alicerce fundamental na criação de todo um universo que suporta, um archê que se explica a si próprio, enovelado nas malhas de vidas passadas e santificadas, sacrificadas pela Humanidade e martirizadas por ela.

Nos famosíssimos Museus do Vaticano, leia-se plural devido ao vastíssimo acervo que representa todas as formas de arte, todos os aspectos da civilização humana, de cada época e região; repousa e desfila uma quantidade exorbitante de arte. Sorriem obras salvas das mãos de bárbaros ou do nefasto efeito do tempo que lima as delicadas superfícies das ligeiras estatuetas ou que apaga os finos traços de pincéis cuidadosamente planeados para conferir uma representação sem igual. Na atmosfera, irradiante e completa com os suspiros que torturam de saudades e memórias de séculos anteriores, outras gentes e esplendores, pairam curiosas arcadas, todas elas esculpidas, pintadas, trabalhadas, de formas ondulantes, tentando iludir a curiosa atenção, fornecendo uma suspeita sensação de solidez e movimento. Nas paredes recolhem-se quadros, pinturas fenomenais representando deposições, grandes batalhas, vencedores e vencidos, ceias, ascensões, bodas, pregadores e alegorias.

Surge Cristo, acompanhado pelos seus fiéis doze discípulos, cada um com uma história para contar, diferentes pormenores de uma vida de lealdade e consagração. Condena-se o pecado, esconde-se o púbis com uma folha de videira formatada, repudia-se o Diabo e os seus temíveis ajudantes, assumindo toda e qualquer forma para atacar o mundo, envolvendo-o nesta cansativa batalha que desde a Origem se regista, quando “a terra era informe e vazia, as trevas cobriam o abismo e o espírito de Deus movia-se sobre a superfície das águas”, tentando arrastar tudo para o negro e insaciável Abismo que tudo pretende avaramente engolir, consumindo a essência das gentes humildes e assustadiças que nada observam na sua vida, a total ausência do caloroso amparo divino, procurando uma salvação de um efémero mas infinito sofrimento que se prolonga, morosamente espraiando-se nos campos de batalha da discórdia causada pela ambição e pelo desentendimento.

A estatuária de mármore celebrando a vida. Recordam invasões, auges e perdições. Muitas peças passaram pelo esquecimento, soterradas na imensidão de ruínas toscas e sem essência do que haviam sido, obliteradas pelo desespero do olvido; agora resplandecem, expandindo a glória de que são capazes, reluzindo pela recuperação que as tornou a ficar célebres. Santos, anjos, mártires, querubins, animais e deuses pagãos animam as galerias e os corredores revestidos da maior formosura de que o mundo consegue aglomerar, avaliadas pela perícia dos artistas e qualidade das obras que dão sentido à fugidia e frágil vida que tanto se deleita com elas, espelhando panoramas demasiado perfeitos para a real condição, algo disforme e imperfeitamente característica. Surgem grandes frescos ilustrando o Céu ou o Paraíso, ostentando ricas colorações derivadas de pigmentos raros, e de um detalhe impressionante, meticuloso e fiel. Os Museus albergam uma colecção de arte transversal, num espaço sublime, divinal, quase tão real como o utópico Céu, conferindo uma ínfima amostra de um bem ainda mais supremo, dominante, cálido e acolhedor.

 Sacras de altar, navetas, custódias, cruzes, terços de pérolas, coroas, báculos, ceptros, tronos, mitras, vestes riquíssimas, cálices de ouro, relicários de prata, obras artísticas de um realismo de tirar o fôlego, objectos sacros pagos com a promessa da salvação e com o negócio das condições da vida após a morte: a ideia pagã do céu e o cúmulo de Sodoma e Gomorra retratadas em fogo, lava, sofrimento e terror. Uma gloriosa Basílica que inocentemente abraça a Praça de S. Pedro, recebendo de braços abertos qualquer peregrino ou viajante que procure o ouvir das suas preces, o cumprir da penitência ou o abandono de uma vida pródiga e pecaminosa.

Aflui a gente. Cansada, derrotada e calejada pela marcha, alcança a Praça e imediatamente relembra o propósito que até ali a conduziu, contrariando a natural inércia que impede inovação. A maravilha engloba a personagem. A fachada, adornada por mestres, recebe as atenções pela grandiosidade e beleza, reflectindo um carácter duro, sólido e pouco flexível. O ar do interior puro, sagrado e condensado de preces, impregnado de Cristo e dos seus seguidores; captam-se ecos de episódios idos e de rezas executadas com fé e valor, contempla-se a altura da cúpula que impressiona pela audácia de ambicionar o escape da terra para os céus, céus esses que Deus reservara só para si e para as aves aladas como os anjos, guardiões da bondade.

Numa curta reflexão, recordam-se tempos áureos, clandestinas celebrações, pias missas, a contemplação da natureza e do ser na sua forma mais livre e simples, a pesada mão da opressão e do excessivo controlo, a abominação dos inquisidores, perseguições, batalhas e massacres, bodas e milagres, santos e mártires, corruptos e devotos. Vaticano, que encerra tanto mistério: os famosos e inacessíveis Arquivos, a beleza e o misticismo de algumas obras expostas nos Museus, ironias de santificações, registos duvidosos e episódios ocultados pelo austero manto da obrigação de seguir em frente; os Jardins belíssimos e cuidados.

Através da humildade e da consciência surgem sentidos pedidos de desculpa. Dos hereges que arderam, apenas uma ínfima parte se manteve calada e erecta, os restantes soltaram tremendos berros, arrependimentos e abraçaram a fé cristã, contorcendo-se constantemente. À medida que o fogo ascende, dos pés até ao meio do tronco, o cheiro de carne assada começava a pairar na atmosfera. As veias dos condenados aumentaram de tamanho, os seus lábios tornaram-se finos, a língua negra e os olhos secos. A maioria asfixiara, falecendo por entre as impetuosas labaredas que lhes fustigaram os membros. No final, resta um corpo carbonizado, semelhante a uma grande peça de carvão toscamente trabalhada, ainda preso à estaca, rodeado por cinzas quentes.

Religião que na mais sufocante atmosfera de treva, existe sempre, ainda que por vezes mínima, uma vela que alimenta a luz da Razão. Ainda que esta ilumine uma pequena porção, será o suficiente para o mundo não mergulhar na escuridão. Quando um intenso sopro apagar a frágil chama, as trevas reinarão, fomentando o caos por entre a obra do Criador, que como pai que educa a descendência, aplicará com militar disciplina o duro castigo. Mais pena o Homem, mais se ajoelha e baixa nos templos e mais clemência pede, tentando agarrar-se a toda a glória e magnificência do Salvador, qual laço de recém-nascido que contacta a primeira vez com a mãe, mulher que irá sempre respeitar, vivendo esta fortíssima ligação até à breve separação pela morte, mas eterna união nos céus prometidos pela intrínseca fé.

Por todo o Vaticano se ouvem preces, recordações e saudades: preze-se a Deus pela divindade, a maravilha e o poder. Não se glorifique o débil mortal pois tal propriedade está subjugada à luz da alma. Criador, valha-nos Vós que nos iluminais a alma e dela expulsais o tentador e malicioso Diabo. Confortai-nos em tempos de desespero, ajudai-nos a não pecar, livrai-nos do mal, concedei o milagre da vida, protegei-nos do desastre e alumiai-nos o caminho. Em troca Vos oferecemos sete benesses para suplantar os vícios que nos conduzem à decadência das profundezas. Caridade, castidade, diligência, generosidade, humildade, paciência e temperança vencerão os corruptos pecados que tanta discórdia e maldade ao mundo trazem. Louvemos os Vossos feitos universais e a Vossa doutrina, norma pela qual nos governamos e projectamos caminho. Louvemos Deus porque nos criou, sustenta e abençoa. Concedamos-lhe respeito e reverência em toda a Sua omnipotência. Glória a Vós, Senhor. Ámen.

 
Cortille de la Pigna, Musei Vaticani
 
 
Vaticano, nação de uma importância fulcral na cristianíssima fé, artisticamente sem paralelo, local pristino e arejado, solo sagrado e calejado por aqueles que procuram salvação e conforto, eternizando as palavras do Senhor em obras fenomenais que celebram a vitória da efémera vida sobre o mal, a destruição e a morte. Vaticano das sentidas e honestas missas que clamam a todo o vigor a grandiosidade divinal e a débil condição, das funestas e das ilustres novidades, da inovação e da tradição, do recato e da reflexão, da fé e da paixão; do Mundo. Portal entre a terra e os céus. Obra de Deus.





 

Tiago Malhó Lorga Gomes