sexta-feira, 8 de março de 2013

Vénus

 

Vénus

 

Dia da Mulher, oito de Março


Vénus, substantivando por si só sensualidade e paixão, uma deusa que da espuma marinha se ergueu. Rosas carmins, perfumes paradisíacos e juventude eterna. Desta santa graça se governa a mais perfeita musa, simbolizando fertilidade, amor, sexo e beleza.

Surge Vénus. Um ligeiro vestido cobre-lhe o suave e alvo corpo, esteticamente equilibrado e natural, representando a pura beleza, sem artes nem ilusões, que desorienta por completo quem com ela se cruza, esquecendo o seu destino, o labor que o chama ou a obrigação que o massacra, passando infindáveis horas de deleite a contemplar a plenitude, o equilíbrio e a liberdade. A luz irradia da mulher, tão divinal e incólume, plena e una. Transmite-se uma sensação fortíssima, sem paralelo, intensamente esmagadora que capta o âmago daqueles que a observam, tão graciosamente débil mas tão ilusoriamente humana. A aura da deusa desperta amor.

Amor por si só, embriagado pela aparência que cativa e imobiliza, não causa acção possível mesmo após a reacção de se contemplar a referida figura durante longas e imóveis horas; amor puro e pleno, livre de intentos e interesses, que domina quem por ele sofre e padece, que tanto folga e apraz a alma como a tortura e dilacera; amor desmedidamente irrealista, paixão de loucos, insana e irracional, um generoso sonho cuja noite trouxera por inexplicável acaso, que decerto a tornará memorável pela raridade; um amor pelo qual se morrerá, fatal e sofrido.

Deleite e perfeição. Vénus sorri calmamente, como se o mundo ostentasse na palma da mão, inocente presente ofertado por divina graça, virtude que a criara com o propósito de ofuscar a grandiosa obra que se estende e propaga pela imensidão, ambicionando um vislumbre, uma rápida contemplação de semelhante figura alegórica; a deusa que expira sensualidade, despertando íntimos e fugazes desejos, e que dá sentido à vida, uma força que impele à luta contra a tenacidade que a vida tem de querer findar sem nada que a sublime, sem nada que faça a pena pensar que valeu a pena ser vivida, áspera existência sem uma réstia da maravilhosa combustão que é o amor.

Vénus nua. Contemplem-se os dóceis pés, as esguias pernas, o cobiçado púbis, as belas nádegas, a macia barriga, os perfeitos seios, os elegantes ombros, os amáveis braços, as carinhosas mãos, o formoso pescoço, os lisos cabelos e a face divinal. Apesar de toda a inspiração provocada pela forma da carne, em nada se compara à alma que o corpo de Vénus encerra.

Errada e incorrectamente se foca no exterior, no perecível (que no caso da jovialidade e etérea beleza de Vénus se arrastarão até ao final dos tempos) e frágil dado equilibrado da anatomia que mais cedo ou mais tarde será devolvida à terra que avaramente a reclamará, decompondo as feições até ao indefinido, nada mais que memórias passadas, talvez um apogeu caído no esquecimento do desuso.

Os olhos suplantados pela imagem belíssima e pelo esplendor exalado, a pobre alma cega e apartada da razão e da racionalidade. A máscara de Vénus cai. A personagem revelada consegue, milagrosa e admiravelmente, superar a beleza e o sabor da figura que encerra a mais pura e dedicada das almas, frágil e honesto âmago, névoa da mesma matéria que os longínquos firmamentos, tão deliciosamente única e que, aquando da sua observação, faz perder o inerte e constante medo de perder o apogeu e a fama, de enfrentar e de não recear a infame morte que avaramente persegue e atormenta o Homem.

A alma de Vénus. Inocente, doce e carinhosa. A deusa demonstra bondade espontânea, caridade e cuidado materno. O âmago desperta amor, paixão; uma utopia de sentimentos gerados pela inexistência de material, algo fugaz e difuso, que não é concreto nem aglomerável, a alma, o que tão habilmente se esconde por trás da sublime fachada. A aparente imagem da Vénus sensual e imensamente bela, esconde em cativeiro um sopro de pessoa, uma alma imensuravelmente ainda mais preciosa e plena, uma verdadeira pérola, se a tão pouco possamos comparar algo tão grandioso, que reflecte a luz que nela incide, provocando feixes ainda mais fortes e encantadores. Apaixona e gera sensações, pensamentos e ideias.Impera a essência feminina.

 A deusa tem de ser resguardada e protegida, encontrar um amado que lhe dedique galanteria e tempo, de saborear a essência da liberdade e do amor, fruto da paixão que origina naqueles que têm a sorte de conseguir ultrapassar o artifício e a cilada da formosa e fidalga aparência para alcançar o derradeiro triunfo: uma alma perfeita.


Vénus de Milo
 
 
Tiago Malhó Lorga Gomes

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