Vénus
Dia da
Mulher, oito de Março
Vénus, substantivando por si só sensualidade e paixão,
uma deusa que da espuma marinha se ergueu. Rosas carmins, perfumes paradisíacos
e juventude eterna. Desta santa graça se governa a mais perfeita musa,
simbolizando fertilidade, amor, sexo e beleza.
Surge Vénus. Um ligeiro vestido cobre-lhe o suave e
alvo corpo, esteticamente equilibrado e natural, representando a pura beleza,
sem artes nem ilusões, que desorienta por completo quem com ela se cruza,
esquecendo o seu destino, o labor que o chama ou a obrigação que o massacra,
passando infindáveis horas de deleite a contemplar a plenitude, o equilíbrio e
a liberdade. A luz irradia da mulher, tão divinal e incólume, plena e una.
Transmite-se uma sensação fortíssima, sem paralelo, intensamente esmagadora que
capta o âmago daqueles que a observam, tão graciosamente débil mas tão
ilusoriamente humana. A aura da deusa desperta amor.
Amor por si só, embriagado pela aparência que cativa e
imobiliza, não causa acção possível mesmo após a reacção de se contemplar a
referida figura durante longas e imóveis horas; amor puro e pleno, livre de
intentos e interesses, que domina quem por ele sofre e padece, que tanto folga
e apraz a alma como a tortura e dilacera; amor desmedidamente irrealista, paixão
de loucos, insana e irracional, um generoso sonho cuja noite trouxera por
inexplicável acaso, que decerto a tornará memorável pela raridade; um amor pelo
qual se morrerá, fatal e sofrido.
Deleite e perfeição. Vénus sorri calmamente, como se o
mundo ostentasse na palma da mão, inocente presente ofertado por divina graça,
virtude que a criara com o propósito de ofuscar a grandiosa obra que se estende
e propaga pela imensidão, ambicionando um vislumbre, uma rápida contemplação de
semelhante figura alegórica; a deusa que expira sensualidade, despertando
íntimos e fugazes desejos, e que dá sentido à vida, uma força que impele à luta
contra a tenacidade que a vida tem de querer findar sem nada que a sublime, sem
nada que faça a pena pensar que valeu a pena ser vivida, áspera existência sem
uma réstia da maravilhosa combustão que é o amor.
Vénus nua. Contemplem-se os dóceis pés, as esguias
pernas, o cobiçado púbis, as belas nádegas, a macia barriga, os perfeitos
seios, os elegantes ombros, os amáveis braços, as carinhosas mãos, o formoso
pescoço, os lisos cabelos e a face divinal. Apesar de toda a inspiração provocada
pela forma da carne, em nada se compara à alma que o corpo de Vénus encerra.
Errada e incorrectamente se foca no exterior, no perecível
(que no caso da jovialidade e etérea beleza de Vénus se arrastarão até ao final
dos tempos) e frágil dado equilibrado da anatomia que mais cedo ou mais tarde
será devolvida à terra que avaramente a reclamará, decompondo as feições até ao
indefinido, nada mais que memórias passadas, talvez um apogeu caído no
esquecimento do desuso.
Os olhos suplantados pela imagem belíssima e pelo esplendor
exalado, a pobre alma cega e apartada da razão e da racionalidade. A máscara de
Vénus cai. A personagem revelada consegue, milagrosa e admiravelmente, superar
a beleza e o sabor da figura que encerra a mais pura e dedicada das almas,
frágil e honesto âmago, névoa da mesma matéria que os longínquos firmamentos,
tão deliciosamente única e que, aquando da sua observação, faz perder o inerte
e constante medo de perder o apogeu e a fama, de enfrentar e de não recear a
infame morte que avaramente persegue e atormenta o Homem.
A alma de Vénus. Inocente, doce e carinhosa. A deusa
demonstra bondade espontânea, caridade e cuidado materno. O âmago desperta
amor, paixão; uma utopia de sentimentos gerados pela inexistência de material,
algo fugaz e difuso, que não é concreto nem aglomerável, a alma, o que tão
habilmente se esconde por trás da sublime fachada. A aparente imagem da Vénus
sensual e imensamente bela, esconde em cativeiro um sopro de pessoa, uma alma
imensuravelmente ainda mais preciosa e plena, uma verdadeira pérola, se a tão
pouco possamos comparar algo tão grandioso, que reflecte a luz que nela incide,
provocando feixes ainda mais fortes e encantadores. Apaixona e gera sensações,
pensamentos e ideias.Impera
a essência feminina.
A deusa tem de
ser resguardada e protegida, encontrar um amado que lhe dedique galanteria e
tempo, de saborear a essência da liberdade e do amor, fruto da paixão que
origina naqueles que têm a sorte de conseguir ultrapassar o artifício e a
cilada da formosa e fidalga aparência para alcançar o derradeiro triunfo: uma
alma perfeita.
Vénus de Milo
Tiago Malhó Lorga Gomes

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