Bagdade
Dia 21 de Março de 2003
Monumento
ao Soldado Desconhecido e Visão geral de
Bagdade
A noite cai sobre a cidade milenar. Sopra uma brisa leve, um doce
momento que relembra a quente aridez que envolve e delimita os férteis campos
que ladeiam a urbe atravessada pelo rio Tigre, fonte de vida e abundância. As
ruas desertas, poeirentas, sem sinal de vida nem de almas, pardacentas e
escurecidas pelo pesar dos hábitos. Nas casas, após o modesto jantar,
procede-se à última das cinco orações diárias, que suscita o pensamento da
presença, perdão e misericórdia de Deus. O povo deita-se, aconchega-se nos
leitos pobres e desgastados pela falta de recurso e de inovação, planeando a
invariável rotina que protagonizam dia após dia, numa constante elipse de labor
e obrigação.
A
cidade adormece, caída em ecos de um passado de glória, temente às reais
ameaças que se avizinham: possíveis invasões ou guerras, fruto de instáveis
tensões que visam derrubar o regime ditatorial que aperta o jugo ao cerviz do
povo, tão serviçal e empenhado, apavorado com as atrocidades regulares impostas
pelo longo reinado de implacável crueldade, corrupção e opressão. Antes de cerrar
os olhos, é invadida por uma súbita amargura inexplicável. O dia seguinte
calcula-se ser mais um entre tantos sofridos e impávidos, sem forma de findar,
de despir o véu da sentença eterna da liberdade furtada, o excessivo culto da
personalidade, a pátria a devorar os próprios filhos, indiferente aos seus
destinos, ingerindo-os avidamente, de vários tragos diários.
A
primeira bomba cai. Os bombardeiros iniciam a operação a meio da noite,
apanhando de surpresa aqueles que ao sono se tinham entregue, quer por
exaustão, quer por preguiça, despertando-os num ápice. O barulho ensurdecedor,
uma orquestra de instrumentos de percussão completamente descoordenada, primando
pelos sons graves e cavernosos que libertam quando menos se espera,
iniciando-se numa agudíssima espiral de queda provocada pela gravidade, e
terminando numa fusão profunda e cava quando se encontra com o solo. A
agradável brisa que animava a fresca tela da noite estrelada rapidamente cede a
uma pauta de constantes sons horripilantes e aterradores, provocados por
súbitas formações níveas que ofuscam o céu com crescentes nuvens que partem do
chão, elevando o fumo que cria colunas irregulares, tingindo a noite com a
alvura explosiva e letal.
As
bombas caem. Os alvos são estrategicamente escolhidos, tendo em atenção às
baixas civis (se bem que na guerra tudo vale, tal a ganância e o perigo, a
necessidade e a delicadeza, ou antes a falta dela), aos hospitais, às madrassas
e às pérolas arquitectónicas da antiga cidade que encerra tanta cultura e esplendor.
Os paióis atingidos e expirados em sucessivas explosões, as fortalezas com
sinal de cedência, os alicerces danificados e com brechas, a aviação iraquiana
controlada, os baluartes arrasados, mal se distinguindo da árida paisagem que
os rodeava. Na cidade instala-se o caos. O ruído grandioso, exagerado
fogo-de-artifício dirigido à terra e não aos céus, faz palpitar os corações dos
frágeis e assustados cidadãos que ao sono se entregaram com a maior das
simplicidades, sem ideia nem pista que tal bombardeamento poderia ocorrer tão subita
e desalmadamente. Os edifícios, as casas e as mesquitas nada mais que um
confuso monte de entulho onde se destacam vigas de ferro, betão armado,
tijolos, madeira e argamassa, tudo isto soterrando e comprimindo os corpos dos
homens inocentes, culpados do azar que a vida lhes ceifou, irremediavelmente
perdidos, sem graça nem mesmo forma concreta; são pedaços de vísceras,
espalhados pelas ruas, carne imersa em sangue ainda quente e envolta em tecidos
enegrecidos, desfiguradas figuras que figuraram entre o mundo dos vivos,
partindo neste na maior miséria e injustiça de que podiam ser vítimas.
O
Tigre tinge-se de sangue. Os bairros consumidos por tremendos incêndios,
suscitando um alvoroço descontrolado, sem local para fugir nem se refugiar, o
povo corre sem uma meta específica, encolhido, como se tal prevenisse a queda
de um explosivo numa mesquita próxima ou no quarteirão adjacente. A artilharia anti-aérea
tenta em vão suprimir as vagas do inimigo, como se uma Bagdade de há mil anos
se tratasse, imponente e magna, defendendo-se dos exércitos que irrompiam pelos
territórios, provenientes da Pérsia, numa desenfreada ânsia de conquista e
batalha; aclarando ainda mais os céus, outrora cristalinos, de tal maneira
puros e plenos, que naquele mesmo local se havia instalado um dos primeiros
observatórios do mundo árabe, chamando a si eruditos e sábios que contribuíram para
o florescimento de uma cidade diversificada, no topo de uma idade dourada em
termos científicos e civilizacionais.
Bagdade
sofre. O apogeu há muito abandonado e perdido mergulha nas turvas águas do
descalabro. A noite é um espectáculo de mortalhas, sonoras e luminosas, levando
consigo centenas de vidas. Os homens despedaçados em segundos pelas intensas
temperaturas, queimaduras e perda de membros, feridas e inflamações. As ondas
de choque arrasam as casas que de basto nada têm, débeis anfitriãs que encaram
o Tigre e a sua impavidez que se orna de vermelho e de destroço. As estradas
intransitáveis com enormes fossas causadas pelas bombas, repletas de gente em
agonia, sem saber para onde se dirigir, desejando que o sofrimento termine de
uma forma breve e pouco atroz. As famílias unem o seu sangue, espezinhadas pelas
ruínas das habitações, em montes inexpugnáveis e robustos, expirando em gritos
de agonia, abafados pelo concerto que se desenrola no céu.
O
fumo ascende, a cidade arde. As mesquitas, ornadas de grande valor e inscrições
em mosaico, servem de refúgio aos crentes que, nos minutos do bombardeamento,
para lá se dirigiram, na vã esperança de salvação adiantada. Sobre eles cedem a
cúpula, que brilhantemente arrematava o dado templo, os arcos quebrados,
possivelmente o minarete em espiral e as obras sagradas. Uma verdadeira
carnificina; as crianças assistem e temem pelas suas famílias, demasiado novas
e inocentes para compreenderem o seu papel na engrenagem deste mundo que de pio
nada oferece, a infância atemorizada por este infeliz e execrável evento, uma
apoteose triunfal da morte, prevalecente sobre os tempos e as eras, caíndo dos
céus sobre Bagdade.
O
ataque termina. Reina um silêncio desconfortável, uma adaptação da audição ao
vulgar som exacerbado pelas caóticas e mortíferas explosões que se espraiaram
pela urbe. Aos poucos, os grunhidos e as preces surgem. Os miseráveis esmagados
no meio do alcatrão, os cadáveres irreconhecíveis e carbonizados, as mulheres
desorientadas, em pânico e lavadas de lágrimas, as crianças traumatizadas,
feridas e gastas, as ruelas tortuosas desaparecidas dos mapas, as casas
arrasadas numa impregnação composta por sangue e pó, os tapetes persas rasgados
e chamuscados, as mercadorias desaparecidas, as memórias de um evento
aterrador. Pulmões perfurados, corpos extenuados que viram a vida fugir-lhes
num ápice, ainda na flor da idade, gente para a qual o fado parecia ter
reservado grandes feitos e confortáveis quotidianos, ali enganada com um
retalho fatalista e injusto, levando-os inocentes para a terra. Os corações palpitantes
e errantes, fugindo de toda o extravasar de possíveis emoções, tal o descalabro
e a magnitude, a desorientação para onde carregam e levam os feridos; as mães
que carregam ao colo os filhos mortos, nada mais que pequenas peças
ensanguentadas envoltas em lenços igualmente tingidos de carmim; os filhos sem
reacção possível, sentados ao lado dos cadáveres da família atingida por vigas
de madeira; os pais derramando lágrimas pelo desespero e pelo temor; Bagdade
arruinada, enganada pela promessa de uma existência sólida e plena, envolta em
sangue, ruína e infinda dor.
Fundada
a dia 30 de Junho de 762, a cidade apresentara várias épocas, passando por
áureos momentos, idades de ouro repletas de mercadores, artesãos, teólogos e
sábios, reunindo a cultura da altura sob a forma de manuscritos e obras
artísticas; mas também por tremendos saques e invasões. Desta vez, o mal veio
dos céus. A rua Haifa contempla a cidade destroçada, viúva da vivacidade e
madrasta do desespero. Imensuravelmente perdida, sem rumo nem destino, avança
por impulso: cuidem-se os vivos, tratem-se dos feridos e dos enfermos,
enterrem-se e recordem-se os mortos.
De manhã, a cidade está fumegante e enevoada, a sua gente apresenta uma
aparente resignação pela vida, totalmente enegrecida, devota existência que
tudo guiara e explicara até aquele ponto, cessando a razão, a fé a força. Ouve-se todo o tipo de coisas,
milagres inéditos, massacres horrendos, fugas dos ministros e do ditador,
guarnições e exércitos formados; circulando pela cidade parda que tenta limpar
as manchas de sangue da noite anterior, estando atenta aos céus, pois a
qualquer momento deles poderá brotar mais semente da discórdia, ceifando os que
à noite se conseguiram livrar.
A
cidade não resiste. O sofrimento é atroz, profundo e dilacerante. Os cadáveres
são inúmeros, mutilados, carbonizados, amassados, arrancados, despedaçados;
horrendas formas de findar subitamente. Com o passar dos dias, os
bombardeamentos intensificam-se e a frente avança perigosamente para a milenar
Bagdade que tanto encanto e diversidade encerrara. Com efeito, a cidade é
tomada no dia 7 de Abril de 2003, ocupada pelas tropas invasoras cujo propósito
é o estabelecer da democracia e da liberdade, rompendo as grilhetas que durante
tantos anos prenderam o povo e o massacraram.
Nas
ruas reina o caos. Tiroteios, atentados e operações. A vida quotidiana é
suspensa, as actividades reduzidas ao mínimo, passando-se fome e necessidade,
tentando reconstruir o que se perdera. Uma lástima, a cidade. A dor apossa-se
das almas dos habitantes, que a viram tão formosa e agora horrenda, ausenta de
muitos dos seus constituintes populacionais e arquitectónicos. O ilustre Museu
Nacional do Iraque, que outrora albergara tanta relíquia e preciosidade,
saqueado, com as obras rapinadas e vandalizadas, objectos de estimo datando de
há milénios, crivando uma essência da História da Humanidade, ali findados
vasos em pedaços, jóias desaparecidas, estátuas irremediavelmente danificadas,
painéis queimados, reduzidos a cinzas e a um negro fumo. O Museu vazio,
destroçado, chora para o Tigre mágoas de extremo desamparo e aflição. O seu
conteúdo desaparecido, a arte desvalorizada, a História timbrada nos mosaicos e
nos azulejos quebrada, os vasos e os pergaminhos pilhados, as efígies
desfeitas, os bustos no chão, as paredes bruscamente despidas de valor e
historial. Uma infinita perda do património aliada à morte. A Biblioteca e os
Arquivos Nacionais igualmente pilhados, queimados e despedaçados, arruinando
documentos importantes e únicos.
Reina
a insatisfação, o medo, o pavor e a insubmissão. Enquanto se consome Bagdade de
dor dos mártires cuja vida foi terminada por ataques ou execuções, de desespero
da fome e da miséria, da insensatez da ocupação e dos atentados, das perniciosas
notícias que correm pela boca do povo; se observa o invasor criando perímetros
de segurança, elaborando delicadas operações e breves ataques, ordenado o país
para uma nova era, plantando alicerces numa pátria que não a dele, cometendo
erros condenáveis e depravações arrepiantes. O Museu consome-se de fogo e saque,
à mercê de salteadores e de gente que lá encontra abrigo da instável rua, palco
de confrontos e atentados. Em contraste, o Ministério do Petróleo, prontamente
ocupado pelo invasor, apresenta-se incólume, preservado e totalmente uno e
completo.
Rapidamente
os ocupantes se encarregam de cometer atrocidades condenáveis, dispondo de
recursos e discriminando raças e credos, colocando ainda mais fundo a semente
da eterna discórdia que levará ao apocalipse. As inscrições árabes das
madrassas e das mesquitas resplandecem no meio de tanto caos e desordem. A
força da pátria que se quer autónoma e livre prevalecerá, elevando o ânimo a
tão sofrida e desesperada gente, condenada da inocência que a reveste e livre
da inevitável situação em que se encontra, perdidamente mergulhada em horror. A
guerra, recordando o Irão e o Kuwait, de nada valeu ao Iraque, sempre envolto
em grande carnificina, palco de grandiosas civilizações que deixaram ruínas
espalhadas pelos secos desertos que tão sofregamente devoram esses vestígios,
governado o país por uma capital riquíssima em História, presentemente
mergulhada nos vapores da fatalidade do impiedoso destino que pretende arrastar
a condição para o abismo da discórdia e do mortífero negrume, sorvendo a sua
gente, inocentes mártires que sofrem as maiores misérias e medos de que o Homem
pode.
Passados
dez anos, muito se passou. A liberdade será daqueles que realmente a procuram,
pura e simples, honesta e regrada, mesmo que tal implique tremendas devoções e
esforços. As almas ambicionam a razão e a plenitude. As areias do deserto e o cálido
vento do deserto geram um sopro constante, levantando os ânimos à população,
sibilo esse que se muta quando se aproxima do Tigre e das construções da
capital iraquiana. Bagdade chora.
Bombardeamento
de Bagdade
Tiago Malhó Lorga Gomes

Sem comentários:
Enviar um comentário