sábado, 23 de março de 2013

Bagdade


Bagdade


Dia 21 de Março de 2003

 


Monumento ao Soldado Desconhecido e Visão geral de Bagdade



A noite cai sobre a cidade milenar. Sopra uma brisa leve, um doce momento que relembra a quente aridez que envolve e delimita os férteis campos que ladeiam a urbe atravessada pelo rio Tigre, fonte de vida e abundância. As ruas desertas, poeirentas, sem sinal de vida nem de almas, pardacentas e escurecidas pelo pesar dos hábitos. Nas casas, após o modesto jantar, procede-se à última das cinco orações diárias, que suscita o pensamento da presença, perdão e misericórdia de Deus. O povo deita-se, aconchega-se nos leitos pobres e desgastados pela falta de recurso e de inovação, planeando a invariável rotina que protagonizam dia após dia, numa constante elipse de labor e obrigação.

A cidade adormece, caída em ecos de um passado de glória, temente às reais ameaças que se avizinham: possíveis invasões ou guerras, fruto de instáveis tensões que visam derrubar o regime ditatorial que aperta o jugo ao cerviz do povo, tão serviçal e empenhado, apavorado com as atrocidades regulares impostas pelo longo reinado de implacável crueldade, corrupção e opressão. Antes de cerrar os olhos, é invadida por uma súbita amargura inexplicável. O dia seguinte calcula-se ser mais um entre tantos sofridos e impávidos, sem forma de findar, de despir o véu da sentença eterna da liberdade furtada, o excessivo culto da personalidade, a pátria a devorar os próprios filhos, indiferente aos seus destinos, ingerindo-os avidamente, de vários tragos diários.

A primeira bomba cai. Os bombardeiros iniciam a operação a meio da noite, apanhando de surpresa aqueles que ao sono se tinham entregue, quer por exaustão, quer por preguiça, despertando-os num ápice. O barulho ensurdecedor, uma orquestra de instrumentos de percussão completamente descoordenada, primando pelos sons graves e cavernosos que libertam quando menos se espera, iniciando-se numa agudíssima espiral de queda provocada pela gravidade, e terminando numa fusão profunda e cava quando se encontra com o solo. A agradável brisa que animava a fresca tela da noite estrelada rapidamente cede a uma pauta de constantes sons horripilantes e aterradores, provocados por súbitas formações níveas que ofuscam o céu com crescentes nuvens que partem do chão, elevando o fumo que cria colunas irregulares, tingindo a noite com a alvura explosiva e letal.

As bombas caem. Os alvos são estrategicamente escolhidos, tendo em atenção às baixas civis (se bem que na guerra tudo vale, tal a ganância e o perigo, a necessidade e a delicadeza, ou antes a falta dela), aos hospitais, às madrassas e às pérolas arquitectónicas da antiga cidade que encerra tanta cultura e esplendor. Os paióis atingidos e expirados em sucessivas explosões, as fortalezas com sinal de cedência, os alicerces danificados e com brechas, a aviação iraquiana controlada, os baluartes arrasados, mal se distinguindo da árida paisagem que os rodeava. Na cidade instala-se o caos. O ruído grandioso, exagerado fogo-de-artifício dirigido à terra e não aos céus, faz palpitar os corações dos frágeis e assustados cidadãos que ao sono se entregaram com a maior das simplicidades, sem ideia nem pista que tal bombardeamento poderia ocorrer tão subita e desalmadamente. Os edifícios, as casas e as mesquitas nada mais que um confuso monte de entulho onde se destacam vigas de ferro, betão armado, tijolos, madeira e argamassa, tudo isto soterrando e comprimindo os corpos dos homens inocentes, culpados do azar que a vida lhes ceifou, irremediavelmente perdidos, sem graça nem mesmo forma concreta; são pedaços de vísceras, espalhados pelas ruas, carne imersa em sangue ainda quente e envolta em tecidos enegrecidos, desfiguradas figuras que figuraram entre o mundo dos vivos, partindo neste na maior miséria e injustiça de que podiam ser vítimas.

O Tigre tinge-se de sangue. Os bairros consumidos por tremendos incêndios, suscitando um alvoroço descontrolado, sem local para fugir nem se refugiar, o povo corre sem uma meta específica, encolhido, como se tal prevenisse a queda de um explosivo numa mesquita próxima ou no quarteirão adjacente. A artilharia anti-aérea tenta em vão suprimir as vagas do inimigo, como se uma Bagdade de há mil anos se tratasse, imponente e magna, defendendo-se dos exércitos que irrompiam pelos territórios, provenientes da Pérsia, numa desenfreada ânsia de conquista e batalha; aclarando ainda mais os céus, outrora cristalinos, de tal maneira puros e plenos, que naquele mesmo local se havia instalado um dos primeiros observatórios do mundo árabe, chamando a si eruditos e sábios que contribuíram para o florescimento de uma cidade diversificada, no topo de uma idade dourada em termos científicos e civilizacionais.

Bagdade sofre. O apogeu há muito abandonado e perdido mergulha nas turvas águas do descalabro. A noite é um espectáculo de mortalhas, sonoras e luminosas, levando consigo centenas de vidas. Os homens despedaçados em segundos pelas intensas temperaturas, queimaduras e perda de membros, feridas e inflamações. As ondas de choque arrasam as casas que de basto nada têm, débeis anfitriãs que encaram o Tigre e a sua impavidez que se orna de vermelho e de destroço. As estradas intransitáveis com enormes fossas causadas pelas bombas, repletas de gente em agonia, sem saber para onde se dirigir, desejando que o sofrimento termine de uma forma breve e pouco atroz. As famílias unem o seu sangue, espezinhadas pelas ruínas das habitações, em montes inexpugnáveis e robustos, expirando em gritos de agonia, abafados pelo concerto que se desenrola no céu.

O fumo ascende, a cidade arde. As mesquitas, ornadas de grande valor e inscrições em mosaico, servem de refúgio aos crentes que, nos minutos do bombardeamento, para lá se dirigiram, na vã esperança de salvação adiantada. Sobre eles cedem a cúpula, que brilhantemente arrematava o dado templo, os arcos quebrados, possivelmente o minarete em espiral e as obras sagradas. Uma verdadeira carnificina; as crianças assistem e temem pelas suas famílias, demasiado novas e inocentes para compreenderem o seu papel na engrenagem deste mundo que de pio nada oferece, a infância atemorizada por este infeliz e execrável evento, uma apoteose triunfal da morte, prevalecente sobre os tempos e as eras, caíndo dos céus sobre Bagdade.

O ataque termina. Reina um silêncio desconfortável, uma adaptação da audição ao vulgar som exacerbado pelas caóticas e mortíferas explosões que se espraiaram pela urbe. Aos poucos, os grunhidos e as preces surgem. Os miseráveis esmagados no meio do alcatrão, os cadáveres irreconhecíveis e carbonizados, as mulheres desorientadas, em pânico e lavadas de lágrimas, as crianças traumatizadas, feridas e gastas, as ruelas tortuosas desaparecidas dos mapas, as casas arrasadas numa impregnação composta por sangue e pó, os tapetes persas rasgados e chamuscados, as mercadorias desaparecidas, as memórias de um evento aterrador. Pulmões perfurados, corpos extenuados que viram a vida fugir-lhes num ápice, ainda na flor da idade, gente para a qual o fado parecia ter reservado grandes feitos e confortáveis quotidianos, ali enganada com um retalho fatalista e injusto, levando-os inocentes para a terra. Os corações palpitantes e errantes, fugindo de toda o extravasar de possíveis emoções, tal o descalabro e a magnitude, a desorientação para onde carregam e levam os feridos; as mães que carregam ao colo os filhos mortos, nada mais que pequenas peças ensanguentadas envoltas em lenços igualmente tingidos de carmim; os filhos sem reacção possível, sentados ao lado dos cadáveres da família atingida por vigas de madeira; os pais derramando lágrimas pelo desespero e pelo temor; Bagdade arruinada, enganada pela promessa de uma existência sólida e plena, envolta em sangue, ruína e infinda dor.

Fundada a dia 30 de Junho de 762, a cidade apresentara várias épocas, passando por áureos momentos, idades de ouro repletas de mercadores, artesãos, teólogos e sábios, reunindo a cultura da altura sob a forma de manuscritos e obras artísticas; mas também por tremendos saques e invasões. Desta vez, o mal veio dos céus. A rua Haifa contempla a cidade destroçada, viúva da vivacidade e madrasta do desespero. Imensuravelmente perdida, sem rumo nem destino, avança por impulso: cuidem-se os vivos, tratem-se dos feridos e dos enfermos, enterrem-se e recordem-se os mortos.

De manhã, a cidade está fumegante e enevoada, a sua gente apresenta uma aparente resignação pela vida, totalmente enegrecida, devota existência que tudo guiara e explicara até aquele ponto, cessando a razão, a fé  a força. Ouve-se todo o tipo de coisas, milagres inéditos, massacres horrendos, fugas dos ministros e do ditador, guarnições e exércitos formados; circulando pela cidade parda que tenta limpar as manchas de sangue da noite anterior, estando atenta aos céus, pois a qualquer momento deles poderá brotar mais semente da discórdia, ceifando os que à noite se conseguiram livrar.

 

A cidade não resiste. O sofrimento é atroz, profundo e dilacerante. Os cadáveres são inúmeros, mutilados, carbonizados, amassados, arrancados, despedaçados; horrendas formas de findar subitamente. Com o passar dos dias, os bombardeamentos intensificam-se e a frente avança perigosamente para a milenar Bagdade que tanto encanto e diversidade encerrara. Com efeito, a cidade é tomada no dia 7 de Abril de 2003, ocupada pelas tropas invasoras cujo propósito é o estabelecer da democracia e da liberdade, rompendo as grilhetas que durante tantos anos prenderam o povo e o massacraram.

Nas ruas reina o caos. Tiroteios, atentados e operações. A vida quotidiana é suspensa, as actividades reduzidas ao mínimo, passando-se fome e necessidade, tentando reconstruir o que se perdera. Uma lástima, a cidade. A dor apossa-se das almas dos habitantes, que a viram tão formosa e agora horrenda, ausenta de muitos dos seus constituintes populacionais e arquitectónicos. O ilustre Museu Nacional do Iraque, que outrora albergara tanta relíquia e preciosidade, saqueado, com as obras rapinadas e vandalizadas, objectos de estimo datando de há milénios, crivando uma essência da História da Humanidade, ali findados vasos em pedaços, jóias desaparecidas, estátuas irremediavelmente danificadas, painéis queimados, reduzidos a cinzas e a um negro fumo. O Museu vazio, destroçado, chora para o Tigre mágoas de extremo desamparo e aflição. O seu conteúdo desaparecido, a arte desvalorizada, a História timbrada nos mosaicos e nos azulejos quebrada, os vasos e os pergaminhos pilhados, as efígies desfeitas, os bustos no chão, as paredes bruscamente despidas de valor e historial. Uma infinita perda do património aliada à morte. A Biblioteca e os Arquivos Nacionais igualmente pilhados, queimados e despedaçados, arruinando documentos importantes e únicos.

Reina a insatisfação, o medo, o pavor e a insubmissão. Enquanto se consome Bagdade de dor dos mártires cuja vida foi terminada por ataques ou execuções, de desespero da fome e da miséria, da insensatez da ocupação e dos atentados, das perniciosas notícias que correm pela boca do povo; se observa o invasor criando perímetros de segurança, elaborando delicadas operações e breves ataques, ordenado o país para uma nova era, plantando alicerces numa pátria que não a dele, cometendo erros condenáveis e depravações arrepiantes. O Museu consome-se de fogo e saque, à mercê de salteadores e de gente que lá encontra abrigo da instável rua, palco de confrontos e atentados. Em contraste, o Ministério do Petróleo, prontamente ocupado pelo invasor, apresenta-se incólume, preservado e totalmente uno e completo.

Rapidamente os ocupantes se encarregam de cometer atrocidades condenáveis, dispondo de recursos e discriminando raças e credos, colocando ainda mais fundo a semente da eterna discórdia que levará ao apocalipse. As inscrições árabes das madrassas e das mesquitas resplandecem no meio de tanto caos e desordem. A força da pátria que se quer autónoma e livre prevalecerá, elevando o ânimo a tão sofrida e desesperada gente, condenada da inocência que a reveste e livre da inevitável situação em que se encontra, perdidamente mergulhada em horror. A guerra, recordando o Irão e o Kuwait, de nada valeu ao Iraque, sempre envolto em grande carnificina, palco de grandiosas civilizações que deixaram ruínas espalhadas pelos secos desertos que tão sofregamente devoram esses vestígios, governado o país por uma capital riquíssima em História, presentemente mergulhada nos vapores da fatalidade do impiedoso destino que pretende arrastar a condição para o abismo da discórdia e do mortífero negrume, sorvendo a sua gente, inocentes mártires que sofrem as maiores misérias e medos de que o Homem pode.

Passados dez anos, muito se passou. A liberdade será daqueles que realmente a procuram, pura e simples, honesta e regrada, mesmo que tal implique tremendas devoções e esforços. As almas ambicionam a razão e a plenitude. As areias do deserto e o cálido vento do deserto geram um sopro constante, levantando os ânimos à população, sibilo esse que se muta quando se aproxima do Tigre e das construções da capital iraquiana. Bagdade chora.

 

Bombardeamento de Bagdade
 

Tiago Malhó Lorga Gomes

 

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