terça-feira, 26 de março de 2013

Fabergé


Tradição Pascal Romanov

Fabergé. O nome por si só suscita um lendário misticismo, um sonante substantivo apologista de originalidade artística, denunciando uma infindável perícia e detalhe de obras ricamente elaboradas. A Casa de Fabergé (Дом Фаберже), ilustre joalharia sediada em São Petersburgo, foi responsável pela produção dos Ovos Imperiais de 1885 a 1917, destinados à família real russa. A tradição nasceu com o czar Alexandre III, que, numa acção simbólica para recordar a infância da esposa, encomendara a Peter Carl Fabergé, joalheiro exímio e capaz de criar obras imensuravelmente belas e simbólicas, um singelo Ovo pascal.

Todos os anos, pela altura da Páscoa e, enquanto Alexandre III foi vivo, a tradição se cumpria, oferecendo um Ovo à czarina, cada qual único e fabuloso, contendo uma surpresa no seu interior. O legado continuou com Nicolau II, o último czar, imperador e autocrata de Todas as Rússias, até ser deposto em 1917. O exterior exuberante e diversificado, quer apresentando rebuscadíssimos arabescos em folha dourada na solidez do cristal, quer em pequeníssimos mosaicos ordenados, contendo inscrições e padrões complexos. Uma das características dos Ovos é o brilho que orgulhosamente ostentam, conferido pela vasta quantidade de pequenos diamantes lapidados, esmeraldas e safiras, rubis e pérolas, esmalte e platina, cristal e quartzo, marfim e jade. Resplandecem pela atitude com que se elevam nos cuidados e magníficos pedestais, entre finíssimos ramos ou seguras pilastras de mármore suportando o precioso Ovo, símbolo de nascimento, de libertação para a vida, fragilidade e comunhão.

A riqueza ofusca a visão. Estonteantemente perfeitos, os Ovos apresentam mecanismos sublimes (alguns objectos precisos de relojoaria, outros meramente decorativos), envoltos em grandiosas composições de ouro, prata ou platina, de detalhes enriquecedores e meticulosos, fazendo jus ao nome de Fabergé, a célebre Casa que era referência da época, o nome de culto idolatrado pela nobreza e realeza russas, que apreciavam as suas obras artísticas, nada mais que aglomerações de pedras e metais cuidadosamente moldados pelo ofício que tão afincada e cautelosamente era executado, preenchendo os requisitos de excelência e de inovação.

Cada Ovo contém no seu interior uma surpresa, desenhada para admirar ainda mais o seu dono. Desde retratos de família, passando por miniaturas de carruagens, comboios transiberianos, navios e palácios, a cisnes repousando em água-marinha ou ramos de flores campestres; se contempla a arte do joalheiro, capaz de fascinar e de iluminar o espírito pascal da família Romanov, embriagada com as extravagantes obras que a Casa de Fabergé anualmente lhe apresenta, muitas das vezes, ignorando qual o formato ou a temática do Ovo em questão até este ser revelado.

Partidos e dispersos nos seus componentes, os Ovos são caros: umas quantas gramas de ouro de vinte e dois quilates, alguns pequenos diamantes cuidadosamente talhados, prata e platina em quantidades definidas, pedras semipreciosas e incrustações em madeiras raras. Mas o que realmente valoriza os objectos não é a amálgama de materiais dispendiosos e raros, mas antes a forma única como estes estão dispostos, o símbolo e a imagem que transmitem, envergando facetas históricas e lendárias, timbrando nas suas superfícies memórias de tempos áureos de abastança e triunfo, perpetuando uma gloriosa apoteose de luxo prevalecente sobre a época pascal, tão sagrada e límpida, pura e inocentemente celebrada nos Ovos de Fabergé.

As formas ovóides revestidas por um manto de eficaz e detalhada formosura, encantam quem as contempla, guardando nos seus âmagos a sensacional surpresa que a identifica, celebra e destaca. Cuidadosamente são apreciados e contemplados, obras de arte tão distintas e características, produto de génio e habilidade, superando a humana condição da pontual e vaga imperfeição. Cada Ovo celebra um ano, um tempo, gentes, vivências e histórias, incutindo um certo mistério e respeito simbólico, rematando para a raridade e para a fragilidade. Efémeros e desaparecidos, perderam-se os registos de oito Ovos Imperiais, tresmalhados do ninho durante a Revolução Russa, desconhecendo-se por completo os seus destinos e divulgando-se vagos detalhes que os tornam tão célebres como os restantes quarenta e dois sobreviventes, que prevalecem alvos de tanta atenção e dignidade.

Páscoa da passagem, da ressurreição, do retorno da morte que todos reclama para a vida que todos ilude, das obscuras trevas para a imensidão da luz; assim se manifesta o ovo como comunhão entre o nascimento e a vida, uma igual passagem para a luminosa existência que findará solenemente após sacrifício. O ovo liberta a ave, que vorazmente espraia as suas alas, alcançando o infinito representado nos cristalinos e amenos céus que cruza com velocidade considerável, expirando canoras preces de encanto que preenchem os ares de leveza e fortuna.

Os Ovos de Fabergé encerram em si igual ave, de matéria diferente, coração de gemas, penas de finos retoques a óleo, âmago de sonhos e sensações, frémito incessante que envolve e impressiona, toca e extasia, tal a beleza e a formosura, a novidade e a unicidade, o desprezo pelo vulgar e o culto à nobreza, o luxo exageradamente composto e elaborado numa forma tão natural, composta por elementos igualmente oriundos das grosseiras entranhas da Terra, mas moldados pela sábia e hábil mão humana, lapidados e limados.

O Ovo abre-se, liberta-se a ave. O seu canto ecoa pelos salões do palácio. As paredes cedem, as pessoas colapsam e o vento é suplantado por uma brisa sossegada, a neve suspende-se no ar. Tudo pára e fica imóvel, de olhos postos no Ovo. O êxtase domina. O Ovo encerra-se, a ave foge, o canto cessa, a brisa é morta pelo sopro que derruba os delicados flocos pendentes, o palácio reconstrói-se, as pessoas ficam saboreando a réstia de sensação que ficara após tremenda contemplação, com um amargo pesar da crua verdade: nunca conseguirão manter a ave cativa, estando destinado este rapidíssimo e célere encontro cada vez que o Ovo se abrir; malogrado Fado que impede o captar da ave para o viver do eterno deleite da obra supremamente perfeita. Retorna o Ovo ao ninho, o nascer estará para breve. Enquanto isso, aguardam os Romanov, efusivamente celebrando a Páscoa.

 

Tiago Malhó Lorga Gomes
 

1885 – Galinha (Primeiro dos Ovos Imperiais)
 
 
1887 – Relógio da Serpente Azul

1891 – Memória de Azov

1897 – Coroação Imperial
 
1901 – Cesto de flores silvestres
1903 – Pedro, o Grande
 
1906 – Cisne
1908 – Pavão
1912 – Napoleónico
1913 – Inverno (o mais caro dos Ovos Imperiais – 24.700 rublos)
 
1913 – Tricentenário da dinastia Romanov (1613-1913)
 
1914 – Mosaico


2 comentários:

  1. Muito bom!
    Depois dos "10 Anos do Bombardeamento de Bagdade", que já de si denota uma ténue mudança de estilo no sentido da desconstrução do discurso, "Fabergé" é um hino à descrição pormenorizada dos quês e porquês dos célebres Ovos.
    Permite-me levar alguns dos seus parágrafos para ilustrar uma mensagem de Páscoa "de ressureição", de vida e morte que nos seduz a todos.

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