sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Joana Vasconcelos no Palácio Nacional da Ajuda



Uma inebriante valsa enche os salões da Ajuda. Sobrepõe-se-lhe um fugaz murmúrio que se desprende das paredes aveludadas, como um triste fado ou uma toada de tempos idos, que lamenta o encanto perdido das gentes e das tradições que não mais voltarão.

Uma sucessiva explosão de cores invade o palácio. Amplifica-se o azul e o rosa das sedas, o bege dos cadeirões, o dourado dos frisos, o carmim dos cortinados, o verde das mesinhas, o branco das porcelanas, o castanho das madeiras e o amarelo dos lençóis. As janelas, abertas de par em par, fazem transbordar fortes focos de luz, que encantam o interior com miríades de cristais incandescentes que se abrigam nos lustres e nos candelabros.

Cada divisão, uma surpresa. Sente-se o frémito característico de uma metrópole imperial, evidenciado através de grandes jarrões chineses e de magníficos biombos, complementados com objectos de alto artifício e génio. Uma forte corrente de ar fustiga as débeis sedas e as mimosas porcelanas. É evidente a magnificência do palácio, com grandes salões e salinhas íntimas, jardins de Inverno e quartos elegantes, que causam espanto e admiração, levantando um burburinho de furor e incredulidade inerente.

Os grandes frescos e as sublimes tapeçarias repousam, melancolicamente pendurados nas paredes, chorando a glória e o uso perdidos. Os quadros e os painéis pendem igualmente numa soturna e fria saudade, ostentando sempre a faceta maravilhosa e pura que tão bem encerra esta tristeza. Os candelabros, de cuidado fabrico e imponente porte, já não baloiçam como antigamente. O encanto, que tantas vezes parecia saído de um conto de fadas, dissipou-se lentamente. O aparato foi-se reduzindo gradualmente, esfumando-se nas alturas dos salões como o fumo dos convidados outrora se desfazia. As carruagens de gala desapareceram. Que êxtase era ouvir a sua chegada ao palácio, trazendo consigo ilustres e afamados, príncipes e princesas, fidalgos, figurinhas de encanto, generais, embaixadores e gentis-homens! A recepção era feita segundo um apertado protocolo em que os convidados, de tal forma pasmados com tremenda opulência, subiam calmamente a escadaria que conduz ao andar nobre, enquanto soldados de estribeira inclinavam as alabardas à sua passagem. Qualquer que fosse a ocasião (baile, boda, baptismo, casamento, festa), o palácio estava sempre aprumado, revelando uma faceta assombrosamente triunfante, como se o mundo não carecesse de fama nem de fortuna.

Acima de tudo, celebrava-se com um profundo sentimento. Longas noites se reflectem nos espelhos, que tanto anseiam a sua repetição. Que fausto, que apogeu era observar as damas ornadas de grandes saias de balão, mergulhadas em pó-de-arroz, enquanto se estendiam nos sofás escarlates, avidamente abanando os leques crivados de pinturas e jóias, esperando que os seus amados as convidassem para uma dança. Que sonho era…

Que sonho foi, choram os grandiosos salões da Ajuda, deixados ao abandono da magoada indiferença. Porém, o alto da Ajuda orgulha-se. Sinal dos tempos e o palácio é invadido de uma parafernália artística curiosíssima.

Lobos, sapos, gatos, caranguejos e lagostas ocupam os salões, todos eles revestidos de uma estranha teia que os reconforta e embeleza. Alia-se a faiança à renda, duas vertentes tão nacionais e queridas, tão intrínsecas e simbólicas, enovelando os seus âmagos em obras originais e únicas. Pelo palácio, quer em recantos ou nas paredes, desfilam touros, burros, cavalos e até lagartos de faiança, vestidos pela hábil renda branca.

Mais ousadas peças, quer de plástico ou de metal, brilham e encantam, fundindo-se com a magnificência deste virtuoso palácio que recebe um toque de modernidade, quase como se fosse inaugurado, gabando, a plenos pulmões, o encanto por descobrir e a solidez das suas fundações, como se, de facto, fosse a primeira vez admirado. A surpresa atira-se sobre qualquer visitante, numa esplêndida junção artística. Sejam obras diferentes, sem sentido, ou com todo o que o mundo oferece, simbólicas, estranhas, caseiras, audazes, ousadas, simples, complexas – resta a certeza de uma combinação fora de série, plena e perfeita.

O ambiente de tranquilidade e intimidade da família real, converte-se num templo à Arte. As memórias renascem, são recordadas e estabelecidas. O metálico dos famosos sapatos contrasta com a exuberância da sala do trono. O pequeno sapo, no topo da mesa da sala cor-de-rosa, citada como “de mui grande novidade” com uma imensidão de figurinhas de porcelana de Saxe que “surprehendem todos”, repousa no seu meio predilecto. As lagostas, devidamente sentadas à mesa, frente a frente, esperam impacientes o jantar, questionando-se por que motivo este tarda em aparecer.

Um automóvel bem artilhado e que carrega uma carga preciosa descansa juntamente com uma caleche de antigamente, que apresenta orgulhosamente o brasão da amada pátria, que aqui se prova uma mãe de valiosos artistas. Um enorme coração vermelho dança sozinho num salão. Um garrido helicóptero aguarda ordem para descolar. Um enorme candelabro compõe-se de elementos inesperados.

A invasão de elementos integra-se e perde-se no labirinto de salas, quartos, corredores, átrios e salões. As novas obras encontram abrigo e casa no palácio, revitalizando-o e rejuvenescendo-o, trazendo à superfície as belíssimas e saudosas memórias encerradas naquelas paredes, e fundando novas que mais tarde irão ser choradas e recordadas com enorme carinho e fascínio. Um manto de formosura espraia-se nos ares do Alto da Ajuda. As janelas abertas, o Tejo ao fundo, o palácio no seu esplendor. O génio de Joana Vasconcelos brilha e materializa-se.

Triunfa a Arte na Ajuda.
 
 

                                                            Marilyn, 2009, Joana Vasconcelos

 

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Açúcar das Américas


 

«As they drew near the town, they saw a negro stretched upon the ground, with only one moiety of his clothes, that is, of his blue linen drawers; the poor man had lost his left leg and his right hand. (…) “- When we work at the sugar-canes, and the mill snatches hold of a finger, they cut off the hand; and when we attempt to run away, they cut off the leg; both cases have happened to me. This is the price at which you eat sugar in Europe.”»

in Candide, Voltaire

 

“Este é, senhores, o preço do açúcar que comem na Europa!”. Uma frase de um impacto profundo que consegue, sucintamente, revelar o sacrifício e a miséria que suportam a real e sublime mesa europeia. Vê-se o Velho Continente inflamado por paixões materialistas que surgem das colónias. Está desorientado, sem rumo, vivendo numa autêntica epopeia de gastos, que de luxo e fausto se constitui. Tudo abunda, nada falta! Erguem-se palácios cada vez mais grandiosos e ousados que competem e abafam as catedrais e os mosteiros; encomendam-se obras artísticas imensamente realistas, de tirar o fôlego tal a perfeição e o génio; cobre-se tudo (as paredes, os tectos, as molduras, as carruagens, as loiças e as porcelanas, os serviços, as relíquias, as pessoas!) de talha dourada, de ouro e pratas, de pedras preciosas, de marfim e de pérolas; fundem-se raios de poder que se expandem pelos reinos e pelos impérios, recortando-os em jardins barrocos de imensa beleza e em galerias elegantes; adquirem-se novos modos e requintadas maneiras; aglomera-se o que se consegue, o que a ganância obriga, o que cobiça e o que sonha – enfim, vive-se numa profusa impregnação de cores, numa miríade de luzes que alumiam o quotidiano, uma irrealista tela viva que se consome de opulência e abastança; vive o satélite em torno do Universo humano, que suplanta Deus, ousada e descaradamente; vive-se por todos! Vive-se por aqueles que mais não podem, num grandioso e descabido êxtase, num fútil exagero de vénias e saudações, imersas numa incessante parada de bailes e leques; consome-se a vida como um produto das Américas, uma benesse mais que merecida, que enriquece e faz delirar quem a saboreia.

Afluem as carruagens de gala e de aparato às bodas e às festas, vestidas da maior opulência e formosura que alguma vez caminhara pela face da Terra. Respiram-se ares encantadores, com uma agradabilíssima amálgama de perfumes das Arábias, que se prendem nas vestes dos mais leves linhos e das mais preciosas sedas. Os prazeres nada mais são que frutos à mão de colher. A vida é, indubitavelmente, bela.

 

Porém, do outro lado do impetuoso Atlântico, espreita, com os olhos enegrecidos do labor, a infame e selvagem América, essa mistura de raças movidas pela ambição de um paraíso terreno europeu. Importam-se escravos africanos, bons trabalhadores, exímios em muitas tarefas, obedientes e empenhados. Cada um vale um punhado de moedas, meros objectos de esforço e dedicação. Maior escândalo que morrer um casal de cafres, será decerto perder uma cabeça de gado.

Enfiem-se os selvagens, vindos dos confins do Continente Negro, num grande navio. Faça-se a viagem, evitando perder a carga completa (visto que muitos deles irão sucumbir). Desembarque-se e faça-se o leilão. Anuncie-se a carga a boa voz! Decerto será vendida e devidamente marcada, recambiada para o seu posto. Trabalhará na cana-de-açúcar, no algodão, no café, no tabaco, no chocolate, na madeira, nas minas, no mar, no campo, na herdade… E fará a tarefa com precisão, dando a sua contribuição para este poderoso engenho que esmaga terras e famílias, que arruína vidas e fados, que cunha chagas e temores, que incute tanta dor e sofrimento.

Chora o cafre, recordando, por entre as vergastadas do castigo, as verdes planícies africanas que deixara para trás, para sempre, para todo o sempre, para todo o imenso, eterno e sofrido sempre, sem forma de as abraçar ou contemplar de novo; com o jugo assente na cerviz, jugo esse que o impele a olhar para o algodão que recolhe durante os passados doze anos e que recolherá até não ter força e sucumbir, estatelado no chão, sem a dignidade de um cavalo atingido no clímax da batalha ou de um inimigo morto por piedade ao sofrimento; no chão, consumido por vermes, beijando a maldita terra que o capturou, que lhe desfez os sonhos e tantos golpes de violência lhe desferiu, herege terra que lhe comerá o corpo!

Continua a labuta. A vida não pára. O suor escorre, a fome aperta, os músculos falham, o corpo vive extenuando mesmo antes de iniciar a rotina diária. Os castigos são recorrentes, algo banal. A vida não pára nem um minuto. O algodão é para ser recolhido, o açúcar tratado, o café preparado, a mina limpa, o campo lavrado, o lago drenado, a herdade aprumada, o tabaco cultivado, a madeira cortada! Não há tempo para respirar, não há sombras, não há comida! Não há nada para pensar: apenas um sem fim de trabalho que se acumula e ao qual se obriga violentamente.

Tem uma escrava um filho, acabado de emergir das suas vísceras. Valerá a pena a sua existência? O que o espera senão uma procissão de mondas e colheitas, um martírio de obras e safras? Será criado como uma cabeça de gado, com certeza com menos valor e honra. Foi para isto que a mãe, amazona das selvagens entranhas africanas, o trouxe ao mundo? Irada com tudo isto, e num profundo acto, diria a civilização insano, a mãe abafa o próprio filho, e depois corta os seus pulsos, unindo-se a ele na indefinida matéria espacial que tanto admirava nas escuras noites, diamantes presos na fresca teia nocturna.

Apesar deste incidente vulgar na colónia, o abuso continua. Reina o caos, a injustiça, a depravação. Decepam-se membros e cabeças de uma forma natural e sem oferecer justificações. O cafre fala demais? Corta-se-lhe a língua. A criada negra viu o que não devia? Arranquem-se-lhe ambos os olhos para prevenir futuros casos. O par foi apanhado num momento íntimo? Ele é capado e ela sovada e mutilada. Dois escravos fugiram e foram apanhados, aplique-se-lhes uma leve pena de prisão, mas com privações letais. Assim se governam as províncias do império, entregues a um bando asqueroso, animalesco, sem escrúpulos.

Mas haja produção! Saiam as fragatas e os galeões pejados de riquezas, almejando a Europa! Carreguem-se, encham-se, atafulhem-se de ouro, prata, diamantes, pérolas e pedras! Juntem-se aos homólogos orientais que, cheios de odores característicos, naufragam com a ganância das sedas e das especiarias! E os africanos, igualmente pejados de escravos, marfim, peles e semelhantes riquezas! É só pedir: porcelanas, estatuetas em marfim, grandes rubis, animais exóticos, chocolate, chás, madeiras nobres… Haja ouro, muito ouro! Podem tombar e ceder as barreiras e as paredes das minas, soterrando meia centena de escravos, que mais virão! Nem se considera um contratempo, visto que a nova horda será mais energética e resistente! Venham eles! Troquem as vidas e as almas por promessas! Sofrimento e dor sem limites, capturas e trabalho árduo cá os esperam! Suportem, suem, cantem, rezem, sangrem, sofram, morram, mas produzam! Passem por aqui, deixem cá as ossadas mas façam alguma coisa! As demandas e as encomendas já ultrapassam a produção, mandem vir mais escravos de África! Eles que nos forneçam os diamantes, o café, o tabaco, o algodão, as madeiras, os linhos, as sedas, as peles, as pedras e o açúcar. Nós permaneceremos no sítio onde Deus nos colocou, a cargo desta empresa, a olear esta engrenagem, a ordenar este caótico mundo! Afinal, não nos condenem, só queremos viver do melhor, pelo melhor e com o melhor. Somos fortes, grandes, invencíveis, inigualáveis, audazes, triunfantes, gloriosos, notáveis, ilustres, possantes, descomunais, divinos!

As encomendas chegam à Europa. O chá é servido em porcelana chinesa e remexido com uma belíssima colher de madrepérola, com incrustações em marfim. O açúcar é finalmente adicionado, conferindo uma conjugação sublime de sabores. Uma figurada lágrima de sangue irrompe do fundo da chávena, simbolizando as centenas de almas que pereceram para produzir todo aquele aparato, para proporcionar toda aquela glória, todo o esplendor, toda a apoteose. A lágrima está à vista de todos, mas ninguém se preocupa. Este é, senhoras e senhores, o preço do açúcar que comemos na Europa!



Engenho de Açúcar do Século XVIII

 

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Thermidor

Thermidor


 

« la chaleur tout à la fois solaire et terrestre qui embrase l'air de juillet en août »


 

Acepção comum – décimo primeiro mês do calendário republicano francês, correspondendo ao período delimitado pelo décimo nono dia do mês de Julho e pelo décimo sétimo dia do mês de Agosto do calendário gregoriano.

 

O calor funde-se com a atmosfera. O dia raia, elevando-se, sem pressas nem pressões, o majestoso Sol, fonte de vida e de devoção. Tudo desperta: quer as maiores cidades, ainda fumegantes das candeias que alumiam a noite, quer as aldeias, esquecidas nos confins dos prados. Os animais aproveitam o plácido e ameno amanhecer para beber água dos charcos mais próximos e de se alimentarem, guardando o refastelado e preguiçoso fulgor para o tempo mais quente, por sinal mais tardio no dia.

Os camponeses acordam, incomodados pela luz natural que irradia com imensa força e com maior vigor: apela ao trabalho e à lavoura; os campos não se lavram sozinhos, o trigo não se colhe por si só, os frutos não podem ser deixados ao alcance das aves, o rebanho fica abandonado e faminto após uma noite de jejum, os trapos estão por lavar, a comida por preparar, as mondas por executar, as safras por fazer, as árvores e as culturas sedentas, todas elas clamam pelo vital líquido que, com este calor, cada vez mais escasseia e apetece. Mergulha-se no clima matinal. Um vago murmúrio solarengo e difuso paira nos ares infestados de aves que aproveitam para caçar os incómodos insectos que se multiplicam desregradamente, de uma forma absurda e exagerada.

A manhã passa a correr, por entre procissões para o campo, peregrinações até aos regatos e aos poços, numa infinda parada de pastores com os seus rebanhos, camponeses com enxadas e gadanhas, bois a puxar os arados, burros com as albardas a abarrotar de cereais, uma ocasional carroça carregada de feno e mulheres com a bilha na cabeça, levando o almoço aos homens que nesta rotina se desgastam e conformam.

A partir de certa hora, tudo se recolhe na sombra. Aí, o calor atinge o seu auge, radiante cúmulo que impera sobre a forma de um eterno e meigo abraço que impregna a atmosfera e se prende nas roupas, inundando o ar de uma moleza sublime. Gera uma sensação como poucas, a de se entranhar no ser e de lhe conferir um limite entre uma calma suprema e um desespero angustiante. Saboreia-se a sombra, refrescada pela ocasional e fugidia brisa que corta o sufocante entrelaçar de ares aquecidos pelo Sol e pelas terras, refulgindo por entre árvores e animais.

As oliveiras e os sobreiros, de possantes copas e considerável folhagem, conferem a sombra ideal, temperando o clima com o odor campestre característico ao qual está presente a indissociável sinfonia de grilos e cigarras sobre um céu descoberto, alto e de um límpido azul.

Nesse preciso momento, no pico de maior calor, governa uma impressão incólume. Os campos, cobertos de um dourado característico, são submersos por uma cálida onda de prazer que acalma e deleita. Contemplam-se os prados, todos eles trabalhados e pagos com o ácido esforço que em sangue e suor se evapora, a partir de uma resguardada sombra que permite aproveitar ao máximo esta sazonal ocasião, o passageiro Thermidor que encanta e ilumina o mundo, que aquece e refastela, que leva ao descanso e ao abraçar do meio, através dos próprios braços caloríferos que espraia, motivados pelo Sol e pelas terras, na esperança que captar aqueles que de alma e corpo se entregam à natureza.

Claro que, para esta realidade perdida nos confins dos tempos e cada vez mais rara, surge uma idílica paisagem de campesinos ao abrigo das frescas sombras que mascaram o abuso do labor extenuante. Mas os tempos passam e as vontades mudam-se. Aproveita-se o quente fulgor, folgando-se nos refúgios paradisíacos, a apreciar a paisagem. Consome-se a vida, mas somente durante escassos dias, numa existência descansada e fútil, frívola e boémia, não obstante de ser merecida.

Desta forma, o quente ar acompanha as aventuras e o lazer, causando uma deliciosa sensação, mirando, por ínfimos segundos, o paraíso na Terra. Saboreiam-se as doces iguarias que os campos produzem, de um encantador leque de cores e texturas, ricos e suculentos odores; as refrescantes bebidas com gelo, que se esvai a desafiar o potentíssimo astro solar, os folgares e as sestas, os banhos e os passeios.

Mesmo quando a noite cai, remanesce, embora em menor escala e impacto, uma réstia da grandiosa impregnação aérea, que sufoca a alma e a transporta para um corpo aquecido pela vivacidade da própria vida, se afirma como única e dominante. A noite traz consigo uma maravilhosa sintonia de cores que apelam a uma dormida ao suave e breve relento, deitado sobre a terra que liberta o calor acumulado durante o dia, através das quentes brisas de origem celestial que prometem e encantam paz e descanso, sobre uma Lua cheia de luz e de vagar.

Thermidor, dos quentes ares de origem solar e terrena, encanta um mês com deliciosas tentações, sempre envoltas no característico abraço que encurrala e sacode violentamente o mal e o medo, fazendo despertar uma vertente contemplativa e relaxada. A natureza manifesta-se durante esta altura e revela-se como engrenagem e motor essencial à existência que, muitas vezes esquecida, é inalienável ao meio. Como uma autêntica consagração, em ares perfumados e em paisagens ricas e viçosas, Thermidor ergue-se imponentemente como fundamento e ponte entre o Ser e a Criação.

Ao longe, o mar, recortado pelas dunas que se adivinham, banha calmamente a costa enobrecida por semelhantes ares, fundindo a sua quente essência com a primordial essência, de âmago salino e aquoso. Em breve cessará. Como ave migratória e como porção de estação que é, a Thermidor sucederão novos tempos, mais rigorosos e de menor abundância, com menos triunfos e vaidades, mas de semelhantes encantos e seduções.

Com a queda das primeiras folhas, Thermidor termina, deixando para trás um reinado de um inebriante calor que reconforta e ergue os ânimos, justifica e sacia desejos, aplica e aprecia novas artes e saberes, apela à mole e calma serenidade contemplativa; partindo abruptamente como um sonho inacabado, mas que deixa memórias inesquecíveis de um tempo de esplendor sem igual. Thermidor partirá, deixando saudades, como uma fonte cuja água é incapaz de saciar esta infame sede que move e destila o veneno do desejo, de tentar controlar e parar o eterno fugidio tempo que, ciclicamente, permite que esta tão afamada e adorada época retorne.
 
 
 
                                       Campo de Aveia e de Papoilas, 1890, Claude Monet
 

 

Tiago Malhó Lorga Gomes

quarta-feira, 10 de julho de 2013

A Fonte da Juventude

 

Cavalga Alexandre pelo Médio Oriente em busca da fonte prometida. Atravessa desertos áridos onde não cresce nem se desenvolve vivalma, confundindo o seu exército com um pequeno carreiro de formigas na areada imensidão que desgasta e atormenta, desfaz e aquece, dobrando os corpos que procuram a súbita frescura de uma rara sombra. A campanha corrompe e destrói tudo o que se oponha, de redutos a fortalezas, tratando dignamente os inimigos, fortuita virtude até mesmo entre as mais iluminadas mentes.

Percorre um infinito caminho, por entre vales e dunas, sempre na ambição de um prémio sem igual, passando, por esse motivo, longas temporadas sobre um calor extremo que dificulta e atrofia a excursão. Os homens estão desidratados, cansados, extenuados. As bestas de carga, resistentes e de fiar, apresentam alguns sinais de esgotamento, teimando em descansar nas horas de maior calor e padecendo subitamente. No entanto, Alexandre, o grande conquistador macedónio que uniu mundos, continua o seu trajecto sem que nada o pare. Nem rios caudalosos que causam bulício e esmagam aqueles que os contemplam pela primeira vez ou abruptas vertentes fazem desistir o bravo e único Alexandre, impelido pela tentação de uma promessa de salvação, a cura do mal da vida, o desafiar de quem para debaixo de terra o remete.

Guiado por mercenários e habitantes locais, o conquistador baseia-se em textos antigos e traduções dos grandes povos que há séculos perderam os registos concretos do afamado local: uma nascente cristalina cujas águas afluíam à superfície, gerando uma pequena lagoa, sem réstia de vida nem estagnação. Aparentemente rodeada por escarpas de difícil acesso, a fonte localiza-se num autêntico oásis de vegetação densa e abundante, contrastando com a aridez e impetuosidade dos ventos desérticos que dominam as planícies mortas em seu redor. De acordo com inscrições sumérias, nenhuma criatura ousa beber ou embrenhar-se no manto aquoso, curioso facto dado as águas não serem letais nem nefastas.

Mas o que realmente impele à sua descoberta por parte de Alexandre, são as propriedades milagrosas que as águas conferem. Juventude eterna. Brotam daqueles solos, em lugar incerto e resguardado, as essências da imortalidade. Não se questionam os seus minerais nem a sua pureza, mas antes se procura a todo o custo a referida fonte. Perecem milhares de soldados nas planícies desérticas e hostis, passam fome e calor, sonham com a próxima vez em que matarão a sede, rezam por uma brisa fresca e refrescante que combata o constante e envolvente bafo cálido que amolece o corpo e desmotiva a alma; tudo isto por uma suposta fonte que prolongará a vida eternamente, sem maleitas nem velhice, uma vida condigna e infindável, protagonizada por uma aparência jovial e radiante, sem as debilidades nem os efeitos do tempo, uma gloriosa inércia no período mais áureo das capacidades físicas e mentais; a perpetuação da fama e da fortuna.

Por isto se sofre e perece, mas por pouco tempo mais se prolonga a miséria e a dor. Alexandre crê que o destino está próximo, apenas a algumas milhas de distância. Expandira a campanha para as terras orientais, seguindo as pistas de cronistas e filósofos persas, por sua vez baseados em registos e lendas sumérias e mesopotâmicas, provavelmente produto de imaginação, dado não sobreviver nem um único exemplar milenar dessas civilizações esmagadas pela ironia da ambição de superar o tempo, enterradas elas próprias sobre o seu peso. Como tal nascente não poderia constar no velho continente europeu, procedeu-se a uma odisseia em terras desconhecidas, movidas pela ambição e pela ganância de obter o prémio tentador; a elevação à condição divina e imutável, mergulhando numa infusão de glória e imortalidade, como se, por toda a eternidade, o tempo cessasse a sua função individual e continuasse no colectivo, desenrolando-se uma série de eventos sucessivos sem forma de findar, tudo isto num período infinitamente longo e, no entanto, recheado de inúmeras emoções aglomeradas num feito maior e mais ousado que a própria vida.

A comitiva está esgotada, o dia vai a meio, o Sol irradia um calor excessivo e desmedido como uma tórrida fogueira que pretende incinerar as tendas e as vestes. Subitamente, é avistado um falcão e, seguindo o seu trajecto predatório perante um bando de pombas, eis que surge um oásis envolto nas ondas de calor que irradiam do solo, como uma grandiosa miragem que, à medida que a campanha se aproxima, se revela material e palpável. Surge vegetação exuberante e viçosa, conferindo um panorama diversificado e contrastante com a monotonia e letalidade do imenso deserto. Alexandre contempla o possível local cuja localização geográfica havia sido oculta das memórias dos antigos, caíndo na névoa da lenda e do misticismo associados.

Respiram-se frescos ares de ânimo e esperança. Melódicas composições pairam na atmosfera que mais assemelha a uma redoma de vida e cor circunscrita por um tremendo e malicioso deserto, confuso labirinto ultrapassado após muito sofrimento e mágoa. Os soldados aproveitam as robustas sombras para aliviar o cansaço, sombras naturais e refrescantes que conferem uma sensação semelhante a um banho num regato que escorre pelos vales abaixo, proveniente de frescos aquíferos cristalinos cujas águas brotam dos solos lentamente. Alexandre, ao contrário da sua comitiva que facilmente cede à tentação do descanso e à dor da fadiga, reúne um grupo de generais e guias e inicia uma busca exaustiva à irrealista miragem que afinal se materializa.

Rapidamente se cortam as espessas giestas e os densos arbustos, revelando o esperado panorama. Os olhos prendem-se na referida fonte, um grande charco de águas límpidas, sem qualquer tipo de ornamento humano ou natural, sem limos nem peixes, revelando uma profundidade máxima de duas braças. As margens apresentam-se limpas, sem sinal de gente nem de animais, nem mesmo vestígios das ancestrais construções que ladeavam e delimitavam a fonte quadrangular, referida nos registos sumérios como cercada por um templo, com o leito ornado a mármores e, bem no centro da nascente, um pequeno obelisco de alabastro esculpido. A natureza reclamara novamente o espaço para si, apagando os sinais de ocupação com as raízes, a copa e a folhagem das árvores que cederam à tentação de preencher as áreas circundantes, transformando a fonte num mero charco, igual a tantos outros.

Após a vaga e rápida contemplação, e com os guias árabes de joelhos perante a magnificência do charco, Alexandre decide que é tempo de experimentar a veracidade dos boatos e de testar se realmente se trata da fonte da juventude, cujas águas trarão a eterna juventude cuja teoria dança entre argumentos trocados por filósofos gregos, nunca alcançando a consensual e definitiva concórdia. Vida perpétua, sem sinal de demência nem de doença. Observar e participar na mudança dos tempos, acompanhar esse fiel e metódico amigo até à sua própria morte, que poderá não mostrar sombra de aparecer; com ele conversar, ver o panorama mutável, caras partidas e despedaçadas, esquecidas e perdidas no infindo temor das eras; juventude eterna feita de triunfo e apoteoses como um hábil e sentido poema que se conjuga de visões artísticas variadas e complexas, exageradas e dementes, verdadeiramente demente em subverter a ordem que a todos é imposta, quebrada pelo consumo e banhar nas águas que brotam do solo, mítica e cobiçada nascente.

Imediatamente se arranja um grandioso cálice a Alexandre, composto de ouro e crivado de jóias arranjadas em padrões simétricos. Um servo, com todo o cuidado e dedicação, rasga a superfície aquosa com o cálice que contém as águas dançantes daquela nascente tão pura e límpida. É elevado enquanto um sacerdote persa pronuncia uns ditos que o conquistador não compreende mas que julga parte do ritual perdido nos confins dos séculos, ideia de séculos prometidos a Alexandre, senhor da Europa e da Ásia, fundador de Alexandrias dispersas pelo vasto mundo que por ele é estabelecido e expandido, combatendo a treva do desconhecido como uma súbita rajada que estremece os alicerces do além e o transmuta para o dominado quotidiano.

Sem ninguém que prove a amostra da fonte, Alexandre ergue o cálice, resplandecendo com os raios solares que se reflectem no ouro e espalham um brilho áureo e dourado que ofusca a visão do oásis. De três tragos ingere Alexandre a água da fonte. Apenas lhe sacia a sede, sem nenhum outro efeito, nem um breve estremecer do corpo que indicie que realmente se trata da milenar lenda ou um sinal que revele a autenticidade do conteúdo do líquido cujas propriedades se dizem de perpetuar a vida até ao eterno, sem limites, numa perfeita fábula idílica de nobreza e juventude, comparável ao mecanismo do tempo que agora se aglomera com a vida humana.

O silêncio reina. A maioria divide-se entre variadas opiniões: ou as águas estão chocas, ou o charco é apenas mais um charco, ou as águas conferem realmente eternidade, ou tudo isto se trata de um tremendo embuste, pondo em causa a grandiosa campanha que se desenrola há dois anos, dois anos perdidos para encontrar um charco cuja amostra foi provada pelo grande conquistador, que nem se pronuncia sobre o seu efeito.

Com isto, Alexandre retira-se para o seu complexo de luxuosas tendas para meditar. Ao anoitecer receberá os sábios e os guias para o elucidarem e para ouvir atentamente as suas informações. O bom líder, com a exímia capacidade de escutar quem o aconselha, passa as horas de olhos cerrados, como se tentasse compreender onde houvera errado. Analisa mentalmente todos os passos, as etapas, as batalhas e os saques. Onde poderá ter errado? O oásis foi todo revistado, na frustre tentativa de encontrar ruínas de edifícios sumérios, nem um único sinal de civilização, nem uma pedra limada por mãos humanas. Ouve atentamente os sábios, que julgam, baseados na interpretação de sinais e escritos ancestrais, que a verdadeira fonte da juventude se localiza algumas milhas a oeste, num oásis semelhante, apesar de em tais registos não constar nenhum facto fidedigno.

Com o cair da noite, o grande imperador vê-se livre das suas roupas. Nu, como veio ao mundo, mundo esse cuja efemeridade pretende iludir, Alexandre mergulha nas águas da nascente. Sustém a respiração e é envolto pela harmoniosa e amena sensação de um apogeu sem igual. Sucumbe à frescura das águas, esquecendo por segundos o quente ar que impregna o oásis e o abraça numa quente e árida infusão. Submerso pelas afamadas águas que tantas ondas de discórdia geram, Alexandre presencia um inebriante sonho: uma consistente voz da razão, protagonizada por um velho sacerdote ornado de vestes carmins que lhe mostra os segredos do mundo e o trespassar do tempo, soprando eras e épocas como quem respira, numa vulgar ingratidão e inconformismo perante a vida e as benesses que ela oferece, mesmo a sua primordial e atrofiada passagem, limitada efemeridade redutível, desusada moda que a troco de soldo se protagoniza, mesmo este espectáculo circense composto de episódios que um dia terminarão, de vivências que serão apagadas pelo sopro do tempo, de ditos cujo vento com ele levou; mesmo estas inconsistências insignificantes, míseras e repugnantes; mesmo esta inexactidão que se esfuma se constitui vida.

Mas para Alexandre uma só vida não basta. Pai de mundos, implacável conquistador que agora se vê embrenhado neste insólito sonho produzido pelas águas da verdadeira fonte, ganha consciência. Se ceder à tentação de cumprir o ritual para a juventude eterna, então testemunhará as consequências que mais nenhum sobrevivente conseguiu. “Todos os que a estas águas se entregaram foram mortos pelos seus”, adverte o velho, “uns por inveja, outros por cobiça, mas todos sobre a asa da morte que na cerviz lhes assenta, trespassados pelos gládios de quem não suporta a ideia de uma vida infinita, repleta de mágoa e dor; muitas vezes entregues à morte pela própria espada, num sem fim de desespero”.

Após um minuto submerso nas águas da mítica fonte, os soldados ficam alarmados porque o imperador não regressa à superfície. A escolha fora tomada. Alexandre, recusa a tentadora oferta das águas, prémio que menos iluminados homens tomariam por certo, nelas se afogando e despertando para a eterna mas cruel perenidade. O conquistador ergue-se das águas, sendo prontamente envolto num fino lenço de seda aquecido, que lhe retira as lágrimas da fonte que ao seu corpo se agarram. Vai imediatamente para a tenda, sem pronunciar emoção nem palavra. Prometera guardar segredo, evitando assim a afluência à fonte, que culminaria numa instantânea mortandade, tingindo o charco de corpos que se haviam afogado propositadamente e acordando, segundos depois, sobre o infame e nobre manto da imortalidade, rejuvenescidos e implacáveis, ilusórios senhores do tempo.

No dia seguinte, Alexandre move o acampamento para o limite do oásis, ordenando a sua destruição. Sete dias demoraram as chamas a consumir o resguardado paraíso. De seguida secou-se a fonte, enchendo-a com entulho, apagando-a pouco a pouco até não restar vestígio. A nascente parar de emitir água, secara por completo, desvanecera-se juntamente com as areias e os ventos que ocupam o outrora verdejante e vivo panorama. Após a ruína da fonte da juventude, a comitiva parte de mãos vazias e decepcionada, julgando, até mesmo os mais sábios, que tudo se tratara de uma caçada infrutífera que se prolongará até à queda de Alexandre, uma caprichosa tara que move o mundo e impele à descoberta de novos, a ambição do inalcançável baseado em antigos rumores e lendas.

Com estes factos sorri Alexandre, segurando discretamente um pequeno pedaço de mármore que encontrara no fundo da nascente, vestígio da antiga civilização, prova de que se havia, de facto, deparado com a fonte da juventude. De costas para o oásis queimado, Alexandre parte para encontrar o seu destino na Alexandria que guarda no coração.

 

                                                                                  A Fonte da Juventude, 1546, L. Cranach
 

 
Tiago Malhó Lorga Gomes

domingo, 12 de maio de 2013

Entrada Triunfal em Roma


Entrada Triunfal em Roma

 

A grandiosa cidade, confusa e caótica, celebra o retorno do exército. Surgem as primeiras quadrigas, arrojadas e soberbas, emparelhando quatro possantes cavalos que as impulsionam de uma forma firme e veloz. Esvoaçam vestes e lenços de finos linhos, palmas e ramos de oliveira, pétalas de flores da província perdidas no ar repleto de glória e êxtase. As armaduras, apesar de gastas pelos aguerridos combates, mostram-se polidas e resplandecentes, conferindo uma imagem digna da celebração do Império, vastíssimo e poderoso, tão extenso e fortalecido, que por certo durará até ao fim das eras.

Os soldados, inebriados com a vitoriosa sensação, recordam os feitos heróicos dos seus comandantes, homens que de sangue e dor fazem vida, que perpetraram as maiores atrocidades que os  registos tentam ignorar. Porém, e apesar das imensas perdas de vidas, do sofrimento que rasga e despedaça corpos, corações e almas, neste dia comemora-se o triunfo, a apoteose, a consagração da vitória, em grande estilo e a escala grandiosa. Partem desfiles nas maiores avenidas da Cidade Eterna, urbe em torno da qual tudo orbita, dado irradiar potentes focos de poder e de autoridade, gládio e carrasco ao mesmo tempo.

As guarnições acenam aos populares que observam a distinta abastança da procissão. São homens gastos pelas chagas do ofício, cujos olhos se prendem no alarido que os envolve, saboreando a luz que se reflecte nos pórticos e nas colunas dos templos, nos palácios e nos edifícios públicos, representantes da grande escala do Império que se compõe de campanhas e batalhas, excessos e labor.

Roma assiste ao desfilar dos soldados. Impera um calor característico, agravado pela quantidade de povo que observa e comemora com os soldados, que ocupa as praças e as maiores avenidas. Miragem de uma capital utópica, os templos ostentam um porte magno e sublime, alinhados com grandes edifícios de exemplar arquitectura e detalhe. As fontes saciam a sede ao povo romano, absorto e embriagado pela visão de um cortejo imenso e guarnecido. As melhores quadrigas, revestidas de encantadores mantos de floridos retalhes, são conduzidas por escravos e transportam generais coroados com louros, máxima expressão de glória a que qualquer cidadão ambiciona alcançar. Uma imensa ordem de soldados caminha, agraciando a multidão e carregando consigo os despojos de guerra: desde baús de ouro e prata a líderes inimigos, agora capturados e feitos escravos, arrastando-se pelo chão, presos com correntes e apedrejados pela multidão que fita a face do adversário derrotado.

Contra o inimigo reina o ódio e uma atitude de superioridade inigualável. Nunca nos vencerão, crêem os romanos, de tal modo resguardados das ameaças e dos combates, bem no coração do maior e mais poderoso império, guardado a soldo de espadas e de escudos. Aproveitam os produtos provenientes dos cantos do Império Romano, mergulhando numa esplêndida espiral de orgias e fausto, cada vez mais apartados da leve voz da razão, fácil de silenciar e de esquecer. Sucumbem às tentações que se impõem por mera abundância, como um maligno estratagema que se agrava com o aumento da intensidade do poder, verdadeiro inimigo que levará Roma à ruína, mergulhando o Mundo numa eterna treva de sofrimento e derrota, ânsias de vitória e apogeu suplantadas por um ácido pesar de miséria e perda.

Por enquanto celebra-se a fugidia glória, que a romanos olhos é base da firmeza e fundamento do Império. Em grandes jaulas contêm-se leões e leopardos capturados na última campanha africana, soltando tremendos rugidos, que até espantam os legionários aprumados no desfile que parece não ter fim. Perde-se a conta aos soldados, semelhantes uns aos outros, de armadura polida e amolgada pelo pesar dos conflitos, com um grande escudo rectangular, uma lança e um pequeno gládio. Os centuriões marcham lentamente, revezando-se entre o chão das avenidas movimentadas e o conforto e glória das quadrigas que fazem as suas capas escarlates esvoaçar. Uma confusa procissão de escravos massacrados inunda as sombras das ruas, gastos e humilhados, vaiados e insultados, mas subjugados à grandiosidade que é Roma, nunca tendo visto o cúmulo da riqueza e da monumentalidade, agora arrastados pelas suas ruas, cativos de quem os adquirir, com as alas da liberdade furtadas para todo o sempre, sonhando das terras que os pariram e que não receberão os seus corpos, terras que os moldaram e por onde se-lhes perdera a alma e prendera o coração.

Lá longe, fora da confusa e capital Roma, no limiar das fronteiras do Império, choram as terras. Os campos tingidos e lacrados com o sangue derramado, as árvores com a copa enegrecida pelo pesar da dor, os ramos e a folhagem desbastada, os rios secos, os campos ao abandono, as casas queimadas e fumegantes. Praticamente colectores e muito rudimentares, os povos inimigos unem-se contra a crescente e organizada conspiração que, qual impetuoso tumor, se pretende espalhar pelo Mundo, trazendo consigo ideias inovadoras e conceitos civilizados.

Mas deixem-se os limites e os confins do Império, pontos estratégicos que não apelam à vida nem ao luxo, e foquem-se as atenções na soberba, suja e corrupta cidade fundada por Rómulo e Remo, com o trágico findar de sangue derramado por sangue irmão, tal a avidez e a avareza, a ilusão de uma miragem de poder inigualável que resulta numa tormenta que despedaça o laço da irmandade. Funda-se a cidade sobre a base da disputa que corrompe e dilacera, e nela se instala a sede de um Império insaciável, civilizado e excessivo, que encerra saber e atrocidade, avanço e depravação, devassos e boémios, corruptos e explorados.

Contempla-se o apogeu. O desfile perfeito, envolto em notas de uma confusa e ruidosa audiência que apaga os vestígios de morte deixados nos campos de batalha, que limpa as manchas de sangue que mais facilmente saem das vestes que a lama, dos massacres perpetrados sem remorso algum. Arrastam-se as correntes dos escravos no pavimento. O povo aplaude, dança e reza. Os deuses, lá no alto, sorriem com a homenagem e a devoção. Os ricos e os poderosos apreciam nas varandas das mansões, embebidos nas orgias que lhes ocupam os tempos com prazerosas sensações, refastelando-se com iguarias raras e nutritivas, seguindo modas e padrões extravagantes, erigindo palácios e villas adornados com despojos de guerras: de estatuária egípcia a painéis da antiga Babilónia, civilização que também se via imortal e plena, entregue às áridas areias do deserto do tempo que tudo apagam e erodem.

O desfile está a terminar. Os cavalos relincham e movem velozmente as quadrigas e as carruagens que prendem animais exóticos e líderes tribais caricatos. Os escravos esvaem-se em sangue, raspando os seus corpos contra as sedosas pétalas que ornam o chão das maiores avenidas romanas, sangue que escorre para o eterno e antigo Tibre que assiste a estas demonstrações de um poderio que se crê infindável, mas que realmente revela uma faceta débil e inconsciente, afundando-se numa epopeia de gastos, excessos, festas e festins, banquetes, orgias e paradas. Os generais acenam à multidão, esperançosa e festiva, ostentando magnas coroas de louros, símbolo de vitória e glória, alcançados por mortandade e bravura nos campos de batalha que choram e encerram em si os mortos e as almas.

A noite cai sobre a cidade. A parada chega ao fim. Os soldados vão celebrar nas ruas iluminadas, onde se oferece um enorme banquete à população que vai usufruir de vários dias de festas e celebrações, quer nas arenas e nos circos, como nos templos e nas praças. As orgias, célebres momentos de luxúria e de perdição pelo material e carnal, iniciam-se na noite. Roma fervilha e saboreia os momentos de triunfo, ignorando a anunciada queda, o final apocalíptico de uma civilização que se julga magna e suprema, que se debate com as apoteóticas celebrações e que se consagra como imperatriz do Mundo, que, aos poucos, a corrói e desgasta. Roma cairá.
 
 
                                          Triunfo de César, Andrea Mantegna, 1484-1492
 

Tiago Malhó Lorga Gomes

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Solidão


Solidão

 

 

Oh mares estes a que me entrego d’alma e coração

Mergulhado nestes infames e terríveis vapores

Que se contorcem e me cercam,

Apartados de todo o semblante da razão,

Combustados por fracassados desamores.

 

 

Solidão enferma que se arrasta,

Nuvem vaga e doentia.

Vê-se perto aquela entusiasta

Do desespero e do mal,

Felicidade eternamente fugidia

Da qual escapa a aura celestial.

 

 

Cantam os anjos na luz,

Todos eles ordenados e aprumados,

Louvando a glória do Mártir da Cruz,

Celebrando a existência dos afortunados

Que se deleitam com a verdadeira plenitude

E com a mísera solidão ausente,

Longe do Homem e da alma da virtude

Enganada com tal mentira demente.

 

 

Sofrida solidão,

Condenada a água e pão,

Num emocional jejum de sensações,

Reprimidas e passageiras como as estações.

Solidão desmedida,

Exagerada e intransigente.

Rígida pedra fria que se impõe vida,

Infértil de sonhos e de esplendor

Que afoga a alma em mágoa

Num pesaroso pesadelo de dor.

 

 

Solidão divina e contida,

Detestável por si,

Necessária à inspiração.

Origina a poética criação

Boémia e nua,

Que remete o ser para a sua ermida

De sonho e emoção iludida.
 
 
 
 
 
Tiago Malhó Lorga Gomes
 
 

sábado, 20 de abril de 2013

Dramas Helénicos



I.                   Europa

Europa, princesa fenícia, conhecida em todo o reino como uma jovem revestida de uma aura de extrema formosura, capaz de fazer inveja a Afrodite, que tanto se contorce e arrepia no Olimpo cada vez que o nome da princesa é mencionado. A gema africana concentra em si a essência do continente selvagem e natural, indomável alma que se orna de grande beleza, toda ela pura e natural, incólume e plena. Do milenar Nilo que se espraia e combate o árido e imenso deserto, passando pelas vastas planícies repletas de seres magníficos e soberbos, até as densas selvas onde abunda mistério e variedade, e sem esquecer as terras costeiras que tanto encanto conferem; se tempera a belíssima princesa Europa, focando no seu âmago uma imensa paixão arrebatadora, que coincide na perfeição com o aspecto que ostenta, demasiado perfeito para um mísero ser humano, que quase é idolatrado e alvo de grande contemplação e reverência, qualidades que os deuses haviam reservado somente para eles.

Europa passa os dias a divagar nos jardins e nos prados, perdendo-se nos encantos da vida natural, que tanto a agraciam e sublimam, livre de qualquer obrigação ou desgosto, usufruindo de uma existência alva e abençoada. A beleza assoma a cada passo da personagem, mais se assemelhando aos habitantes do Olimpo pela forma única com que as suas sedas saboreiam e dançam ao sabor da quente brisa que o longínquo mas imenso deserto liberta, ou do seu gesto sem paralelo, de uma graciosidade suprema, enorme elegância que cativa e prende o olhar que espera não mais perder de vista aquele imensurável deleite.

Assim correm os dias, sucessivos e embevecidos num quotidiano imensamente feliz, sempre ornado de grande beleza, uma eficaz efígie que atenta aos fundamentos da perfeição inatingível, que neste caso é superada por uma simples mulher, nobre por sinal, quer de título quer de carácter. Perde-se no tempo, saboreando os prazeres de descansar ao Sol após um almoço completo e variado, fitando a imensidão do mar que exala um vapor salino e refrescante, mas que tanta vida comporta e fascínio traz. O mar é recortado por pequenas embarcações, em harmonia tal, que, por momentos e na presença da referida mulher, qualquer um se crê no Paraíso, com jardins impecáveis, simbolizando a união do Homem com a Natureza, duas forças imensamente poderosas e indomáveis, livres como as aves que cruzam os céus e os preenchem de canoras preces.

Certo dia, Europa colhia flores num grande prado, todo ele verdejante e salpicado pela variedade de tonalidades que as pétalas dançantes orgulhosamente mostravam, elaborando ramos simples e equilibrados. A colheita, pacata e serena, é feita de manhã, quando as flores despertam da amena noite que lhes furtou momentaneamente os pigmentos que as fazem resplandecer, para acordarem com uma faceta inocente e pura. Subitamente, na manada de touros negros que pastavam num terreno adjacente, eis que surge um enorme vulto branco, um soberbo touro níveo, refulgindo pela sua unicidade, tão diferente e grandioso.

Europa é imediatamente cativada pelo novo animal de porte robusto, que tanto destoa no meio da manada que se veste de preto. Com um ramo na mão esquerda, a princesa aproxima-se do referido animal, com um passo natural e cortês, com a mesma devoção que apresentaria se fosse colocar as flores num altar dedicado aos deuses do Olimpo. O grande touro, manso e dócil, prende as suas órbitas na doce imagem da princesa que inocentemente o observa com tanta curiosidade, encerrando em si o indomável e plácido género africano.

A uma dada altura, Europa pára. O touro mantém-se ali, parado, a contemplar a fenícia que tanto deve à formosura. Inexplicável efeito provocado por uma inconsistente implacável motricidade, a princesa ergue a sua alva mão direita, estendendo o seu braço até à testa do animal albino. O contacto é estabelecido, ela saboreia o macio e cuidado pêlo que tanto o destaca, e ele conforta-se com o calor que se liberta da sua delicada e pequena mão. Nisto, o tempo pára. A brisa que derrubava as folhas das grandes árvores que preenchem os prados esquece-se do seu propósito, mantendo as folhas suspensas na atmosfera, os restantes animais imóveis, o mar ao fundo calado e parado, uma melodia ecoa, imagem de um paraíso prometido, maior ainda que o terreno que já tanto oferece e ostenta. Uma inexplicável aura envolve os dois seres, desenhando auréolas douradas sobre o céu, bronzeando as nuvens de um ouro imutável e deslumbrante, poético e arrebatador.

Europa fica encantada com o possante touro, que lhe suscita uma sensação como nunca sentira, nada de natural assim se manifesta, nem humano se conclui, talvez um poder divino, uma força infinitamente imensurável que evita o contacto com o comum dos mortais e que, por pura coincidência, se encerra no touro branco.

Num ímpeto apaixonado, Europa senta-se no macio dorso do animal. O laço jamais será quebrado. Para horror geral dos que assistem à cena sem nada dela extraírem, o touro eleva-se no ar, levando consigo a princesa. Europa vê-se raptada por um eficaz disfarce, albino touro que nada mais serviu para estabelecer contacto, célebre pela sua raridade e excelência, nobreza e força, vertentes que jamais faltarão ao ilustre e possante bovino.

Europa saboreia a brisa celestial. Ao seu lado voam bandos de aves, como se participassem numa jubilante boda ou numa apoteótica procissão, olhando para as superfícies terrenas a partir das grandiosas alturas que todos cobrem e limitam, que geram ambição e desejo. O continente africano termina e ruma-se ao desconhecido. Enquanto Europa e o touro sobrevoam o mar, cardumes juntam-se à procissão dos alados, embora no mar, mas movidos pela mesma força que reina nos seus corações: a plena harmonia natural que celebra o amor. Subitamente, no horizonte envolto na mágoa do nevoeiro, desenha-se a costa de um novo e desconhecido continente.

O destino é celeremente alcançado em grande pompa, com os animais e os elementos reunidos neste apogeu que a princesa não consegue explicar, de tal forma extasiada com o acontecimento, mergulhada numa paixão profunda, esquecendo-se do que para trás deixa. Aterra-se num novo continente. Europa sai do dorso do touro alvo. Surpreendentemente, esta alegórica figura transforma-se em Zeus, que havia orquestrado esta farsa para raptar a belíssima princesa fenícia que tanto interesse e desejo lhe suscitara. Apresenta-se à mulher deslumbrada e oferece-lhe um trono e um continente, futuramente baptizado em sua honra, pedindo em troca o seu incondicional e eterno amor, devota força que o movera a actuar, de tal forma surpreendido pela sua beleza não ser obra divina, mas antes o culminar da humana raça, ali materializado na figura de Europa. A oferta é aceite sem qualquer ponderação. As preces são ditas, os votos trocados, as carícias cambiadas, a sedução perpetrada. Três filhos nascidos: Minos, Radamanto e Sarpedão.

Europa assim ficou, no continente baptizado em sua honra, exilada da África que guarda no coração dominado por um amor divino, sereno e absoluto.


                                                  O Rapto de Europa, Ticiano, 1562

 

 

 

II.                 Ganimedes

O jovem pastor guarda o rebanho. É mais um dia solarengo, quente e acolhedor. A água brota das nascentes que ameaçam secar, as plantas deleitam-se com a luminosidade e com a brisa amena, os animais descansam na sombra das oliveiras e dos sobreiros. Os grilos e as cigarras presenteiam um concerto de sons característicos, aliando-se à orquestra natural que se compõe na pauta da aragem. Paira o odor a malmequeres e a terra lavrada, já seca e com saudades de chuva, da qual brotam culturas e débeis árvores.

Ao longe sorri Tróia, que se refastela antes de regressar ao labor depois das maiores horas de calor, cidadela bem guarnecida, rica e poderosa, da qual é originário o pastor, um jovem que vigia o rebanho do pai com grande afinco e dedicação. Despojado de qualquer posse ou título, o jovem, de seu nome Ganimedes, é moldado pelas estações e pelo desenrolar dos processos naturais, escutando as lições que a brisa lhe ensina e partilhando dos saberes dos antigos que estão às portas da morte, gente humilde e trabalhadora que aprendeu com a vida.

A sua educação é tradicional, pouco controlada e fraca. Desconhece por completo os reinos que rodeiam a sua tão amada Tróia, à qual é devoto, tal como o é aos deuses do Olimpo, magnificências poderosas que são responsáveis pelo tecer do débil retalho do Fado em torno do qual tudo orbita. Soa um trovão ou observa-se um falcão com uma serpente rubra nas garras e imediatamente se procura explicação e esclarecimento de causa, atribuindo-se a discussões divinas ou à falta de devoção do povo e de sacrifícios.

Ganimedes, um jovem a quem a vida promete ensinar, é visto como um indivíduo exemplar, humilde e bondoso, que ajuda os que se encontram em dificuldades, apesar de discreto e modesto. A esta alma simples e pura, alia-se um corpo belo e equilibrado, esculpido pelo passar dos tempos, que encanta muitas jovens camponesas.

Recostado na copa de uma oliveira, Ganimedes observa atentamente o rebanho, contando com meia dezena de carneiros, duas dúzias de ovelhas e uma dezena de cordeiros, que pasta placidamente, alguns deitados à sombra, outros a bebericar de um pequeno regato que corre monte abaixo. Entregue aos seus pensamentos, humildes e singelos, o jovem troiano reflecte na sua vida, paradoxalmente tão curta mas tão longa, cheia de vivências quotidianas semelhantes, encantadas com relatos de histórias de soldados e heróis, deuses e batalhas. Por mais que dê voltas à cabeça, não consegue entender que justiça existe em envelhecer ou nos motivos que levam os reinos à hostilidade. A terra que tem, propriedade de Tróia, representa tão bem a abundância e o necessário à sobrevivência, benesses mais que suficientes para louvar e agradecer eternamente aos deuses por terem concedido tal oportunidade: a de viver. Correm-lhe pensamentos semelhantes enquanto almoça o pão que a sua mãe lhe dera, acompanhado de uma maçã e seguido de um trago de vinho.

O Sol atinge o seu pico, o rebanho estende-se nas sombras dos sobreiros e das oliveiras, o regato corre incessante monte abaixo e o céu continua límpido, sem sinal de nuvens. No meio de toda esta calmaria, com os camponeses a almoçar e a descansar, com o belíssimo panorama troiano no horizonte, eis que surge uma enorme águia castanha.

A ave gigantesca inicia a manobra de rapina e sobrevoa Ganimedes, movendo as suas garras para o apanhar. O jovem, assustado com o monstro alado que desceu do reino dos céus, precipita-se para o cajado mas não consegue chegar a tempo. Mal se levanta e a águia sobre ele recai, derrubando-o e prendendo-o nas suas patas. A sólida e jovem carne sente o frio das garras da ave. Subitamente, e com Ganimedes seguro contra vontade, a águia voa, transportando o jovem que se debate contra o seu raptor.

 Dá-se a ascensão da soberba águia, talvez a maior presenciada em qualquer parte do vasto mundo, que reclama Ganimedes como sua presa, elevando-o cada vez mais. O jovem contorce-se à medida que vê a frondosa folhagem da oliveira a tornar-se gradualmente mais pequena, o rebanho semelhante a pequenos seixos brancos, o regato revela-se um fino colar de prata e o monte nada mais que uma miragem difusa. À sua frente a imensidão do céu, sem limites nem fronteiras, de um azul mais claro que o marinho. Ganimedes admira a paisagem, enquanto se acalma e tenta compreender para onde a águia o carrega com tanto cuidado e afeição.

O voo dura tempo, sem noção de qual a sua duração exacta ou aproximada, tal o êxtase que esmagou o jovem pastor troiano que vive para o seu rebanho e para a sua família, não corrompido pelos males do mundo, ainda uma mente pura e livre. A ave parece nutrir um especial carinho pelo jovem, à medida que o envolve com as suas patas, equilíbrio perturbado pela dinâmica alada do voo.

O destino é alcançado e a grandiosa águia pousa Ganimedes. O jovem, meio desorientado, depara-se com uma montanha enorme, de longe a maior que alguma vez vira, toda ela ornada de templos brancos com mármore resplandecente, com enfeites a ouro, estátuas belíssimas e grandes colunas elaboradas. Crê estar no Olimpo. O ar refinado e rarefeito, uma temperatura agradável e amena, uma luminosidade exagerada, sempre envolta em grande riqueza e num silêncio sepulcral.

Ganimedes retorna a observar a águia e capta uma visão extrema: a da grande ave de rapina se metamorfosear, despir a sua máscara e revelar Zeus, o pai dos deuses e dos homens, o grande mestre do Olimpo, marido de Hera, astro poderosíssimo. Qual o espanto de Ganimedes a observar a face do seu raptor, efígie que tantas vezes tinha examinado nos templos, agora num realismo muito mais perfeito, ente supremo e magno.

Num momento de fraqueza, Zeus declara-se apaixonado pelo jovem. Confidencia-lhe que se trata do homem mais belo de toda a Grécia, e que se enganara ao acreditar que aquela perfeição não poderia ser obra de mera ocasião humana. Ganimedes, tão puro e inocente, mal acredita no que o pai dos deuses lhe diz e no que lhe oferece: juventude eterna e um lugar perpétuo no Monte Olimpo, ficando responsável pelo servir do néctar dos deuses, que ficam escandalizados com o comportamento obsceno de Zeus, caprichoso ente que dispõe de paixões e de almas de uma forma insensível e frívola. Eleva-se o comum dos mortais à etérea e prezada juventude, permitindo conservar o corpo mas não o espírito, já corrompido pelas disputas divinas, originadas pelo rapto do disfarce alado de Zeus, adepto da pederastia, prática tão frequente na Grécia Antiga.

O pastor troiano vê-se imortal, com uma posição de prestígio no Monte Olimpo ao servir a imortalidade e a distinção aos outros deuses, apesar de não passar de um catamita de Zeus, o único dos amantes ao qual garantiu a imortalidade, tal a afeição e a atracção. Com as planícies e os rebanhos troianos no coração, Ganimedes desce do Olimpo e divaga por aqueles prados verdejantes e cultivados, no mesmo monte onde fora raptado pela soberba águia. Ao longe, Tróia exala fumos de labor, o mar contacta com a costa; as essências misturam-se com a terra seca, o odor do gado e a casca dos sobreiros. À sombra de uma oliveira, repousa o eterno jovem Ganimedes, herói que arrebatou o coração de Zeus.
 
 
O Rapto de Ganimedes, Rubens, 1611-1612
 

III.              Leda

Leda, rainha espartana, esposa de Tíndaro. Famosa pela sua lendária beleza, a rainha encanta qualquer súbdito que a olhe de relance. À belíssima e formosa fachada, consegue aliar um temperamento instável, fechado e tímido, com momentos de demente contemplação e auto-glorificação. Apesar de este feitio por vezes egoísta e avaro, Leda tem vários momentos de serena contemplação nos seus palácios, todos eles grandiosos e monumentais, ricos e imensamente complexos.

Fiel a Tíndaro e devota, a rainha dispõe de um reino poderoso e augusto, governado com grande autoridade, ornado de grandes colunas jónicas, dóricas e coríntias, sempre numa atmosfera mediterrânea: as seculares oliveiras nas planícies douradas, os pinheiros e as vinhas que recortam, ao longe, o mar, os pastores e os humildes camponeses; enfim, uma beleza imensa, simples e sem rival, campestre e deliciosamente filosófica.

Esparta, mãe de bravios guerreiros e de excelsas gentes, encanta Leda. A cidade, baluarte bem fortificado e soberano, insere-se numa imensa planície fértil, por onde calmo e plácido corre um rio de caudal variável conforme as estações. Um dos passatempos favoritos de Leda é o de navegar numa esplêndida barcaça, de se deixar levar pela corrente do leito aquático, saboreando a paisagem que aglomera ruínas de templos e de cidadelas com uma imensa mancha natural que conjuga harmonia e equilíbrio, conferindo plenitude à rainha. Sente-se ainda mais bela à medida que é levada pelo rio, fonte de vida e de inovação, admirando os patos e os gansos egípcios que por lá se deslocam e alimentam.

Observa os jacintos e os nenúfares, todos eles floridos, desejando saber nadar para se entranhar naquele meio tão belo mas tão fatal, indomável mas sublime, perigoso mas fantástico. A água límpida, transparente, revela os cardumes que circulam pelo curso de água, mostrando as pequenas algas e os limos que se agarram às pedras e aos seixos do fundo, já polidos pelo constante passar das cristalinas e refrescantes águas.

Certo dia, Leda navega na sua soberba barcaça, com cortinas de seda rosa que esvoaçam ao relento. Uma andorinha voa rente às águas, alimentando-se dos incómodos insectos que se acumulam nas margens e nos baixios. Uma garça e meia dúzia de patos nadam no plácido rio, que neste dia em especial parece uma delicada filigrana de prata, com uma corrente serena e iluminada por um Sol vagaroso e mole, que aquece a atmosfera de uma essência doce e quente. Vindo do nada e envolto numa elegância característica e suprema, um cisne imponente surge no rio, de porte majestoso, doce e níveo, como o prolongamento de um místico melancólico nevoeiro que paira sobre os campos durante a madrugada.

A grande ave, ao contrário de muitas outras fugidias, mostra-se afável e encantadora. Dirige-se, com um nadar sereníssimo e delicioso, para a esplêndida embarcação que carrega a rainha deleitada por semelhante visão: a de uma raridade suprema por terras mediterrâneas, um cisne proveniente das frias terras nórdicas, com o seu semblante gracioso e real. Este animal aproxima-se da barcaça, encabeçando-a numa procissão gloriosa, uma belíssima embarcação elaborada, com uma monarca deitada a saborear as águas com os alvos braços, à medida que, sobre ela, pairam sedas e cetins de uma leveza extrema, que dançam ao sabor dos ventos e se deleitam ao sol; toda esta paradisíaca imagem rematada por um cisne fora do seu ambiente natural, que confere um exotismo preponderante às terras que se definem e constituem de vinhas, olivais, urbes e vilas.

O cisne abranda e acompanha a barcaça, estando mesmo ao lado de Leda que se extasia com a visão de um animal tão inocente e belo. Suavemente afaga-lhe as asas, penugem alva de uma carícia doce e vibrante. A grandiosa ave sobre à bordo e senta-se ao lado da rainha espartana, pousando a cabeça e o longo pescoço sobre o seu peito, onde palpita um coração fragilizado por tanta emoção. A mulher acaricia o cisne, abraçando-o e apertando-o contra si, perpetuando aquele momento durante longos minutos até ao desembarque. O cisne voa para longe e a rainha chora.

Passa sofridos momentos a pensar no amor que perdera, irracional e insano, por um animal nobre e imensamente belo. Carpe e sofre, o seu coração foi estilhaçado e assume a verdade de que não mais poderá restituir emoções semelhantes às sentidas no rio, na presença da ave. Leda corre para uma nascente próxima para se matar. Porém, quando a alcança, para sua surpresa, encontra o sublime cisne. Este abraça-a com as suas doces asas, elevando o seu pescoço para junto da face que chora de desespero, agora transmutado num deleite total, escondido na penumbra do anoitecer e na húmida solidão da fonte.

Nessa mesma noite, Leda leva o cisne para os seus aposentos. Dormem abraçados um no outro, vivendo um idílico sonho realista, intrínseca inebriante fantasia. A relação é consumada, Leda adormece extasiada, esmagada pelo culminar das sensações acumuladas naquele incrível dia.

No dia seguinte, Leda acorda nua. Ao seu lado, no mesmo local onde estava o encantador cisne, repousam dois grandes ovos. A rainha apressa-se a escondê-los do rei, que irrompe pelos aposentos para lhe desejar um bom dia, mais um como tantos outros, crê o magno espartano. Nesse mesmo dia, Leda assiste à eclosão dos ovos. Do primeiro surgem dois pequenos bebés, do segundo duas pequenas bebés. O cisne aparece imediatamente a seguir, beijando a incrédula espartana que ama esta mítica e soberba ave com todo o seu cândido e humilde coração. É a última vez que o cisne aparece, a derradeira despedida. Após fulgores e cúmulos de paixão, a rainha é deixada com os seus quatro filhos que nasceram como a grandiosa ave, de dois ovos.

O rei Tíndaro aceita as crianças como sendo do seu sangue. Castor, Pólux, Clitemnestra e Helena (futura Helena de Tróia, herdando a aura da mãe e a glória do pai), nascem assim de ovos, heróis e príncipes celebrados como pertencentes ao sublime reino dos céus.

Ainda nesse dia, um grandioso cisne regressa ao Olimpo. O pai dos deuses, após uma ausência de dois dias, retorna a casa. Leda guarda no coração a memória de uma paixão tórrida e inexplicável, ignorando por completo que o pai de seus filhos é Zeus, produtos de uma arrebatadora paixão combustada pela intrínseca beleza da espartana.


 
 
 
                   Leda e o Cisne, Leonardo Da Vinci, 1505-1510

 


Tiago Malhó Lorga Gomes