«As they drew near the town, they saw a negro
stretched upon the ground, with only one moiety of his clothes, that is, of his
blue linen drawers; the poor man had lost his left leg and his right hand. (…) “- When we
work at the sugar-canes, and the mill snatches hold of a finger, they cut off
the hand; and when we attempt to run away, they cut off the leg; both cases
have happened to me. This is the price at which you eat sugar in Europe.”»
in Candide,
Voltaire
“Este é, senhores, o preço do
açúcar que comem na Europa!”. Uma frase de um impacto profundo que consegue,
sucintamente, revelar o sacrifício e a miséria que suportam a real e sublime
mesa europeia. Vê-se o Velho Continente inflamado por paixões materialistas que
surgem das colónias. Está desorientado, sem rumo, vivendo numa autêntica
epopeia de gastos, que de luxo e fausto se constitui. Tudo abunda, nada falta! Erguem-se
palácios cada vez mais grandiosos e ousados que competem e abafam as catedrais
e os mosteiros; encomendam-se obras artísticas imensamente realistas, de tirar
o fôlego tal a perfeição e o génio; cobre-se tudo (as paredes, os tectos, as
molduras, as carruagens, as loiças e as porcelanas, os serviços, as relíquias,
as pessoas!) de talha dourada, de ouro e pratas, de pedras preciosas, de marfim
e de pérolas; fundem-se raios de poder que se expandem pelos reinos e pelos
impérios, recortando-os em jardins barrocos de imensa beleza e em galerias
elegantes; adquirem-se novos modos e requintadas maneiras; aglomera-se o que se
consegue, o que a ganância obriga, o que cobiça e o que sonha – enfim, vive-se
numa profusa impregnação de cores, numa miríade de luzes que alumiam o
quotidiano, uma irrealista tela viva que se consome de opulência e abastança;
vive o satélite em torno do Universo humano, que suplanta Deus, ousada e
descaradamente; vive-se por todos! Vive-se por aqueles que mais não podem, num
grandioso e descabido êxtase, num fútil exagero de vénias e saudações, imersas
numa incessante parada de bailes e leques; consome-se a vida como um produto
das Américas, uma benesse mais que merecida, que enriquece e faz delirar quem a
saboreia.
Afluem as carruagens de gala e de
aparato às bodas e às festas, vestidas da maior opulência e formosura que
alguma vez caminhara pela face da Terra. Respiram-se ares encantadores, com uma
agradabilíssima amálgama de perfumes das Arábias, que se prendem nas vestes dos
mais leves linhos e das mais preciosas sedas. Os prazeres nada mais são que
frutos à mão de colher. A vida é, indubitavelmente, bela.
Porém, do outro lado do impetuoso
Atlântico, espreita, com os olhos enegrecidos do labor, a infame e selvagem
América, essa mistura de raças movidas pela ambição de um paraíso terreno
europeu. Importam-se escravos africanos, bons trabalhadores, exímios em muitas
tarefas, obedientes e empenhados. Cada um vale um punhado de moedas, meros
objectos de esforço e dedicação. Maior escândalo que morrer um casal de cafres,
será decerto perder uma cabeça de gado.
Enfiem-se os selvagens, vindos dos
confins do Continente Negro, num grande navio. Faça-se a viagem, evitando
perder a carga completa (visto que muitos deles irão sucumbir). Desembarque-se
e faça-se o leilão. Anuncie-se a carga a boa voz! Decerto será vendida e
devidamente marcada, recambiada para o seu posto. Trabalhará na cana-de-açúcar,
no algodão, no café, no tabaco, no chocolate, na madeira, nas minas, no mar, no
campo, na herdade… E fará a tarefa com precisão, dando a sua contribuição para
este poderoso engenho que esmaga terras e famílias, que arruína vidas e fados, que
cunha chagas e temores, que incute tanta dor e sofrimento.
Chora o cafre, recordando, por
entre as vergastadas do castigo, as verdes planícies africanas que deixara para
trás, para sempre, para todo o sempre, para todo o imenso, eterno e sofrido
sempre, sem forma de as abraçar ou contemplar de novo; com o jugo assente na
cerviz, jugo esse que o impele a olhar para o algodão que recolhe durante os
passados doze anos e que recolherá até não ter força e sucumbir, estatelado no
chão, sem a dignidade de um cavalo atingido no clímax da batalha ou de um
inimigo morto por piedade ao sofrimento; no chão, consumido por vermes,
beijando a maldita terra que o capturou, que lhe desfez os sonhos e tantos
golpes de violência lhe desferiu, herege terra que lhe comerá o corpo!
Continua a labuta. A vida não pára.
O suor escorre, a fome aperta, os músculos falham, o corpo vive extenuando
mesmo antes de iniciar a rotina diária. Os castigos são recorrentes, algo
banal. A vida não pára nem um minuto. O algodão é para ser recolhido, o açúcar
tratado, o café preparado, a mina limpa, o campo lavrado, o lago drenado, a
herdade aprumada, o tabaco cultivado, a madeira cortada! Não há tempo para
respirar, não há sombras, não há comida! Não há nada para pensar: apenas um sem
fim de trabalho que se acumula e ao qual se obriga violentamente.
Tem uma escrava um filho, acabado
de emergir das suas vísceras. Valerá a pena a sua existência? O que o espera
senão uma procissão de mondas e colheitas, um martírio de obras e safras? Será
criado como uma cabeça de gado, com certeza com menos valor e honra. Foi para
isto que a mãe, amazona das selvagens entranhas africanas, o trouxe ao mundo?
Irada com tudo isto, e num profundo acto, diria a civilização insano, a mãe
abafa o próprio filho, e depois corta os seus pulsos, unindo-se a ele na
indefinida matéria espacial que tanto admirava nas escuras noites, diamantes
presos na fresca teia nocturna.
Apesar deste incidente vulgar na
colónia, o abuso continua. Reina o caos, a injustiça, a depravação. Decepam-se
membros e cabeças de uma forma natural e sem oferecer justificações. O cafre
fala demais? Corta-se-lhe a língua. A criada negra viu o que não devia? Arranquem-se-lhe
ambos os olhos para prevenir futuros casos. O par foi apanhado num momento
íntimo? Ele é capado e ela sovada e mutilada. Dois escravos fugiram e foram
apanhados, aplique-se-lhes uma leve pena de prisão, mas com privações letais.
Assim se governam as províncias do império, entregues a um bando asqueroso, animalesco,
sem escrúpulos.
Mas haja produção! Saiam as
fragatas e os galeões pejados de riquezas, almejando a Europa! Carreguem-se,
encham-se, atafulhem-se de ouro, prata, diamantes, pérolas e pedras! Juntem-se
aos homólogos orientais que, cheios de odores característicos, naufragam com a
ganância das sedas e das especiarias! E os africanos, igualmente pejados de
escravos, marfim, peles e semelhantes riquezas! É só pedir: porcelanas,
estatuetas em marfim, grandes rubis, animais exóticos, chocolate, chás, madeiras
nobres… Haja ouro, muito ouro! Podem tombar e ceder as barreiras e as paredes
das minas, soterrando meia centena de escravos, que mais virão! Nem se
considera um contratempo, visto que a nova horda será mais energética e
resistente! Venham eles! Troquem as vidas e as almas por promessas! Sofrimento
e dor sem limites, capturas e trabalho árduo cá os esperam! Suportem, suem,
cantem, rezem, sangrem, sofram, morram, mas produzam! Passem por aqui, deixem
cá as ossadas mas façam alguma coisa! As demandas e as encomendas já
ultrapassam a produção, mandem vir mais escravos de África! Eles que nos
forneçam os diamantes, o café, o tabaco, o algodão, as madeiras, os linhos, as
sedas, as peles, as pedras e o açúcar. Nós permaneceremos no sítio onde Deus
nos colocou, a cargo desta empresa, a olear esta engrenagem, a ordenar este
caótico mundo! Afinal, não nos condenem, só queremos viver do melhor, pelo
melhor e com o melhor. Somos fortes, grandes, invencíveis, inigualáveis,
audazes, triunfantes, gloriosos, notáveis, ilustres, possantes, descomunais,
divinos!
As encomendas chegam à Europa. O
chá é servido em porcelana chinesa e remexido com uma belíssima colher de madrepérola,
com incrustações em marfim. O açúcar é finalmente adicionado, conferindo uma
conjugação sublime de sabores. Uma figurada lágrima de sangue irrompe do fundo
da chávena, simbolizando as centenas de almas que pereceram para produzir todo
aquele aparato, para proporcionar toda aquela glória, todo o esplendor, toda a
apoteose. A lágrima está à vista de todos, mas ninguém se preocupa. Este é, senhoras
e senhores, o preço do açúcar que comemos na Europa!
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| Engenho de Açúcar do Século XVIII |

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