quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Açúcar das Américas


 

«As they drew near the town, they saw a negro stretched upon the ground, with only one moiety of his clothes, that is, of his blue linen drawers; the poor man had lost his left leg and his right hand. (…) “- When we work at the sugar-canes, and the mill snatches hold of a finger, they cut off the hand; and when we attempt to run away, they cut off the leg; both cases have happened to me. This is the price at which you eat sugar in Europe.”»

in Candide, Voltaire

 

“Este é, senhores, o preço do açúcar que comem na Europa!”. Uma frase de um impacto profundo que consegue, sucintamente, revelar o sacrifício e a miséria que suportam a real e sublime mesa europeia. Vê-se o Velho Continente inflamado por paixões materialistas que surgem das colónias. Está desorientado, sem rumo, vivendo numa autêntica epopeia de gastos, que de luxo e fausto se constitui. Tudo abunda, nada falta! Erguem-se palácios cada vez mais grandiosos e ousados que competem e abafam as catedrais e os mosteiros; encomendam-se obras artísticas imensamente realistas, de tirar o fôlego tal a perfeição e o génio; cobre-se tudo (as paredes, os tectos, as molduras, as carruagens, as loiças e as porcelanas, os serviços, as relíquias, as pessoas!) de talha dourada, de ouro e pratas, de pedras preciosas, de marfim e de pérolas; fundem-se raios de poder que se expandem pelos reinos e pelos impérios, recortando-os em jardins barrocos de imensa beleza e em galerias elegantes; adquirem-se novos modos e requintadas maneiras; aglomera-se o que se consegue, o que a ganância obriga, o que cobiça e o que sonha – enfim, vive-se numa profusa impregnação de cores, numa miríade de luzes que alumiam o quotidiano, uma irrealista tela viva que se consome de opulência e abastança; vive o satélite em torno do Universo humano, que suplanta Deus, ousada e descaradamente; vive-se por todos! Vive-se por aqueles que mais não podem, num grandioso e descabido êxtase, num fútil exagero de vénias e saudações, imersas numa incessante parada de bailes e leques; consome-se a vida como um produto das Américas, uma benesse mais que merecida, que enriquece e faz delirar quem a saboreia.

Afluem as carruagens de gala e de aparato às bodas e às festas, vestidas da maior opulência e formosura que alguma vez caminhara pela face da Terra. Respiram-se ares encantadores, com uma agradabilíssima amálgama de perfumes das Arábias, que se prendem nas vestes dos mais leves linhos e das mais preciosas sedas. Os prazeres nada mais são que frutos à mão de colher. A vida é, indubitavelmente, bela.

 

Porém, do outro lado do impetuoso Atlântico, espreita, com os olhos enegrecidos do labor, a infame e selvagem América, essa mistura de raças movidas pela ambição de um paraíso terreno europeu. Importam-se escravos africanos, bons trabalhadores, exímios em muitas tarefas, obedientes e empenhados. Cada um vale um punhado de moedas, meros objectos de esforço e dedicação. Maior escândalo que morrer um casal de cafres, será decerto perder uma cabeça de gado.

Enfiem-se os selvagens, vindos dos confins do Continente Negro, num grande navio. Faça-se a viagem, evitando perder a carga completa (visto que muitos deles irão sucumbir). Desembarque-se e faça-se o leilão. Anuncie-se a carga a boa voz! Decerto será vendida e devidamente marcada, recambiada para o seu posto. Trabalhará na cana-de-açúcar, no algodão, no café, no tabaco, no chocolate, na madeira, nas minas, no mar, no campo, na herdade… E fará a tarefa com precisão, dando a sua contribuição para este poderoso engenho que esmaga terras e famílias, que arruína vidas e fados, que cunha chagas e temores, que incute tanta dor e sofrimento.

Chora o cafre, recordando, por entre as vergastadas do castigo, as verdes planícies africanas que deixara para trás, para sempre, para todo o sempre, para todo o imenso, eterno e sofrido sempre, sem forma de as abraçar ou contemplar de novo; com o jugo assente na cerviz, jugo esse que o impele a olhar para o algodão que recolhe durante os passados doze anos e que recolherá até não ter força e sucumbir, estatelado no chão, sem a dignidade de um cavalo atingido no clímax da batalha ou de um inimigo morto por piedade ao sofrimento; no chão, consumido por vermes, beijando a maldita terra que o capturou, que lhe desfez os sonhos e tantos golpes de violência lhe desferiu, herege terra que lhe comerá o corpo!

Continua a labuta. A vida não pára. O suor escorre, a fome aperta, os músculos falham, o corpo vive extenuando mesmo antes de iniciar a rotina diária. Os castigos são recorrentes, algo banal. A vida não pára nem um minuto. O algodão é para ser recolhido, o açúcar tratado, o café preparado, a mina limpa, o campo lavrado, o lago drenado, a herdade aprumada, o tabaco cultivado, a madeira cortada! Não há tempo para respirar, não há sombras, não há comida! Não há nada para pensar: apenas um sem fim de trabalho que se acumula e ao qual se obriga violentamente.

Tem uma escrava um filho, acabado de emergir das suas vísceras. Valerá a pena a sua existência? O que o espera senão uma procissão de mondas e colheitas, um martírio de obras e safras? Será criado como uma cabeça de gado, com certeza com menos valor e honra. Foi para isto que a mãe, amazona das selvagens entranhas africanas, o trouxe ao mundo? Irada com tudo isto, e num profundo acto, diria a civilização insano, a mãe abafa o próprio filho, e depois corta os seus pulsos, unindo-se a ele na indefinida matéria espacial que tanto admirava nas escuras noites, diamantes presos na fresca teia nocturna.

Apesar deste incidente vulgar na colónia, o abuso continua. Reina o caos, a injustiça, a depravação. Decepam-se membros e cabeças de uma forma natural e sem oferecer justificações. O cafre fala demais? Corta-se-lhe a língua. A criada negra viu o que não devia? Arranquem-se-lhe ambos os olhos para prevenir futuros casos. O par foi apanhado num momento íntimo? Ele é capado e ela sovada e mutilada. Dois escravos fugiram e foram apanhados, aplique-se-lhes uma leve pena de prisão, mas com privações letais. Assim se governam as províncias do império, entregues a um bando asqueroso, animalesco, sem escrúpulos.

Mas haja produção! Saiam as fragatas e os galeões pejados de riquezas, almejando a Europa! Carreguem-se, encham-se, atafulhem-se de ouro, prata, diamantes, pérolas e pedras! Juntem-se aos homólogos orientais que, cheios de odores característicos, naufragam com a ganância das sedas e das especiarias! E os africanos, igualmente pejados de escravos, marfim, peles e semelhantes riquezas! É só pedir: porcelanas, estatuetas em marfim, grandes rubis, animais exóticos, chocolate, chás, madeiras nobres… Haja ouro, muito ouro! Podem tombar e ceder as barreiras e as paredes das minas, soterrando meia centena de escravos, que mais virão! Nem se considera um contratempo, visto que a nova horda será mais energética e resistente! Venham eles! Troquem as vidas e as almas por promessas! Sofrimento e dor sem limites, capturas e trabalho árduo cá os esperam! Suportem, suem, cantem, rezem, sangrem, sofram, morram, mas produzam! Passem por aqui, deixem cá as ossadas mas façam alguma coisa! As demandas e as encomendas já ultrapassam a produção, mandem vir mais escravos de África! Eles que nos forneçam os diamantes, o café, o tabaco, o algodão, as madeiras, os linhos, as sedas, as peles, as pedras e o açúcar. Nós permaneceremos no sítio onde Deus nos colocou, a cargo desta empresa, a olear esta engrenagem, a ordenar este caótico mundo! Afinal, não nos condenem, só queremos viver do melhor, pelo melhor e com o melhor. Somos fortes, grandes, invencíveis, inigualáveis, audazes, triunfantes, gloriosos, notáveis, ilustres, possantes, descomunais, divinos!

As encomendas chegam à Europa. O chá é servido em porcelana chinesa e remexido com uma belíssima colher de madrepérola, com incrustações em marfim. O açúcar é finalmente adicionado, conferindo uma conjugação sublime de sabores. Uma figurada lágrima de sangue irrompe do fundo da chávena, simbolizando as centenas de almas que pereceram para produzir todo aquele aparato, para proporcionar toda aquela glória, todo o esplendor, toda a apoteose. A lágrima está à vista de todos, mas ninguém se preocupa. Este é, senhoras e senhores, o preço do açúcar que comemos na Europa!



Engenho de Açúcar do Século XVIII

 

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