domingo, 24 de fevereiro de 2013

Suíça, 1917


Suíça, 1917


Vive-se um ambiente incerto, difícil de explicar. Constata-se o velho esplendor dos grandes impérios caídos na amargura da perda e no cruel desmembramento conseguido através da guerra. Soltam-se lágrimas de saudade ao recordar cidades e locais amados, agora palco de massacres que dissecam a alma que procura refúgio neste país neutral e que ainda consegue manter muitos luxos, ouvem-se fortes suspiros quando se lêem cartas de familiares perdidos nas entranhas da guerra, correm boatos e rumores sobre batalhas e pilhagens que atemorizam as soberbas famílias que encontram repouso e salvação nesta ordenada nação, recebem-se telegramas que aliviam os âmagos daqueles que os recebem com o coração na mão, tal a ansiedade e o medo.

Comemora-se um quotidiano faustoso, as frias noites distraídas com bailes organizados pela nobreza que se vê aglomerada nas maiores cidades suíças, ou com os pomposos e indiferentes jantares, esquecendo-se que apenas a algumas milhas jazem centenas de corpos em grandes planícies tingidas por chacina, soltando horrendos gemidos que apelam a auxílio e se tentam agarrar a todo o custo à vida que se esvai dos corpos perfurados por balas, rasgados de toda a solidez da carne, com os pulmões trespassados que afogam o homem como um indefeso peixe que se vê fora do meio aquático, faces desfiguradas onde pendem pedaços das feições que outrora definiam a pessoa e, por sinal da impetuosa guerra, tornam o ser irreconhecível, antes uma estranha aberração deformada pela guerra; bravos soldados cegos devido ao gás libertado pela aviação inimiga, famintos e esfaimados que batalham horas a fio em trincheiras lamacentas por onde proliferam ratos e piolhos, transmitindo inúmeras doenças para as quais não há tempo: há que combater, defender a terra onde já ninguém ousa caminhar, para restabelecer a liberdade furtada e ameaçada que a soldo de sangue se fará impor.

Nos cafés e nas galerias, comentam-se grandes derrotas, fugas de monarcas, revoluções e negociações diplomáticas, bem como os últimos mexericos das soberbas famílias francesas que conseguiram escapar às vagas de soldados alemães que ocupam os castelos da província e os palacetes citadinos, saqueando o que de valor se apresente; criticam-se os magnatas do aço e do algodão que tanto lucram com o infeliz acontecimento que já há quase três anos que se prolonga, desfazendo a Europa e o Mundo em desespero e dor, a Grande Guerra, a maior de que há memória, a derradeira que estabelecerá a augusta paz e a regra do vitorioso sobre o derrotado; ouvem-se relatos de memórias de óperas, teatros, convívios, festas e bodas capazes de fazer derramar sentidas lágrimas pelo apogeu perdido, envolto em escuridão e cada vez mais mergulhado nos mares de desespero, oceanos esses onde nenhum luxuoso paquete ousa navegar, exalando fumos de progresso e inigualável avanço, devido às ameaças que se escondem por baixo da cristalina superfície aquosa, sob a forma de temíveis submarinos.

Proliferam nichos de espiões e agentes secretos, codificando informação nos jornais e nos telegramas que partem para o estrangeiro, protagonizando este infame jogo que custa milhares de vidas, apenas para obter vantagem táctica, para organizar defesas e simular ataques. Por entre os floreados dos casinos que são ponto de encontro entre refugiados políticos e ilustres famílias, celebra-se a efemeridade da vida, numa atmosfera que despreza e esquece o mundo que desaba em seu redor, avaramente centrada em si, comemorando a sorte timbrada nas cartas, as fortunas salvas à última da hora e as ganhas com o desenlace das batalhas, a fama e a glória que conseguiram não sucumbir aos desalmados efeitos da Grande Guerra, a segurança que o país neutral confere e a diáspora que neste pequeno refúgio se encontra: dos barões russos assustados pelos ares da revolução que culminará com a extinção dos poderosos czares, passando por célebres cientistas que contribuem para o progresso da raça, não esquecendo as abastadas famílias oriundas de várias pátrias, a nobreza de sangue, os diplomatas e os homens de negócios, as vedetas e os artistas, até aos simples homens e mulheres que, despojados de títulos e bens, conseguiram escapar às impetuosas armas da guerra semeada por atentados e instáveis tensões.

Um mundo à parte do que lá fora se faz sentir. Áreas ajardinadas, ruas pacatas e cobertas pela neve que calmamente desce das alturas, grandes festas, campos cobertos pelo frio orvalho matinal que confere um panorama puro e celestial. Do outro lado da fronteira, observam-se campos sem essência, solos dos quais jamais brotará planta alguma que não a da discórdia, tal a quantidade de explosivos que absorvera; as árvores tombadas e irrigadas pelo sangue dos inocentes, com a copa enegrecida pelo pesar da pólvora e do desespero, as colheitas devastadas e queimadas, sem que possam servir de sustento aos camponeses esfomeados, subjugados aos exércitos que os dominam e massacram; os indivíduos cadavéricos, traumatizados pelas emboscadas nocturnas e ataques surpresa, com a audição apurada para as hélices dos perigosos aviões que irrompem dos céus, precipitando as suas munições para as superfícies terrenas; o cheiro a químicos que enlouquece a mente, depravando-a numa intempérie de pensamentos alucinantes, culminando na total ausência do mundo real.

Romances à moda antiga, galanteria, arrivismo exacerbado e cumprimentos corteses soam pelas cidades suíças, num total deleite de paz e segurança, apenas relembrando a existência da guerra pela ocasional falta de produtos mais especializados, pelas cartas, telegramas, notícias e memorandos secretos, e ainda pelos bombardeamentos que iluminam as noites nas regiões fronteiriças. Suíça, país que alberga uma panóplia de gentes, de todas as condições e estatutos, meios e ideologias, procura uma coisa que as une: uma efémera salvação de um mundo que se consome e desaba em seu redor, cedendo os fundamentos dos sistemas que o governavam, presentemente alienados da razão e da unidade. Sente-se o conforto dos melhores hotéis, o charme das galerias, o poderio dos banqueiros, o encanto dos chalets, a aventura dos tranquilos passeios de automóvel e os calmo quotidiano, plácido e sincero. Sofre-se imensamente pela leitura das cartas amassadas pelos correios internacionais, debatem-se derrotas devastadoras e os seus efeitos directos, pena-se pela perda de familiares próximos, reza-se para almejar a paz e a vitória, assassinam-se diplomatas e espiões fracassados.

A momentânea salvação é atemorizada por detalhes provenientes de todos os cantos do vasto mundo que desfalece numa enchente de sangue e pavor. A incerteza domina os refugiados, levando-os ao puro desespero através da falta de dados concretos sobre aqueles que mais amam e das memórias que constantemente os invadem, recordando o fausto e o apogeu caído em desgraça, como uma lenda de fama e fortuna, nada mais que isso, uma mera lenda, o tempo que não mais voltará atrás, as palavras de amor que ficaram por dizer, os actos por fazer, as acções perdidas no incessante percurso que nunca retrocede, as obras contempladas, as conversas honestas e sinceras, os bons momentos passados na imensidão dos prados campestres ou nas fervilhantes metrópoles que tão bem encerram o avanço que se faz de inovação, os amantes separados que nunca mais se contemplarão, as famílias desmembradas como as vítimas das minas, o património reduzido a cinzas.

Encravada entre os Aliados e as Potências Centrais se encontra a Suíça, alvo de neutralidade, acérrima defensora da paz e praticante de apertada doutrina. Lá se encontra uma incrível variedade de ideais e nacionalidades. Fumam-se cigarros desalmadamente, receando o desabar de uma tormenta iminente que já colheu milhões de vítimas, através das piores atrocidades. O panorama é o mesmo em todos os campos de batalha: desertores executados, planícies repletas de arame farpado que prende pedaços de roupa e carne, enormes fossas causadas por bombardeamentos, munições perdidas, solos queimados e inférteis, trincheiras lamacentas e infames sepulturas para os exércitos gaseados, reino de doentias criaturas que mal força têm para se agarrarem à vida que tantas vezes viram escapar aos seus companheiros, o fugidio vulto que se espelha nos olhos do miserável que parte para a paz eterna, o desaparecer da luz e do brilho que iluminaram a existência pelos troços do mundo e que, por infeliz acaso, acaba numa trincheira rodeada da maior miséria a que o Homem pode assistir, a desgraça e a infelicidade do conflito levado ao extremo, filho que nunca mais verá a mãe, despedaçando o seu coração que já havia sido estilhaçado pela perda do patriarca, igualmente na guerra.

Os campos de batalha vermelhos, rubros do sangue que flui dos corpos massacrados e perfurados pelo vil metal, tão frio e insensível, percorrendo o seu definido trajecto conferido pelo premir de um gatilho. As epidemias, as dores excruciantes, os desesperados pedidos a Cristo sob a forma de horrendos bramidos, almas que de humano já nada têm, no limiar da dor e da existência, desvanecendo-se num sofrimento sem paralelo, profundo e agudo, fazendo derramar lágrimas de sangue enquanto tremem devido à gélida sensação que os domina antes da chegada da morte. As cidades com os ornamentos desmantelados, obras artísticas convertidas a cinzas, esquecimento e saque, edifícios derrubados e ocupados, gente revoltada e faminta, apresentando feridas que rapidamente infectam, clama-se por auxílio e por salvação. As famílias abraçam-se uma derradeira vez, incertas dos seus destinos e de quando se voltarão a encontrar, os ricos e os poderosos escapam rapidamente e refugiam-se em pequenos baluartes, regimentos caem em ciladas e desaparecem do mapa, as nações afundam-se cada vez mais na dívida e na incapacidade, fazendo circular motes patrióticos para elevar o ânimo daqueles que perderam por completo a esperança.

Enquanto se debatem pela sobrevivência, na Suíça celebra-se a vida, velando por aqueles que a perderam nos campos de batalha do mundo. Somme e Verdun correm pelas bocas de todos, comentando a carnificina, o verdadeiro apocalipse, o horror que se retracta perante os olhos, uma decadente paisagem incandescente, duros meses de confrontos pela terra de ninguém, sem forma de acabar, ceifando a vida a muitas centenas de milhares de homens que tão valentemente batalharam, morrendo quer por exaustão quer por bravura. E assim se consome o mundo em ódio, vingança, mortandade e desespero, por derrubar de fortalezas, frentes, bastiões, armadas e exércitos.

Suíça devastada pelas notícias e freneticamente embrenhada na demanda pela paz, continua o faustoso ambiente de encanto e charme dos chalets cobertos pela suave neve que confere uma imagem brilhantemente bela, despertando um enorme desejo de percorrer as vertentes num grande trenó ou de esquiar pela tarde. Augusto refúgio que salva milhares de pessoas, algumas outrora rodeadas dos maiores dos luxos, e agora despojadas dos seus bens, que deixaram tudo o que possuíam para trás, aquando da rápida e necessária fuga.

Os precisos objectos suíços de relojoaria, no pináculo da precisão, adornados com jóias e ouro, pulsam o passar do tempo. A guerra terminará. As feridas irão sarar. A vida voltará ao normal. Auges e apogeus novamente atingidos, o mundo retomará o seu curso, com a esperança renovada e a promessa de paz. Os campos da discórdia florescerão e deles brotará uma geração em que se deposita o desejo de um futuro melhor, mais ambicioso e avançado, provendo um mundo belo, igual e justo. Os outrora inimigos, se abraçarão, derramando sentidas lágrimas só de pensar no mal que desejavam um ao outro, condenando o próprio mundo ao cadafalso, livres e conscientes de si, semeando a estabilidade e a paz.

Enquanto a Grande Guerra não terminar, a Suíça assistirá, qual pacífico moderador que zela pelo mundo, envolta numa esplêndida impregnação de luxo e fausto, desespero e ansiedade. A Guerra terminará em breve.

 
 
 

                               St. Moritz, circa 1917                                                 Batalha de Verdun, 1916
 



Tiago Malhó Lorga Gomes

 

 

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Os Loucos Anos Vinte


Os Loucos Anos Vinte

 

Chitas domesticadas perdidas nos jardins bem arranjados das vastas mansões. Faustosos piqueniques ao ar livre, cadeiras de verga branca, leves sedas que acariciam o corpo e o revestem de extrema elegância e leveza, saudando o quente ar do Verão que refastela as frondosas árvores da herdade, nobre casa de gerações de magnos aristocratas, conhecidos pelas sumptuosas festas que organizavam com ilustres convidados; príncipes, vedetas de cinema, magnatas do petróleo, antigas linhagens do Velho Continente, generais, donos de enormes monopólios, exploradores que pelas densas selvas de África se aventuraram, celebridades dos jornais e das revistas, escritores, artistas; extravagante grupo tão variado mas detentor de tremendas fortunas, invejadas pelo comum dos mortais e envenenadas pelo elevado custo da fama.

Movem-se, fumam, dançam, comem do melhor, bebem do mais caro, divertem-se, dormem, descansam, viajam, saboreiam a vida. Taças de champagne, gastos de milhões nos luxuosos casinos que sublimam e emocionam a encantada alma, iludida pela fugidia sorte, que quanto mais se deseja, mais se embrenha na misteriosa ausência suplantada pelo ácido azar; comboios soberbos, equipados com os melhores materiais, máquinas velozes no pináculo do avanço que se faz de carvão e petróleo, exalando a todo o vigor, quentes fumos que preenchem as mais pobres e industrializadas vilas, enegrecendo-lhes as gentes e os casarios.

Geram empregos, sustentam uma vasta gama de criadagem, suportam cidades inteiras, lucram com o infortúnio e com a necessidade, vivem no maior dos luxos, criam cenários idílicos, desenvolvem o Mundo e escandalizam-no com comportamentos excêntricos. Deliciosos aviões ao pôr-do-sol, corridas de carros, dirigíveis rasgando os céus, apostas, jogos, festas, convívios, chás, passeios, viagens e animais.

Dizem que o dinheiro não compra a felicidade… Excessivo, exagerado, extravagante. Grande vida de conforto, gerida pela liberdade ou pela sua ausência, tarefas singulares executadas com a maior das perícias e dedicações dos criados que as fazem com vista à modesta mesada pela qual se vendem, escravos de quem os quer cativos e submissos. Luxo, prolongando e encantando a própria alma, solene e incrivelmente divagando pelos gloriosos paquetes que cruzam os vastos mares num progresso inigualável, inatingível triunfo para o qual cada vez mais se tende, fabulosa existência aliada da Fortuna e do Fado. Luz branca, graça e reverência, fama e charme.

Roupa personalizada, autênticos palácios feitos à escala do património, alienação da miserável comum condição, labirintos de arte, hotéis que suplicam por descanso das caóticas metrópoles que tão bem encerram a fonte de vida, o desenvolvimento, o crescente e acelerado progresso que rege o Mundo governado pelo ambicioso Homem que quer ser mais e mais quer ser, longe de Deus, perto de si, de todos, do Mundo, da efemeridade, do engano, da morte, do desespero, do caos, da revolta, do ponto sem retorno.

Creia-se o dinheiro ordem. Desigualdade e fome elevam os ânimos e as mesquinhas invejas, prejudicando quem ostenta fortuna sobre forma das resplandecentes e coloridas jóias que reflectem uma inatingível e suprema beleza, que distingue a flácida carne da solidez da pedra cuidadosamente lapidada e emoldurada em ouros. Cheques, notas, moedas, câmbios, acções, fortunas, cofres, bancos, malas e jogo. Poupa-se, gasta-se, investe-se, desbarata-se, perde-se, promove-se, atinge-se.

Venha dinheiro, fortuna, ouro, prata, petróleo, carvão, acções, comboios, minas, prédios, automóveis, luzes e elevadores. Metrópoles perdidamente embriagadas nas gentes, auges e apogeus, festas sem igual que nem da antiga Roma há comparação, união mundial, diversidade, dinheiro, esplendor, brilho, luz, almas, plenitude… E dinheiro, aves do paraíso, arte, ilustrações, filmes, músicas, cinemas, jantares e espectáculos.


Joga-se tudo como num inebriante casino, revestido da maior formosura que o Mundo alguma vez presenciara, superando o jardim das delícias; onde se leva à mesa a própria e prezada existência. Deixe-se o dado e a carta decidir. Roleta, mesa forrada de veludo verde. Sorte. Azar. Mau tempo. Fica para a próxima. Opulência. Dono do Mundo que o condena. Inquisidor. Fortuna. Fábula. Sonho.

 

Design for the Grand Salon at l’Exposition des Arts Décoratifs et Industriels Modernes, Jacques-Emile Ruhlmann, 1925
 

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Ímpeto


Ímpeto


 
Impetuosa alma que me atormentas em tentar abarcar o tudo que me foge constantemente, troçando de mim pelas faces com as quais me cruzo nas ruas da plácida cidade. Procuro-te, desejo-te ardentemente, informo-me, planeio. Por mais que pondere e planos que faça, tu consegues sempre escapar-me. Refiro-me a ti não sabendo quem és e o que de mim queres, mas que desesperadamente me levas a este ponto: ter de escrever sobre ti, completa desconhecida, que errantemente navega nos áureos mares da minha mente, esquivando-se de todo e qualquer obstáculo imposto por mim, descobrindo as ciladas que contra ti coloco, e desvendando os mistérios mais íntimos e secretos.

E continuas a fugir, como lebre de lobo, procurando abrigos provisórios nos recônditos salões da minha mente. Cada vez que abro um dos altos portões para te alcançar, já pela abóbada te desvaneceste, obliterada num globo de luz branca, ofuscantemente dona de si, escravizando-me na tua demanda. Como imprudente caçador que sou, de ti não sei o que esperar, quais rotas de fuga ou meios de camuflagem usarás, estando certo que me iludes fantasticamente, com um realismo que me trespassa a alma atormentada em te encontrar. Por mais que me aproxime, que de ti me esconda, não consigo capturar-te. Peço um brevíssimo vislumbre – uma espreitadela inocente, fazendo de conta de que nada vi, continuando com a minha vulgar vida, e tu, mestre de ti e despertadora de tanta ânsia e desejo, seguirás o teu difuso caminho por dentro da minha alma, difusamente tresmalhada nas malhas e redes de artifício do glorioso astro que alberga o archê de tudo o que existe. Desconfio de te tratas do tudo que tento avidamente alcançar e que, cada vez mais empenhado na tarefa, mais me foges astuta e rapidamente.

Rezo, peço e imploro. Quero agarrar-te. Sentir-te. Alcançar o impossível timbrado nas tuas difusas névoas feitas da mesma matéria das estrelas dos firmamentos, ofuscando o negro bréu que avaramente as envolve, sugando as fracas réstias de luz dos pequenos satélites e refrescando a ausente atmosfera com um frio frígido capaz de estilhaçar espelhos, desejando azar ao Universo, obra suprema de um ente ainda mais supremo que desconfio que esteja por detrás deste âmago que comigo brinca, esquivando-se imponentemente, deixando-me para trás sem forma de me satisfazer, embrenhando-me cada vez mais nesta impetuosa partida.

Não sei sequer o que esperar de ti quando te encontrar nem o que fazer contigo caso te apanhe. Creio que o Fado se rejubila com tais falhadas tentativas e constrói-se para que eu nunca te encontre. Um vislumbre do infinito… O que seria isso? Ver o pináculo da Humanidade, viver diferentes existências, passar por épocas, observar a fundação do Mundo, mergulhado no redemoinho transversal a relógios e horas, ridicularizando o inexorável tempo! Ser eu, ser outros; saber mais que todos, alcançar o impossível, viver na verdadeira acepção da palavra, seja lá o que isso for; viver com os sonhos cumpridos e alcançados, orgulhar-se da condição, iluminar a alma com mil candeias de ouro, abrir as portadas e as janelas da mansão da mente… Que impressão e êxtase seria! Desvendar o mistério do Mundo! Obliterem-se as riquezas materiais, as modas e as tendências, desabem os preconceitos, cessem os pecados e os vícios mundanos e revista-se a Terra de júbilo para revelar a sua real e pura formosura apagada e abafada pelas incontáveis almas que nela caminham perdidas e tentadas na mera sobrevivência, sem nenhuma para exaltar e abanar este constante Mundo.

Volto a frisar, orne-se o Mundo de alegria e paz. A vitória será alcançada.

 

 

 

Tiago Malhó Lorga Gomes

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O Jardim das Delícias Terrenas

 

O Jardim das Delícias Terrenas

Hieronymus Bosch (c.1450 – 1516)

 

O Jardim das Delícias Terrenas - A Criação do Mundo, exterior, 1490-1510, Hieronymus Bosch, Museu do Prado, Madrid
 
 
I.                    Suplica Cristo ao Pai para que se faça um Mundo para ele ser dono de uma maravilhosa fantasia. Em sete dias, Deus, reunido de toda a experiência e saber que O iluminam, aglomerou sensações, matérias, cores, tempos, essências, ares e estrelas, e deles fez uma estranha amálgama esférica predominantemente azul, salpicada por vários pontinhos de vales e picos. Animais, plantas, rios em número de quatro como os do Paraíso, árvores, montanhas, ventos, montes, neves, granizos, tormentas, ondas, Sol, Lua, charcos, prados e um jardim. O jardim é só seu. Candura, bondade a perder de vista, harmonia e elegância, o reinado do inerente charme da Natureza, animais de paragens diversificadas em abundantes feitios e pigmentos, vegetação sublime, luz excelsa e sagrada, silêncio e contemplação, calmaria sem sinal de tormenta. Linhas ondulantes, sublime perfeição que enche os olhos ao próprio Cristo, absorto na meditação da própria alma da Natureza, tão pura e inocente, meio que alberga tanta vida formosa pela sua unicidade e elegância, relaxando na sua graça moldada pela mão de Deus, com grande carinho e amor pelo filho. Apresenta-se Eva e Adão, que imediatamente fazem questão de arruinar o Paraíso; os seus descendentes conduzirão o próprio Cristo ao doloroso Calvário, apagando a candeia que fazia a obra do Criador brilhar e resplandecer. Cessa o bem, a sublimação, o apogeu, a castidade e a pureza. Jamais se repetirá tremendo feito, recordado mais tarde como um panorama idílico, numa profunda triunfante imortal apoteose do Mundo, memória divinal, que mergulha no caos e na desordem.
 

 



II.                  Fogem Adão e Eva do Paraíso, expulsos pelo próprio pecado, ambiciosos que queriam o proibido, maldita condição que tenta alcançar a falta da razão e do pudor; de filhos encheram o Mundo, desgovernados e encantados com a formosura inerte, praticando orgias de sensações, dominados por cálidos sentimentos que preenchem as suas insignificantes mas insaciáveis almas, perdidos de Deus, idolatrando a mera e frágil existência, bebendo o suco da inebriante fantasia, embebendo-se neste que tão alegremente os envolve, alienando-os da noção de libertinagem e excesso, celebrando em profundo êxtase a deliciosa vida que lhes fora oferecida, capricho dedicado por suprema graça inspirada, transformação célebre e efusiva, encantadora, festa imensurável, deboche e volúpia, frutos sedutores e carmins, pecado escondido nos passeios, nos lagos e nas fontes; animais submissos e jubilantes, aves e naus cruzando os áureos céus que Deus reservou para si, cada vez mais enfurecido pela insensata ascensão do Homem; luxúria e apego pelo exuberante pulsar que a todos toca, invade e explora, tornando qualquer um seu escravo, comemorando a efemeridade e aproveitando ao máximo o tempo que lhe resta em tal sublime e excelsa obra sem igual nem comparação, régia e magna utopia de cor, brilho, deleite e soberba, amor, paz, paixão, doçura, bondade, união, conjugação, êxtase, maravilha, apoteose, triunfo, vitória, sublimação, auge, apogeu, ápice, pináculo, candelabro, cúpula, torre de Babel.
 

 

III.                Como seria de esperar, sem um único acto de humilde responsabilidade por manter a engrenagem de tal maravilhoso Jardim das Delícias Terrenas, pena-se no Inferno pela eternidade. Urbes ardem, cidades colapsam, vilas queimadas, aldeias são dizimadas por demónios verdes. Fumo, fogo, chamas, labaredas e calor consomem as carnes que tão extaticamente celebraram o cúmulo da vida, dançando em lascívia com os animais e com os suculentos frutos, as audaciosas construções e os sociais convívios. Sofrem os homens, com tremendos medos e sustos, com a lava que lhes escalda as pernas, com os diabos que lhes mordem a pele, com o sangue que calidamente desaparece e se evapora no solo queimado. Negro, ausência de luz, temor, sombra, escuridão. Gritos de terror, pânico, arruinadas tentativas de remissão, preces caladas pelos berros de horror, preocupação, dor aguda e que se entranha pelo corpo. Criaturas que não constam dos catálogos de Deus, habitando uma região por Ele ignorada. Fugas impossíveis, sonhos destruídos, perpétua maldade que destila os corações de veneno e ardor, memórias do exuberante Jardim, morte sem vista. Cenas bizarras, moinhos que trabalham não a vento nem a água, mas a corpos ainda vivos; caldeirões, batalhas aterradoras, dor sem fim, visões apocalípticas, marchas forçadas para o indefinido. Sofrimento, dor e temor estilhaçam a alma até que a eternidade tenha a graça de se desfazer da infinidade.
 
 
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O Jardim das Delícias Terrenas, interior, tríptico, 1490-1510, Hieronymus Bosch, Museu do Prado, Madrid
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Tiago Malhó Lorga Gomes



sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Cristo Negro

Cristo Negro



Obra do século XIV, Museu Nacional Machado de Castro, Coimbra


No meio de todo o plácido ambiente medieval de alegorias em sólidas pedras tumulares, cavaleiros e mártires, eis que surge Cristo. Porém, apesar da expectativa de um Cristo abençoado e protegido, este está a padecer na Cruz. Imagina-se, portanto, o trágico momento em que a sagrada figura se encontra subjugada, expirando um horrendo e atroz sofrimento, elevando a cabeça num gesto simbólico, como que um pedido de perdão a Deus, uma derradeira despedida do límpido céu que desde sempre o guiara e que, por infelicidade das circunstâncias, nunca mais poderá contemplar; ou como um breve vislumbre do iluminado infinito que, por ínfimos momentos, esclareceu todas as dúvidas que atemorizam o mundo, traduzindo-o em delineadas equações de momentos e ocasiões, ultrapassando a vaga noção da coincidência e ilustrando-a como um complexo produto de elaborados planos para manter a mutabilidade do mundo. Ao invés deste panorama vastamente difundido por toda a vasta e cristianíssima sociedade, mostra-se um gigantesco Cristo Negro preso à Cruz.

Cristo negro, ofuscada a sua divina glória pelo passar das épocas, trocando a alvura que o cobria por um obscuro manto tão conotado com a escura maldade que tenta descarrilar o mundo da sua rota. Cristo negro. Uma esplêndida obra em madeira enegrecida, que absorvera o fumo das velas que a faziam brilhar e cedera ao fragoso e daninho efeito do tempo. Um homem escanzelado, fraco, resignado e derrotado, com a cabeça subjugada à terrível tormenta que lhe desfaz o corpo e rebenta as veias, tingindo a branca veste de uma vívida cor vermelha. Passam-lhe brevemente memórias de ceias, discursos, vivências; envoltas em suprema claridade que alumia e alumiará as almas daqueles desesperados pelas fomes e tormentas que os assolam, dirigindo-se pia e beatamente ao intrínseco pilar que lhes suporta a razão de prosseguir em frente.

O líquido jorra das mãos, dos braços, dos pés e do peito perfurado, expandindo-se por toda a figura que impetuosamente perde a esperança que a prendia ao mundo, já envolta pela frígida correia da morte anunciada. Cristo encortiçado, desfeito e em ruína. Cristo conduzido à Cruz pelo Homem que não o quer ouvir, apesar das suas palavras serem sapientíssimas e de ilustrarem máximas justas e prezadas. Cristo negro, pertença da avara morte que todos reclama e que por ele será iludida. O condenado liberta um último suspiro terreno enquanto cerra os olhos despojados do característico brilho conferido pela fugaz vivacidade. Derrotado, resignado e dilacerado, quebrado e em agonia. No limiar. A sua alma ascende. Está nas mãos de Deus.
 
Cristo Negro, Museu Nacional Machado de Castro, Coimbra
 
Tiago Malhó Lorga Gomes