Suíça, 1917
Vive-se
um ambiente incerto, difícil de explicar. Constata-se o velho esplendor dos
grandes impérios caídos na amargura da perda e no cruel desmembramento
conseguido através da guerra. Soltam-se lágrimas de saudade ao recordar cidades
e locais amados, agora palco de massacres que dissecam a alma que procura
refúgio neste país neutral e que ainda consegue manter muitos luxos, ouvem-se
fortes suspiros quando se lêem cartas de familiares perdidos nas entranhas da
guerra, correm boatos e rumores sobre batalhas e pilhagens que atemorizam as
soberbas famílias que encontram repouso e salvação nesta ordenada nação, recebem-se
telegramas que aliviam os âmagos daqueles que os recebem com o coração na mão,
tal a ansiedade e o medo.
Comemora-se
um quotidiano faustoso, as frias noites distraídas com bailes organizados pela
nobreza que se vê aglomerada nas maiores cidades suíças, ou com os pomposos e
indiferentes jantares, esquecendo-se que apenas a algumas milhas jazem centenas
de corpos em grandes planícies tingidas por chacina, soltando horrendos gemidos
que apelam a auxílio e se tentam agarrar a todo o custo à vida que se esvai dos
corpos perfurados por balas, rasgados de toda a solidez da carne, com os pulmões
trespassados que afogam o homem como um indefeso peixe que se vê fora do meio aquático,
faces desfiguradas onde pendem pedaços das feições que outrora definiam a
pessoa e, por sinal da impetuosa guerra, tornam o ser irreconhecível, antes uma
estranha aberração deformada pela guerra; bravos soldados cegos devido ao gás
libertado pela aviação inimiga, famintos e esfaimados que batalham horas a fio
em trincheiras lamacentas por onde proliferam ratos e piolhos, transmitindo
inúmeras doenças para as quais não há tempo: há que combater, defender a terra
onde já ninguém ousa caminhar, para restabelecer a liberdade furtada e ameaçada
que a soldo de sangue se fará impor.
Nos
cafés e nas galerias, comentam-se grandes derrotas, fugas de monarcas,
revoluções e negociações diplomáticas, bem como os últimos mexericos das
soberbas famílias francesas que conseguiram escapar às vagas de soldados
alemães que ocupam os castelos da província e os palacetes citadinos, saqueando
o que de valor se apresente; criticam-se os magnatas do aço e do algodão que
tanto lucram com o infeliz acontecimento que já há quase três anos que se
prolonga, desfazendo a Europa e o Mundo em desespero e dor, a Grande Guerra, a
maior de que há memória, a derradeira que estabelecerá a augusta paz e a regra
do vitorioso sobre o derrotado; ouvem-se relatos de memórias de óperas,
teatros, convívios, festas e bodas capazes de fazer derramar sentidas lágrimas
pelo apogeu perdido, envolto em escuridão e cada vez mais mergulhado nos mares
de desespero, oceanos esses onde nenhum luxuoso paquete ousa navegar, exalando
fumos de progresso e inigualável avanço, devido às ameaças que se escondem por
baixo da cristalina superfície aquosa, sob a forma de temíveis submarinos.
Proliferam
nichos de espiões e agentes secretos, codificando informação nos jornais e nos
telegramas que partem para o estrangeiro, protagonizando este infame jogo que
custa milhares de vidas, apenas para obter vantagem táctica, para organizar
defesas e simular ataques. Por entre os floreados dos casinos que são ponto de
encontro entre refugiados políticos e ilustres famílias, celebra-se a
efemeridade da vida, numa atmosfera que despreza e esquece o mundo que desaba
em seu redor, avaramente centrada em si, comemorando a sorte timbrada nas
cartas, as fortunas salvas à última da hora e as ganhas com o desenlace das
batalhas, a fama e a glória que conseguiram não sucumbir aos desalmados efeitos
da Grande Guerra, a segurança que o país neutral confere e a diáspora que neste
pequeno refúgio se encontra: dos barões russos assustados pelos ares da
revolução que culminará com a extinção dos poderosos czares, passando por
célebres cientistas que contribuem para o progresso da raça, não esquecendo as
abastadas famílias oriundas de várias pátrias, a nobreza de sangue, os diplomatas
e os homens de negócios, as vedetas e os artistas, até aos simples homens e
mulheres que, despojados de títulos e bens, conseguiram escapar às impetuosas
armas da guerra semeada por atentados e instáveis tensões.
Um
mundo à parte do que lá fora se faz sentir. Áreas ajardinadas, ruas pacatas e
cobertas pela neve que calmamente desce das alturas, grandes festas, campos
cobertos pelo frio orvalho matinal que confere um panorama puro e celestial. Do
outro lado da fronteira, observam-se campos sem essência, solos dos quais
jamais brotará planta alguma que não a da discórdia, tal a quantidade de
explosivos que absorvera; as árvores tombadas e irrigadas pelo sangue dos
inocentes, com a copa enegrecida pelo pesar da pólvora e do desespero, as
colheitas devastadas e queimadas, sem que possam servir de sustento aos camponeses
esfomeados, subjugados aos exércitos que os dominam e massacram; os indivíduos
cadavéricos, traumatizados pelas emboscadas nocturnas e ataques surpresa, com a
audição apurada para as hélices dos perigosos aviões que irrompem dos céus,
precipitando as suas munições para as superfícies terrenas; o cheiro a químicos
que enlouquece a mente, depravando-a numa intempérie de pensamentos
alucinantes, culminando na total ausência do mundo real.
Romances
à moda antiga, galanteria, arrivismo exacerbado e cumprimentos corteses soam
pelas cidades suíças, num total deleite de paz e segurança, apenas relembrando
a existência da guerra pela ocasional falta de produtos mais especializados,
pelas cartas, telegramas, notícias e memorandos secretos, e ainda pelos
bombardeamentos que iluminam as noites nas regiões fronteiriças. Suíça, país
que alberga uma panóplia de gentes, de todas as condições e estatutos, meios e
ideologias, procura uma coisa que as une: uma efémera salvação de um mundo que
se consome e desaba em seu redor, cedendo os fundamentos dos sistemas que o
governavam, presentemente alienados da razão e da unidade. Sente-se o conforto
dos melhores hotéis, o charme das galerias, o poderio dos banqueiros, o encanto
dos chalets, a aventura dos
tranquilos passeios de automóvel e os calmo quotidiano, plácido e sincero.
Sofre-se imensamente pela leitura das cartas amassadas pelos correios
internacionais, debatem-se derrotas devastadoras e os seus efeitos directos,
pena-se pela perda de familiares próximos, reza-se para almejar a paz e a
vitória, assassinam-se diplomatas e espiões fracassados.
A
momentânea salvação é atemorizada por detalhes provenientes de todos os cantos
do vasto mundo que desfalece numa enchente de sangue e pavor. A incerteza
domina os refugiados, levando-os ao puro desespero através da falta de dados
concretos sobre aqueles que mais amam e das memórias que constantemente os
invadem, recordando o fausto e o apogeu caído em desgraça, como uma lenda de
fama e fortuna, nada mais que isso, uma mera lenda, o tempo que não mais
voltará atrás, as palavras de amor que ficaram por dizer, os actos por fazer,
as acções perdidas no incessante percurso que nunca retrocede, as obras
contempladas, as conversas honestas e sinceras, os bons momentos passados na
imensidão dos prados campestres ou nas fervilhantes metrópoles que tão bem
encerram o avanço que se faz de inovação, os amantes separados que nunca mais
se contemplarão, as famílias desmembradas como as vítimas das minas, o
património reduzido a cinzas.
Encravada
entre os Aliados e as Potências Centrais se encontra a Suíça, alvo de
neutralidade, acérrima defensora da paz e praticante de apertada doutrina. Lá
se encontra uma incrível variedade de ideais e nacionalidades. Fumam-se
cigarros desalmadamente, receando o desabar de uma tormenta iminente que já
colheu milhões de vítimas, através das piores atrocidades. O panorama é o mesmo
em todos os campos de batalha: desertores executados, planícies repletas de
arame farpado que prende pedaços de roupa e carne, enormes fossas causadas por
bombardeamentos, munições perdidas, solos queimados e inférteis, trincheiras
lamacentas e infames sepulturas para os exércitos gaseados, reino de doentias
criaturas que mal força têm para se agarrarem à vida que tantas vezes viram
escapar aos seus companheiros, o fugidio vulto que se espelha nos olhos do
miserável que parte para a paz eterna, o desaparecer da luz e do brilho que
iluminaram a existência pelos troços do mundo e que, por infeliz acaso, acaba
numa trincheira rodeada da maior miséria a que o Homem pode assistir, a
desgraça e a infelicidade do conflito levado ao extremo, filho que nunca mais
verá a mãe, despedaçando o seu coração que já havia sido estilhaçado pela perda
do patriarca, igualmente na guerra.
Os
campos de batalha vermelhos, rubros do sangue que flui dos corpos massacrados e
perfurados pelo vil metal, tão frio e insensível, percorrendo o seu definido
trajecto conferido pelo premir de um gatilho. As epidemias, as dores
excruciantes, os desesperados pedidos a Cristo sob a forma de horrendos
bramidos, almas que de humano já nada têm, no limiar da dor e da existência,
desvanecendo-se num sofrimento sem paralelo, profundo e agudo, fazendo derramar
lágrimas de sangue enquanto tremem devido à gélida sensação que os domina antes
da chegada da morte. As cidades com os ornamentos desmantelados, obras
artísticas convertidas a cinzas, esquecimento e saque, edifícios derrubados e
ocupados, gente revoltada e faminta, apresentando feridas que rapidamente
infectam, clama-se por auxílio e por salvação. As famílias abraçam-se uma
derradeira vez, incertas dos seus destinos e de quando se voltarão a encontrar,
os ricos e os poderosos escapam rapidamente e refugiam-se em pequenos
baluartes, regimentos caem em ciladas e desaparecem do mapa, as nações
afundam-se cada vez mais na dívida e na incapacidade, fazendo circular motes
patrióticos para elevar o ânimo daqueles que perderam por completo a esperança.
Enquanto
se debatem pela sobrevivência, na Suíça celebra-se a vida, velando por aqueles
que a perderam nos campos de batalha do mundo. Somme e Verdun correm pelas
bocas de todos, comentando a carnificina, o verdadeiro apocalipse, o horror que
se retracta perante os olhos, uma decadente paisagem incandescente, duros meses
de confrontos pela terra de ninguém, sem forma de acabar, ceifando a vida a muitas
centenas de milhares de homens que tão valentemente batalharam, morrendo quer por
exaustão quer por bravura. E assim se consome o mundo em ódio, vingança,
mortandade e desespero, por derrubar de fortalezas, frentes, bastiões, armadas
e exércitos.
Suíça
devastada pelas notícias e freneticamente embrenhada na demanda pela paz,
continua o faustoso ambiente de encanto e charme dos chalets cobertos pela suave neve que confere uma imagem
brilhantemente bela, despertando um enorme desejo de percorrer as vertentes num
grande trenó ou de esquiar pela tarde. Augusto refúgio que salva milhares de
pessoas, algumas outrora rodeadas dos maiores dos luxos, e agora despojadas dos
seus bens, que deixaram tudo o que possuíam para trás, aquando da rápida e
necessária fuga.
Os
precisos objectos suíços de relojoaria, no pináculo da precisão, adornados com
jóias e ouro, pulsam o passar do tempo. A guerra terminará. As feridas irão
sarar. A vida voltará ao normal. Auges e apogeus novamente atingidos, o mundo
retomará o seu curso, com a esperança renovada e a promessa de paz. Os campos
da discórdia florescerão e deles brotará uma geração em que se deposita o
desejo de um futuro melhor, mais ambicioso e avançado, provendo um mundo belo,
igual e justo. Os outrora inimigos, se abraçarão, derramando sentidas lágrimas
só de pensar no mal que desejavam um ao outro, condenando o próprio mundo ao
cadafalso, livres e conscientes de si, semeando a estabilidade e a paz.
Enquanto
a Grande Guerra não terminar, a Suíça assistirá, qual pacífico moderador que
zela pelo mundo, envolta numa esplêndida impregnação de luxo e fausto,
desespero e ansiedade. A Guerra terminará em breve.
St.
Moritz, circa 1917 Batalha
de Verdun, 1916
Tiago Malhó Lorga Gomes







