Ímpeto
Impetuosa alma que me atormentas em tentar abarcar o
tudo que me foge constantemente, troçando de mim pelas faces com as quais me
cruzo nas ruas da plácida cidade. Procuro-te, desejo-te ardentemente,
informo-me, planeio. Por mais que pondere e planos que faça, tu consegues
sempre escapar-me. Refiro-me a ti não sabendo quem és e o que de mim queres,
mas que desesperadamente me levas a este ponto: ter de escrever sobre ti,
completa desconhecida, que errantemente navega nos áureos mares da minha mente,
esquivando-se de todo e qualquer obstáculo imposto por mim, descobrindo as
ciladas que contra ti coloco, e desvendando os mistérios mais íntimos e
secretos.
E continuas a fugir, como lebre de lobo, procurando
abrigos provisórios nos recônditos salões da minha mente. Cada vez que abro um
dos altos portões para te alcançar, já pela abóbada te desvaneceste, obliterada
num globo de luz branca, ofuscantemente dona de si, escravizando-me na tua
demanda. Como imprudente caçador que sou, de ti não sei o que esperar, quais
rotas de fuga ou meios de camuflagem usarás, estando certo que me iludes
fantasticamente, com um realismo que me trespassa a alma atormentada em te
encontrar. Por mais que me aproxime, que de ti me esconda, não consigo
capturar-te. Peço um brevíssimo vislumbre – uma espreitadela inocente, fazendo
de conta de que nada vi, continuando com a minha vulgar vida, e tu, mestre de
ti e despertadora de tanta ânsia e desejo, seguirás o teu difuso caminho por
dentro da minha alma, difusamente tresmalhada nas malhas e redes de artifício
do glorioso astro que alberga o archê
de tudo o que existe. Desconfio de te tratas do tudo que tento avidamente
alcançar e que, cada vez mais empenhado na tarefa, mais me foges astuta e
rapidamente.
Rezo, peço e imploro. Quero agarrar-te. Sentir-te.
Alcançar o impossível timbrado nas tuas difusas névoas feitas da mesma matéria
das estrelas dos firmamentos, ofuscando o negro bréu que avaramente as envolve,
sugando as fracas réstias de luz dos pequenos satélites e refrescando a ausente
atmosfera com um frio frígido capaz de estilhaçar espelhos, desejando azar ao
Universo, obra suprema de um ente ainda mais supremo que desconfio que esteja
por detrás deste âmago que comigo brinca, esquivando-se imponentemente,
deixando-me para trás sem forma de me satisfazer, embrenhando-me cada vez mais
nesta impetuosa partida.
Não sei sequer o que esperar de ti quando te encontrar
nem o que fazer contigo caso te apanhe. Creio que o Fado se rejubila com tais
falhadas tentativas e constrói-se para que eu nunca te encontre. Um vislumbre
do infinito… O que seria isso? Ver o pináculo da Humanidade, viver diferentes
existências, passar por épocas, observar a fundação do Mundo, mergulhado no
redemoinho transversal a relógios e horas, ridicularizando o inexorável tempo!
Ser eu, ser outros; saber mais que todos, alcançar o impossível, viver na
verdadeira acepção da palavra, seja lá o que isso for; viver com os sonhos
cumpridos e alcançados, orgulhar-se da condição, iluminar a alma com mil
candeias de ouro, abrir as portadas e as janelas da mansão da mente… Que
impressão e êxtase seria! Desvendar o mistério do Mundo! Obliterem-se as
riquezas materiais, as modas e as tendências, desabem os preconceitos, cessem
os pecados e os vícios mundanos e revista-se a Terra de júbilo para revelar a
sua real e pura formosura apagada e abafada pelas incontáveis almas que nela
caminham perdidas e tentadas na mera sobrevivência, sem nenhuma para exaltar e
abanar este constante Mundo.
Volto a frisar, orne-se o Mundo de alegria e paz. A
vitória será alcançada.
Tiago Malhó Lorga Gomes
Sem comentários:
Enviar um comentário