domingo, 24 de fevereiro de 2013

Suíça, 1917


Suíça, 1917


Vive-se um ambiente incerto, difícil de explicar. Constata-se o velho esplendor dos grandes impérios caídos na amargura da perda e no cruel desmembramento conseguido através da guerra. Soltam-se lágrimas de saudade ao recordar cidades e locais amados, agora palco de massacres que dissecam a alma que procura refúgio neste país neutral e que ainda consegue manter muitos luxos, ouvem-se fortes suspiros quando se lêem cartas de familiares perdidos nas entranhas da guerra, correm boatos e rumores sobre batalhas e pilhagens que atemorizam as soberbas famílias que encontram repouso e salvação nesta ordenada nação, recebem-se telegramas que aliviam os âmagos daqueles que os recebem com o coração na mão, tal a ansiedade e o medo.

Comemora-se um quotidiano faustoso, as frias noites distraídas com bailes organizados pela nobreza que se vê aglomerada nas maiores cidades suíças, ou com os pomposos e indiferentes jantares, esquecendo-se que apenas a algumas milhas jazem centenas de corpos em grandes planícies tingidas por chacina, soltando horrendos gemidos que apelam a auxílio e se tentam agarrar a todo o custo à vida que se esvai dos corpos perfurados por balas, rasgados de toda a solidez da carne, com os pulmões trespassados que afogam o homem como um indefeso peixe que se vê fora do meio aquático, faces desfiguradas onde pendem pedaços das feições que outrora definiam a pessoa e, por sinal da impetuosa guerra, tornam o ser irreconhecível, antes uma estranha aberração deformada pela guerra; bravos soldados cegos devido ao gás libertado pela aviação inimiga, famintos e esfaimados que batalham horas a fio em trincheiras lamacentas por onde proliferam ratos e piolhos, transmitindo inúmeras doenças para as quais não há tempo: há que combater, defender a terra onde já ninguém ousa caminhar, para restabelecer a liberdade furtada e ameaçada que a soldo de sangue se fará impor.

Nos cafés e nas galerias, comentam-se grandes derrotas, fugas de monarcas, revoluções e negociações diplomáticas, bem como os últimos mexericos das soberbas famílias francesas que conseguiram escapar às vagas de soldados alemães que ocupam os castelos da província e os palacetes citadinos, saqueando o que de valor se apresente; criticam-se os magnatas do aço e do algodão que tanto lucram com o infeliz acontecimento que já há quase três anos que se prolonga, desfazendo a Europa e o Mundo em desespero e dor, a Grande Guerra, a maior de que há memória, a derradeira que estabelecerá a augusta paz e a regra do vitorioso sobre o derrotado; ouvem-se relatos de memórias de óperas, teatros, convívios, festas e bodas capazes de fazer derramar sentidas lágrimas pelo apogeu perdido, envolto em escuridão e cada vez mais mergulhado nos mares de desespero, oceanos esses onde nenhum luxuoso paquete ousa navegar, exalando fumos de progresso e inigualável avanço, devido às ameaças que se escondem por baixo da cristalina superfície aquosa, sob a forma de temíveis submarinos.

Proliferam nichos de espiões e agentes secretos, codificando informação nos jornais e nos telegramas que partem para o estrangeiro, protagonizando este infame jogo que custa milhares de vidas, apenas para obter vantagem táctica, para organizar defesas e simular ataques. Por entre os floreados dos casinos que são ponto de encontro entre refugiados políticos e ilustres famílias, celebra-se a efemeridade da vida, numa atmosfera que despreza e esquece o mundo que desaba em seu redor, avaramente centrada em si, comemorando a sorte timbrada nas cartas, as fortunas salvas à última da hora e as ganhas com o desenlace das batalhas, a fama e a glória que conseguiram não sucumbir aos desalmados efeitos da Grande Guerra, a segurança que o país neutral confere e a diáspora que neste pequeno refúgio se encontra: dos barões russos assustados pelos ares da revolução que culminará com a extinção dos poderosos czares, passando por célebres cientistas que contribuem para o progresso da raça, não esquecendo as abastadas famílias oriundas de várias pátrias, a nobreza de sangue, os diplomatas e os homens de negócios, as vedetas e os artistas, até aos simples homens e mulheres que, despojados de títulos e bens, conseguiram escapar às impetuosas armas da guerra semeada por atentados e instáveis tensões.

Um mundo à parte do que lá fora se faz sentir. Áreas ajardinadas, ruas pacatas e cobertas pela neve que calmamente desce das alturas, grandes festas, campos cobertos pelo frio orvalho matinal que confere um panorama puro e celestial. Do outro lado da fronteira, observam-se campos sem essência, solos dos quais jamais brotará planta alguma que não a da discórdia, tal a quantidade de explosivos que absorvera; as árvores tombadas e irrigadas pelo sangue dos inocentes, com a copa enegrecida pelo pesar da pólvora e do desespero, as colheitas devastadas e queimadas, sem que possam servir de sustento aos camponeses esfomeados, subjugados aos exércitos que os dominam e massacram; os indivíduos cadavéricos, traumatizados pelas emboscadas nocturnas e ataques surpresa, com a audição apurada para as hélices dos perigosos aviões que irrompem dos céus, precipitando as suas munições para as superfícies terrenas; o cheiro a químicos que enlouquece a mente, depravando-a numa intempérie de pensamentos alucinantes, culminando na total ausência do mundo real.

Romances à moda antiga, galanteria, arrivismo exacerbado e cumprimentos corteses soam pelas cidades suíças, num total deleite de paz e segurança, apenas relembrando a existência da guerra pela ocasional falta de produtos mais especializados, pelas cartas, telegramas, notícias e memorandos secretos, e ainda pelos bombardeamentos que iluminam as noites nas regiões fronteiriças. Suíça, país que alberga uma panóplia de gentes, de todas as condições e estatutos, meios e ideologias, procura uma coisa que as une: uma efémera salvação de um mundo que se consome e desaba em seu redor, cedendo os fundamentos dos sistemas que o governavam, presentemente alienados da razão e da unidade. Sente-se o conforto dos melhores hotéis, o charme das galerias, o poderio dos banqueiros, o encanto dos chalets, a aventura dos tranquilos passeios de automóvel e os calmo quotidiano, plácido e sincero. Sofre-se imensamente pela leitura das cartas amassadas pelos correios internacionais, debatem-se derrotas devastadoras e os seus efeitos directos, pena-se pela perda de familiares próximos, reza-se para almejar a paz e a vitória, assassinam-se diplomatas e espiões fracassados.

A momentânea salvação é atemorizada por detalhes provenientes de todos os cantos do vasto mundo que desfalece numa enchente de sangue e pavor. A incerteza domina os refugiados, levando-os ao puro desespero através da falta de dados concretos sobre aqueles que mais amam e das memórias que constantemente os invadem, recordando o fausto e o apogeu caído em desgraça, como uma lenda de fama e fortuna, nada mais que isso, uma mera lenda, o tempo que não mais voltará atrás, as palavras de amor que ficaram por dizer, os actos por fazer, as acções perdidas no incessante percurso que nunca retrocede, as obras contempladas, as conversas honestas e sinceras, os bons momentos passados na imensidão dos prados campestres ou nas fervilhantes metrópoles que tão bem encerram o avanço que se faz de inovação, os amantes separados que nunca mais se contemplarão, as famílias desmembradas como as vítimas das minas, o património reduzido a cinzas.

Encravada entre os Aliados e as Potências Centrais se encontra a Suíça, alvo de neutralidade, acérrima defensora da paz e praticante de apertada doutrina. Lá se encontra uma incrível variedade de ideais e nacionalidades. Fumam-se cigarros desalmadamente, receando o desabar de uma tormenta iminente que já colheu milhões de vítimas, através das piores atrocidades. O panorama é o mesmo em todos os campos de batalha: desertores executados, planícies repletas de arame farpado que prende pedaços de roupa e carne, enormes fossas causadas por bombardeamentos, munições perdidas, solos queimados e inférteis, trincheiras lamacentas e infames sepulturas para os exércitos gaseados, reino de doentias criaturas que mal força têm para se agarrarem à vida que tantas vezes viram escapar aos seus companheiros, o fugidio vulto que se espelha nos olhos do miserável que parte para a paz eterna, o desaparecer da luz e do brilho que iluminaram a existência pelos troços do mundo e que, por infeliz acaso, acaba numa trincheira rodeada da maior miséria a que o Homem pode assistir, a desgraça e a infelicidade do conflito levado ao extremo, filho que nunca mais verá a mãe, despedaçando o seu coração que já havia sido estilhaçado pela perda do patriarca, igualmente na guerra.

Os campos de batalha vermelhos, rubros do sangue que flui dos corpos massacrados e perfurados pelo vil metal, tão frio e insensível, percorrendo o seu definido trajecto conferido pelo premir de um gatilho. As epidemias, as dores excruciantes, os desesperados pedidos a Cristo sob a forma de horrendos bramidos, almas que de humano já nada têm, no limiar da dor e da existência, desvanecendo-se num sofrimento sem paralelo, profundo e agudo, fazendo derramar lágrimas de sangue enquanto tremem devido à gélida sensação que os domina antes da chegada da morte. As cidades com os ornamentos desmantelados, obras artísticas convertidas a cinzas, esquecimento e saque, edifícios derrubados e ocupados, gente revoltada e faminta, apresentando feridas que rapidamente infectam, clama-se por auxílio e por salvação. As famílias abraçam-se uma derradeira vez, incertas dos seus destinos e de quando se voltarão a encontrar, os ricos e os poderosos escapam rapidamente e refugiam-se em pequenos baluartes, regimentos caem em ciladas e desaparecem do mapa, as nações afundam-se cada vez mais na dívida e na incapacidade, fazendo circular motes patrióticos para elevar o ânimo daqueles que perderam por completo a esperança.

Enquanto se debatem pela sobrevivência, na Suíça celebra-se a vida, velando por aqueles que a perderam nos campos de batalha do mundo. Somme e Verdun correm pelas bocas de todos, comentando a carnificina, o verdadeiro apocalipse, o horror que se retracta perante os olhos, uma decadente paisagem incandescente, duros meses de confrontos pela terra de ninguém, sem forma de acabar, ceifando a vida a muitas centenas de milhares de homens que tão valentemente batalharam, morrendo quer por exaustão quer por bravura. E assim se consome o mundo em ódio, vingança, mortandade e desespero, por derrubar de fortalezas, frentes, bastiões, armadas e exércitos.

Suíça devastada pelas notícias e freneticamente embrenhada na demanda pela paz, continua o faustoso ambiente de encanto e charme dos chalets cobertos pela suave neve que confere uma imagem brilhantemente bela, despertando um enorme desejo de percorrer as vertentes num grande trenó ou de esquiar pela tarde. Augusto refúgio que salva milhares de pessoas, algumas outrora rodeadas dos maiores dos luxos, e agora despojadas dos seus bens, que deixaram tudo o que possuíam para trás, aquando da rápida e necessária fuga.

Os precisos objectos suíços de relojoaria, no pináculo da precisão, adornados com jóias e ouro, pulsam o passar do tempo. A guerra terminará. As feridas irão sarar. A vida voltará ao normal. Auges e apogeus novamente atingidos, o mundo retomará o seu curso, com a esperança renovada e a promessa de paz. Os campos da discórdia florescerão e deles brotará uma geração em que se deposita o desejo de um futuro melhor, mais ambicioso e avançado, provendo um mundo belo, igual e justo. Os outrora inimigos, se abraçarão, derramando sentidas lágrimas só de pensar no mal que desejavam um ao outro, condenando o próprio mundo ao cadafalso, livres e conscientes de si, semeando a estabilidade e a paz.

Enquanto a Grande Guerra não terminar, a Suíça assistirá, qual pacífico moderador que zela pelo mundo, envolta numa esplêndida impregnação de luxo e fausto, desespero e ansiedade. A Guerra terminará em breve.

 
 
 

                               St. Moritz, circa 1917                                                 Batalha de Verdun, 1916
 



Tiago Malhó Lorga Gomes

 

 

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