sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Cristo Negro

Cristo Negro



Obra do século XIV, Museu Nacional Machado de Castro, Coimbra


No meio de todo o plácido ambiente medieval de alegorias em sólidas pedras tumulares, cavaleiros e mártires, eis que surge Cristo. Porém, apesar da expectativa de um Cristo abençoado e protegido, este está a padecer na Cruz. Imagina-se, portanto, o trágico momento em que a sagrada figura se encontra subjugada, expirando um horrendo e atroz sofrimento, elevando a cabeça num gesto simbólico, como que um pedido de perdão a Deus, uma derradeira despedida do límpido céu que desde sempre o guiara e que, por infelicidade das circunstâncias, nunca mais poderá contemplar; ou como um breve vislumbre do iluminado infinito que, por ínfimos momentos, esclareceu todas as dúvidas que atemorizam o mundo, traduzindo-o em delineadas equações de momentos e ocasiões, ultrapassando a vaga noção da coincidência e ilustrando-a como um complexo produto de elaborados planos para manter a mutabilidade do mundo. Ao invés deste panorama vastamente difundido por toda a vasta e cristianíssima sociedade, mostra-se um gigantesco Cristo Negro preso à Cruz.

Cristo negro, ofuscada a sua divina glória pelo passar das épocas, trocando a alvura que o cobria por um obscuro manto tão conotado com a escura maldade que tenta descarrilar o mundo da sua rota. Cristo negro. Uma esplêndida obra em madeira enegrecida, que absorvera o fumo das velas que a faziam brilhar e cedera ao fragoso e daninho efeito do tempo. Um homem escanzelado, fraco, resignado e derrotado, com a cabeça subjugada à terrível tormenta que lhe desfaz o corpo e rebenta as veias, tingindo a branca veste de uma vívida cor vermelha. Passam-lhe brevemente memórias de ceias, discursos, vivências; envoltas em suprema claridade que alumia e alumiará as almas daqueles desesperados pelas fomes e tormentas que os assolam, dirigindo-se pia e beatamente ao intrínseco pilar que lhes suporta a razão de prosseguir em frente.

O líquido jorra das mãos, dos braços, dos pés e do peito perfurado, expandindo-se por toda a figura que impetuosamente perde a esperança que a prendia ao mundo, já envolta pela frígida correia da morte anunciada. Cristo encortiçado, desfeito e em ruína. Cristo conduzido à Cruz pelo Homem que não o quer ouvir, apesar das suas palavras serem sapientíssimas e de ilustrarem máximas justas e prezadas. Cristo negro, pertença da avara morte que todos reclama e que por ele será iludida. O condenado liberta um último suspiro terreno enquanto cerra os olhos despojados do característico brilho conferido pela fugaz vivacidade. Derrotado, resignado e dilacerado, quebrado e em agonia. No limiar. A sua alma ascende. Está nas mãos de Deus.
 
Cristo Negro, Museu Nacional Machado de Castro, Coimbra
 
Tiago Malhó Lorga Gomes

 

1 comentário:

  1. Cristo Negro é, sem sombra de dúvida, uma das mais marcantes peças do MNMC, digna de uma contemplação atenta, silenciosa, reflexiva. Trata-se da incorporação nítida de um crudelíssimo e extenuante sofrimento num corpo pendente e submisso, onde não reside um único sopro de esperança na áurea e divina salvação que figura nas mais icónicas representações cristãs. Concordo com a tua perspectiva neste ponto, esta é uma obra de antítese entre o desespero representado e a doutrina anunciada, suscitando em nós empatia pela dor atroz, extrema, agonizante.

    Numa época de desprezível indiferença pela cultura artística, é louvável que te verses sobre um Museu tão rico e magnífico que, estando tão perto, permanece tão longe do interesse público. Que as tuas (belíssimas) palavras suscitem a curiosidade, o desejo de contemplar presencialmente tão deslumbrante obra, bem como todas as outras que junto dela figuram, numa extasiante e bela composição que, de certo modo, nos completa, inspira e delicia.

    Ler a Arte na arte da tua escrita é maravilhoso. Aguardo ansiosamente por novas publicações, novos textos, outras viagens…

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