Cristo Negro
Obra do século
XIV, Museu Nacional Machado de Castro, Coimbra
No meio de todo o plácido ambiente medieval de alegorias em
sólidas pedras tumulares, cavaleiros e mártires, eis que surge Cristo. Porém,
apesar da expectativa de um Cristo abençoado e protegido, este está a padecer
na Cruz. Imagina-se, portanto, o trágico momento em que a sagrada figura se
encontra subjugada, expirando um horrendo e atroz sofrimento, elevando a cabeça
num gesto simbólico, como que um pedido de perdão a Deus, uma derradeira
despedida do límpido céu que desde sempre o guiara e que, por infelicidade das
circunstâncias, nunca mais poderá contemplar; ou como um breve vislumbre do
iluminado infinito que, por ínfimos momentos, esclareceu todas as dúvidas que
atemorizam o mundo, traduzindo-o em delineadas equações de momentos e ocasiões,
ultrapassando a vaga noção da coincidência e ilustrando-a como um complexo
produto de elaborados planos para manter a mutabilidade do mundo. Ao invés
deste panorama vastamente difundido por toda a vasta e cristianíssima sociedade,
mostra-se um gigantesco Cristo Negro preso à Cruz.
Cristo negro, ofuscada a sua divina glória pelo passar das
épocas, trocando a alvura que o cobria por um obscuro manto tão conotado com a
escura maldade que tenta descarrilar o mundo da sua rota. Cristo negro. Uma
esplêndida obra em madeira enegrecida, que absorvera o fumo das velas que a
faziam brilhar e cedera ao fragoso e daninho efeito do tempo. Um homem
escanzelado, fraco, resignado e derrotado, com a cabeça subjugada à terrível
tormenta que lhe desfaz o corpo e rebenta as veias, tingindo a branca veste de
uma vívida cor vermelha. Passam-lhe brevemente memórias de ceias, discursos,
vivências; envoltas em suprema claridade que alumia e alumiará as almas
daqueles desesperados pelas fomes e tormentas que os assolam, dirigindo-se pia
e beatamente ao intrínseco pilar que lhes suporta a razão de prosseguir em
frente.
O líquido jorra das mãos, dos braços, dos pés e do peito
perfurado, expandindo-se por toda a figura que impetuosamente perde a esperança
que a prendia ao mundo, já envolta pela frígida correia da morte anunciada.
Cristo encortiçado, desfeito e em ruína. Cristo conduzido à Cruz pelo Homem que
não o quer ouvir, apesar das suas palavras serem sapientíssimas e de ilustrarem
máximas justas e prezadas. Cristo negro, pertença da avara morte que todos
reclama e que por ele será iludida. O condenado liberta um último suspiro
terreno enquanto cerra os olhos despojados do característico brilho conferido
pela fugaz vivacidade. Derrotado, resignado e dilacerado, quebrado e em agonia.
No limiar. A sua alma ascende. Está nas mãos de Deus.
Tiago Malhó Lorga Gomes

Cristo Negro é, sem sombra de dúvida, uma das mais marcantes peças do MNMC, digna de uma contemplação atenta, silenciosa, reflexiva. Trata-se da incorporação nítida de um crudelíssimo e extenuante sofrimento num corpo pendente e submisso, onde não reside um único sopro de esperança na áurea e divina salvação que figura nas mais icónicas representações cristãs. Concordo com a tua perspectiva neste ponto, esta é uma obra de antítese entre o desespero representado e a doutrina anunciada, suscitando em nós empatia pela dor atroz, extrema, agonizante.
ResponderEliminarNuma época de desprezível indiferença pela cultura artística, é louvável que te verses sobre um Museu tão rico e magnífico que, estando tão perto, permanece tão longe do interesse público. Que as tuas (belíssimas) palavras suscitem a curiosidade, o desejo de contemplar presencialmente tão deslumbrante obra, bem como todas as outras que junto dela figuram, numa extasiante e bela composição que, de certo modo, nos completa, inspira e delicia.
Ler a Arte na arte da tua escrita é maravilhoso. Aguardo ansiosamente por novas publicações, novos textos, outras viagens…