segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O Jardim das Delícias Terrenas

 

O Jardim das Delícias Terrenas

Hieronymus Bosch (c.1450 – 1516)

 

O Jardim das Delícias Terrenas - A Criação do Mundo, exterior, 1490-1510, Hieronymus Bosch, Museu do Prado, Madrid
 
 
I.                    Suplica Cristo ao Pai para que se faça um Mundo para ele ser dono de uma maravilhosa fantasia. Em sete dias, Deus, reunido de toda a experiência e saber que O iluminam, aglomerou sensações, matérias, cores, tempos, essências, ares e estrelas, e deles fez uma estranha amálgama esférica predominantemente azul, salpicada por vários pontinhos de vales e picos. Animais, plantas, rios em número de quatro como os do Paraíso, árvores, montanhas, ventos, montes, neves, granizos, tormentas, ondas, Sol, Lua, charcos, prados e um jardim. O jardim é só seu. Candura, bondade a perder de vista, harmonia e elegância, o reinado do inerente charme da Natureza, animais de paragens diversificadas em abundantes feitios e pigmentos, vegetação sublime, luz excelsa e sagrada, silêncio e contemplação, calmaria sem sinal de tormenta. Linhas ondulantes, sublime perfeição que enche os olhos ao próprio Cristo, absorto na meditação da própria alma da Natureza, tão pura e inocente, meio que alberga tanta vida formosa pela sua unicidade e elegância, relaxando na sua graça moldada pela mão de Deus, com grande carinho e amor pelo filho. Apresenta-se Eva e Adão, que imediatamente fazem questão de arruinar o Paraíso; os seus descendentes conduzirão o próprio Cristo ao doloroso Calvário, apagando a candeia que fazia a obra do Criador brilhar e resplandecer. Cessa o bem, a sublimação, o apogeu, a castidade e a pureza. Jamais se repetirá tremendo feito, recordado mais tarde como um panorama idílico, numa profunda triunfante imortal apoteose do Mundo, memória divinal, que mergulha no caos e na desordem.
 

 



II.                  Fogem Adão e Eva do Paraíso, expulsos pelo próprio pecado, ambiciosos que queriam o proibido, maldita condição que tenta alcançar a falta da razão e do pudor; de filhos encheram o Mundo, desgovernados e encantados com a formosura inerte, praticando orgias de sensações, dominados por cálidos sentimentos que preenchem as suas insignificantes mas insaciáveis almas, perdidos de Deus, idolatrando a mera e frágil existência, bebendo o suco da inebriante fantasia, embebendo-se neste que tão alegremente os envolve, alienando-os da noção de libertinagem e excesso, celebrando em profundo êxtase a deliciosa vida que lhes fora oferecida, capricho dedicado por suprema graça inspirada, transformação célebre e efusiva, encantadora, festa imensurável, deboche e volúpia, frutos sedutores e carmins, pecado escondido nos passeios, nos lagos e nas fontes; animais submissos e jubilantes, aves e naus cruzando os áureos céus que Deus reservou para si, cada vez mais enfurecido pela insensata ascensão do Homem; luxúria e apego pelo exuberante pulsar que a todos toca, invade e explora, tornando qualquer um seu escravo, comemorando a efemeridade e aproveitando ao máximo o tempo que lhe resta em tal sublime e excelsa obra sem igual nem comparação, régia e magna utopia de cor, brilho, deleite e soberba, amor, paz, paixão, doçura, bondade, união, conjugação, êxtase, maravilha, apoteose, triunfo, vitória, sublimação, auge, apogeu, ápice, pináculo, candelabro, cúpula, torre de Babel.
 

 

III.                Como seria de esperar, sem um único acto de humilde responsabilidade por manter a engrenagem de tal maravilhoso Jardim das Delícias Terrenas, pena-se no Inferno pela eternidade. Urbes ardem, cidades colapsam, vilas queimadas, aldeias são dizimadas por demónios verdes. Fumo, fogo, chamas, labaredas e calor consomem as carnes que tão extaticamente celebraram o cúmulo da vida, dançando em lascívia com os animais e com os suculentos frutos, as audaciosas construções e os sociais convívios. Sofrem os homens, com tremendos medos e sustos, com a lava que lhes escalda as pernas, com os diabos que lhes mordem a pele, com o sangue que calidamente desaparece e se evapora no solo queimado. Negro, ausência de luz, temor, sombra, escuridão. Gritos de terror, pânico, arruinadas tentativas de remissão, preces caladas pelos berros de horror, preocupação, dor aguda e que se entranha pelo corpo. Criaturas que não constam dos catálogos de Deus, habitando uma região por Ele ignorada. Fugas impossíveis, sonhos destruídos, perpétua maldade que destila os corações de veneno e ardor, memórias do exuberante Jardim, morte sem vista. Cenas bizarras, moinhos que trabalham não a vento nem a água, mas a corpos ainda vivos; caldeirões, batalhas aterradoras, dor sem fim, visões apocalípticas, marchas forçadas para o indefinido. Sofrimento, dor e temor estilhaçam a alma até que a eternidade tenha a graça de se desfazer da infinidade.
 
 
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O Jardim das Delícias Terrenas, interior, tríptico, 1490-1510, Hieronymus Bosch, Museu do Prado, Madrid
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Tiago Malhó Lorga Gomes



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