O Jardim das Delícias Terrenas
Hieronymus Bosch (c.1450 – 1516)
O Jardim das Delícias Terrenas - A
Criação do Mundo, exterior, 1490-1510, Hieronymus Bosch, Museu do
Prado, Madrid
I.
Suplica Cristo ao Pai para que se faça um Mundo para
ele ser dono de uma maravilhosa fantasia. Em sete dias, Deus, reunido de toda a
experiência e saber que O iluminam, aglomerou sensações, matérias, cores,
tempos, essências, ares e estrelas, e deles fez uma estranha amálgama esférica
predominantemente azul, salpicada por vários pontinhos de vales e picos.
Animais, plantas, rios em número de quatro como os do Paraíso, árvores,
montanhas, ventos, montes, neves, granizos, tormentas, ondas, Sol, Lua, charcos,
prados e um jardim. O jardim é só seu. Candura, bondade a perder de vista,
harmonia e elegância, o reinado do inerente charme da Natureza, animais de
paragens diversificadas em abundantes feitios e pigmentos, vegetação sublime,
luz excelsa e sagrada, silêncio e contemplação, calmaria sem sinal de tormenta.
Linhas ondulantes, sublime perfeição que enche os olhos ao próprio Cristo,
absorto na meditação da própria alma da Natureza, tão pura e inocente, meio que
alberga tanta vida formosa pela sua unicidade e elegância, relaxando na sua graça
moldada pela mão de Deus, com grande carinho e amor pelo filho. Apresenta-se
Eva e Adão, que imediatamente fazem questão de arruinar o Paraíso; os seus
descendentes conduzirão o próprio Cristo ao doloroso Calvário, apagando a
candeia que fazia a obra do Criador brilhar e resplandecer. Cessa o bem, a
sublimação, o apogeu, a castidade e a pureza. Jamais se repetirá tremendo
feito, recordado mais tarde como um panorama idílico, numa profunda triunfante
imortal apoteose do Mundo, memória divinal, que mergulha no caos e na desordem.
II.
Fogem Adão e Eva do Paraíso, expulsos pelo próprio
pecado, ambiciosos que queriam o proibido, maldita condição que tenta alcançar a
falta da razão e do pudor; de filhos encheram o Mundo, desgovernados e
encantados com a formosura inerte, praticando orgias de sensações, dominados
por cálidos sentimentos que preenchem as suas insignificantes mas insaciáveis
almas, perdidos de Deus, idolatrando a mera e frágil existência, bebendo o suco
da inebriante fantasia, embebendo-se neste que tão alegremente os envolve,
alienando-os da noção de libertinagem e excesso, celebrando em profundo êxtase
a deliciosa vida que lhes fora oferecida, capricho dedicado por suprema graça
inspirada, transformação célebre e efusiva, encantadora, festa imensurável,
deboche e volúpia, frutos sedutores e carmins, pecado escondido nos passeios,
nos lagos e nas fontes; animais submissos e jubilantes, aves e naus cruzando os
áureos céus que Deus reservou para si, cada vez mais enfurecido pela insensata
ascensão do Homem; luxúria e apego pelo exuberante pulsar que a todos toca,
invade e explora, tornando qualquer um seu escravo, comemorando a efemeridade e
aproveitando ao máximo o tempo que lhe resta em tal sublime e excelsa obra sem
igual nem comparação, régia e magna utopia de cor, brilho, deleite e soberba,
amor, paz, paixão, doçura, bondade, união, conjugação, êxtase, maravilha,
apoteose, triunfo, vitória, sublimação, auge, apogeu, ápice, pináculo,
candelabro, cúpula, torre de Babel.
III.
Como seria de esperar, sem um único acto de humilde
responsabilidade por manter a engrenagem de tal maravilhoso Jardim das Delícias
Terrenas, pena-se no Inferno pela eternidade. Urbes ardem, cidades colapsam,
vilas queimadas, aldeias são dizimadas por demónios verdes. Fumo, fogo, chamas,
labaredas e calor consomem as carnes que tão extaticamente celebraram o cúmulo
da vida, dançando em lascívia com os animais e com os suculentos frutos, as audaciosas
construções e os sociais convívios. Sofrem os homens, com tremendos medos e
sustos, com a lava que lhes escalda as pernas, com os diabos que lhes mordem a
pele, com o sangue que calidamente desaparece e se evapora no solo queimado.
Negro, ausência de luz, temor, sombra, escuridão. Gritos de terror, pânico,
arruinadas tentativas de remissão, preces caladas pelos berros de horror,
preocupação, dor aguda e que se entranha pelo corpo. Criaturas que não constam
dos catálogos de Deus, habitando uma região por Ele ignorada. Fugas
impossíveis, sonhos destruídos, perpétua maldade que destila os corações de
veneno e ardor, memórias do exuberante Jardim, morte sem vista. Cenas bizarras,
moinhos que trabalham não a vento nem a água, mas a corpos ainda vivos;
caldeirões, batalhas aterradoras, dor sem fim, visões apocalípticas, marchas
forçadas para o indefinido. Sofrimento, dor e temor estilhaçam a alma até que a
eternidade tenha a graça de se desfazer da infinidade.
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O Jardim das Delícias Terrenas,
interior, tríptico, 1490-1510, Hieronymus Bosch, Museu do Prado, Madrid
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Tiago Malhó Lorga Gomes





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