terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Os Loucos Anos Vinte


Os Loucos Anos Vinte

 

Chitas domesticadas perdidas nos jardins bem arranjados das vastas mansões. Faustosos piqueniques ao ar livre, cadeiras de verga branca, leves sedas que acariciam o corpo e o revestem de extrema elegância e leveza, saudando o quente ar do Verão que refastela as frondosas árvores da herdade, nobre casa de gerações de magnos aristocratas, conhecidos pelas sumptuosas festas que organizavam com ilustres convidados; príncipes, vedetas de cinema, magnatas do petróleo, antigas linhagens do Velho Continente, generais, donos de enormes monopólios, exploradores que pelas densas selvas de África se aventuraram, celebridades dos jornais e das revistas, escritores, artistas; extravagante grupo tão variado mas detentor de tremendas fortunas, invejadas pelo comum dos mortais e envenenadas pelo elevado custo da fama.

Movem-se, fumam, dançam, comem do melhor, bebem do mais caro, divertem-se, dormem, descansam, viajam, saboreiam a vida. Taças de champagne, gastos de milhões nos luxuosos casinos que sublimam e emocionam a encantada alma, iludida pela fugidia sorte, que quanto mais se deseja, mais se embrenha na misteriosa ausência suplantada pelo ácido azar; comboios soberbos, equipados com os melhores materiais, máquinas velozes no pináculo do avanço que se faz de carvão e petróleo, exalando a todo o vigor, quentes fumos que preenchem as mais pobres e industrializadas vilas, enegrecendo-lhes as gentes e os casarios.

Geram empregos, sustentam uma vasta gama de criadagem, suportam cidades inteiras, lucram com o infortúnio e com a necessidade, vivem no maior dos luxos, criam cenários idílicos, desenvolvem o Mundo e escandalizam-no com comportamentos excêntricos. Deliciosos aviões ao pôr-do-sol, corridas de carros, dirigíveis rasgando os céus, apostas, jogos, festas, convívios, chás, passeios, viagens e animais.

Dizem que o dinheiro não compra a felicidade… Excessivo, exagerado, extravagante. Grande vida de conforto, gerida pela liberdade ou pela sua ausência, tarefas singulares executadas com a maior das perícias e dedicações dos criados que as fazem com vista à modesta mesada pela qual se vendem, escravos de quem os quer cativos e submissos. Luxo, prolongando e encantando a própria alma, solene e incrivelmente divagando pelos gloriosos paquetes que cruzam os vastos mares num progresso inigualável, inatingível triunfo para o qual cada vez mais se tende, fabulosa existência aliada da Fortuna e do Fado. Luz branca, graça e reverência, fama e charme.

Roupa personalizada, autênticos palácios feitos à escala do património, alienação da miserável comum condição, labirintos de arte, hotéis que suplicam por descanso das caóticas metrópoles que tão bem encerram a fonte de vida, o desenvolvimento, o crescente e acelerado progresso que rege o Mundo governado pelo ambicioso Homem que quer ser mais e mais quer ser, longe de Deus, perto de si, de todos, do Mundo, da efemeridade, do engano, da morte, do desespero, do caos, da revolta, do ponto sem retorno.

Creia-se o dinheiro ordem. Desigualdade e fome elevam os ânimos e as mesquinhas invejas, prejudicando quem ostenta fortuna sobre forma das resplandecentes e coloridas jóias que reflectem uma inatingível e suprema beleza, que distingue a flácida carne da solidez da pedra cuidadosamente lapidada e emoldurada em ouros. Cheques, notas, moedas, câmbios, acções, fortunas, cofres, bancos, malas e jogo. Poupa-se, gasta-se, investe-se, desbarata-se, perde-se, promove-se, atinge-se.

Venha dinheiro, fortuna, ouro, prata, petróleo, carvão, acções, comboios, minas, prédios, automóveis, luzes e elevadores. Metrópoles perdidamente embriagadas nas gentes, auges e apogeus, festas sem igual que nem da antiga Roma há comparação, união mundial, diversidade, dinheiro, esplendor, brilho, luz, almas, plenitude… E dinheiro, aves do paraíso, arte, ilustrações, filmes, músicas, cinemas, jantares e espectáculos.


Joga-se tudo como num inebriante casino, revestido da maior formosura que o Mundo alguma vez presenciara, superando o jardim das delícias; onde se leva à mesa a própria e prezada existência. Deixe-se o dado e a carta decidir. Roleta, mesa forrada de veludo verde. Sorte. Azar. Mau tempo. Fica para a próxima. Opulência. Dono do Mundo que o condena. Inquisidor. Fortuna. Fábula. Sonho.

 

Design for the Grand Salon at l’Exposition des Arts Décoratifs et Industriels Modernes, Jacques-Emile Ruhlmann, 1925
 

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