Os Loucos Anos Vinte
Chitas
domesticadas perdidas nos jardins bem arranjados das vastas mansões. Faustosos
piqueniques ao ar livre, cadeiras de verga branca, leves sedas que acariciam o
corpo e o revestem de extrema elegância e leveza, saudando o quente ar do Verão
que refastela as frondosas árvores da herdade, nobre casa de gerações de magnos
aristocratas, conhecidos pelas sumptuosas festas que organizavam com ilustres convidados;
príncipes, vedetas de cinema, magnatas do petróleo, antigas linhagens do Velho
Continente, generais, donos de enormes monopólios, exploradores que pelas
densas selvas de África se aventuraram, celebridades dos jornais e das
revistas, escritores, artistas; extravagante grupo tão variado mas detentor de
tremendas fortunas, invejadas pelo comum dos mortais e envenenadas pelo elevado
custo da fama.
Movem-se,
fumam, dançam, comem do melhor, bebem do mais caro, divertem-se, dormem,
descansam, viajam, saboreiam a vida. Taças de champagne, gastos de milhões nos luxuosos casinos que sublimam e
emocionam a encantada alma, iludida pela fugidia sorte, que quanto mais se
deseja, mais se embrenha na misteriosa ausência suplantada pelo ácido azar;
comboios soberbos, equipados com os melhores materiais, máquinas velozes no
pináculo do avanço que se faz de carvão e petróleo, exalando a todo o vigor,
quentes fumos que preenchem as mais pobres e industrializadas vilas,
enegrecendo-lhes as gentes e os casarios.
Geram
empregos, sustentam uma vasta gama de criadagem, suportam cidades inteiras,
lucram com o infortúnio e com a necessidade, vivem no maior dos luxos, criam cenários
idílicos, desenvolvem o Mundo e escandalizam-no com comportamentos excêntricos.
Deliciosos aviões ao pôr-do-sol, corridas de carros, dirigíveis rasgando os céus, apostas, jogos, festas,
convívios, chás, passeios, viagens e animais.
Dizem
que o dinheiro não compra a felicidade… Excessivo, exagerado, extravagante.
Grande vida de conforto, gerida pela liberdade ou pela sua ausência, tarefas
singulares executadas com a maior das perícias e dedicações dos criados que as
fazem com vista à modesta mesada pela qual se vendem, escravos de quem os quer
cativos e submissos. Luxo, prolongando e encantando a própria alma, solene e
incrivelmente divagando pelos gloriosos paquetes que cruzam os vastos mares num
progresso inigualável, inatingível triunfo para o qual cada vez mais se tende, fabulosa
existência aliada da Fortuna e do Fado. Luz branca, graça e reverência, fama e charme.
Roupa
personalizada, autênticos palácios feitos à escala do património, alienação da
miserável comum condição, labirintos de arte, hotéis que suplicam por descanso
das caóticas metrópoles que tão bem encerram a fonte de vida, o
desenvolvimento, o crescente e acelerado progresso que rege o Mundo governado
pelo ambicioso Homem que quer ser mais e mais quer ser, longe de Deus, perto de
si, de todos, do Mundo, da efemeridade, do engano, da morte, do desespero, do
caos, da revolta, do ponto sem retorno.
Creia-se
o dinheiro ordem. Desigualdade e fome elevam os ânimos e as mesquinhas invejas,
prejudicando quem ostenta fortuna sobre forma das resplandecentes e coloridas
jóias que reflectem uma inatingível e suprema beleza, que distingue a flácida
carne da solidez da pedra cuidadosamente lapidada e emoldurada em ouros.
Cheques, notas, moedas, câmbios, acções, fortunas, cofres, bancos, malas e jogo.
Poupa-se, gasta-se, investe-se, desbarata-se, perde-se, promove-se, atinge-se.
Venha
dinheiro, fortuna, ouro, prata, petróleo, carvão, acções, comboios, minas,
prédios, automóveis, luzes e elevadores. Metrópoles perdidamente embriagadas
nas gentes, auges e apogeus, festas sem igual que nem da antiga Roma há comparação,
união mundial, diversidade, dinheiro, esplendor, brilho, luz, almas, plenitude…
E dinheiro, aves do paraíso, arte, ilustrações, filmes, músicas, cinemas,
jantares e espectáculos.
Joga-se
tudo como num inebriante casino, revestido da maior formosura que o Mundo
alguma vez presenciara, superando o jardim das delícias; onde se leva à mesa a
própria e prezada existência. Deixe-se o dado e a carta decidir. Roleta, mesa
forrada de veludo verde. Sorte. Azar. Mau tempo. Fica para a próxima.
Opulência. Dono do Mundo que o condena. Inquisidor. Fortuna. Fábula. Sonho.
Design for the Grand Salon at l’Exposition des Arts Décoratifs et Industriels Modernes,
Jacques-Emile Ruhlmann, 1925

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