Nilo
O mais longo
beijo da História de acordo com a poesia árabe
O Sol nasce
sobre Khartoum, capital do extenso Sudão. As primeiras luzes do dia iluminam o
ilustre ponto de encontro, local esquecido pelo pesar dos milénios,
praticamente imutável desde os primórdios do selvagem continente negro que
aloja as mais exuberantes e variadas formas de vida. África da imensurável
pureza, berço da Humanidade que ao Mundo se fez, desprezando e descurando as
necessidades de tal sublimes terras repletas de abundância e riqueza. Regiões
exploradas e cobiçadas ao longo dos tempos pela escravatura e por um intenso
derramar de sangue, transpondo diferenças de tonalidade das peles que revestem
os homens, aglomerando o sangue do branco juntamente com o do negro,
placidamente espalhados pelos campos de batalha da discórdia e da ambição.
Naquele sítio,
desenrola-se a mais cálida e eterna das paixões. Desde todo o passado e,
provavelmente, até ao fim dos tempos, se observa uma imagem de puro deleite
amoroso, uma perfeita harmonia de cores consagrada na íntima união de duas
almas perdidamente destinadas uma à outra, pertença das ardentes preces que em
seus corações crepitam, impulsionando os excelsos amantes para um infinito entrelaçar
de mãos contemplando belíssimas paisagens, todas elas imutáveis mas de tremenda
formosura inerte, a Natureza por si só, virgem e pura aura vitoriosa.
Beijam-se como
se nunca se tivessem visto, ardente e efusivamente, mas como se desde sempre um
do outro fossem pertença, fundamentada pela irracional força do Amor que os
impele à agradável confluência, partilhando histórias românticas e desfazendo a
terrível saudade que os dominava antes de tal inesperado e gracioso encontro.
Um no outro se enrolam, fundindo-se num só ser apaixonadamente embevecido pela
visão de algo uno, completo e pleno; pertença da sua amorosa vontade,
alimentada por um cálido âmago que não apela à razão mas antes à sua ausência,
escravizando o frágil coração numa árdua demanda, procurando atingir o
inatingível que ilusoriamente é alcançado.
Abraçam-se,
partilham carícias sobre inúmeras formas; de dois desesperados amantes
extasiados com tal divinal ligação, se origina um só amoroso leito governado
pela impetuosa chama que vorazmente arde no abençoado e sonhador espírito,
extravasando para o exterior através de uma duríssima sensação de perfuração do
peito, impelindo-o a cometer as mais radicais loucuras em nome dessa impiedosa
força inexplicável que combate inércias e preconceitos, através da insensatez e
da insanidade.
Amor se designa
a aura que domina os dois amantes que, pela primeira vez, contactam e
imediatamente se enamoram, afeiçoando-se um ao outro, como se desde sempre se
houvessem conhecido, sabendo que o seu destino seria o felicíssimo e
arrebatador laço que os prende voluntariamente, prezado por tudo o que se
denomina de sítio e vida. Amor, puro amor, inebriado em si mesmo, ausente de
toda a voz da razão e da racionalidade, amor que desespera na sua ausência,
causador das mais terríveis e aterradoras dores, mas áurea vontade capaz de
provocar a suprema perfeição desenhada numa profunda felicidade sem paralelo.
Felizmente, estes amantes podem saborear a
doce liberdade, ao se encontrarem à vista de todos, maravilhando-se com os sóis
que aquecem as margens e com as luas que transbordam uma nostálgica e, ao mesmo
tempo, fatídica imagem de lágrimas e mágoas resultantes de um amor prometido
mas inconquistável, bravias almas que juram e sonham com uma vida perpétua,
enaltecida pela conjugação e partilha de um fabuloso universo de vivências
temperadas por momentos inesquecíveis.
O mítico Azul,
proveniente da árida e seca Etiópia, envolto em mistério, lendário curso de
água que se diz ter sido um dos quatro grandiosos do Jardim do Éden; e o
indomável Branco, oriundo das cerradas profundezas do Continente Negro que
enclausura tanto enigma, como que uma deslumbrante alva réstia de luz que invade
as densas e escuras selvas; formam o milenar rio Nilo, formosíssimo e imponente
fonte de vida que suporta colheitas, animais e gentes.
Fruto de um
amor planeado pelo Fado e harmoniosamente desempenhado pelos dois inocentes
amantes, surge o Nilo. Grandiosamente penetra pelos infindáveis desertos
egípcios, fortalecendo as margens com abençoada vegetação e fertilidade, sendo
venerado por todos aqueles que dele se servem, e visto com tremendo respeito e
submissão. No total, a inocente paixão conta com seis belíssimas
cataratas, nada mais que um acelerar de passo da romântica composição por entre
imponentes rochas que aos poucos vão cedendo à energia que move tal sublime alma.
Ao contrário de
muitos outros fluviais, o Nilo tem a audácia de navegar para norte, impelido
por uma difusa névoa de prazer e sonho que lhe alicia a visão: a de um amor
eterno, imparável e venerado por toda a Natureza. Muito se esquece o Nilo,
embalado na suave corrente das suas águas, que para a foz se dirige;
aproveitando ao máximo cada inocente momento que lhe é oferecido – dádiva plena
que o torna imensuravelmente feliz, despreocupado quanto à poluição que o
consome ou com as barragens que o acumulam, prolongando ainda mais a sua
estadia na referida núpcia.
O mítico rio continua a formar um exuberante oásis de
vegetação num ínfimo contorno que se destaca da imensidão do árido e impetuoso
deserto que tudo envolve. A partir de certo ponto, o Nilo sabe que está
condenado a ver a sua paixão ramificar-se, à medida que se aproxima do Mar
Mediterrâneo, espraiando-se ao longo de uma vasta área, originando braços mais
pequenos, consequência de uma paixão imensurável. O magnífico delta é formado,
qual geração que brotou do seio dos dois amantes cansados e gastos pela longa
viagem, reforçados no laço que os move; desembocando no grande e antigo mar,
dispersando as gotículas que no Continente Negro se aglomeraram na mais célebre
e ilustre das paixões que o Mundo alguma vez contemplara.
E com este simples ímpeto, criado por uma razão
ausente, irracional e desmedida; se alcança a foz, percorrendo-se milhares de
quilómetros numa incessante e insaciável demanda que aprisiona o coração
cativado e capaz de realizar tal divinal obra: um rio milenar, mítico e lendário,
que encanta e gera vida, apaixonado âmago que em Khartoum se beija,
extravagantemente embebido nas artes do amor até ao final dos Tempos.
Confluência do Nilo Branco com o
Nilo Azul, Khartoum, Sudão.
Tiago Malhó Lorga Gomes

