quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Nilo

 

Nilo

 

O mais longo beijo da História de acordo com a poesia árabe


O Sol nasce sobre Khartoum, capital do extenso Sudão. As primeiras luzes do dia iluminam o ilustre ponto de encontro, local esquecido pelo pesar dos milénios, praticamente imutável desde os primórdios do selvagem continente negro que aloja as mais exuberantes e variadas formas de vida. África da imensurável pureza, berço da Humanidade que ao Mundo se fez, desprezando e descurando as necessidades de tal sublimes terras repletas de abundância e riqueza. Regiões exploradas e cobiçadas ao longo dos tempos pela escravatura e por um intenso derramar de sangue, transpondo diferenças de tonalidade das peles que revestem os homens, aglomerando o sangue do branco juntamente com o do negro, placidamente espalhados pelos campos de batalha da discórdia e da ambição.

Naquele sítio, desenrola-se a mais cálida e eterna das paixões. Desde todo o passado e, provavelmente, até ao fim dos tempos, se observa uma imagem de puro deleite amoroso, uma perfeita harmonia de cores consagrada na íntima união de duas almas perdidamente destinadas uma à outra, pertença das ardentes preces que em seus corações crepitam, impulsionando os excelsos amantes para um infinito entrelaçar de mãos contemplando belíssimas paisagens, todas elas imutáveis mas de tremenda formosura inerte, a Natureza por si só, virgem e pura aura vitoriosa.

Beijam-se como se nunca se tivessem visto, ardente e efusivamente, mas como se desde sempre um do outro fossem pertença, fundamentada pela irracional força do Amor que os impele à agradável confluência, partilhando histórias românticas e desfazendo a terrível saudade que os dominava antes de tal inesperado e gracioso encontro. Um no outro se enrolam, fundindo-se num só ser apaixonadamente embevecido pela visão de algo uno, completo e pleno; pertença da sua amorosa vontade, alimentada por um cálido âmago que não apela à razão mas antes à sua ausência, escravizando o frágil coração numa árdua demanda, procurando atingir o inatingível que ilusoriamente é alcançado.

Abraçam-se, partilham carícias sobre inúmeras formas; de dois desesperados amantes extasiados com tal divinal ligação, se origina um só amoroso leito governado pela impetuosa chama que vorazmente arde no abençoado e sonhador espírito, extravasando para o exterior através de uma duríssima sensação de perfuração do peito, impelindo-o a cometer as mais radicais loucuras em nome dessa impiedosa força inexplicável que combate inércias e preconceitos, através da insensatez e da insanidade.

Amor se designa a aura que domina os dois amantes que, pela primeira vez, contactam e imediatamente se enamoram, afeiçoando-se um ao outro, como se desde sempre se houvessem conhecido, sabendo que o seu destino seria o felicíssimo e arrebatador laço que os prende voluntariamente, prezado por tudo o que se denomina de sítio e vida. Amor, puro amor, inebriado em si mesmo, ausente de toda a voz da razão e da racionalidade, amor que desespera na sua ausência, causador das mais terríveis e aterradoras dores, mas áurea vontade capaz de provocar a suprema perfeição desenhada numa profunda felicidade sem paralelo.

 Felizmente, estes amantes podem saborear a doce liberdade, ao se encontrarem à vista de todos, maravilhando-se com os sóis que aquecem as margens e com as luas que transbordam uma nostálgica e, ao mesmo tempo, fatídica imagem de lágrimas e mágoas resultantes de um amor prometido mas inconquistável, bravias almas que juram e sonham com uma vida perpétua, enaltecida pela conjugação e partilha de um fabuloso universo de vivências temperadas por momentos inesquecíveis.

O mítico Azul, proveniente da árida e seca Etiópia, envolto em mistério, lendário curso de água que se diz ter sido um dos quatro grandiosos do Jardim do Éden; e o indomável Branco, oriundo das cerradas profundezas do Continente Negro que enclausura tanto enigma, como que uma deslumbrante alva réstia de luz que invade as densas e escuras selvas; formam o milenar rio Nilo, formosíssimo e imponente fonte de vida que suporta colheitas, animais e gentes.

Fruto de um amor planeado pelo Fado e harmoniosamente desempenhado pelos dois inocentes amantes, surge o Nilo. Grandiosamente penetra pelos infindáveis desertos egípcios, fortalecendo as margens com abençoada vegetação e fertilidade, sendo venerado por todos aqueles que dele se servem, e visto com tremendo respeito e submissão. No total, a inocente paixão conta com seis belíssimas cataratas, nada mais que um acelerar de passo da romântica composição por entre imponentes rochas que aos poucos vão cedendo à energia que move tal sublime alma.

 Ao contrário de muitos outros fluviais, o Nilo tem a audácia de navegar para norte, impelido por uma difusa névoa de prazer e sonho que lhe alicia a visão: a de um amor eterno, imparável e venerado por toda a Natureza. Muito se esquece o Nilo, embalado na suave corrente das suas águas, que para a foz se dirige; aproveitando ao máximo cada inocente momento que lhe é oferecido – dádiva plena que o torna imensuravelmente feliz, despreocupado quanto à poluição que o consome ou com as barragens que o acumulam, prolongando ainda mais a sua estadia na referida núpcia.

O mítico rio continua a formar um exuberante oásis de vegetação num ínfimo contorno que se destaca da imensidão do árido e impetuoso deserto que tudo envolve. A partir de certo ponto, o Nilo sabe que está condenado a ver a sua paixão ramificar-se, à medida que se aproxima do Mar Mediterrâneo, espraiando-se ao longo de uma vasta área, originando braços mais pequenos, consequência de uma paixão imensurável. O magnífico delta é formado, qual geração que brotou do seio dos dois amantes cansados e gastos pela longa viagem, reforçados no laço que os move; desembocando no grande e antigo mar, dispersando as gotículas que no Continente Negro se aglomeraram na mais célebre e ilustre das paixões que o Mundo alguma vez contemplara.

E com este simples ímpeto, criado por uma razão ausente, irracional e desmedida; se alcança a foz, percorrendo-se milhares de quilómetros numa incessante e insaciável demanda que aprisiona o coração cativado e capaz de realizar tal divinal obra: um rio milenar, mítico e lendário, que encanta e gera vida, apaixonado âmago que em Khartoum se beija, extravagantemente embebido nas artes do amor até ao final dos Tempos.
 
 
Confluência do Nilo Branco com o Nilo Azul, Khartoum, Sudão.
 
Tiago Malhó Lorga Gomes


 
 

Arte, um amuse-bouche


Arte, um amuse-bouche


A arte é a consagração do ser humano. É a evidente prova de que a raça consegue superar a efemeridade e a insignificância ao criar, com as suas próprias mãos, as mais esplêndidas obras, cuja contemplação permite um autêntico deleite e cria uma diversidade de sensações que culminam com a ideia de perfeição suprema; afirmando-se como entidade que necessita de um reconhecimento e de se sublimar. Nos registos históricos perde-se a conta aos milhares que se sacrificaram em nome da arte, quer dedicando-lhe a vida e o tempo, quer salvando-a das manápulas de bárbaros sanguinários. Porém, e tendo em consideração que tudo o que a raça faz tem um fim, a arte é frágil e consequentemente vai sucumbindo aos sopros do inexorável Tempo.

Cabe ao Homem a sua acérrima defesa e recuperação porque se trata do seu património e, sem este, o ser nada é. Vale mais perder-se uma vida humana, coisa vulgar e comum, do que uma obra-prima, instrumento que celebra e sublima a essência do ser, dignificando-o, e sendo fundamental para a sua identidade e unicidade. A memória de tempos idos reside no que sobrevive, muitas vezes danificado pelo passar dos milénios e pela ignóbil acção bárbara. Nem o queimar de pergaminhos e livros, o saque de castelos e palácios, o derrubar de estátuas, o desmantelar de templos e o vandalizar de cidades poderá apagar por completo a memória, ainda que esta seja uma névoa pouco concreta residente nos mais recônditos cantos do cérebro, estando dependente da sua transmissão oral ou escrita, mas sempre condicionada pela breve e frágil humanidade da vida.

E quando uma obra se desintegra ou perde, metamorfoseando-se em cinzas, o Mundo chora. Choram os céus, os mares, os rios, as terras e as árvores. De humana raça só vertem lágrimas os mais apegados e familiares com a dita obra e que, por ironia do Fado, não a conseguirão repor nem reproduzir. Ingrata vida esta que apaga todo e qualquer feito, empurrando o Homem cada vez mais fundo para as negras águas do esquecimento, líquido onde se banham umas quantas desafortunadas civilizações das quais só o nome e pouco mais se conhece; impérios que tiveram épocas áureas, atingiram o apogeu e definharam, acabando por sucumbir à enchente da maré das sombrias águas do esquecimento.

O Homem não se resume à sua insignificância e trava constantemente a luta para não cair nas malhas do desconhecimento e imergir nas brumas do esquecimento. Para tal, o progresso é indispensável. Já a voz popular alerta que quanto mais alto se está, maior a queda. Com base neste dito, muitos se revoltam e atrasam o avanço, condenando inocentes, tornando-os mártires da Ciência, erradicando vestígios de civilizações outrora grandiosas, arruinando palácios e estátuas, queimando bibliotecas, anulando séculos de conhecimento adquirido, sem contar as obscenidades impostas à raça humana.

Com efeito, os nomes mais célebres que a Pedra dos Tempos apresenta são de homens e mulheres que souberam aliar as várias dualidades do ser, entre elas, a mente e o corpo, a espada e a pena, o poder e a humildade, a celebridade e a simplicidade, e a força e a misericórdia. O equilíbrio e a simetria são as características mais cobiçadas e procuradas, dado revelarem uma ilusória perfeição e criarem a ideia de beleza absoluta. Como as regras são feitas para definirem a norma, há sempre excepções. Artistas geniais, cientistas brilhantes, escritores fantásticos e governadores esplêndidos são alguns exemplos de Homens que excedem a vaga humanidade e são capazes de executar certas tarefas com a maior das perícias. Admiradores incrédulos afirmam tratar-se de um dom concedido por divina graça enquanto críticos invejosos o caracterizam como um poder ligado à obra de Satanás e que deve ser eliminado a todo o custo.

Pondo de parte as diversas opiniões, uma coisa é certa. Sem estes seres extraordinários que ultrapassam as barreiras impostas quer por consenso humano quer por limites naturais, a humanidade resumir-se-ia à mediocridade, característica necessária à mão de obra que ergue templos e palácios ou que edifica pontes e estradas, orientada pelas complexas equações impostas por aqueles que conseguiram decifrar a essência das leis naturais. A capacidade de transpor obstáculos e adaptar modelos teóricos à prática da vida é crucial para a sobrevivência do ser e para o seu progresso, que irá tornar o Homem supremo dominador das terras, dos mares, dos ares e das estrelas, como se um só astro não bastasse, será imperativo e inevitável a contaminação de cintilantes corpos celestes com a avara ocupação humana.

Mas maior deleite conferirão as obras de arte à frágil e efémera criatura que é o Homem. A simples visão de uma pintura retractando uma paisagem campestre irá levar a alma a um aglomerado de sensações e sentidos: o doce cheiro dos malmequeres, o sabor das uvas que pendem das possantes videiras, o tacto da cascas do salgueiro que protege um pequeno charco cheio de nenúfares, tudo isto sobre o vago calor de um Sol de Outono, interrompido por breves brisas e repleto do suave murmurar do voo das abelhas. Já contemplar um quadro ilustrativo de um monarca, confere um estado de respeito e magnificência e cria uma imagem realista de um soberano enfermiço, louro, de pele clara, com frágeis olhos azuis, porte enfezado e enfraquecido, fruto de consanguinidade. A representação do Criador e de figuras bíblicas e semelhantes alegorias abre o caminho directo que mostra ao âmago a verdadeira perfeição, um sincero êxtase, o extravasar de belas emoções intensas, de tão fortes que são que fazem o corpo colapsar, sublimando a alma para os mais áureos cenários. Pela contemplação o cerne do ser é transportado para o mais esplêndido espaço imaginável, esmagador e tão intenso, que causa a sensação de fuga da alma pelo peito, lutando para se libertar da absurda e mísera existência carnal para alcançar o que realmente ambiciona. Perante tal situação, o corpo desliga-se momentaneamente, podendo verter lágrimas ou colapsar, estendendo-se placidamente no chão.

A Arte é plural, mas toda ela, da mais prezada à menos divulgada, ostenta um signo invisível a olho nu. A alma do Homem reside na Arte.


 
Vitória Alada de Samotrácia
 
Vitória Alada. Arrebatadora, encimando um pedestal para absorver a visão do infinito que espelha o horizonte, para o qual a célere embarcação se dirige, agilmente rasgando as águas numa graciosidade exemplar. O ar refinado, puro e com uma breve essência a sagrado que delicia a composição. Do frio mármore se ergue a Vitória, celebrando as asas que por divina graça lhe foram presenteadas, dádiva de um ente supremo em torno do qual se governa a existência.
 
Vitória abençoada e resultado de um sopro, um surto de inspiração, como se tal belíssimo exemplar se encontrasse por aí, perdido nos confins do mundo ou resguardado numa fortaleza de todo o mal que o quer desfeito. As leves vestes saboreando a fina brisa, por sinal marítima, trazendo uma esperançosa mensagem de um fado promissor e abençoado. Magnífica, resplandecendo pela unicidade e pela sapiência com que, delicadamente, abençoa quem a idolatra, expandido vorazmente as grandiosas asas, qual soberba ave canora que se prepara para partir das superfícies terrenas em direcção ao vasto céu que todos cobre e limita, expirando melódicos suspiros que enchem a vaga atmosfera de cor e êxtase, libertando a inerte alma que se esconde pela imensidão do vazio.
 
Vitória radiante, inflamando a visão com candura e paz, perpetrando um derradeiro acto de inebriante paixão pela fugidia vida que escapa pelos dedos de quem a contempla, absorto de toda a árdua realidade, mas deliciado pela sublime peça, obra de um realismo fascinante, passando a sentir a mesma brisa que lhe faz esvoaçar as suaves sedas e que lhe acaricia as grandiosas asas.
 
Vitória resguardada, louvada e glorificada em templos. Da contemplação da elegante figura, se capta uma sensação de liberdade sem igual, uma lufada de ar que inicia uma cascata de profundos sentimentos, resultando na libertação de amargos sucos lacrimais, por miragem da maravilhosa escultura, tão real e impressionante, fora de si, do Homem e do Mundo; magna figura que imponentemente encara o Tempo, desafiando o seu incompassivo efeito.
 
Vitória desfeita, massacrada e incompleta. Não basta a plenitude para a perfeição. Vitória Alada, celebrando a vida, prova de esperança e profunda paixão, memória de tempos idos, testemunha de séculos, com o coração de mármore e, no entanto, capaz de desencadear um panorama inexequível a olhos comuns, mas sensacionalmente soberbo para originar a mais bela e perfeita visão de que o mundo consegue.
 
Vitória Alada, obra representando o esbelto vulto da glória que fenomenalmente se esquiva de todos aqueles que ambicionam, prova do infindável amor finado ao peso do incessante turbilhão que tudo muta, e que ilumina a alma de quem a fita, guardando em parte a sua inesquecível imagem até ao final dos tempos.
Vitória Alada de Samotrácia.
 
 
 
Tiago Malhó Lorga Gomes


 
 

Pequena nota de introdução
 

Serve o presente blog para objecto de estimo e de contemplação. Por aqui desfilarão algumas das mais icónicas e belas obras de que o Homem é capaz, aglutinando diferentes ideias, estilos e charmes. Passam-se as épocas e as vidas, tornando a outrora sólida e forte carne numa difusa névoa de pó e cinza, memórias apagadas pelo impetuoso passar do incessante Tempo que tudo define e molda a seu proveito, tecendo a débil teia a que se chama vida.
Através de uma visão que consegue aliar a perseverança da memória de feitos passados com a constante necessidade de inovação da insaciável juventude que aspira a glórias e episódios maiores que os já estabelecidos, se concretiza um sítio de reflexão serena, como um antigo templo reunido do ínfimo conhecimento que a fugaz existência permite, ao desvendar mistérios do Mundo que constantemente altera os seus inúmeros constituintes.
Ascensões, bodas e calvários, sonantes nomes de artistas ou doces melodias rematadas pelo característico silêncio que se faz sentir após a contemplação de algo imensuravelmente belo; musas que do reino dos céus se evadiram, infernos terrenos governados por alegóricos demónios, intrigas genealógicas da Antiguidade Clássica, factos incrivelmente ocultos pela ignorância do pesar dos séculos, ideais abandonados e negados, pagãos perseguidos e mortos, luxuosos ambientes há muito esquecidos, qual Babilónia que não passa de um rumor, nada mais que um mito de fortuna e desgraça; batalhas perdidas e pedaços humanos cobrindo as planícies que almejam paz e harmonia, graças trocadas pela vã ganância que nunca se satisfaz.
Deseja-se que seja um espaço de prestígio e colecção artística, que aglomere uma riquíssima gama de sensações conferidas por um acervo de qualidade impressionante. Que seja o início de uma área de excelência para a reunião de cultura e arte, uma perfeita conjugação das matérias que engrandecem o ser e o definem, como a contínua busca em que se empenha o Homem, tentando superar a mortal e efémera condição que o prende à dimensão terrena, misto do qual se tenta irracionalmente libertar para alcançar as névoas difusas do impossível feito da mesma substância que os celestiais firmamentos que iluminam as noites.
À vida, efémero sopro, que merece virtude e dedicação, sempre sobre a Arte que a define; memória de um vulto nobre, com um olhar esfíngico e intemporal, fitando fatalmente a misteriosa face do futuro que se aproxima, vivendo soberbamente o presente, e fazendo os impossíveis para não esquecer o nostálgico passado.


 
 

Tiago Malhó Lorga Gomes