Arte, um
amuse-bouche
A arte é a consagração do ser humano. É a evidente
prova de que a raça consegue superar a efemeridade e a insignificância ao
criar, com as suas próprias mãos, as mais esplêndidas obras, cuja contemplação
permite um autêntico deleite e cria uma diversidade de sensações que culminam
com a ideia de perfeição suprema; afirmando-se como entidade que necessita de
um reconhecimento e de se sublimar. Nos registos históricos perde-se a conta
aos milhares que se sacrificaram em nome da arte, quer dedicando-lhe a vida e o
tempo, quer salvando-a das manápulas de bárbaros sanguinários. Porém, e tendo
em consideração que tudo o que a raça faz tem um fim, a arte é frágil e
consequentemente vai sucumbindo aos sopros do inexorável Tempo.
Cabe ao Homem a sua acérrima defesa e recuperação
porque se trata do seu património e, sem este, o ser nada é. Vale mais
perder-se uma vida humana, coisa vulgar e comum, do que uma obra-prima,
instrumento que celebra e sublima a essência do ser, dignificando-o, e sendo
fundamental para a sua identidade e unicidade. A memória de tempos idos reside
no que sobrevive, muitas vezes danificado pelo passar dos milénios e pela
ignóbil acção bárbara. Nem o queimar de pergaminhos e livros, o saque de
castelos e palácios, o derrubar de estátuas, o desmantelar de templos e o
vandalizar de cidades poderá apagar por completo a memória, ainda que esta seja
uma névoa pouco concreta residente nos mais recônditos cantos do cérebro,
estando dependente da sua transmissão oral ou escrita, mas sempre condicionada
pela breve e frágil humanidade da vida.
E quando uma obra se desintegra ou perde,
metamorfoseando-se em cinzas, o Mundo chora. Choram os céus, os mares, os rios,
as terras e as árvores. De humana raça só vertem lágrimas os mais apegados e
familiares com a dita obra e que, por ironia do Fado, não a conseguirão repor
nem reproduzir. Ingrata vida esta que apaga todo e qualquer feito, empurrando o
Homem cada vez mais fundo para as negras águas do esquecimento, líquido onde se
banham umas quantas desafortunadas civilizações das quais só o nome e pouco
mais se conhece; impérios que tiveram épocas áureas, atingiram o apogeu e
definharam, acabando por sucumbir à enchente da maré das sombrias águas do
esquecimento.
O Homem não se resume à sua insignificância e trava
constantemente a luta para não cair nas malhas do desconhecimento e imergir nas
brumas do esquecimento. Para tal, o progresso é indispensável. Já a voz popular
alerta que quanto mais alto se está, maior a queda. Com base neste dito, muitos
se revoltam e atrasam o avanço, condenando inocentes, tornando-os mártires da
Ciência, erradicando vestígios de civilizações outrora grandiosas, arruinando
palácios e estátuas, queimando bibliotecas, anulando séculos de conhecimento
adquirido, sem contar as obscenidades impostas à raça humana.
Com efeito, os nomes mais célebres que a Pedra dos
Tempos apresenta são de homens e mulheres que souberam aliar as várias
dualidades do ser, entre elas, a mente e o corpo, a espada e a pena, o poder e
a humildade, a celebridade e a simplicidade, e a força e a misericórdia. O
equilíbrio e a simetria são as características mais cobiçadas e procuradas,
dado revelarem uma ilusória perfeição e criarem a ideia de beleza absoluta.
Como as regras são feitas para definirem a norma, há sempre excepções. Artistas
geniais, cientistas brilhantes, escritores fantásticos e governadores
esplêndidos são alguns exemplos de Homens que excedem a vaga humanidade e são
capazes de executar certas tarefas com a maior das perícias. Admiradores
incrédulos afirmam tratar-se de um dom concedido por divina graça enquanto
críticos invejosos o caracterizam como um poder ligado à obra de Satanás e que
deve ser eliminado a todo o custo.
Pondo de parte as diversas opiniões, uma coisa é
certa. Sem estes seres extraordinários que ultrapassam as barreiras impostas
quer por consenso humano quer por limites naturais, a humanidade resumir-se-ia
à mediocridade, característica necessária à mão de obra que ergue templos e
palácios ou que edifica pontes e estradas, orientada pelas complexas equações
impostas por aqueles que conseguiram decifrar a essência das leis naturais. A
capacidade de transpor obstáculos e adaptar modelos teóricos à prática da vida
é crucial para a sobrevivência do ser e para o seu progresso, que irá tornar o
Homem supremo dominador das terras, dos mares, dos ares e das estrelas, como se
um só astro não bastasse, será imperativo e inevitável a contaminação de
cintilantes corpos celestes com a avara ocupação humana.
Mas maior deleite conferirão as obras de arte à frágil
e efémera criatura que é o Homem. A simples visão de uma pintura retractando
uma paisagem campestre irá levar a alma a um aglomerado de sensações e
sentidos: o doce cheiro dos malmequeres, o sabor das uvas que pendem das possantes
videiras, o tacto da cascas do salgueiro que protege um pequeno charco cheio de
nenúfares, tudo isto sobre o vago calor de um Sol de Outono, interrompido por
breves brisas e repleto do suave murmurar do voo das abelhas. Já contemplar um
quadro ilustrativo de um monarca, confere um estado de respeito e magnificência
e cria uma imagem realista de um soberano enfermiço, louro, de pele clara, com
frágeis olhos azuis, porte enfezado e enfraquecido, fruto de consanguinidade. A
representação do Criador e de figuras bíblicas e semelhantes alegorias abre o
caminho directo que mostra ao âmago a verdadeira perfeição, um sincero êxtase,
o extravasar de belas emoções intensas, de tão fortes que são que fazem o corpo
colapsar, sublimando a alma para os mais áureos cenários. Pela contemplação o
cerne do ser é transportado para o mais esplêndido espaço imaginável, esmagador
e tão intenso, que causa a sensação de fuga da alma pelo peito, lutando para se
libertar da absurda e mísera existência carnal para alcançar o que realmente
ambiciona. Perante tal situação, o corpo desliga-se momentaneamente, podendo
verter lágrimas ou colapsar, estendendo-se placidamente no chão.
A Arte é
plural, mas toda ela, da mais prezada à menos divulgada, ostenta um signo
invisível a olho nu. A alma do Homem reside na Arte.
Vitória Alada de Samotrácia
Vitória Alada. Arrebatadora, encimando um pedestal
para absorver a visão do infinito que espelha o horizonte, para o qual a célere
embarcação se dirige, agilmente rasgando as águas numa graciosidade exemplar. O
ar refinado, puro e com uma breve essência a sagrado que delicia a composição.
Do frio mármore se ergue a Vitória, celebrando as asas que por divina graça lhe
foram presenteadas, dádiva de um ente supremo em torno do qual se governa a
existência.
Vitória abençoada e resultado de um sopro, um surto de
inspiração, como se tal belíssimo exemplar se encontrasse por aí, perdido nos
confins do mundo ou resguardado numa fortaleza de todo o mal que o quer
desfeito. As leves vestes saboreando a fina brisa, por sinal marítima, trazendo
uma esperançosa mensagem de um fado promissor e abençoado. Magnífica,
resplandecendo pela unicidade e pela sapiência com que, delicadamente, abençoa
quem a idolatra, expandido vorazmente as grandiosas asas, qual soberba ave
canora que se prepara para partir das superfícies terrenas em direcção ao vasto
céu que todos cobre e limita, expirando melódicos suspiros que enchem a vaga
atmosfera de cor e êxtase, libertando a inerte alma que se esconde pela
imensidão do vazio.
Vitória radiante, inflamando a visão com candura e
paz, perpetrando um derradeiro acto de inebriante paixão pela fugidia vida que
escapa pelos dedos de quem a contempla, absorto de toda a árdua realidade, mas
deliciado pela sublime peça, obra de um realismo fascinante, passando a sentir
a mesma brisa que lhe faz esvoaçar as suaves sedas e que lhe acaricia as
grandiosas asas.
Vitória resguardada, louvada e glorificada em templos.
Da contemplação da elegante figura, se capta uma sensação de liberdade sem
igual, uma lufada de ar que inicia uma cascata de profundos sentimentos,
resultando na libertação de amargos sucos lacrimais, por miragem da maravilhosa
escultura, tão real e impressionante, fora de si, do Homem e do Mundo; magna
figura que imponentemente encara o Tempo, desafiando o seu incompassivo efeito.
Vitória desfeita, massacrada e incompleta. Não basta a
plenitude para a perfeição. Vitória Alada, celebrando a vida, prova de
esperança e profunda paixão, memória de tempos idos, testemunha de séculos, com
o coração de mármore e, no entanto, capaz de desencadear um panorama
inexequível a olhos comuns, mas sensacionalmente soberbo para originar a mais
bela e perfeita visão de que o mundo consegue.
Vitória Alada, obra representando o esbelto vulto da glória
que fenomenalmente se esquiva de todos aqueles que ambicionam, prova do
infindável amor finado ao peso do incessante turbilhão que tudo muta, e que
ilumina a alma de quem a fita, guardando em parte a sua inesquecível imagem até
ao final dos tempos.
Vitória Alada de Samotrácia.
Tiago Malhó Lorga Gomes

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