quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Arte, um amuse-bouche


Arte, um amuse-bouche


A arte é a consagração do ser humano. É a evidente prova de que a raça consegue superar a efemeridade e a insignificância ao criar, com as suas próprias mãos, as mais esplêndidas obras, cuja contemplação permite um autêntico deleite e cria uma diversidade de sensações que culminam com a ideia de perfeição suprema; afirmando-se como entidade que necessita de um reconhecimento e de se sublimar. Nos registos históricos perde-se a conta aos milhares que se sacrificaram em nome da arte, quer dedicando-lhe a vida e o tempo, quer salvando-a das manápulas de bárbaros sanguinários. Porém, e tendo em consideração que tudo o que a raça faz tem um fim, a arte é frágil e consequentemente vai sucumbindo aos sopros do inexorável Tempo.

Cabe ao Homem a sua acérrima defesa e recuperação porque se trata do seu património e, sem este, o ser nada é. Vale mais perder-se uma vida humana, coisa vulgar e comum, do que uma obra-prima, instrumento que celebra e sublima a essência do ser, dignificando-o, e sendo fundamental para a sua identidade e unicidade. A memória de tempos idos reside no que sobrevive, muitas vezes danificado pelo passar dos milénios e pela ignóbil acção bárbara. Nem o queimar de pergaminhos e livros, o saque de castelos e palácios, o derrubar de estátuas, o desmantelar de templos e o vandalizar de cidades poderá apagar por completo a memória, ainda que esta seja uma névoa pouco concreta residente nos mais recônditos cantos do cérebro, estando dependente da sua transmissão oral ou escrita, mas sempre condicionada pela breve e frágil humanidade da vida.

E quando uma obra se desintegra ou perde, metamorfoseando-se em cinzas, o Mundo chora. Choram os céus, os mares, os rios, as terras e as árvores. De humana raça só vertem lágrimas os mais apegados e familiares com a dita obra e que, por ironia do Fado, não a conseguirão repor nem reproduzir. Ingrata vida esta que apaga todo e qualquer feito, empurrando o Homem cada vez mais fundo para as negras águas do esquecimento, líquido onde se banham umas quantas desafortunadas civilizações das quais só o nome e pouco mais se conhece; impérios que tiveram épocas áureas, atingiram o apogeu e definharam, acabando por sucumbir à enchente da maré das sombrias águas do esquecimento.

O Homem não se resume à sua insignificância e trava constantemente a luta para não cair nas malhas do desconhecimento e imergir nas brumas do esquecimento. Para tal, o progresso é indispensável. Já a voz popular alerta que quanto mais alto se está, maior a queda. Com base neste dito, muitos se revoltam e atrasam o avanço, condenando inocentes, tornando-os mártires da Ciência, erradicando vestígios de civilizações outrora grandiosas, arruinando palácios e estátuas, queimando bibliotecas, anulando séculos de conhecimento adquirido, sem contar as obscenidades impostas à raça humana.

Com efeito, os nomes mais célebres que a Pedra dos Tempos apresenta são de homens e mulheres que souberam aliar as várias dualidades do ser, entre elas, a mente e o corpo, a espada e a pena, o poder e a humildade, a celebridade e a simplicidade, e a força e a misericórdia. O equilíbrio e a simetria são as características mais cobiçadas e procuradas, dado revelarem uma ilusória perfeição e criarem a ideia de beleza absoluta. Como as regras são feitas para definirem a norma, há sempre excepções. Artistas geniais, cientistas brilhantes, escritores fantásticos e governadores esplêndidos são alguns exemplos de Homens que excedem a vaga humanidade e são capazes de executar certas tarefas com a maior das perícias. Admiradores incrédulos afirmam tratar-se de um dom concedido por divina graça enquanto críticos invejosos o caracterizam como um poder ligado à obra de Satanás e que deve ser eliminado a todo o custo.

Pondo de parte as diversas opiniões, uma coisa é certa. Sem estes seres extraordinários que ultrapassam as barreiras impostas quer por consenso humano quer por limites naturais, a humanidade resumir-se-ia à mediocridade, característica necessária à mão de obra que ergue templos e palácios ou que edifica pontes e estradas, orientada pelas complexas equações impostas por aqueles que conseguiram decifrar a essência das leis naturais. A capacidade de transpor obstáculos e adaptar modelos teóricos à prática da vida é crucial para a sobrevivência do ser e para o seu progresso, que irá tornar o Homem supremo dominador das terras, dos mares, dos ares e das estrelas, como se um só astro não bastasse, será imperativo e inevitável a contaminação de cintilantes corpos celestes com a avara ocupação humana.

Mas maior deleite conferirão as obras de arte à frágil e efémera criatura que é o Homem. A simples visão de uma pintura retractando uma paisagem campestre irá levar a alma a um aglomerado de sensações e sentidos: o doce cheiro dos malmequeres, o sabor das uvas que pendem das possantes videiras, o tacto da cascas do salgueiro que protege um pequeno charco cheio de nenúfares, tudo isto sobre o vago calor de um Sol de Outono, interrompido por breves brisas e repleto do suave murmurar do voo das abelhas. Já contemplar um quadro ilustrativo de um monarca, confere um estado de respeito e magnificência e cria uma imagem realista de um soberano enfermiço, louro, de pele clara, com frágeis olhos azuis, porte enfezado e enfraquecido, fruto de consanguinidade. A representação do Criador e de figuras bíblicas e semelhantes alegorias abre o caminho directo que mostra ao âmago a verdadeira perfeição, um sincero êxtase, o extravasar de belas emoções intensas, de tão fortes que são que fazem o corpo colapsar, sublimando a alma para os mais áureos cenários. Pela contemplação o cerne do ser é transportado para o mais esplêndido espaço imaginável, esmagador e tão intenso, que causa a sensação de fuga da alma pelo peito, lutando para se libertar da absurda e mísera existência carnal para alcançar o que realmente ambiciona. Perante tal situação, o corpo desliga-se momentaneamente, podendo verter lágrimas ou colapsar, estendendo-se placidamente no chão.

A Arte é plural, mas toda ela, da mais prezada à menos divulgada, ostenta um signo invisível a olho nu. A alma do Homem reside na Arte.


 
Vitória Alada de Samotrácia
 
Vitória Alada. Arrebatadora, encimando um pedestal para absorver a visão do infinito que espelha o horizonte, para o qual a célere embarcação se dirige, agilmente rasgando as águas numa graciosidade exemplar. O ar refinado, puro e com uma breve essência a sagrado que delicia a composição. Do frio mármore se ergue a Vitória, celebrando as asas que por divina graça lhe foram presenteadas, dádiva de um ente supremo em torno do qual se governa a existência.
 
Vitória abençoada e resultado de um sopro, um surto de inspiração, como se tal belíssimo exemplar se encontrasse por aí, perdido nos confins do mundo ou resguardado numa fortaleza de todo o mal que o quer desfeito. As leves vestes saboreando a fina brisa, por sinal marítima, trazendo uma esperançosa mensagem de um fado promissor e abençoado. Magnífica, resplandecendo pela unicidade e pela sapiência com que, delicadamente, abençoa quem a idolatra, expandido vorazmente as grandiosas asas, qual soberba ave canora que se prepara para partir das superfícies terrenas em direcção ao vasto céu que todos cobre e limita, expirando melódicos suspiros que enchem a vaga atmosfera de cor e êxtase, libertando a inerte alma que se esconde pela imensidão do vazio.
 
Vitória radiante, inflamando a visão com candura e paz, perpetrando um derradeiro acto de inebriante paixão pela fugidia vida que escapa pelos dedos de quem a contempla, absorto de toda a árdua realidade, mas deliciado pela sublime peça, obra de um realismo fascinante, passando a sentir a mesma brisa que lhe faz esvoaçar as suaves sedas e que lhe acaricia as grandiosas asas.
 
Vitória resguardada, louvada e glorificada em templos. Da contemplação da elegante figura, se capta uma sensação de liberdade sem igual, uma lufada de ar que inicia uma cascata de profundos sentimentos, resultando na libertação de amargos sucos lacrimais, por miragem da maravilhosa escultura, tão real e impressionante, fora de si, do Homem e do Mundo; magna figura que imponentemente encara o Tempo, desafiando o seu incompassivo efeito.
 
Vitória desfeita, massacrada e incompleta. Não basta a plenitude para a perfeição. Vitória Alada, celebrando a vida, prova de esperança e profunda paixão, memória de tempos idos, testemunha de séculos, com o coração de mármore e, no entanto, capaz de desencadear um panorama inexequível a olhos comuns, mas sensacionalmente soberbo para originar a mais bela e perfeita visão de que o mundo consegue.
 
Vitória Alada, obra representando o esbelto vulto da glória que fenomenalmente se esquiva de todos aqueles que ambicionam, prova do infindável amor finado ao peso do incessante turbilhão que tudo muta, e que ilumina a alma de quem a fita, guardando em parte a sua inesquecível imagem até ao final dos tempos.
Vitória Alada de Samotrácia.
 
 
 
Tiago Malhó Lorga Gomes


 
 

Sem comentários:

Enviar um comentário