Uma inebriante valsa enche os salões
da Ajuda. Sobrepõe-se-lhe um fugaz murmúrio que se desprende das paredes
aveludadas, como um triste fado ou uma toada de tempos idos, que lamenta o
encanto perdido das gentes e das tradições que não mais voltarão.
Uma sucessiva explosão de cores
invade o palácio. Amplifica-se o azul e o rosa das sedas, o bege dos cadeirões,
o dourado dos frisos, o carmim dos cortinados, o verde das mesinhas, o branco
das porcelanas, o castanho das madeiras e o amarelo dos lençóis. As janelas,
abertas de par em par, fazem transbordar fortes focos de luz, que encantam o
interior com miríades de cristais incandescentes que se abrigam nos lustres e
nos candelabros.
Cada divisão, uma surpresa. Sente-se
o frémito característico de uma metrópole imperial, evidenciado através de
grandes jarrões chineses e de magníficos biombos, complementados com objectos
de alto artifício e génio. Uma forte corrente de ar fustiga as débeis sedas e
as mimosas porcelanas. É evidente a magnificência do palácio, com grandes
salões e salinhas íntimas, jardins de Inverno e quartos elegantes, que causam
espanto e admiração, levantando um burburinho de furor e incredulidade
inerente.
Os grandes frescos e as sublimes tapeçarias
repousam, melancolicamente pendurados nas paredes, chorando a glória e o uso
perdidos. Os quadros e os painéis pendem igualmente numa soturna e fria saudade,
ostentando sempre a faceta maravilhosa e pura que tão bem encerra esta tristeza.
Os candelabros, de cuidado fabrico e imponente porte, já não baloiçam como
antigamente. O encanto, que tantas vezes parecia saído de um conto de fadas,
dissipou-se lentamente. O aparato foi-se reduzindo gradualmente, esfumando-se
nas alturas dos salões como o fumo dos convidados outrora se desfazia. As
carruagens de gala desapareceram. Que êxtase era ouvir a sua chegada ao
palácio, trazendo consigo ilustres e afamados, príncipes e princesas, fidalgos,
figurinhas de encanto, generais, embaixadores e gentis-homens! A recepção era
feita segundo um apertado protocolo em que os convidados, de tal forma pasmados
com tremenda opulência, subiam calmamente a escadaria que conduz ao andar
nobre, enquanto soldados de estribeira inclinavam as alabardas à sua passagem.
Qualquer que fosse a ocasião (baile, boda, baptismo, casamento, festa), o
palácio estava sempre aprumado, revelando uma faceta assombrosamente
triunfante, como se o mundo não carecesse de fama nem de fortuna.
Acima de tudo, celebrava-se com um
profundo sentimento. Longas noites se reflectem nos espelhos, que tanto anseiam
a sua repetição. Que fausto, que apogeu era observar as damas ornadas de
grandes saias de balão, mergulhadas em pó-de-arroz, enquanto se estendiam nos
sofás escarlates, avidamente abanando os leques crivados de pinturas e jóias,
esperando que os seus amados as convidassem para uma dança. Que sonho era…
Que sonho foi, choram os grandiosos
salões da Ajuda, deixados ao abandono da magoada indiferença. Porém, o alto da
Ajuda orgulha-se. Sinal dos tempos e o palácio é invadido de uma parafernália artística
curiosíssima.
Lobos, sapos, gatos, caranguejos e
lagostas ocupam os salões, todos eles revestidos de uma estranha teia que os
reconforta e embeleza. Alia-se a faiança à renda, duas vertentes tão nacionais
e queridas, tão intrínsecas e simbólicas, enovelando os seus âmagos em obras
originais e únicas. Pelo palácio, quer em recantos ou nas paredes, desfilam
touros, burros, cavalos e até lagartos de faiança, vestidos pela hábil renda
branca.
Mais ousadas peças, quer de
plástico ou de metal, brilham e encantam, fundindo-se com a magnificência deste
virtuoso palácio que recebe um toque de modernidade, quase como se fosse
inaugurado, gabando, a plenos pulmões, o encanto por descobrir e a solidez das
suas fundações, como se, de facto, fosse a primeira vez admirado. A surpresa
atira-se sobre qualquer visitante, numa esplêndida junção artística. Sejam
obras diferentes, sem sentido, ou com todo o que o mundo oferece, simbólicas,
estranhas, caseiras, audazes, ousadas, simples, complexas – resta a certeza de
uma combinação fora de série, plena e perfeita.
O ambiente de tranquilidade e
intimidade da família real, converte-se num templo à Arte. As memórias
renascem, são recordadas e estabelecidas. O metálico dos famosos sapatos contrasta
com a exuberância da sala do trono. O pequeno sapo, no topo da mesa da sala
cor-de-rosa, citada como “de mui grande
novidade” com uma imensidão de figurinhas de porcelana de Saxe que “surprehendem todos”, repousa no seu
meio predilecto. As lagostas, devidamente sentadas à mesa, frente a frente,
esperam impacientes o jantar, questionando-se por que motivo este tarda em aparecer.
Um automóvel bem artilhado e que
carrega uma carga preciosa descansa juntamente com uma caleche de antigamente, que
apresenta orgulhosamente o brasão da amada pátria, que aqui se prova uma mãe de
valiosos artistas. Um enorme coração vermelho dança sozinho num salão. Um garrido
helicóptero aguarda ordem para descolar. Um enorme candelabro compõe-se de
elementos inesperados.
A invasão de elementos integra-se e
perde-se no labirinto de salas, quartos, corredores, átrios e salões. As novas
obras encontram abrigo e casa no palácio, revitalizando-o e rejuvenescendo-o,
trazendo à superfície as belíssimas e saudosas memórias encerradas naquelas
paredes, e fundando novas que mais tarde irão ser choradas e recordadas com
enorme carinho e fascínio. Um manto de formosura espraia-se nos ares do Alto da
Ajuda. As janelas abertas, o Tejo ao fundo, o palácio no seu esplendor. O génio
de Joana Vasconcelos brilha e materializa-se.
Triunfa a Arte na Ajuda.
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Marilyn, 2009,
Joana Vasconcelos
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