sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Joana Vasconcelos no Palácio Nacional da Ajuda



Uma inebriante valsa enche os salões da Ajuda. Sobrepõe-se-lhe um fugaz murmúrio que se desprende das paredes aveludadas, como um triste fado ou uma toada de tempos idos, que lamenta o encanto perdido das gentes e das tradições que não mais voltarão.

Uma sucessiva explosão de cores invade o palácio. Amplifica-se o azul e o rosa das sedas, o bege dos cadeirões, o dourado dos frisos, o carmim dos cortinados, o verde das mesinhas, o branco das porcelanas, o castanho das madeiras e o amarelo dos lençóis. As janelas, abertas de par em par, fazem transbordar fortes focos de luz, que encantam o interior com miríades de cristais incandescentes que se abrigam nos lustres e nos candelabros.

Cada divisão, uma surpresa. Sente-se o frémito característico de uma metrópole imperial, evidenciado através de grandes jarrões chineses e de magníficos biombos, complementados com objectos de alto artifício e génio. Uma forte corrente de ar fustiga as débeis sedas e as mimosas porcelanas. É evidente a magnificência do palácio, com grandes salões e salinhas íntimas, jardins de Inverno e quartos elegantes, que causam espanto e admiração, levantando um burburinho de furor e incredulidade inerente.

Os grandes frescos e as sublimes tapeçarias repousam, melancolicamente pendurados nas paredes, chorando a glória e o uso perdidos. Os quadros e os painéis pendem igualmente numa soturna e fria saudade, ostentando sempre a faceta maravilhosa e pura que tão bem encerra esta tristeza. Os candelabros, de cuidado fabrico e imponente porte, já não baloiçam como antigamente. O encanto, que tantas vezes parecia saído de um conto de fadas, dissipou-se lentamente. O aparato foi-se reduzindo gradualmente, esfumando-se nas alturas dos salões como o fumo dos convidados outrora se desfazia. As carruagens de gala desapareceram. Que êxtase era ouvir a sua chegada ao palácio, trazendo consigo ilustres e afamados, príncipes e princesas, fidalgos, figurinhas de encanto, generais, embaixadores e gentis-homens! A recepção era feita segundo um apertado protocolo em que os convidados, de tal forma pasmados com tremenda opulência, subiam calmamente a escadaria que conduz ao andar nobre, enquanto soldados de estribeira inclinavam as alabardas à sua passagem. Qualquer que fosse a ocasião (baile, boda, baptismo, casamento, festa), o palácio estava sempre aprumado, revelando uma faceta assombrosamente triunfante, como se o mundo não carecesse de fama nem de fortuna.

Acima de tudo, celebrava-se com um profundo sentimento. Longas noites se reflectem nos espelhos, que tanto anseiam a sua repetição. Que fausto, que apogeu era observar as damas ornadas de grandes saias de balão, mergulhadas em pó-de-arroz, enquanto se estendiam nos sofás escarlates, avidamente abanando os leques crivados de pinturas e jóias, esperando que os seus amados as convidassem para uma dança. Que sonho era…

Que sonho foi, choram os grandiosos salões da Ajuda, deixados ao abandono da magoada indiferença. Porém, o alto da Ajuda orgulha-se. Sinal dos tempos e o palácio é invadido de uma parafernália artística curiosíssima.

Lobos, sapos, gatos, caranguejos e lagostas ocupam os salões, todos eles revestidos de uma estranha teia que os reconforta e embeleza. Alia-se a faiança à renda, duas vertentes tão nacionais e queridas, tão intrínsecas e simbólicas, enovelando os seus âmagos em obras originais e únicas. Pelo palácio, quer em recantos ou nas paredes, desfilam touros, burros, cavalos e até lagartos de faiança, vestidos pela hábil renda branca.

Mais ousadas peças, quer de plástico ou de metal, brilham e encantam, fundindo-se com a magnificência deste virtuoso palácio que recebe um toque de modernidade, quase como se fosse inaugurado, gabando, a plenos pulmões, o encanto por descobrir e a solidez das suas fundações, como se, de facto, fosse a primeira vez admirado. A surpresa atira-se sobre qualquer visitante, numa esplêndida junção artística. Sejam obras diferentes, sem sentido, ou com todo o que o mundo oferece, simbólicas, estranhas, caseiras, audazes, ousadas, simples, complexas – resta a certeza de uma combinação fora de série, plena e perfeita.

O ambiente de tranquilidade e intimidade da família real, converte-se num templo à Arte. As memórias renascem, são recordadas e estabelecidas. O metálico dos famosos sapatos contrasta com a exuberância da sala do trono. O pequeno sapo, no topo da mesa da sala cor-de-rosa, citada como “de mui grande novidade” com uma imensidão de figurinhas de porcelana de Saxe que “surprehendem todos”, repousa no seu meio predilecto. As lagostas, devidamente sentadas à mesa, frente a frente, esperam impacientes o jantar, questionando-se por que motivo este tarda em aparecer.

Um automóvel bem artilhado e que carrega uma carga preciosa descansa juntamente com uma caleche de antigamente, que apresenta orgulhosamente o brasão da amada pátria, que aqui se prova uma mãe de valiosos artistas. Um enorme coração vermelho dança sozinho num salão. Um garrido helicóptero aguarda ordem para descolar. Um enorme candelabro compõe-se de elementos inesperados.

A invasão de elementos integra-se e perde-se no labirinto de salas, quartos, corredores, átrios e salões. As novas obras encontram abrigo e casa no palácio, revitalizando-o e rejuvenescendo-o, trazendo à superfície as belíssimas e saudosas memórias encerradas naquelas paredes, e fundando novas que mais tarde irão ser choradas e recordadas com enorme carinho e fascínio. Um manto de formosura espraia-se nos ares do Alto da Ajuda. As janelas abertas, o Tejo ao fundo, o palácio no seu esplendor. O génio de Joana Vasconcelos brilha e materializa-se.

Triunfa a Arte na Ajuda.
 
 

                                                            Marilyn, 2009, Joana Vasconcelos

 

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