Deus illuminat anima
Sede Vacante
O trono de São Pedro vazio. A Cristandade expectante. As
atenções postas no mais pequeno estado do mundo, contando com apenas quarenta e
quatro hectares de área. Espera-se impacientemente pelo consenso e pela eleição
de um novo Papa, portador do ilustre anel do pescador, homem capaz de governar
a soberba e instável barca do Cristianismo, inspirando-se numa rígida e
apertada doutrina com ideais prezados e extensamente divulgados, fortalecidos
por séculos de um império espiritual que é salvação de inúmeras almas perdidas,
sem uma meta fixa e um caminho errante, desprotegido e ao alcance do mal comum
inerte ao ser.
Aguarda-se
pacientemente pela derradeira decisão; a elevação do comum dos mortais tocado
por divina graça, nada mais que o representante terreno da suprema vontade,
chefiando a religião maioritária. Clama-se por fumo branco, pela equilibrada
concórdia obtida pela sublime democracia, apesar de que, caso não seja
alcançada na primeira vez, mais horas se passarão no conclave que se prolongará
até à eleição de um novo líder, arrastando penosas temporadas e massacrando as
mentes dos débeis cardeais que de alma e corpo se submetem ao altar de Cristo.
Mas, apesar de todo o elaborado e requintado
protocolo, a verdade é que nenhum Papa será eterno. Quer por falecimento,
resignação ou deposição, todo o Papa encontrará um fim. Os acontecimentos
passam, de acordo com a fluída corrente do tempo, inexorável rio que percorre o
seu indefinido leito, composto por histórias de glórias e apogeus, tragédias e
desgraças. Analisando a cronologia, contam-se os ilustres e honrados homens que
com a máxima devoção serviram a Santíssima Igreja, dedicando-lhe as suas vidas
e dons, alguns santos e idolatrados pelo povo que com tanta reverência os
observam e veneram, vendo neles a esperança que lhe falta, a fé que guiará o
seu âmago pelas estradas da fragosa e escarpada vida, o pilar fundamental que
lhe ampara a alma atormentada com o fim e com a escuridão eterna: uma
verdadeira lux in arcana que ilumina
o desconhecido que tanto martiriza a fraca e mortal condição.
Joões, Pios, Inocêncios, Gregórios, Bentos, Leões,
Urbanos e Clementes, entre outros, fazem parte da extensa lista de pontífices
que serviram com grande dedicação a Santa Igreja, contribuindo para um
riquíssimo acervo histórico sem paralelo, concentrado no Vaticano. Enquanto o
mundo procura o próximo sucessor, passa despercebido o esplendor de excelência
do palco onde se desenrola o acontecimento.
Crucificação de São Pedro no ano de sessenta e sete em
Roma. O homem liberta um último suspiro. A alma abandona o corpo que vê o seu referencial
terreno alterado, nobre e humilde atitude em evitar a crucificação de acordo
com a que Jesus fora sacrificado, não se julgando à altura do Homem que tanta
luz ao Mundo trouxera, mundo esse que o massacrara, apagando a candeia que
exalava paz e razão. Nem esse homem imagina que, daí a mil e seiscentos anos,
naquele mesmo local nas margens do Tibre onde encontra o seu fatal destino, se
erguerá o maior templo da Cristandade, propriedade da Santíssima Igreja,
instituição regida pela nobilíssima vontade divina, arbítrio que apazigua as
mágoas do fraco, salva o justo e perdoa o pecador. Lá dentro, no fresco ar da
Basílica, repousará uma toda orgia de ostentação, riqueza e luxo; enfim, uma
amostra de tudo o que de mais belo há na Terra, iluminada pelos mais claros
raios, envolta num intenso odor a sagrado, banhada nos mais nobres e belos
metais, crivada por milhares de valiosas pedras cuidadosamente lapidadas,
resguardada pela delicada folha de ouro e aglomerada nesta triunfante apoteose
que celebra a efémera vitória da vida sobre a morte.
Basílica, da antiga à recente, testemunha de séculos,
intrigas, ironias, santidades, coroações, milagres e súplicas, ergue-se
esplendorosamente sobre a Pedra ( Mt 16: 18-19 “Também Eu te digo: Tu és Pedro,
e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Abismo nada
poderão contra ela.”). A Pedra. Sólida, fiel, fortalecida, um alicerce
fundamental na criação de todo um universo que suporta, um archê que se explica a si próprio, enovelado nas malhas de vidas
passadas e santificadas, sacrificadas pela Humanidade e martirizadas por ela.
Nos famosíssimos Museus do Vaticano, leia-se plural
devido ao vastíssimo acervo que representa todas as formas de arte, todos os
aspectos da civilização humana, de cada época e região; repousa e desfila uma
quantidade exorbitante de arte. Sorriem obras salvas das mãos de bárbaros ou do
nefasto efeito do tempo que lima as delicadas superfícies das ligeiras
estatuetas ou que apaga os finos traços de pincéis cuidadosamente planeados
para conferir uma representação sem igual. Na atmosfera, irradiante e completa
com os suspiros que torturam de saudades e memórias de séculos anteriores,
outras gentes e esplendores, pairam curiosas arcadas, todas elas esculpidas,
pintadas, trabalhadas, de formas ondulantes, tentando iludir a curiosa atenção,
fornecendo uma suspeita sensação de solidez e movimento. Nas paredes
recolhem-se quadros, pinturas fenomenais representando deposições, grandes
batalhas, vencedores e vencidos, ceias, ascensões, bodas, pregadores e
alegorias.
Surge Cristo, acompanhado pelos seus fiéis doze
discípulos, cada um com uma história para contar, diferentes pormenores de uma
vida de lealdade e consagração. Condena-se o pecado, esconde-se o púbis com uma
folha de videira formatada, repudia-se o Diabo e os seus temíveis ajudantes,
assumindo toda e qualquer forma para atacar o mundo, envolvendo-o nesta
cansativa batalha que desde a Origem se regista, quando “a terra era informe e
vazia, as trevas cobriam o abismo e o espírito de Deus movia-se sobre a
superfície das águas”, tentando arrastar tudo para o negro e insaciável Abismo
que tudo pretende avaramente engolir, consumindo a essência das gentes humildes
e assustadiças que nada observam na sua vida, a total ausência do caloroso
amparo divino, procurando uma salvação de um efémero mas infinito sofrimento
que se prolonga, morosamente espraiando-se nos campos de batalha da discórdia
causada pela ambição e pelo desentendimento.
A estatuária de mármore celebrando a vida. Recordam
invasões, auges e perdições. Muitas peças passaram pelo esquecimento,
soterradas na imensidão de ruínas toscas e sem essência do que haviam sido,
obliteradas pelo desespero do olvido; agora resplandecem, expandindo a glória
de que são capazes, reluzindo pela recuperação que as tornou a ficar célebres.
Santos, anjos, mártires, querubins, animais e deuses pagãos animam as galerias
e os corredores revestidos da maior formosura de que o mundo consegue
aglomerar, avaliadas pela perícia dos artistas e qualidade das obras que dão
sentido à fugidia e frágil vida que tanto se deleita com elas, espelhando panoramas
demasiado perfeitos para a real condição, algo disforme e imperfeitamente
característica. Surgem grandes frescos ilustrando o Céu ou o Paraíso, ostentando
ricas colorações derivadas de pigmentos raros, e de um detalhe impressionante,
meticuloso e fiel. Os Museus albergam uma colecção de arte transversal, num
espaço sublime, divinal, quase tão real como o utópico Céu, conferindo uma
ínfima amostra de um bem ainda mais supremo, dominante, cálido e acolhedor.
Sacras de
altar, navetas, custódias, cruzes, terços de pérolas, coroas, báculos, ceptros,
tronos, mitras, vestes riquíssimas, cálices de ouro, relicários de prata, obras
artísticas de um realismo de tirar o fôlego, objectos sacros pagos com a
promessa da salvação e com o negócio das condições da vida após a morte: a
ideia pagã do céu e o cúmulo de Sodoma e Gomorra retratadas em fogo, lava,
sofrimento e terror. Uma gloriosa Basílica que inocentemente abraça a Praça de
S. Pedro, recebendo de braços abertos qualquer peregrino ou viajante que
procure o ouvir das suas preces, o cumprir da penitência ou o abandono de uma
vida pródiga e pecaminosa.
Aflui a gente. Cansada, derrotada e calejada pela
marcha, alcança a Praça e imediatamente relembra o propósito que até ali a
conduziu, contrariando a natural inércia que impede inovação. A maravilha
engloba a personagem. A fachada, adornada por mestres, recebe as atenções pela
grandiosidade e beleza, reflectindo um carácter duro, sólido e pouco flexível.
O ar do interior puro, sagrado e condensado de preces, impregnado de Cristo e
dos seus seguidores; captam-se ecos de episódios idos e de rezas executadas com
fé e valor, contempla-se a altura da cúpula que impressiona pela audácia de
ambicionar o escape da terra para os céus, céus esses que Deus reservara só
para si e para as aves aladas como os anjos, guardiões da bondade.
Numa curta reflexão, recordam-se tempos áureos,
clandestinas celebrações, pias missas, a contemplação da natureza e do ser na
sua forma mais livre e simples, a pesada mão da opressão e do excessivo
controlo, a abominação dos inquisidores, perseguições, batalhas e massacres,
bodas e milagres, santos e mártires, corruptos e devotos. Vaticano, que encerra
tanto mistério: os famosos e inacessíveis Arquivos, a beleza e o misticismo de
algumas obras expostas nos Museus, ironias de santificações, registos duvidosos
e episódios ocultados pelo austero manto da obrigação de seguir em frente; os
Jardins belíssimos e cuidados.
Através da humildade e da consciência surgem sentidos
pedidos de desculpa. Dos hereges que arderam, apenas uma ínfima parte se manteve
calada e erecta, os restantes soltaram tremendos berros, arrependimentos e abraçaram
a fé cristã, contorcendo-se constantemente. À medida que o fogo ascende, dos
pés até ao meio do tronco, o cheiro de carne assada começava a pairar na
atmosfera. As veias dos condenados aumentaram de tamanho, os seus lábios tornaram-se
finos, a língua negra e os olhos secos. A maioria asfixiara, falecendo por
entre as impetuosas labaredas que lhes fustigaram os membros. No final, resta
um corpo carbonizado, semelhante a uma grande peça de carvão toscamente
trabalhada, ainda preso à estaca, rodeado por cinzas quentes.
Religião que na mais sufocante atmosfera de treva,
existe sempre, ainda que por vezes mínima, uma vela que alimenta a luz da
Razão. Ainda que esta ilumine uma pequena porção, será o suficiente para o
mundo não mergulhar na escuridão. Quando um intenso sopro apagar a frágil
chama, as trevas reinarão, fomentando o caos por entre a obra do Criador, que
como pai que educa a descendência, aplicará com militar disciplina o duro
castigo. Mais pena o Homem, mais se ajoelha e baixa nos templos e mais
clemência pede, tentando agarrar-se a toda a glória e magnificência do
Salvador, qual laço de recém-nascido que contacta a primeira vez com a mãe,
mulher que irá sempre respeitar, vivendo esta fortíssima ligação até à breve
separação pela morte, mas eterna união nos céus prometidos pela intrínseca fé.
Por todo o Vaticano se ouvem preces, recordações e
saudades: preze-se a Deus pela divindade, a maravilha e o poder. Não se
glorifique o débil mortal pois tal propriedade está subjugada à luz da alma.
Criador, valha-nos Vós que nos iluminais a alma e dela expulsais o tentador e
malicioso Diabo. Confortai-nos em tempos de desespero, ajudai-nos a não pecar,
livrai-nos do mal, concedei o milagre da vida, protegei-nos do desastre e
alumiai-nos o caminho. Em troca Vos oferecemos sete benesses para suplantar os
vícios que nos conduzem à decadência das profundezas. Caridade, castidade,
diligência, generosidade, humildade, paciência e temperança vencerão os
corruptos pecados que tanta discórdia e maldade ao mundo trazem. Louvemos os
Vossos feitos universais e a Vossa doutrina, norma pela qual nos governamos e
projectamos caminho. Louvemos Deus porque nos criou, sustenta e abençoa.
Concedamos-lhe respeito e reverência em toda a Sua omnipotência. Glória a Vós,
Senhor. Ámen.
Tiago Malhó Lorga Gomes

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