Agnus Dei
Agnus Dei, qui tollis
peccata mundi, miserere nobis.
Agnus Dei, qui tollis
peccata mundi, miserere nobis.
Agnus Dei, qui tollis
peccata mundi, dona nobis pacem.
Cordeiro de Deus. A pureza assoma a
cada passo do pequeno ser, mimoso e frágil, inocente do pecado que o rodeia mas
submisso à fatal sentença para a qual caminha. Pleno e curioso, o pequeno
cordeiro alvo contempla o panorama caótico que o envolve, assustando-se com os
ruídos característicos da multidão caída em profunda tradição religiosa e culto
sagrado. Os homens movem os lábios sem emitir som, mas como se o fizessem, tal
a precisão e o desenrolar dos movimentos, tão naturais e intrínsecos, nada mais
que sentidas preces murmuradas num cântico habitual e indefeso. As mulheres, impregnadas
com odores humildes e campestres, ajoelham-se frente à enorme Cruz que remata o
altar de pedra branca para onde o cândido cordeiro se dirige, no seu passo
incerto e tímido.
O ambiente casto e solene, propicia
à reflexão oratória que ecoa e paira pela altura da nave sob a forma de um
belíssimo cântico, como se de um coro angelical se tratasse, pequena essência
da promessa da salvação que tanto move e atormenta o ser, moldando-lhe as
acções e a vida, fomentando a bondade e a caridade. A grande Cruz com o
Condenado encabeça a sóbria igreja, objecto de tanto cuido e afeição,
subjugando as cabeças quando a ele se dirigem; alvo de tanta prece e pedido, obra
de enorme respeito e peregrinação, Senhor magno de toda a Terra, que a liberta
e ordena, protege do mal e livra do pecado, salvador e padroeiro dos pobres e
dos fracos. Os homens tentam-se agarrar a toda a magnificência da figura que
apresenta sinais de sucumbir à fraqueza que lhe devasta o corpo e às
excruciantes dores que lhe consomem a face em ribeiros de sangue, sangue esse
de Cristo que durante cada comunhão missal será ingerido e celebrado, visando a
ideia do supremo sacrifício e a pena que sofrera tão árdua e desumanamente,
desalmadamente empurrado para o descalabro do sofrimento e da dor, calado pela
opressora e ignóbil faceta característica da mórbida raça.
Sangue de Cristo corre nos vasos do
cordeiro. Inofensiva e cristalina, a pequena cria caminha numa passada calma e
inocente, ignorando por completo o que o destino lhe reservara. O seu coração
palpita. A quente e curta lã, ainda tão suave e branca, de uma alvura imaculada
e especial, encanta o olhar de quem por ele passa, ciente do sofrido e
abominável fim que o espera com tanto intento e saciedade. Ainda há umas horas
tinha estado a pastar na imensidão dos prados que sustentam a povoação, tão
grandiosos e naturais, lentamente influenciados pela mão humana de os cultivar
e desflorestar.
O gracioso cordeiro, puro de âmago,
apesar da frágil e assustada imagem que apresenta, revela-se um animal nobre e
corajoso, no sentido de cultivar a verdade e o bem, a graça e a formosura, o
culto da pureza e da integridade, da suprema inocência e da total ausência de
corrupção pelos males do mundo que tanto enegrecem a alma ao Homem, raça de
pecadores condenados à imensidão do abismo e à cedência às vulgares e reles
tentações impostas pelo maligno desenvolver da espécie. Porém, o casto e
ilustre cordeiro, livre de todo o pecado e corrupção, apresenta uma pose
sublime e encantadora, graciosa e inquieta. Caminha lentamente, saboreando as
essências a sagrado e a gente que se aglomera no ar secular da igreja,
impregnado de Cristo e dos seus seguidores; reparando atentamente no detalhe
dos melhores fatos que os aldeões podem adquirir, homens simples e
trabalhadores, afeiçoados ao campo e educados pela sapientíssima palavra do
Senhor.
No final da alameda ladeada por povo
em submissa oração, o cordeiro alcança o derradeiro destino – o altar de pedra
branca. Em cima deste repousa um todo arsenal de objectos sacros e devotos,
três grandes candelabros de cobre dourado, três cálices de prata, um paninho
branco cobrindo a Bíblia, duas conchas de prata, uma sacra de altar
esplendorosa e uma discreta custódia renascentista, contendo uma amostra de um
osso de um mártir de tempos idos. Durante um sopro de uma inconsistente e
inexplicável razão, e após ter alcançado o derradeiro local, o cordeiro pára.
Mergulhado nas composições de fatalidade anunciadas pelo cessar dos cânticos
apoteóticos e do burburinho da audiência, o cordeiro começa a retroceder o
passo, apercebendo-se da situação em que se encontra, e que, apesar de toda a
sua inocência e pureza, apela à racionalidade que tem e se observa objecto de
sacrifício frente à maciça e antiga Cruz da qual pende Cristo, de cabeça
subjugada ao sofrimento, expirando um último suspiro, esperando que a alma
ascenda para as mãos de Deus, enquanto se inicia a infame partida que iludirá a
morte que todos recolhe e reclama à terra.
Perante a atitude do cordeiro, é
rapidamente apanhado e seguro, colocado com algum custo em contacto com a fria
pedra do altar, a amena superfície lanosa irradiando calor para a impiedosa mas
católica pedra, tão celebrada, e símbolo de unidade e comunhão. O padre
apressa-se a proclamar preces dirigidas ao cordeiro, que livrará o pecado do
mundo, universo que o condena à eterna morte somente na avara impressão de se
tentar redimir de todo o mal de que é constituído e de todas as ciladas em que
cai, orquestradas pela malvadez comum. O coro anuncia o sacrifício através de
belíssimas composições vocais, arrojadas e agudas, contrastando com os graves
sons que a queda da chuva produz enquanto bate no telhado na igreja e alaga os
campos repletos de vida determinada.
A respiração do cordeiro torna-se arfante,
o macio dorso arrefecido pela alva pedra, as pernas trémulas, o olhar vazio e
indescritível: como se lhe tivessem revelado as maiores atrocidades registadas
e imaginárias, ou como se lhe descrevessem o terrível e atroz sofrimento de que
padeceria. A vida passa-lhe pela frente enquanto se debate contra quem o
comprime contra o altar, mantendo-o praticamente imóvel e em pleno desespero.
Mal tem tempo para se elucidar sobre a razão pela qual é trazido ao cadafalso,
cordeiro tão inocente e puro, alvo e novo, com o pecado ausente e a razão
perdida.
A adaga é elevada. Os olhos
centram-se no objecto que findará a existência à frágil cria. As respirações
sustêm-se por segundos e o tempo parece cessar o seu funcionamento, prendendo
aquele angustiante momento nas mentes e nas almas. O coração do cordeiro
bombeia o sangue de Cristo desalmadamente, absorto de toda a plateia que o
contempla, mas ciente do que se desenrola. A adaga desce. Penetra a quente superfície
macia do cordeiro, atravessando-lhe o coração. O doce animal morre em alguns
segundos, em tamanha agonia, a respiração inconstante, num incessante movimentar
das patas, num debater tremendo contra quem o prende e com um mitigado suspiro.
Após um fulminante e agudo sofrimento, o cordeiro está morto. Pelo altar correm
rios de sangue, ainda quente, contrastando com a alvura e polidez da pedra,
inundando por descuido, as conchas de prata, os cálices, a sacra e a custódia,
tingindo as páginas da Bíblia com o carmim que esta não incita e não ordena.
O sangue vai arrefecendo,
alastrando-se no chão da igreja, enquanto panos e trapos da pia e crente
audiência com ele se deliciam, levando a recordação do sacrifício do puro e
inocente animal, oferecido à morte para redenção de pecados de outrem, sempre
tão alegre e belo, com um final tremendo e sofrido. Paga pelos mercadores que
enganam o povo, pelos maridos que cometem adultério, pelos desordeiros que
incitam ao combate e à confusão, por todos aqueles que cedem à tentação da
preguiça, pelos guerreiros que matam sem piedade, pelos falsos que de mentiras
fazem realidades, pelos hereges que falsamente se apresentam como
cristianíssimos, pelas mães que cobiçam a juventude dos filhos de outros, pelos
pais que invejam as propriedades do nobre do feudo, pela ambição e hipocrisia
da nobre família, pelos ladrões e pelos condenados.
A missa termina, o cadáver é recolhido, e as
pessoas saem da igreja. Quando o fazem, não querem acreditar no que os seus
olhos observam: por segundos, a própria imagem de um Satanás inquisidor,
rindo-se do acontecimento, espalhando pelos campos pequenos servos diabólicos
que infestam as ovelhas e o restante gado de um vermelho possante, tingindo a
clara lã de um carmim pecador e repreensível, por entre balidos de dor e
pânico, numa atmosfera cálida e sufocante. Mal a visão é interiorizada, a
multidão precipita-se para dentro da igreja, esbaforida em améns, preces e
ditos; todos eles ofegantes, impressionados e assustados com a ascensão dos
infernos à localidade, atormentados pelo erro de terem morto o inocente
cordeiro, tão puro e pleno, com sangue de Cristo a correr-lhe nas veias. Nem tempo
têm de se dirigir à Cruz, quando a terra treme violentamente, envolta num
ensurdecedor requiem, uma autêntica missa dos mortos proclamada pelas entranhas
da Terra onde já se planeia colocar o cadáver do cordeiro, derrubando as
frágeis casas de habitação e armazenamento. A terra engole as árvores, as
fontes e as torres. Num ápice, a igreja é submersa em destroços e cadáveres,
misturando o sangue de Cristo com o sangue dos pecadores e dos inocentes que
também pagam pela insolência e pela resignação com que assistiram ao
sacrifício.
A tormenta finda. Da igreja e do
cemitério, resta apenas um enorme aglomerado de pedras, vigas de madeira e destroços
de estátuas de santos. As casas destruídas e livres de graça e solidez. Os
campos com enormes fendas e declives, árvores tombadas e animais mortos. Da
população nem vivalma, tendo sucumbindo por completo ao castigo imposto. Soa um
incólume silêncio de purificação, calmo e vagamente natural. A chuva e o
temporal cessam.
Passadas algumas horas, dois
almocreves em viagem chegam à aldeia, constatando, em puro horror, uma
localidade vazia e arrasada. A sua demanda por gente leva-os ao local onde antigamente
se erguia a modesta e santa igreja, deparando-se com uma imagem deveras
reveladora. No meio dos destroços, e envolto em pó, se observa o cadáver de um
cordeiro, deitado sobre a Cruz, ocupando o local correspondente ao de Cristo, rematado
por uma coroa de espinhos manchada por sangue. O mártir fora escolhido.
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A Adoração do Cordeiro Místico (1430-1432), Jan van Eyck
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Tiago Malhó Lorga Gomes

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