quarta-feira, 27 de março de 2013

Agnus Dei


Agnus Dei

 
Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, miserere nobis.
Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, miserere nobis.
Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, dona nobis pacem.
 
 
 

Cordeiro de Deus. A pureza assoma a cada passo do pequeno ser, mimoso e frágil, inocente do pecado que o rodeia mas submisso à fatal sentença para a qual caminha. Pleno e curioso, o pequeno cordeiro alvo contempla o panorama caótico que o envolve, assustando-se com os ruídos característicos da multidão caída em profunda tradição religiosa e culto sagrado. Os homens movem os lábios sem emitir som, mas como se o fizessem, tal a precisão e o desenrolar dos movimentos, tão naturais e intrínsecos, nada mais que sentidas preces murmuradas num cântico habitual e indefeso. As mulheres, impregnadas com odores humildes e campestres, ajoelham-se frente à enorme Cruz que remata o altar de pedra branca para onde o cândido cordeiro se dirige, no seu passo incerto e tímido.

O ambiente casto e solene, propicia à reflexão oratória que ecoa e paira pela altura da nave sob a forma de um belíssimo cântico, como se de um coro angelical se tratasse, pequena essência da promessa da salvação que tanto move e atormenta o ser, moldando-lhe as acções e a vida, fomentando a bondade e a caridade. A grande Cruz com o Condenado encabeça a sóbria igreja, objecto de tanto cuido e afeição, subjugando as cabeças quando a ele se dirigem; alvo de tanta prece e pedido, obra de enorme respeito e peregrinação, Senhor magno de toda a Terra, que a liberta e ordena, protege do mal e livra do pecado, salvador e padroeiro dos pobres e dos fracos. Os homens tentam-se agarrar a toda a magnificência da figura que apresenta sinais de sucumbir à fraqueza que lhe devasta o corpo e às excruciantes dores que lhe consomem a face em ribeiros de sangue, sangue esse de Cristo que durante cada comunhão missal será ingerido e celebrado, visando a ideia do supremo sacrifício e a pena que sofrera tão árdua e desumanamente, desalmadamente empurrado para o descalabro do sofrimento e da dor, calado pela opressora e ignóbil faceta característica da mórbida raça.

Sangue de Cristo corre nos vasos do cordeiro. Inofensiva e cristalina, a pequena cria caminha numa passada calma e inocente, ignorando por completo o que o destino lhe reservara. O seu coração palpita. A quente e curta lã, ainda tão suave e branca, de uma alvura imaculada e especial, encanta o olhar de quem por ele passa, ciente do sofrido e abominável fim que o espera com tanto intento e saciedade. Ainda há umas horas tinha estado a pastar na imensidão dos prados que sustentam a povoação, tão grandiosos e naturais, lentamente influenciados pela mão humana de os cultivar e desflorestar.

O gracioso cordeiro, puro de âmago, apesar da frágil e assustada imagem que apresenta, revela-se um animal nobre e corajoso, no sentido de cultivar a verdade e o bem, a graça e a formosura, o culto da pureza e da integridade, da suprema inocência e da total ausência de corrupção pelos males do mundo que tanto enegrecem a alma ao Homem, raça de pecadores condenados à imensidão do abismo e à cedência às vulgares e reles tentações impostas pelo maligno desenvolver da espécie. Porém, o casto e ilustre cordeiro, livre de todo o pecado e corrupção, apresenta uma pose sublime e encantadora, graciosa e inquieta. Caminha lentamente, saboreando as essências a sagrado e a gente que se aglomera no ar secular da igreja, impregnado de Cristo e dos seus seguidores; reparando atentamente no detalhe dos melhores fatos que os aldeões podem adquirir, homens simples e trabalhadores, afeiçoados ao campo e educados pela sapientíssima palavra do Senhor.

No final da alameda ladeada por povo em submissa oração, o cordeiro alcança o derradeiro destino – o altar de pedra branca. Em cima deste repousa um todo arsenal de objectos sacros e devotos, três grandes candelabros de cobre dourado, três cálices de prata, um paninho branco cobrindo a Bíblia, duas conchas de prata, uma sacra de altar esplendorosa e uma discreta custódia renascentista, contendo uma amostra de um osso de um mártir de tempos idos. Durante um sopro de uma inconsistente e inexplicável razão, e após ter alcançado o derradeiro local, o cordeiro pára. Mergulhado nas composições de fatalidade anunciadas pelo cessar dos cânticos apoteóticos e do burburinho da audiência, o cordeiro começa a retroceder o passo, apercebendo-se da situação em que se encontra, e que, apesar de toda a sua inocência e pureza, apela à racionalidade que tem e se observa objecto de sacrifício frente à maciça e antiga Cruz da qual pende Cristo, de cabeça subjugada ao sofrimento, expirando um último suspiro, esperando que a alma ascenda para as mãos de Deus, enquanto se inicia a infame partida que iludirá a morte que todos recolhe e reclama à terra.

Perante a atitude do cordeiro, é rapidamente apanhado e seguro, colocado com algum custo em contacto com a fria pedra do altar, a amena superfície lanosa irradiando calor para a impiedosa mas católica pedra, tão celebrada, e símbolo de unidade e comunhão. O padre apressa-se a proclamar preces dirigidas ao cordeiro, que livrará o pecado do mundo, universo que o condena à eterna morte somente na avara impressão de se tentar redimir de todo o mal de que é constituído e de todas as ciladas em que cai, orquestradas pela malvadez comum. O coro anuncia o sacrifício através de belíssimas composições vocais, arrojadas e agudas, contrastando com os graves sons que a queda da chuva produz enquanto bate no telhado na igreja e alaga os campos repletos de vida determinada.

A respiração do cordeiro torna-se arfante, o macio dorso arrefecido pela alva pedra, as pernas trémulas, o olhar vazio e indescritível: como se lhe tivessem revelado as maiores atrocidades registadas e imaginárias, ou como se lhe descrevessem o terrível e atroz sofrimento de que padeceria. A vida passa-lhe pela frente enquanto se debate contra quem o comprime contra o altar, mantendo-o praticamente imóvel e em pleno desespero. Mal tem tempo para se elucidar sobre a razão pela qual é trazido ao cadafalso, cordeiro tão inocente e puro, alvo e novo, com o pecado ausente e a razão perdida.

A adaga é elevada. Os olhos centram-se no objecto que findará a existência à frágil cria. As respirações sustêm-se por segundos e o tempo parece cessar o seu funcionamento, prendendo aquele angustiante momento nas mentes e nas almas. O coração do cordeiro bombeia o sangue de Cristo desalmadamente, absorto de toda a plateia que o contempla, mas ciente do que se desenrola. A adaga desce. Penetra a quente superfície macia do cordeiro, atravessando-lhe o coração. O doce animal morre em alguns segundos, em tamanha agonia, a respiração inconstante, num incessante movimentar das patas, num debater tremendo contra quem o prende e com um mitigado suspiro. Após um fulminante e agudo sofrimento, o cordeiro está morto. Pelo altar correm rios de sangue, ainda quente, contrastando com a alvura e polidez da pedra, inundando por descuido, as conchas de prata, os cálices, a sacra e a custódia, tingindo as páginas da Bíblia com o carmim que esta não incita e não ordena.

O sangue vai arrefecendo, alastrando-se no chão da igreja, enquanto panos e trapos da pia e crente audiência com ele se deliciam, levando a recordação do sacrifício do puro e inocente animal, oferecido à morte para redenção de pecados de outrem, sempre tão alegre e belo, com um final tremendo e sofrido. Paga pelos mercadores que enganam o povo, pelos maridos que cometem adultério, pelos desordeiros que incitam ao combate e à confusão, por todos aqueles que cedem à tentação da preguiça, pelos guerreiros que matam sem piedade, pelos falsos que de mentiras fazem realidades, pelos hereges que falsamente se apresentam como cristianíssimos, pelas mães que cobiçam a juventude dos filhos de outros, pelos pais que invejam as propriedades do nobre do feudo, pela ambição e hipocrisia da nobre família, pelos ladrões e pelos condenados.

 A missa termina, o cadáver é recolhido, e as pessoas saem da igreja. Quando o fazem, não querem acreditar no que os seus olhos observam: por segundos, a própria imagem de um Satanás inquisidor, rindo-se do acontecimento, espalhando pelos campos pequenos servos diabólicos que infestam as ovelhas e o restante gado de um vermelho possante, tingindo a clara lã de um carmim pecador e repreensível, por entre balidos de dor e pânico, numa atmosfera cálida e sufocante. Mal a visão é interiorizada, a multidão precipita-se para dentro da igreja, esbaforida em améns, preces e ditos; todos eles ofegantes, impressionados e assustados com a ascensão dos infernos à localidade, atormentados pelo erro de terem morto o inocente cordeiro, tão puro e pleno, com sangue de Cristo a correr-lhe nas veias. Nem tempo têm de se dirigir à Cruz, quando a terra treme violentamente, envolta num ensurdecedor requiem, uma autêntica missa dos mortos proclamada pelas entranhas da Terra onde já se planeia colocar o cadáver do cordeiro, derrubando as frágeis casas de habitação e armazenamento. A terra engole as árvores, as fontes e as torres. Num ápice, a igreja é submersa em destroços e cadáveres, misturando o sangue de Cristo com o sangue dos pecadores e dos inocentes que também pagam pela insolência e pela resignação com que assistiram ao sacrifício.

A tormenta finda. Da igreja e do cemitério, resta apenas um enorme aglomerado de pedras, vigas de madeira e destroços de estátuas de santos. As casas destruídas e livres de graça e solidez. Os campos com enormes fendas e declives, árvores tombadas e animais mortos. Da população nem vivalma, tendo sucumbindo por completo ao castigo imposto. Soa um incólume silêncio de purificação, calmo e vagamente natural. A chuva e o temporal cessam.

Passadas algumas horas, dois almocreves em viagem chegam à aldeia, constatando, em puro horror, uma localidade vazia e arrasada. A sua demanda por gente leva-os ao local onde antigamente se erguia a modesta e santa igreja, deparando-se com uma imagem deveras reveladora. No meio dos destroços, e envolto em pó, se observa o cadáver de um cordeiro, deitado sobre a Cruz, ocupando o local correspondente ao de Cristo, rematado por uma coroa de espinhos manchada por sangue. O mártir fora escolhido.

 

A Adoração do Cordeiro Místico (1430-1432), Jan van Eyck


Tiago Malhó Lorga Gomes

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