Nostalgia,
Saudade e Memória
Mágoa
do velho império. Inexplicável invasão de fulgor amargo. Tremendo sopro
arrebatador. Saudosas memórias de tempos que nunca mais voltarão.
Ouve-se a música, uma chorada prece,
saboreia-se o panorama do salão fechado e indiferente à passagem das modas,
conservador e antigo, repara-se no odor a mofo e a pó, alvo de respeito e
reverência. Os livros repousam nas estantes, como tombados guerreiros que
encontraram uma infinita paz, apesar de estarem sempre presentes nas preces dos
crentes e nas bocas dos crédulos. Os candelabros foscos, encortiçados,
desgastados pela cera que nunca mais voltou a aquecer, pelas velas que não
foram acesas, pelos fumos não exalados, pela luz ausente e omitida. As grandes cortinas,
senhoras magnas e régias do salão, guardam o casto e isolado ambiente,
impedindo o triunfo da claridade sob a treva, absorvendo avaramente os raios
que recordariam grandes esplendores, festas e convívios, palavras e actos de
gente findada e entregue à terra.
As fotografias contemplam a
imensidão do vazio imutável, na sua graça escurecida e primordial, captando os
corpos que não mais existem, as almas que dentro deles se encerravam, e um
momento solene e venerável. Os olhos percorrem as galerias de lembranças que se
espalham pela grande secretária, acendendo chamas e focos há muito esquecidos.
As mãos agarram uma carta amarrotada e um pequeno óculo, sentido a sua
delicadeza e o gélido abandono a que foram submetidos, suscitando memórias de
outros tempos, curiosos episódios que se julgavam perdidos no infame e
incessante vórtex que tudo suga e reclama. A carta conserva uma essência doce e
milagrosa. Por segundos, um odor paradisíaco paira no ar condensado e gasto,
invadindo a personagem de uma amálgama de radiantes sentimentos, despertos por sensacionais
sopros que arrancam a razão e o presente, mutando o sórdido e plácido salão num
estupendo espaço de excelência e brilho, agitação e vida.
O salão transforma-se. O tecto
resplandece com o enorme fresco que coroa a divisão, ornado de um azul
cristalino e puro, de pigmento raro e precioso, com arabescos dourados que
embelezam a composição que encima o chão de mármore, presentemente esbatido e
morto, que se espelha límpido e pristino. Os candelabros de ouro iluminam os
locais aos quais os possantes raios solares não alcançam, encantando e
submetendo o visitante a uma tremenda claridade. Nas paredes forradas a veludo e
seda, pendem quadros impressionantes, todos eles de grande detalhe e qualidade,
obras de hábeis artistas.
Uma enorme maré invade o salão. O
mármore é coberto pela fria e impetuosa água que submerge os tapetes persas e
os pés da grande mesa. A maresia reina, encantando com o odor salino
característico, húmido e penetrante, entranhando-se na madeira das estantes e
das cadeiras. Um turbilhão de águas devora e derruba alguns quadros, aniquila
as cartas e os documentos, desfaz livros e cetins, corrói porcelanas e serviços
de prata. Extasiada com o local, a maré não sabe por onde começar, tal o
fascínio pela variedade e pelas memórias que os objectos lhe suscitam
inocentemente, parte integrante de um passado que se debate para escapar às
malhas do esquecimento.
A maré transborda. A personagem
chora, solta incessantes lágrimas de saudade pelos tempos que não mais ousaram
voltar, impérios e reinos perdidos, paixões esquecidas e apagadas, pessoas e
feitos relembrados, a diferença e a impressão causadas pela panóplia de
instrumentos mnemónicos que se espalham aleatoriamente pelo salão, alguns que
despertam fortes emoções, outros uma ligeira indiferença.
Músicas de antigamente, carregadas
de um negativismo, de uma saudosa melancolia, um pesaroso desgosto que se
embrenha na ânsia de reviver, de retornar, de ultrapassar o impetuoso efeito
temporal que tudo separa e delimita; músicas de alma e coração feitas,
composições expressas com extrema carícia e apego pelo passado que longe vai,
cada vez mais inatingível e inalcançável, cada vez menos material e concreto;
músicas nostálgicas e tristonhas, ausentes de razão de ser; músicas sentidas e
sentimentais, puras e castas, martírio do presente que corre sem parar,
afastando-se do outrora que escorre, que se esvai em morte, em desespero, em
esquecimento.
As cartas e os livros, as
miniaturas, o tinteiro e a pena, as lunetas e o óculo, os candelabros, as
soturnas fotografias e os cadeirões, o porte nobiliárquico da mesa redonda, a
secretária forte e sólida, as almofadas de veludo e os frescos. O toque implica
um sequencial desenrolar de pensamentos, ideias e memórias encadeadas numa poderosa
mas frágil linha temporal que a qualquer momento pode ser quebrada, mergulhando
a personagem nos infindáveis e desesperantes mares do esquecimento.
Nostalgia desmensurada, capaz de
prostrar o ser contra o chão, derramando sentidas e largas lágrimas de
compaixão, pela memória do que foi e dos que antes dele surgiram, timbrada em
objectos, depósitos de tanta matéria emocional, capaz de ancorar uma saudade
para todo o sempre, relembrando consistentemente outros tempos, que nunca mais
voltarão, mesmo que por isso se faça, impossível desejo que tanto atormenta e
tortura o Homem, desejoso de reaver efémeros mas preciosos momentos que do seu
seio escaparam sorrateira e discretamente, sem alarido nem confusão, mas que,
quando ele vira a face para contemplar o que para trás deixara, se depara com
um bem imensamente maior do que aquele que ele calculara. Pena e sofre.
Ambiciona e é invadido por uma súbita vaga, um incólume desejo de redenção, de
poder retornar ao momento pretendido, podendo ser de apogeu ou de desgraça, mas
de profundo impacto e ligação para com o protagonista.
A maré desce. O salão adquire a
tonalidade normal após o apagar das luzes e o cerrar das cortinas. Um raio de
luz penetra na atmosfera que de tanta nostalgia e saudade está impregnada,
revelando o corpo da personagem inerte, deitada no chão, em repouso
contemplativo, chorando enquanto segura, na mão direita, a carta amassada que prendera
o perfume da nostalgia.
A essência conquista sem vergonha
nem piedade. Irremediavelmente absorvida, a nostálgica gota promete sofrimento
e reflexão. Ao contrário da impetuosa saudade que dilacera e desfaz, corrói e consome,
assombra e escraviza; a nostalgia aflora e liberta as suas sementes de recordação
e memória. Tempo incessante, que muta e molda. Tempo sem compaixão nem misericórdia.
Tempo que não mais voltará. Assim se tenta captar o eterno fugidio, que
desperta tanto ardor e que tanto faz crepitar as chamas que ardem no coração,
combustadas pela esperança e alimentadas pela vivacidade.
Desejo sentimental que suplanta a
fé e a condição, tentando a todo o custo regressar ao fenomenal passado,
impulsionado por lembranças de tempos afortunados e ditosos. A alma entrega-se
ao desejo e embrenha-se na memória. Nostálgica, irrealista e insana. Ignóbil
que faz de conta que ignora a verdade. Já foi vivido, passado e fugaz. É com
uma lágrima de tristeza a querer derrapar dos órgãos que espelham a alma, que
se manifesta o âmago derrotado e nostálgico. Saboreia-se vagamente a memória
que remanesce, com um saudoso e magoado ar. Derrotado por este infalível
contratempo, o Homem sorri: nostalgia imensamente poderosa, origina um
grandioso sopro – um apaixonante apego ao presente, preenchido por memórias e recordações
passadas.
Não é possível conservar, agarrar
ou parar. Sofre-se com a nostalgia de um passado grandioso e pleno, épocas que
nunca mais se repetirão da mesma forma, cada vez mais longínquas e distantes. Nostalgia,
saudade e memória. Preze-se esta trindade que celebra e consagra o passado,
moldando um presente que passado será. O futuro espera-nos. Viva-se antes que,
por sua vez, ele passe a passado.
Tempus
Fugit.
Tiago Malhó Lorga Gomes

Sem comentários:
Enviar um comentário