sábado, 6 de abril de 2013

Nostalgia, Saudade e Memória

Nostalgia, Saudade e Memória


 

Mágoa do velho império. Inexplicável invasão de fulgor amargo. Tremendo sopro arrebatador. Saudosas memórias de tempos que nunca mais voltarão.


 
Ouve-se a música, uma chorada prece, saboreia-se o panorama do salão fechado e indiferente à passagem das modas, conservador e antigo, repara-se no odor a mofo e a pó, alvo de respeito e reverência. Os livros repousam nas estantes, como tombados guerreiros que encontraram uma infinita paz, apesar de estarem sempre presentes nas preces dos crentes e nas bocas dos crédulos. Os candelabros foscos, encortiçados, desgastados pela cera que nunca mais voltou a aquecer, pelas velas que não foram acesas, pelos fumos não exalados, pela luz ausente e omitida. As grandes cortinas, senhoras magnas e régias do salão, guardam o casto e isolado ambiente, impedindo o triunfo da claridade sob a treva, absorvendo avaramente os raios que recordariam grandes esplendores, festas e convívios, palavras e actos de gente findada e entregue à terra.

As fotografias contemplam a imensidão do vazio imutável, na sua graça escurecida e primordial, captando os corpos que não mais existem, as almas que dentro deles se encerravam, e um momento solene e venerável. Os olhos percorrem as galerias de lembranças que se espalham pela grande secretária, acendendo chamas e focos há muito esquecidos. As mãos agarram uma carta amarrotada e um pequeno óculo, sentido a sua delicadeza e o gélido abandono a que foram submetidos, suscitando memórias de outros tempos, curiosos episódios que se julgavam perdidos no infame e incessante vórtex que tudo suga e reclama. A carta conserva uma essência doce e milagrosa. Por segundos, um odor paradisíaco paira no ar condensado e gasto, invadindo a personagem de uma amálgama de radiantes sentimentos, despertos por sensacionais sopros que arrancam a razão e o presente, mutando o sórdido e plácido salão num estupendo espaço de excelência e brilho, agitação e vida.

O salão transforma-se. O tecto resplandece com o enorme fresco que coroa a divisão, ornado de um azul cristalino e puro, de pigmento raro e precioso, com arabescos dourados que embelezam a composição que encima o chão de mármore, presentemente esbatido e morto, que se espelha límpido e pristino. Os candelabros de ouro iluminam os locais aos quais os possantes raios solares não alcançam, encantando e submetendo o visitante a uma tremenda claridade. Nas paredes forradas a veludo e seda, pendem quadros impressionantes, todos eles de grande detalhe e qualidade, obras de hábeis artistas.

Uma enorme maré invade o salão. O mármore é coberto pela fria e impetuosa água que submerge os tapetes persas e os pés da grande mesa. A maresia reina, encantando com o odor salino característico, húmido e penetrante, entranhando-se na madeira das estantes e das cadeiras. Um turbilhão de águas devora e derruba alguns quadros, aniquila as cartas e os documentos, desfaz livros e cetins, corrói porcelanas e serviços de prata. Extasiada com o local, a maré não sabe por onde começar, tal o fascínio pela variedade e pelas memórias que os objectos lhe suscitam inocentemente, parte integrante de um passado que se debate para escapar às malhas do esquecimento.

A maré transborda. A personagem chora, solta incessantes lágrimas de saudade pelos tempos que não mais ousaram voltar, impérios e reinos perdidos, paixões esquecidas e apagadas, pessoas e feitos relembrados, a diferença e a impressão causadas pela panóplia de instrumentos mnemónicos que se espalham aleatoriamente pelo salão, alguns que despertam fortes emoções, outros uma ligeira indiferença.

Músicas de antigamente, carregadas de um negativismo, de uma saudosa melancolia, um pesaroso desgosto que se embrenha na ânsia de reviver, de retornar, de ultrapassar o impetuoso efeito temporal que tudo separa e delimita; músicas de alma e coração feitas, composições expressas com extrema carícia e apego pelo passado que longe vai, cada vez mais inatingível e inalcançável, cada vez menos material e concreto; músicas nostálgicas e tristonhas, ausentes de razão de ser; músicas sentidas e sentimentais, puras e castas, martírio do presente que corre sem parar, afastando-se do outrora que escorre, que se esvai em morte, em desespero, em esquecimento.

As cartas e os livros, as miniaturas, o tinteiro e a pena, as lunetas e o óculo, os candelabros, as soturnas fotografias e os cadeirões, o porte nobiliárquico da mesa redonda, a secretária forte e sólida, as almofadas de veludo e os frescos. O toque implica um sequencial desenrolar de pensamentos, ideias e memórias encadeadas numa poderosa mas frágil linha temporal que a qualquer momento pode ser quebrada, mergulhando a personagem nos infindáveis e desesperantes mares do esquecimento.

Nostalgia desmensurada, capaz de prostrar o ser contra o chão, derramando sentidas e largas lágrimas de compaixão, pela memória do que foi e dos que antes dele surgiram, timbrada em objectos, depósitos de tanta matéria emocional, capaz de ancorar uma saudade para todo o sempre, relembrando consistentemente outros tempos, que nunca mais voltarão, mesmo que por isso se faça, impossível desejo que tanto atormenta e tortura o Homem, desejoso de reaver efémeros mas preciosos momentos que do seu seio escaparam sorrateira e discretamente, sem alarido nem confusão, mas que, quando ele vira a face para contemplar o que para trás deixara, se depara com um bem imensamente maior do que aquele que ele calculara. Pena e sofre. Ambiciona e é invadido por uma súbita vaga, um incólume desejo de redenção, de poder retornar ao momento pretendido, podendo ser de apogeu ou de desgraça, mas de profundo impacto e ligação para com o protagonista.

A maré desce. O salão adquire a tonalidade normal após o apagar das luzes e o cerrar das cortinas. Um raio de luz penetra na atmosfera que de tanta nostalgia e saudade está impregnada, revelando o corpo da personagem inerte, deitada no chão, em repouso contemplativo, chorando enquanto segura, na mão direita, a carta amassada que prendera o perfume da nostalgia.

A essência conquista sem vergonha nem piedade. Irremediavelmente absorvida, a nostálgica gota promete sofrimento e reflexão. Ao contrário da impetuosa saudade que dilacera e desfaz, corrói e consome, assombra e escraviza; a nostalgia aflora e liberta as suas sementes de recordação e memória. Tempo incessante, que muta e molda. Tempo sem compaixão nem misericórdia. Tempo que não mais voltará. Assim se tenta captar o eterno fugidio, que desperta tanto ardor e que tanto faz crepitar as chamas que ardem no coração, combustadas pela esperança e alimentadas pela vivacidade.

Desejo sentimental que suplanta a fé e a condição, tentando a todo o custo regressar ao fenomenal passado, impulsionado por lembranças de tempos afortunados e ditosos. A alma entrega-se ao desejo e embrenha-se na memória. Nostálgica, irrealista e insana. Ignóbil que faz de conta que ignora a verdade. Já foi vivido, passado e fugaz. É com uma lágrima de tristeza a querer derrapar dos órgãos que espelham a alma, que se manifesta o âmago derrotado e nostálgico. Saboreia-se vagamente a memória que remanesce, com um saudoso e magoado ar. Derrotado por este infalível contratempo, o Homem sorri: nostalgia imensamente poderosa, origina um grandioso sopro – um apaixonante apego ao presente, preenchido por memórias e recordações passadas.

Não é possível conservar, agarrar ou parar. Sofre-se com a nostalgia de um passado grandioso e pleno, épocas que nunca mais se repetirão da mesma forma, cada vez mais longínquas e distantes. Nostalgia, saudade e memória. Preze-se esta trindade que celebra e consagra o passado, moldando um presente que passado será. O futuro espera-nos. Viva-se antes que, por sua vez, ele passe a passado.


Tempus Fugit.

 


 

Tiago Malhó Lorga Gomes

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