segunda-feira, 8 de abril de 2013

Pedra da Loucura


Pedra da Loucura


 
 

O louco passa infindas horas a contemplar o vazio, vício que lhe consome os dias, observando o espaço difuso e extremo que o separa das paredes. Sempre na mesma pose alucinada e compenetrada, os seus olhos vítreos e imóveis, desprendidos da essência da vivaz claridade, parecem mortos, tal a absurda contemplação que se perde no vago vazio, na inexistência do concreto, na difusão do nada. A observação não passa disso, uma mera persistência em fitar o ar gasto e imutável, um acto que não apela à racionalidade nem à meditação; uma acção despojada de qualquer consequência e efeito, realizada por um motivo desconhecido, por uma motricidade que impele sem se querer justificar, solene por si só, irreverente força inexplicável que conduz à repetitiva condição: a de fitar o nada que existe no mundo, sem suscitar um mínimo poder filosófico ou reflexivo, uma das poucas acções que se define por si mesma, só ela, sem razão nem argumento. Acontece, ocorre e repete-se.

O louco, confinado na sua pequena cela a que vulgo denomina de alma, vive, ou melhor, faz por viver. Sobrevive em mundos que não o real, sendo atormentado pelas inesperadas visitas de um vulto negro que se senta ao seu lado. Não pronuncia palavra nem mostra emoção, apenas se mostra ao louco quando este menos quer e espera, amedrontado pela figura misteriosa que nem bem nem mal traz, somente uma incómoda presença. Enquanto, no seu jeito alienado e senil, se apaixona pelo vazio que nada lhe suscita, a figura enegrecida senta-se a seu lado, participando na epopeia figurada em loucura e insensatez, derrotando alucinações que ocasionalmente fazem questão em aparecer e em estragar a serena e pacata miragem do infinito entre as paredes, sob a forma de variadas criaturas mitológicas, estranhas quimeras que apelam a uma originalidade demente e macabra: são grandes lagartos alados, que cospem labaredas de terra, com restos de cadáveres humanos a fazer de escamas, enegrecidos e pardacentos, olhos gigantescos que se desdobram e que espelham um horror sem paralelo, figurando imagens apocalípticas de árvores carbonizadas das quais pendem pássaros com as asas cortadas, de naus conduzidas no reino dos céus, movidas a um vapor que consome cal e que tinge o ar de púrpura, ou de grandes marchas para a morte em planícies desertas e ardentes.

As figuras atormentam o louco, que as jura verídicas, tal o pormenor e o realismo com que o perseguem, aparecendo do nada, descrevendo círculos em volta do desesperado, gozando com ele, espicaçando-lhe a réstia de esperança e de valor, esfumando-se obliterados em globos de luz escarlate, tonalidade enferma e doentia, febril e insana. Com estas malogradas aparições, o louco exalta-se, grita, solta bramidos exasperados, revelando o abismo de demente pânico onde se aloja, soltando frases sem sentido nem ordem, em tons elevados e excessivamente expressivos, de uma credulidade mínima e desconfiada.

Dirige-se às sagradas paredes para se declarar, os seus pecados e vícios, como o de imaginar, antes de adormecer, um enorme obelisco que se ergue no centro de uma praça (sempre a mesma imutável praça), de uma cidade que não visitara, apresentando nos extremos estátuas equestres. Soa um trovão imponente, que desarma o louco que ao sono se quer entregar. Com este aviso sonoro, uma imensa corja de pequenos demónios escuros e barbudos ocupam a praça, desordeiramente, iniciando uma orgia de movimentos e de destruição. Consomem-se uns aos outros, em actos obscenos, eróticos e depravados, terminando num enorme banquete canibal, prostrados no chão da praça após os momentos de um desejo saciado, entregando-se ao menu, numa mescla de atrocidades e corpos despedaçados, sangrando a terra e o ar, elevando-se míticas nuvens do solo contaminado. O sonho prolonga-se, envolvendo duas grandes feras, estranhas e ameaçadoras, que libertam tremendos rugidos. Termina sempre da mesma forma, um grande grifo atingido por uma certeira seta envenenada, tombando das alturas, atingindo o chão, momento que faz despertar, com um grito, o pobre homem atormentado pela loucura insana, no meio de quentes suores na enferma e mística escuridão da noite.

Os dias correm, voam, não existem. Se a vida fosse toda ela um dia, seria passada no mesmo local, imóvel e constante. O louco come o almoço que lhe dão, engasgando-se com a comida que engole por reflexo e necessidade, desconfiado do que ingere, murmurando frases sem nexo nem sentido, olhando com cautela a taça de água que lhe deixaram. Caminha a custo, imundo e desgrenhado, pelos campos, onde é motivo de chacota e de risos, perdendo-se pelo vasto horizonte que lhe desenha ameaças e de onde surgem, a grande velocidade, naus que cortam os prados, lavrando-os de estranhas colunas repletas de sapos lamacentos e grandes, que regurgitam pequeníssimas ninfas que ascendem para o céu que já se está a tornar carmim novamente, onde se organiza um enxame de carruagens conduzidas por estranhos homens, pendendo montes de palha molhada. Com estas recorrentes visões, o louco que não sabe quem é, nem o que faz, cai redondo no chão, desmaia, apaga-se, demite-se da visão e da inconsciente consciência que lhe deturpa a mente e a realidade, que lhe escapa por entre as trémulas mãos, desperdiçando a oportunidade de ter vivido são e abençoado pela santa lucidez que sobriamente tenta explicar e justificar tudo o que tão coordenadamente vê.

Acorda numa sepultura. Com sete palmos de terra em cima da sua cabeça, o louco crê-se perdido numa festa excessivamente jubilante, com foliões mascarados que cantam uma toada sonante, que parece ser bastante popular por entre estas gentes. A luz apaga-se, murmura uns quantos ditos que uma freira uma vez lhe ensinara, e acorda no seu quarto, sem sepultura nem festa à vista. Ergue-se no meio da escuridão, iniciando uma leve mutilação. Com as unhas sujas e afiadas, diverte-se a arranhar os braços, avidamente pressionando-as contra a pele gasta e débil. Continua a acelerar o ritmo e alcança o pretendido – uma sensação incólume que culmina num orgasmo de sangue e dor, exalados do braço sacrificado e explorado.

Volta a adormecer. Daí a pouco já o estão a despertar, e ele, perdido da mágoa da realidade, senta-se no banco e contempla o vazio. Não quer saber do tempo que lá fora se manifesta, da morte de duas crianças no bosque ou da boda de dois habitantes. Apenas se limita a observar o mesmo vazio, numa rotina invariável, expressa da mesma forma ano após ano, envergando sempre o mesmo traje, quase diria o mesmo aspecto, mas nem o efeito esmagador do tempo poupa o miserável que sofre e pena, absolvido pelos seus pecados não serem realizados de consciência plena, livre de malícia e de manha. A face característica, alienada da condição humana e da sociedade, revela um eremita cativo da loucura. É impelido a cometer actos desnecessários e irrisórios, grotescos e caricatos, tais como andar em círculos durante alguns minutos, tombando após o degradante e desorientado acto; ou ainda de arrancar a escassa cabeleira que lhe cobre a nuca, como se tentasse proceder à prometida extracção da pedra da loucura que se aloja dentro da sua cabeça, tão intrínseca e profunda, bem enraizada no cérebro corrompido pela essência pura e descabida, insolente que ali se implanta e arruína a vida de um homem, que seria mais um entre tantos outros, com poder de pensar e de ser consciente, se vê motivo de escárnio e sofrimento. Tenta em vão retirar a pedra que tão bem se aloja e parasita a sua mente gasta e enfeitiçada pela sua errónea presença. Quando o faz, parece que despoleta um mecanismo de defesa da própria pedra da loucura, agravando ainda mais a sua condição, mirando assustadores espectros deformados, humanóides que exalam odores fortes e repugnantes, caminhantes na sombra dos mortos que lhe invadem a cabeça num tormento sem fim nem sentido, aguardando freneticamente a morte que lhe ceifará a existência embevecida e mergulhada nos vapores da sólida e concentrada loucura que tanto deturpa e muda.

O pobre miserável, por vezes encontrado em posturas habituais e repetitivas, vive num cativeiro de dor e medo. Descem sobre ele as estrelas da noite que tanto respeito e temor lhe incutem, cortam lhe as pernas os pequenos demónios dentados que se escondem nas esquinas das ruas, cegam-no a ofuscante luz das palavras ditas por dois cães escanzelados, ferem-no os bolbos das flores dos campos que tanto se assemelham com a pedra que carrega consigo, infame martírio inerte e incurável.

Louco, insano, alienado, demente. Maluco, tonto, tolo. Vários rótulos carrega o mísero que tenta saborear uma alma sem polpa nem recheio, aturdida e discriminada, despojada de sentimento e de segurança. Mergulha num desespero constante, o desconfiar das súbitas aparições demoníacas e bizarras que o consomem numa maré de alegorias monstruosas que não apresentam misericórdia nem piedade, devorando partes e estilhaços do homem que por vezes se julga inquisidor, condenado ou camponês, construindo realidades invalidadas pelos factos que friamente se fazem impor. É invadido por nostálgicas memórias de grandes explorações em densas selvas e por navegações perigosas em mares desconhecidos, timbrando essas recordações como a de uma vida que tivera, nada mais que fantasiosas alucinações irrealistas e disparatadas.

Outrora dono de uma vastíssima fortuna, coroando-se proprietário de grandes herdades e palácios, o louco debate com o vulto que se senta ao seu lado, e que nunca emite som, defendendo e recordado o seu passado áureo, pesado a ouro pela monumentalidade de títulos nobiliárquicos de fazer inveja a reis e a imperadores, excessivamente compridos e raramente duas vezes repetidos, que tiram o fôlego roubado pelo aflorar de ideias irrealistas de uma utópica mente perturbada pela pedra, tantas vezes invadida a sua sacra e religiosa privacidade por tremendas bestas que impõem um medo de morte, antes viesse essa outra figura, igualmente de negro mas mais cadavérica, findar o atroz sofrimento a que é submetido pela acção da infame matéria.

Loucura, imperatriz, fidalga e formosa, consegue apresentar uma intrínseca dualidade: a de corromper e a de iludir. Corrompe a vida, caso seja absorvida e manifestada em grande escala, proporcionando visões apocalípticas e exasperantes que provocam dores excruciantes que dilaceram a alma indefesa. Caso seja consumida em pequenas doses, pode levar a um desentendimento ou a um episódio desmedido.

Por outro lado ilude. Efeito mágico e lendário, a loucura não é concreta. Pode ser que o próprio mundo esteja mergulhado nas suas águas, e que apenas os loucos sejam conscientes e plenos, subvertendo o sistema, sem que ninguém dê por isso. Loucura inexplicável, que se camufla com inúmeros artifícios, que não se deixa desvendar, que é intrínseca e ínfima parte de cada um de nós, demente ou justificada, grandiosa ou absurda, apaixonada ou letal.

A pedra resiste, subverte e discrimina. Cria imaginários únicos e caricatos, assustadores ou graciosos; inventa passados e histórias. Entranha-se na mente, rapta-a e cega-a. Loucura disformemente insana, austero castigo desesperante, prolongando-se até ao infinito que se observa no vazio do qual brotam sementes alucinadas e desvairadas da razão de ser e de existir (se é que não esteja já corrompida pela loucura), incerta amazona que se revela e que, ao mesmo tempo, não se quer deixar apanhar nem definir, podendo mergulhar todo o mundo nos seus mares sem que ele dê conta.

Sentam o louco numa cadeira. Apresenta uma postura contida pela corda que o prende, tentando imobilizá-lo. O médico, com um funil na cabeça, prepara-se para a delicada operação, na qual apresenta alguma prática e destreza. Uma mulher não menos louca, com amuletos e um livro, assiste à cena, disferindo um olhar fixo e compenetrado. Uma flor repousa na mesa à sua frente, na qual se apoia. Um terceiro homem, com ar de sacerdote, contempla o louco, vestido do mesmo negro com que a estranha e calada figura se orna. A operação inicia-se com uma grosseira incisão na abóbada craniana. Após breves segundos, extrai-se nada mais que um bolbo que, em contacto com a atmosfera, começa a desabrochar, mostrando uma flor igual à que no cimo da mesa descansa. A incisão é suturada e o louco respira. Está livre.

Ao contemplar esta caricata cena, com um charlatão a retirar a pedra da loucura, que afinal se revelou bolbo, a um louco que foi formatado e nascido para o mundo onde a demência abunda sobre variadas formas, uma mulher com um livro na cabeça e um velho crédulo; se delicia a santa e aristocrata loucura, protagonista da maior conspiração a que o mundo alguma vez assistira, por ela corrompido e iludido. O seu manto prevalece.
 
 
          A Extracção da Pedra da Loucura, Hieronymus Bosch
 
 
 
Tiago Malhó Lorga Gomes
 
 
 

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