Pedra da
Loucura
O louco passa infindas horas a
contemplar o vazio, vício que lhe consome os dias, observando o espaço difuso e
extremo que o separa das paredes. Sempre na mesma pose alucinada e
compenetrada, os seus olhos vítreos e imóveis, desprendidos da essência da
vivaz claridade, parecem mortos, tal a absurda contemplação que se perde no
vago vazio, na inexistência do concreto, na difusão do nada. A observação não
passa disso, uma mera persistência em fitar o ar gasto e imutável, um acto que
não apela à racionalidade nem à meditação; uma acção despojada de qualquer
consequência e efeito, realizada por um motivo desconhecido, por uma
motricidade que impele sem se querer justificar, solene por si só, irreverente
força inexplicável que conduz à repetitiva condição: a de fitar o nada que
existe no mundo, sem suscitar um mínimo poder filosófico ou reflexivo, uma das
poucas acções que se define por si mesma, só ela, sem razão nem argumento.
Acontece, ocorre e repete-se.
O louco, confinado na sua pequena
cela a que vulgo denomina de alma, vive, ou melhor, faz por viver. Sobrevive em
mundos que não o real, sendo atormentado pelas inesperadas visitas de um vulto
negro que se senta ao seu lado. Não pronuncia palavra nem mostra emoção, apenas
se mostra ao louco quando este menos quer e espera, amedrontado pela figura
misteriosa que nem bem nem mal traz, somente uma incómoda presença. Enquanto,
no seu jeito alienado e senil, se apaixona pelo vazio que nada lhe suscita, a
figura enegrecida senta-se a seu lado, participando na epopeia figurada em loucura
e insensatez, derrotando alucinações que ocasionalmente fazem questão em
aparecer e em estragar a serena e pacata miragem do infinito entre as paredes,
sob a forma de variadas criaturas mitológicas, estranhas quimeras que apelam a
uma originalidade demente e macabra: são grandes lagartos alados, que cospem
labaredas de terra, com restos de cadáveres humanos a fazer de escamas,
enegrecidos e pardacentos, olhos gigantescos que se desdobram e que espelham um
horror sem paralelo, figurando imagens apocalípticas de árvores carbonizadas
das quais pendem pássaros com as asas cortadas, de naus conduzidas no reino dos
céus, movidas a um vapor que consome cal e que tinge o ar de púrpura, ou de
grandes marchas para a morte em planícies desertas e ardentes.
As figuras atormentam o louco, que as
jura verídicas, tal o pormenor e o realismo com que o perseguem, aparecendo do
nada, descrevendo círculos em volta do desesperado, gozando com ele,
espicaçando-lhe a réstia de esperança e de valor, esfumando-se obliterados em
globos de luz escarlate, tonalidade enferma e doentia, febril e insana. Com
estas malogradas aparições, o louco exalta-se, grita, solta bramidos exasperados,
revelando o abismo de demente pânico onde se aloja, soltando frases sem sentido
nem ordem, em tons elevados e excessivamente expressivos, de uma credulidade
mínima e desconfiada.
Dirige-se às sagradas paredes para
se declarar, os seus pecados e vícios, como o de imaginar, antes de adormecer,
um enorme obelisco que se ergue no centro de uma praça (sempre a mesma imutável
praça), de uma cidade que não visitara, apresentando nos extremos estátuas
equestres. Soa um trovão imponente, que desarma o louco que ao sono se quer
entregar. Com este aviso sonoro, uma imensa corja de pequenos demónios escuros
e barbudos ocupam a praça, desordeiramente, iniciando uma orgia de movimentos e
de destruição. Consomem-se uns aos outros, em actos obscenos, eróticos e
depravados, terminando num enorme banquete canibal, prostrados no chão da praça
após os momentos de um desejo saciado, entregando-se ao menu, numa mescla de
atrocidades e corpos despedaçados, sangrando a terra e o ar, elevando-se
míticas nuvens do solo contaminado. O sonho prolonga-se, envolvendo duas
grandes feras, estranhas e ameaçadoras, que libertam tremendos rugidos. Termina
sempre da mesma forma, um grande grifo atingido por uma certeira seta
envenenada, tombando das alturas, atingindo o chão, momento que faz despertar,
com um grito, o pobre homem atormentado pela loucura insana, no meio de quentes
suores na enferma e mística escuridão da noite.
Os dias correm, voam, não existem.
Se a vida fosse toda ela um dia, seria passada no mesmo local, imóvel e
constante. O louco come o almoço que lhe dão, engasgando-se com a comida que
engole por reflexo e necessidade, desconfiado do que ingere, murmurando frases
sem nexo nem sentido, olhando com cautela a taça de água que lhe deixaram.
Caminha a custo, imundo e desgrenhado, pelos campos, onde é motivo de chacota e
de risos, perdendo-se pelo vasto horizonte que lhe desenha ameaças e de onde
surgem, a grande velocidade, naus que cortam os prados, lavrando-os de
estranhas colunas repletas de sapos lamacentos e grandes, que regurgitam
pequeníssimas ninfas que ascendem para o céu que já se está a tornar carmim
novamente, onde se organiza um enxame de carruagens conduzidas por estranhos
homens, pendendo montes de palha molhada. Com estas recorrentes visões, o louco
que não sabe quem é, nem o que faz, cai redondo no chão, desmaia, apaga-se,
demite-se da visão e da inconsciente consciência que lhe deturpa a mente e a
realidade, que lhe escapa por entre as trémulas mãos, desperdiçando a
oportunidade de ter vivido são e abençoado pela santa lucidez que sobriamente
tenta explicar e justificar tudo o que tão coordenadamente vê.
Acorda numa sepultura. Com sete
palmos de terra em cima da sua cabeça, o louco crê-se perdido numa festa
excessivamente jubilante, com foliões mascarados que cantam uma toada sonante,
que parece ser bastante popular por entre estas gentes. A luz apaga-se, murmura
uns quantos ditos que uma freira uma vez lhe ensinara, e acorda no seu quarto,
sem sepultura nem festa à vista. Ergue-se no meio da escuridão, iniciando uma
leve mutilação. Com as unhas sujas e afiadas, diverte-se a arranhar os braços,
avidamente pressionando-as contra a pele gasta e débil. Continua a acelerar o
ritmo e alcança o pretendido – uma sensação incólume que culmina num orgasmo de
sangue e dor, exalados do braço sacrificado e explorado.
Volta a adormecer. Daí a pouco já o
estão a despertar, e ele, perdido da mágoa da realidade, senta-se no banco e
contempla o vazio. Não quer saber do tempo que lá fora se manifesta, da morte
de duas crianças no bosque ou da boda de dois habitantes. Apenas se limita a
observar o mesmo vazio, numa rotina invariável, expressa da mesma forma ano
após ano, envergando sempre o mesmo traje, quase diria o mesmo aspecto, mas nem
o efeito esmagador do tempo poupa o miserável que sofre e pena, absolvido pelos
seus pecados não serem realizados de consciência plena, livre de malícia e de manha.
A face característica, alienada da condição humana e da sociedade, revela um eremita
cativo da loucura. É impelido a cometer actos desnecessários e irrisórios, grotescos
e caricatos, tais como andar em círculos durante alguns minutos, tombando após
o degradante e desorientado acto; ou ainda de arrancar a escassa cabeleira que
lhe cobre a nuca, como se tentasse proceder à prometida extracção da pedra da
loucura que se aloja dentro da sua cabeça, tão intrínseca e profunda, bem
enraizada no cérebro corrompido pela essência pura e descabida, insolente que
ali se implanta e arruína a vida de um homem, que seria mais um entre tantos
outros, com poder de pensar e de ser consciente, se vê motivo de escárnio e
sofrimento. Tenta em vão retirar a pedra que tão bem se aloja e parasita a sua
mente gasta e enfeitiçada pela sua errónea presença. Quando o faz, parece que
despoleta um mecanismo de defesa da própria pedra da loucura, agravando ainda
mais a sua condição, mirando assustadores espectros deformados, humanóides que
exalam odores fortes e repugnantes, caminhantes na sombra dos mortos que lhe
invadem a cabeça num tormento sem fim nem sentido, aguardando freneticamente a
morte que lhe ceifará a existência embevecida e mergulhada nos vapores da
sólida e concentrada loucura que tanto deturpa e muda.
O pobre miserável, por vezes
encontrado em posturas habituais e repetitivas, vive num cativeiro de dor e
medo. Descem sobre ele as estrelas da noite que tanto respeito e temor lhe
incutem, cortam lhe as pernas os pequenos demónios dentados que se escondem nas
esquinas das ruas, cegam-no a ofuscante luz das palavras ditas por dois cães
escanzelados, ferem-no os bolbos das flores dos campos que tanto se assemelham
com a pedra que carrega consigo, infame martírio inerte e incurável.
Louco, insano, alienado, demente.
Maluco, tonto, tolo. Vários rótulos carrega o mísero que tenta saborear uma
alma sem polpa nem recheio, aturdida e discriminada, despojada de sentimento e
de segurança. Mergulha num desespero constante, o desconfiar das súbitas
aparições demoníacas e bizarras que o consomem numa maré de alegorias
monstruosas que não apresentam misericórdia nem piedade, devorando partes e
estilhaços do homem que por vezes se julga inquisidor, condenado ou camponês, construindo
realidades invalidadas pelos factos que friamente se fazem impor. É invadido
por nostálgicas memórias de grandes explorações em densas selvas e por
navegações perigosas em mares desconhecidos, timbrando essas recordações como a
de uma vida que tivera, nada mais que fantasiosas alucinações irrealistas e disparatadas.
Outrora dono de uma vastíssima
fortuna, coroando-se proprietário de grandes herdades e palácios, o louco
debate com o vulto que se senta ao seu lado, e que nunca emite som, defendendo
e recordado o seu passado áureo, pesado a ouro pela monumentalidade de títulos
nobiliárquicos de fazer inveja a reis e a imperadores, excessivamente compridos
e raramente duas vezes repetidos, que tiram o fôlego roubado pelo aflorar de ideias
irrealistas de uma utópica mente perturbada pela pedra, tantas vezes invadida a
sua sacra e religiosa privacidade por tremendas bestas que impõem um medo de
morte, antes viesse essa outra figura, igualmente de negro mas mais cadavérica,
findar o atroz sofrimento a que é submetido pela acção da infame matéria.
Loucura, imperatriz, fidalga e formosa,
consegue apresentar uma intrínseca dualidade: a de corromper e a de iludir.
Corrompe a vida, caso seja absorvida e manifestada em grande escala,
proporcionando visões apocalípticas e exasperantes que provocam dores excruciantes
que dilaceram a alma indefesa. Caso seja consumida em pequenas doses, pode
levar a um desentendimento ou a um episódio desmedido.
Por outro lado ilude. Efeito mágico
e lendário, a loucura não é concreta. Pode ser que o próprio mundo esteja
mergulhado nas suas águas, e que apenas os loucos sejam conscientes e plenos,
subvertendo o sistema, sem que ninguém dê por isso. Loucura inexplicável, que
se camufla com inúmeros artifícios, que não se deixa desvendar, que é
intrínseca e ínfima parte de cada um de nós, demente ou justificada, grandiosa
ou absurda, apaixonada ou letal.
A pedra resiste, subverte e
discrimina. Cria imaginários únicos e caricatos, assustadores ou graciosos;
inventa passados e histórias. Entranha-se na mente, rapta-a e cega-a. Loucura
disformemente insana, austero castigo desesperante, prolongando-se até ao infinito
que se observa no vazio do qual brotam sementes alucinadas e desvairadas da
razão de ser e de existir (se é que não esteja já corrompida pela loucura),
incerta amazona que se revela e que, ao mesmo tempo, não se quer deixar apanhar
nem definir, podendo mergulhar todo o mundo nos seus mares sem que ele dê
conta.
Sentam o louco numa cadeira.
Apresenta uma postura contida pela corda que o prende, tentando imobilizá-lo. O
médico, com um funil na cabeça, prepara-se para a delicada operação, na qual
apresenta alguma prática e destreza. Uma mulher não menos louca, com amuletos e
um livro, assiste à cena, disferindo um olhar fixo e compenetrado. Uma flor
repousa na mesa à sua frente, na qual se apoia. Um terceiro homem, com ar de
sacerdote, contempla o louco, vestido do mesmo negro com que a estranha e
calada figura se orna. A operação inicia-se com uma grosseira incisão na abóbada
craniana. Após breves segundos, extrai-se nada mais que um bolbo que, em
contacto com a atmosfera, começa a desabrochar, mostrando uma flor igual à que
no cimo da mesa descansa. A incisão é suturada e o louco respira. Está livre.
Ao contemplar esta caricata cena,
com um charlatão a retirar a pedra da loucura, que afinal se revelou bolbo, a
um louco que foi formatado e nascido para o mundo onde a demência abunda sobre
variadas formas, uma mulher com um livro na cabeça e um velho crédulo; se delicia
a santa e aristocrata loucura, protagonista da maior conspiração a que o mundo
alguma vez assistira, por ela corrompido e iludido. O seu manto prevalece.
![]() |
|
A Extracção da Pedra da Loucura,
Hieronymus Bosch
|
Tiago Malhó Lorga Gomes
_-_WGA2495.jpg)
Sem comentários:
Enviar um comentário