segunda-feira, 22 de julho de 2013

Thermidor

Thermidor


 

« la chaleur tout à la fois solaire et terrestre qui embrase l'air de juillet en août »


 

Acepção comum – décimo primeiro mês do calendário republicano francês, correspondendo ao período delimitado pelo décimo nono dia do mês de Julho e pelo décimo sétimo dia do mês de Agosto do calendário gregoriano.

 

O calor funde-se com a atmosfera. O dia raia, elevando-se, sem pressas nem pressões, o majestoso Sol, fonte de vida e de devoção. Tudo desperta: quer as maiores cidades, ainda fumegantes das candeias que alumiam a noite, quer as aldeias, esquecidas nos confins dos prados. Os animais aproveitam o plácido e ameno amanhecer para beber água dos charcos mais próximos e de se alimentarem, guardando o refastelado e preguiçoso fulgor para o tempo mais quente, por sinal mais tardio no dia.

Os camponeses acordam, incomodados pela luz natural que irradia com imensa força e com maior vigor: apela ao trabalho e à lavoura; os campos não se lavram sozinhos, o trigo não se colhe por si só, os frutos não podem ser deixados ao alcance das aves, o rebanho fica abandonado e faminto após uma noite de jejum, os trapos estão por lavar, a comida por preparar, as mondas por executar, as safras por fazer, as árvores e as culturas sedentas, todas elas clamam pelo vital líquido que, com este calor, cada vez mais escasseia e apetece. Mergulha-se no clima matinal. Um vago murmúrio solarengo e difuso paira nos ares infestados de aves que aproveitam para caçar os incómodos insectos que se multiplicam desregradamente, de uma forma absurda e exagerada.

A manhã passa a correr, por entre procissões para o campo, peregrinações até aos regatos e aos poços, numa infinda parada de pastores com os seus rebanhos, camponeses com enxadas e gadanhas, bois a puxar os arados, burros com as albardas a abarrotar de cereais, uma ocasional carroça carregada de feno e mulheres com a bilha na cabeça, levando o almoço aos homens que nesta rotina se desgastam e conformam.

A partir de certa hora, tudo se recolhe na sombra. Aí, o calor atinge o seu auge, radiante cúmulo que impera sobre a forma de um eterno e meigo abraço que impregna a atmosfera e se prende nas roupas, inundando o ar de uma moleza sublime. Gera uma sensação como poucas, a de se entranhar no ser e de lhe conferir um limite entre uma calma suprema e um desespero angustiante. Saboreia-se a sombra, refrescada pela ocasional e fugidia brisa que corta o sufocante entrelaçar de ares aquecidos pelo Sol e pelas terras, refulgindo por entre árvores e animais.

As oliveiras e os sobreiros, de possantes copas e considerável folhagem, conferem a sombra ideal, temperando o clima com o odor campestre característico ao qual está presente a indissociável sinfonia de grilos e cigarras sobre um céu descoberto, alto e de um límpido azul.

Nesse preciso momento, no pico de maior calor, governa uma impressão incólume. Os campos, cobertos de um dourado característico, são submersos por uma cálida onda de prazer que acalma e deleita. Contemplam-se os prados, todos eles trabalhados e pagos com o ácido esforço que em sangue e suor se evapora, a partir de uma resguardada sombra que permite aproveitar ao máximo esta sazonal ocasião, o passageiro Thermidor que encanta e ilumina o mundo, que aquece e refastela, que leva ao descanso e ao abraçar do meio, através dos próprios braços caloríferos que espraia, motivados pelo Sol e pelas terras, na esperança que captar aqueles que de alma e corpo se entregam à natureza.

Claro que, para esta realidade perdida nos confins dos tempos e cada vez mais rara, surge uma idílica paisagem de campesinos ao abrigo das frescas sombras que mascaram o abuso do labor extenuante. Mas os tempos passam e as vontades mudam-se. Aproveita-se o quente fulgor, folgando-se nos refúgios paradisíacos, a apreciar a paisagem. Consome-se a vida, mas somente durante escassos dias, numa existência descansada e fútil, frívola e boémia, não obstante de ser merecida.

Desta forma, o quente ar acompanha as aventuras e o lazer, causando uma deliciosa sensação, mirando, por ínfimos segundos, o paraíso na Terra. Saboreiam-se as doces iguarias que os campos produzem, de um encantador leque de cores e texturas, ricos e suculentos odores; as refrescantes bebidas com gelo, que se esvai a desafiar o potentíssimo astro solar, os folgares e as sestas, os banhos e os passeios.

Mesmo quando a noite cai, remanesce, embora em menor escala e impacto, uma réstia da grandiosa impregnação aérea, que sufoca a alma e a transporta para um corpo aquecido pela vivacidade da própria vida, se afirma como única e dominante. A noite traz consigo uma maravilhosa sintonia de cores que apelam a uma dormida ao suave e breve relento, deitado sobre a terra que liberta o calor acumulado durante o dia, através das quentes brisas de origem celestial que prometem e encantam paz e descanso, sobre uma Lua cheia de luz e de vagar.

Thermidor, dos quentes ares de origem solar e terrena, encanta um mês com deliciosas tentações, sempre envoltas no característico abraço que encurrala e sacode violentamente o mal e o medo, fazendo despertar uma vertente contemplativa e relaxada. A natureza manifesta-se durante esta altura e revela-se como engrenagem e motor essencial à existência que, muitas vezes esquecida, é inalienável ao meio. Como uma autêntica consagração, em ares perfumados e em paisagens ricas e viçosas, Thermidor ergue-se imponentemente como fundamento e ponte entre o Ser e a Criação.

Ao longe, o mar, recortado pelas dunas que se adivinham, banha calmamente a costa enobrecida por semelhantes ares, fundindo a sua quente essência com a primordial essência, de âmago salino e aquoso. Em breve cessará. Como ave migratória e como porção de estação que é, a Thermidor sucederão novos tempos, mais rigorosos e de menor abundância, com menos triunfos e vaidades, mas de semelhantes encantos e seduções.

Com a queda das primeiras folhas, Thermidor termina, deixando para trás um reinado de um inebriante calor que reconforta e ergue os ânimos, justifica e sacia desejos, aplica e aprecia novas artes e saberes, apela à mole e calma serenidade contemplativa; partindo abruptamente como um sonho inacabado, mas que deixa memórias inesquecíveis de um tempo de esplendor sem igual. Thermidor partirá, deixando saudades, como uma fonte cuja água é incapaz de saciar esta infame sede que move e destila o veneno do desejo, de tentar controlar e parar o eterno fugidio tempo que, ciclicamente, permite que esta tão afamada e adorada época retorne.
 
 
 
                                       Campo de Aveia e de Papoilas, 1890, Claude Monet
 

 

Tiago Malhó Lorga Gomes

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