Thermidor
« la chaleur tout à la
fois solaire et terrestre qui embrase l'air de juillet en août »
Acepção comum – décimo
primeiro mês do calendário republicano francês, correspondendo ao período
delimitado pelo décimo nono dia do mês de Julho e pelo décimo sétimo dia do mês
de Agosto do calendário gregoriano.
O calor funde-se com a atmosfera. O
dia raia, elevando-se, sem pressas nem pressões, o majestoso Sol, fonte de vida
e de devoção. Tudo desperta: quer as maiores cidades, ainda fumegantes das
candeias que alumiam a noite, quer as aldeias, esquecidas nos confins dos
prados. Os animais aproveitam o plácido e ameno amanhecer para beber água dos
charcos mais próximos e de se alimentarem, guardando o refastelado e preguiçoso
fulgor para o tempo mais quente, por sinal mais tardio no dia.
Os camponeses acordam, incomodados
pela luz natural que irradia com imensa força e com maior vigor: apela ao
trabalho e à lavoura; os campos não se lavram sozinhos, o trigo não se colhe
por si só, os frutos não podem ser deixados ao alcance das aves, o rebanho fica
abandonado e faminto após uma noite de jejum, os trapos estão por lavar, a
comida por preparar, as mondas por executar, as safras por fazer, as árvores e
as culturas sedentas, todas elas clamam pelo vital líquido que, com este calor,
cada vez mais escasseia e apetece. Mergulha-se no clima matinal. Um vago
murmúrio solarengo e difuso paira nos ares infestados de aves que aproveitam
para caçar os incómodos insectos que se multiplicam desregradamente, de uma
forma absurda e exagerada.
A manhã passa a correr, por entre
procissões para o campo, peregrinações até aos regatos e aos poços, numa
infinda parada de pastores com os seus rebanhos, camponeses com enxadas e
gadanhas, bois a puxar os arados, burros com as albardas a abarrotar de cereais,
uma ocasional carroça carregada de feno e mulheres com a bilha na cabeça,
levando o almoço aos homens que nesta rotina se desgastam e conformam.
A partir de certa hora, tudo se
recolhe na sombra. Aí, o calor atinge o seu auge, radiante cúmulo que impera
sobre a forma de um eterno e meigo abraço que impregna a atmosfera e se prende
nas roupas, inundando o ar de uma moleza sublime. Gera uma sensação como
poucas, a de se entranhar no ser e de lhe conferir um limite entre uma calma
suprema e um desespero angustiante. Saboreia-se a sombra, refrescada pela
ocasional e fugidia brisa que corta o sufocante entrelaçar de ares aquecidos
pelo Sol e pelas terras, refulgindo por entre árvores e animais.
As oliveiras e os sobreiros, de
possantes copas e considerável folhagem, conferem a sombra ideal, temperando o
clima com o odor campestre característico ao qual está presente a indissociável
sinfonia de grilos e cigarras sobre um céu descoberto, alto e de um límpido
azul.
Nesse preciso momento, no pico de
maior calor, governa uma impressão incólume. Os campos, cobertos de um dourado
característico, são submersos por uma cálida onda de prazer que acalma e deleita.
Contemplam-se os prados, todos eles trabalhados e pagos com o ácido esforço que
em sangue e suor se evapora, a partir de uma resguardada sombra que permite
aproveitar ao máximo esta sazonal ocasião, o passageiro Thermidor que encanta e ilumina o mundo, que aquece e refastela,
que leva ao descanso e ao abraçar do meio, através dos próprios braços caloríferos
que espraia, motivados pelo Sol e pelas terras, na esperança que captar aqueles
que de alma e corpo se entregam à natureza.
Claro que, para esta realidade
perdida nos confins dos tempos e cada vez mais rara, surge uma idílica paisagem
de campesinos ao abrigo das frescas sombras que mascaram o abuso do labor
extenuante. Mas os tempos passam e as vontades mudam-se. Aproveita-se o quente
fulgor, folgando-se nos refúgios paradisíacos, a apreciar a paisagem.
Consome-se a vida, mas somente durante escassos dias, numa existência
descansada e fútil, frívola e boémia, não obstante de ser merecida.
Desta forma, o quente ar acompanha
as aventuras e o lazer, causando uma deliciosa sensação, mirando, por ínfimos
segundos, o paraíso na Terra. Saboreiam-se as doces iguarias que os campos
produzem, de um encantador leque de cores e texturas, ricos e suculentos
odores; as refrescantes bebidas com gelo, que se esvai a desafiar o
potentíssimo astro solar, os folgares e as sestas, os banhos e os passeios.
Mesmo quando a noite cai, remanesce,
embora em menor escala e impacto, uma réstia da grandiosa impregnação aérea, que
sufoca a alma e a transporta para um corpo aquecido pela vivacidade da própria
vida, se afirma como única e dominante. A noite traz consigo uma maravilhosa
sintonia de cores que apelam a uma dormida ao suave e breve relento, deitado
sobre a terra que liberta o calor acumulado durante o dia, através das quentes
brisas de origem celestial que prometem e encantam paz e descanso, sobre uma
Lua cheia de luz e de vagar.
Thermidor, dos
quentes ares de origem solar e terrena, encanta um mês com deliciosas
tentações, sempre envoltas no característico abraço que encurrala e sacode
violentamente o mal e o medo, fazendo despertar uma vertente contemplativa e
relaxada. A natureza manifesta-se durante esta altura e revela-se como
engrenagem e motor essencial à existência que, muitas vezes esquecida, é
inalienável ao meio. Como uma autêntica consagração, em ares perfumados e em
paisagens ricas e viçosas, Thermidor
ergue-se imponentemente como fundamento e ponte entre o Ser e a Criação.
Ao longe, o mar, recortado pelas
dunas que se adivinham, banha calmamente a costa enobrecida por semelhantes
ares, fundindo a sua quente essência com a primordial essência, de âmago salino
e aquoso. Em breve cessará. Como ave migratória e como porção de estação que é,
a Thermidor sucederão novos tempos,
mais rigorosos e de menor abundância, com menos triunfos e vaidades, mas de semelhantes
encantos e seduções.
Com a queda das primeiras folhas, Thermidor termina, deixando para trás um
reinado de um inebriante calor que reconforta e ergue os ânimos, justifica e
sacia desejos, aplica e aprecia novas artes e saberes, apela à mole e calma
serenidade contemplativa; partindo abruptamente como um sonho inacabado, mas
que deixa memórias inesquecíveis de um tempo de esplendor sem igual. Thermidor partirá, deixando saudades,
como uma fonte cuja água é incapaz de saciar esta infame sede que move e
destila o veneno do desejo, de tentar controlar e parar o eterno fugidio tempo
que, ciclicamente, permite que esta tão afamada e adorada época retorne.
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Campo de Aveia e de Papoilas, 1890,
Claude Monet
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Tiago Malhó Lorga Gomes

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