quarta-feira, 10 de julho de 2013

A Fonte da Juventude

 

Cavalga Alexandre pelo Médio Oriente em busca da fonte prometida. Atravessa desertos áridos onde não cresce nem se desenvolve vivalma, confundindo o seu exército com um pequeno carreiro de formigas na areada imensidão que desgasta e atormenta, desfaz e aquece, dobrando os corpos que procuram a súbita frescura de uma rara sombra. A campanha corrompe e destrói tudo o que se oponha, de redutos a fortalezas, tratando dignamente os inimigos, fortuita virtude até mesmo entre as mais iluminadas mentes.

Percorre um infinito caminho, por entre vales e dunas, sempre na ambição de um prémio sem igual, passando, por esse motivo, longas temporadas sobre um calor extremo que dificulta e atrofia a excursão. Os homens estão desidratados, cansados, extenuados. As bestas de carga, resistentes e de fiar, apresentam alguns sinais de esgotamento, teimando em descansar nas horas de maior calor e padecendo subitamente. No entanto, Alexandre, o grande conquistador macedónio que uniu mundos, continua o seu trajecto sem que nada o pare. Nem rios caudalosos que causam bulício e esmagam aqueles que os contemplam pela primeira vez ou abruptas vertentes fazem desistir o bravo e único Alexandre, impelido pela tentação de uma promessa de salvação, a cura do mal da vida, o desafiar de quem para debaixo de terra o remete.

Guiado por mercenários e habitantes locais, o conquistador baseia-se em textos antigos e traduções dos grandes povos que há séculos perderam os registos concretos do afamado local: uma nascente cristalina cujas águas afluíam à superfície, gerando uma pequena lagoa, sem réstia de vida nem estagnação. Aparentemente rodeada por escarpas de difícil acesso, a fonte localiza-se num autêntico oásis de vegetação densa e abundante, contrastando com a aridez e impetuosidade dos ventos desérticos que dominam as planícies mortas em seu redor. De acordo com inscrições sumérias, nenhuma criatura ousa beber ou embrenhar-se no manto aquoso, curioso facto dado as águas não serem letais nem nefastas.

Mas o que realmente impele à sua descoberta por parte de Alexandre, são as propriedades milagrosas que as águas conferem. Juventude eterna. Brotam daqueles solos, em lugar incerto e resguardado, as essências da imortalidade. Não se questionam os seus minerais nem a sua pureza, mas antes se procura a todo o custo a referida fonte. Perecem milhares de soldados nas planícies desérticas e hostis, passam fome e calor, sonham com a próxima vez em que matarão a sede, rezam por uma brisa fresca e refrescante que combata o constante e envolvente bafo cálido que amolece o corpo e desmotiva a alma; tudo isto por uma suposta fonte que prolongará a vida eternamente, sem maleitas nem velhice, uma vida condigna e infindável, protagonizada por uma aparência jovial e radiante, sem as debilidades nem os efeitos do tempo, uma gloriosa inércia no período mais áureo das capacidades físicas e mentais; a perpetuação da fama e da fortuna.

Por isto se sofre e perece, mas por pouco tempo mais se prolonga a miséria e a dor. Alexandre crê que o destino está próximo, apenas a algumas milhas de distância. Expandira a campanha para as terras orientais, seguindo as pistas de cronistas e filósofos persas, por sua vez baseados em registos e lendas sumérias e mesopotâmicas, provavelmente produto de imaginação, dado não sobreviver nem um único exemplar milenar dessas civilizações esmagadas pela ironia da ambição de superar o tempo, enterradas elas próprias sobre o seu peso. Como tal nascente não poderia constar no velho continente europeu, procedeu-se a uma odisseia em terras desconhecidas, movidas pela ambição e pela ganância de obter o prémio tentador; a elevação à condição divina e imutável, mergulhando numa infusão de glória e imortalidade, como se, por toda a eternidade, o tempo cessasse a sua função individual e continuasse no colectivo, desenrolando-se uma série de eventos sucessivos sem forma de findar, tudo isto num período infinitamente longo e, no entanto, recheado de inúmeras emoções aglomeradas num feito maior e mais ousado que a própria vida.

A comitiva está esgotada, o dia vai a meio, o Sol irradia um calor excessivo e desmedido como uma tórrida fogueira que pretende incinerar as tendas e as vestes. Subitamente, é avistado um falcão e, seguindo o seu trajecto predatório perante um bando de pombas, eis que surge um oásis envolto nas ondas de calor que irradiam do solo, como uma grandiosa miragem que, à medida que a campanha se aproxima, se revela material e palpável. Surge vegetação exuberante e viçosa, conferindo um panorama diversificado e contrastante com a monotonia e letalidade do imenso deserto. Alexandre contempla o possível local cuja localização geográfica havia sido oculta das memórias dos antigos, caíndo na névoa da lenda e do misticismo associados.

Respiram-se frescos ares de ânimo e esperança. Melódicas composições pairam na atmosfera que mais assemelha a uma redoma de vida e cor circunscrita por um tremendo e malicioso deserto, confuso labirinto ultrapassado após muito sofrimento e mágoa. Os soldados aproveitam as robustas sombras para aliviar o cansaço, sombras naturais e refrescantes que conferem uma sensação semelhante a um banho num regato que escorre pelos vales abaixo, proveniente de frescos aquíferos cristalinos cujas águas brotam dos solos lentamente. Alexandre, ao contrário da sua comitiva que facilmente cede à tentação do descanso e à dor da fadiga, reúne um grupo de generais e guias e inicia uma busca exaustiva à irrealista miragem que afinal se materializa.

Rapidamente se cortam as espessas giestas e os densos arbustos, revelando o esperado panorama. Os olhos prendem-se na referida fonte, um grande charco de águas límpidas, sem qualquer tipo de ornamento humano ou natural, sem limos nem peixes, revelando uma profundidade máxima de duas braças. As margens apresentam-se limpas, sem sinal de gente nem de animais, nem mesmo vestígios das ancestrais construções que ladeavam e delimitavam a fonte quadrangular, referida nos registos sumérios como cercada por um templo, com o leito ornado a mármores e, bem no centro da nascente, um pequeno obelisco de alabastro esculpido. A natureza reclamara novamente o espaço para si, apagando os sinais de ocupação com as raízes, a copa e a folhagem das árvores que cederam à tentação de preencher as áreas circundantes, transformando a fonte num mero charco, igual a tantos outros.

Após a vaga e rápida contemplação, e com os guias árabes de joelhos perante a magnificência do charco, Alexandre decide que é tempo de experimentar a veracidade dos boatos e de testar se realmente se trata da fonte da juventude, cujas águas trarão a eterna juventude cuja teoria dança entre argumentos trocados por filósofos gregos, nunca alcançando a consensual e definitiva concórdia. Vida perpétua, sem sinal de demência nem de doença. Observar e participar na mudança dos tempos, acompanhar esse fiel e metódico amigo até à sua própria morte, que poderá não mostrar sombra de aparecer; com ele conversar, ver o panorama mutável, caras partidas e despedaçadas, esquecidas e perdidas no infindo temor das eras; juventude eterna feita de triunfo e apoteoses como um hábil e sentido poema que se conjuga de visões artísticas variadas e complexas, exageradas e dementes, verdadeiramente demente em subverter a ordem que a todos é imposta, quebrada pelo consumo e banhar nas águas que brotam do solo, mítica e cobiçada nascente.

Imediatamente se arranja um grandioso cálice a Alexandre, composto de ouro e crivado de jóias arranjadas em padrões simétricos. Um servo, com todo o cuidado e dedicação, rasga a superfície aquosa com o cálice que contém as águas dançantes daquela nascente tão pura e límpida. É elevado enquanto um sacerdote persa pronuncia uns ditos que o conquistador não compreende mas que julga parte do ritual perdido nos confins dos séculos, ideia de séculos prometidos a Alexandre, senhor da Europa e da Ásia, fundador de Alexandrias dispersas pelo vasto mundo que por ele é estabelecido e expandido, combatendo a treva do desconhecido como uma súbita rajada que estremece os alicerces do além e o transmuta para o dominado quotidiano.

Sem ninguém que prove a amostra da fonte, Alexandre ergue o cálice, resplandecendo com os raios solares que se reflectem no ouro e espalham um brilho áureo e dourado que ofusca a visão do oásis. De três tragos ingere Alexandre a água da fonte. Apenas lhe sacia a sede, sem nenhum outro efeito, nem um breve estremecer do corpo que indicie que realmente se trata da milenar lenda ou um sinal que revele a autenticidade do conteúdo do líquido cujas propriedades se dizem de perpetuar a vida até ao eterno, sem limites, numa perfeita fábula idílica de nobreza e juventude, comparável ao mecanismo do tempo que agora se aglomera com a vida humana.

O silêncio reina. A maioria divide-se entre variadas opiniões: ou as águas estão chocas, ou o charco é apenas mais um charco, ou as águas conferem realmente eternidade, ou tudo isto se trata de um tremendo embuste, pondo em causa a grandiosa campanha que se desenrola há dois anos, dois anos perdidos para encontrar um charco cuja amostra foi provada pelo grande conquistador, que nem se pronuncia sobre o seu efeito.

Com isto, Alexandre retira-se para o seu complexo de luxuosas tendas para meditar. Ao anoitecer receberá os sábios e os guias para o elucidarem e para ouvir atentamente as suas informações. O bom líder, com a exímia capacidade de escutar quem o aconselha, passa as horas de olhos cerrados, como se tentasse compreender onde houvera errado. Analisa mentalmente todos os passos, as etapas, as batalhas e os saques. Onde poderá ter errado? O oásis foi todo revistado, na frustre tentativa de encontrar ruínas de edifícios sumérios, nem um único sinal de civilização, nem uma pedra limada por mãos humanas. Ouve atentamente os sábios, que julgam, baseados na interpretação de sinais e escritos ancestrais, que a verdadeira fonte da juventude se localiza algumas milhas a oeste, num oásis semelhante, apesar de em tais registos não constar nenhum facto fidedigno.

Com o cair da noite, o grande imperador vê-se livre das suas roupas. Nu, como veio ao mundo, mundo esse cuja efemeridade pretende iludir, Alexandre mergulha nas águas da nascente. Sustém a respiração e é envolto pela harmoniosa e amena sensação de um apogeu sem igual. Sucumbe à frescura das águas, esquecendo por segundos o quente ar que impregna o oásis e o abraça numa quente e árida infusão. Submerso pelas afamadas águas que tantas ondas de discórdia geram, Alexandre presencia um inebriante sonho: uma consistente voz da razão, protagonizada por um velho sacerdote ornado de vestes carmins que lhe mostra os segredos do mundo e o trespassar do tempo, soprando eras e épocas como quem respira, numa vulgar ingratidão e inconformismo perante a vida e as benesses que ela oferece, mesmo a sua primordial e atrofiada passagem, limitada efemeridade redutível, desusada moda que a troco de soldo se protagoniza, mesmo este espectáculo circense composto de episódios que um dia terminarão, de vivências que serão apagadas pelo sopro do tempo, de ditos cujo vento com ele levou; mesmo estas inconsistências insignificantes, míseras e repugnantes; mesmo esta inexactidão que se esfuma se constitui vida.

Mas para Alexandre uma só vida não basta. Pai de mundos, implacável conquistador que agora se vê embrenhado neste insólito sonho produzido pelas águas da verdadeira fonte, ganha consciência. Se ceder à tentação de cumprir o ritual para a juventude eterna, então testemunhará as consequências que mais nenhum sobrevivente conseguiu. “Todos os que a estas águas se entregaram foram mortos pelos seus”, adverte o velho, “uns por inveja, outros por cobiça, mas todos sobre a asa da morte que na cerviz lhes assenta, trespassados pelos gládios de quem não suporta a ideia de uma vida infinita, repleta de mágoa e dor; muitas vezes entregues à morte pela própria espada, num sem fim de desespero”.

Após um minuto submerso nas águas da mítica fonte, os soldados ficam alarmados porque o imperador não regressa à superfície. A escolha fora tomada. Alexandre, recusa a tentadora oferta das águas, prémio que menos iluminados homens tomariam por certo, nelas se afogando e despertando para a eterna mas cruel perenidade. O conquistador ergue-se das águas, sendo prontamente envolto num fino lenço de seda aquecido, que lhe retira as lágrimas da fonte que ao seu corpo se agarram. Vai imediatamente para a tenda, sem pronunciar emoção nem palavra. Prometera guardar segredo, evitando assim a afluência à fonte, que culminaria numa instantânea mortandade, tingindo o charco de corpos que se haviam afogado propositadamente e acordando, segundos depois, sobre o infame e nobre manto da imortalidade, rejuvenescidos e implacáveis, ilusórios senhores do tempo.

No dia seguinte, Alexandre move o acampamento para o limite do oásis, ordenando a sua destruição. Sete dias demoraram as chamas a consumir o resguardado paraíso. De seguida secou-se a fonte, enchendo-a com entulho, apagando-a pouco a pouco até não restar vestígio. A nascente parar de emitir água, secara por completo, desvanecera-se juntamente com as areias e os ventos que ocupam o outrora verdejante e vivo panorama. Após a ruína da fonte da juventude, a comitiva parte de mãos vazias e decepcionada, julgando, até mesmo os mais sábios, que tudo se tratara de uma caçada infrutífera que se prolongará até à queda de Alexandre, uma caprichosa tara que move o mundo e impele à descoberta de novos, a ambição do inalcançável baseado em antigos rumores e lendas.

Com estes factos sorri Alexandre, segurando discretamente um pequeno pedaço de mármore que encontrara no fundo da nascente, vestígio da antiga civilização, prova de que se havia, de facto, deparado com a fonte da juventude. De costas para o oásis queimado, Alexandre parte para encontrar o seu destino na Alexandria que guarda no coração.

 

                                                                                  A Fonte da Juventude, 1546, L. Cranach
 

 
Tiago Malhó Lorga Gomes

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